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A majestosa Biblioteca do Palácio Nacional de Mafra, em Portugal

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Vista interna da biblioteca do Palácio Nacional de Mafra, em Portugal

Vista interna da biblioteca do Palácio Nacional de Mafra, em Portugal

Carol Cunha, no Roteiros Literários

“Era uma vez um Rei que fez a promessa de levantar um convento em Mafra. Era uma vez a gente que construiu esse convento. Era uma vez um soldado maneta e uma mulher que tinha poderes. Era uma vez um padre que queria voar e morreu doido. Era uma vez”, escreve José Saramago, no livro Memorial do Convento, publicado em 1982.

O romance histórico, que apesar de trazer pitadas de fantasia é baseado em fatos reais, tem como cenário o Palácio Nacional de Mafra. Saramago esteve várias vezes no lugar, construído na montanhosa vila de Mafra (a 40 quilômetros de Lisboa).

O Palácio Nacional de Mafra é considerado o mais importante monumento barroco de Portugal. Suas paredes em pedra lioz (tipo raro de calcário encontrado na região) abrigam uma basílica (miniatura da Basílica de São Pedro do Vaticano), um Paço Real e uma biblioteca que está entre as mais belas do mundo. É possível fazer uma visita guiada para descobrir melhor lugar.

Os números do palácio de 40.000m² impressionam. São mais de 800 salas e quartos, 5.000 portas, 2.500 janelas e 300 celas. A Basílica tem dois carrilhões com 92 sinos considerados os maiores do mundo e seis órgãos de tubos que produzem um som emocionante em dias de concerto de música sacra.

O edifício foi construído por D. João V, no início do século 18, quando ele fez a promessa de erguer um convento caso D. Maria Ana Josefa lhe desse um herdeiro. A princesa Maria Bárbara nasceu em 1711, e logo depois ele cumpriu a palavra.

No início, em 1717, eram apenas treze frades franciscanos vivendo por ali. Com o ouro abundante vindo da colônia brasileira, D. João não poupou despesas e decidiu criar um palácio que fosse usado como mosteiro e residência de verão da realeza. A construção faraônica empregou 52 mil trabalhadores.

Em 1808, com as invasões francesas, a família real partiu para o Brasil e levou consigo tapeçarias, quadros e móveis. O mosteiro foi abandonado em 1834, após a dissolução das ordens religiosas. Durante os últimos reinados da Dinastia de Bragança, o palácio foi utilizado como residência de caça, atividade que pode ser comprovada na Sala das Armas, onde estão expostas dezenas de troféus de caça.

A BIBLIOTECA
A biblioteca é considerada o maior tesouro do palácio. Construída pelo arquiteto português Manuel Caetano de Sousa, o local tem a planta em formato de cruz. É dividida em dois andares, tem 83 metros de comprimento e abóbodas com até 13 metros de altura.

Os livros são preservados com a ajuda inusitada de uma colônia de morcegos que vivem na biblioteca. À noite, os animais voam livremente e se alimentam de insetos nocivos que poderiam comer as folhas de papel.

O trajeto é feito por um corredor central que exibe um chão revestido com uma combinação de mármores rosa, azul e amarelo. Em dia de pouco movimento, pelo que relatam seus visitantes, é possível se escutar o som do silêncio.

A iluminação é garantida pela luz natural que entra pela claraboia das janelas. O teto branco do edifício e das colunas é considerado inacabado, pois originalmente eram previstas pinturas em cada estante que representariam autores mais ilustres.

No corredor central, um globo da 1ª metade do século 18 se destaca sob uma mesa de madeira feita para o estudo e desenho de mapas. As estantes de estilo rococó são feitas de madeira vinda do Brasil e abrigam mais de 30 mil volumes raros dos séculos 14 ao 19. À época da criação do acervo, o rei D. João V enviou emissários especiais a países estrangeiros para adquirir livros.

Globo da 1ª metade do século 18 disponível para estudos na biblioteca (Divulgação)

Globo da 1ª metade do século 18 disponível para estudos na biblioteca (Divulgação)

São milhares de livros encadernados em couro com gravações a ouro que foram feitas manualmente na antiga oficina do local. O padrão de encadernação acaba dando um efeito harmônico de cores.

No final do século 18, os padres eram os guardiões e bibliotecários responsáveis por catalogar os livros, iluminuras, pergaminhos e manuscritos. Livros religiosos e de toda sorte de assuntos como arquitetura, anatomia, mapas, matemática, literatura, filosofia, filologia, direito, medicina e música formam um verdadeiro patrimônio do conhecimento da humanidade.

A biblioteca guarda um volume da segunda edição de Os Lusíadas, de Luís de Camões, de 1520. É possível encontrar ainda incunábulos (obras impressas até 1500), a famosa Crónica de Nuremberga (1493), a primeira Enciclopédia (de Diderot et D’Alembert), um exemplar de De Humani Corporis Fabrica, considerado o primeiro tratado de anatomia humana e ainda um importante núcleo de partituras musicais especialmente escritas para o conjunto dos seis órgãos históricos da Basílica.

Partituras expostas na biblioteca

Partituras expostas na biblioteca

O acervo também chama a atenção por guardar a maior coleção mundial de livros proibidos pela Santa Inquisição. Segundo historiadores, no período entre 1540 e 1794, os tribunais de Lisboa, Porto, Coimbra e Évora decretaram a morte por fogueira de 1.175 pessoas por consultarem livros proibidos. Mas uma bula concedida pelo Papa Bento 14, em 1754, autorizou a entrada desses livros em Mafra, com acesso apenas aos frades. Esses livros estão marcados na página de rosto como ‘proibidos’, entre eles, O Auto da Barca do Inferno, de Gil Vicente.

Uma das relíquias que o visitante encontra é Mutus Liber, uma das mais importantes obras iconográficas da tradição hermética medieval. Existe ainda uma versão do Alcorão com 500 anos e uma Bíblia escrita em aramaico, hebraico grego e latim, que foi publicada em 1520, e outras edições históricas.

Muitos dos livros de Mafra foram parar na mão dos invasores franceses e outros foram enviados ao Brasil para uso da corte.

O acesso aos livros pode ser feito para pesquisa e precisa ser agendado previamente com os bibliotecários locais.

Corredor da biblioteca de Mafra

Corredor da biblioteca de Mafra

A biblioteca tem um acerco de 30.000 volumes

A biblioteca tem um acerco de 30.000 volumes

CURIOSIDADE
Na trama de Saramago, Dom João V promete a construção de um convento franciscano em troca de um herdeiro. Assim, depois do nascimento da filha, ele inicia a dolorosa construção megalomaníaca de Mafra, que o escritor conta levando em conta as dificuldades dos operários.

O padre Bartolomeu Lourenço de Gusmão (figura real da história) quer construir um engenho voador, a “passarola”, misto de barco e pássaro que é movido pelas vontades humanas. A invenção poderia desagradar aos oficiais da Santa Inquisição e ter punições como o degredo para os trópicos ou a queima na fogueira. Ainda assim, a passarola passa a ser montada em segredo, com a ajuda do apaixonado casal Baltasar e Blimunda, que acredita no sonho de voar. O rapaz chega a trabalhar nas obras de construção do convento.

A passarola, em gravura de 1709

A passarola, em gravura de 1709

Na vida real, a passarola seria a primeira aeronave no mundo a realizar um voo. Consistia em um balão a ar inventado por Bartolomeu de Gusmão, padre jesuíta e também cientista que nasceu no Brasil colônia. D. João V passou a financiar a construção do protótipo. Ele teria voado no ano de 1709, em Lisboa.

Memorial de Saramago

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Imagem Google

Publicado originalmente no Valor Econômico

Saramago em Lanzarote: “O heroico de um ser humano é não pertencer a um rebanho”, disse uma vez o escritor, que construiu uma literatura defensora de causas.

Na semana em que a chanceler alemã, Angela Merkel, foi recebida com protesto em sua visita a Portugal para saber como vai o plano de austeridade imposto pela União Europeia e o FMI ao país, e também de uma greve geral convocada pelos principais sindicatos portugueses, há ainda algum espaço para celebrações. Nesta sexta-feira, José Saramago, o único Prêmio Nobel da língua portuguesa, completaria 90 anos. Morto em junho de 2010, o escritor receberá uma série de homenagens não apenas em Portugal, mas também na Espanha, onde morou nos seus últimos anos, e no Brasil. À frente dos festejos está a Fundação José Saramago (FJS), criada em 2007 e hoje presidida por Pilar del Río, companheira do escritor por mais de 20 anos.

“Quanto mais conhecemos José Saramago, quanto mais o lemos, mais ele se incrusta em nós. Saramago morreu há mais de dois anos, mas não morreu, continua vivo e cada vez maior”, disse Pilar ao anunciar a série de atividades em homenagem ao autor de “Ensaio Sobre a Cegueira”. Uma delas é a criação do Dia do Desassossego. Saramago disse, em várias ocasiões, que escrevia para “desassossegar” seus leitores. Nesta sexta-feira, a entidade que cuida de sua obra convoca seus admiradores a sair por Lisboa munidos de livros, de preferência “O Ano da Morte de Ricardo Reis”, e a ler trechos pela cidade – ou simplesmente levá-los a passear para que os leitores identifiquem uns aos outros. É um ato inspirado no Bloomsday, dia em que amantes da literatura de James Joyce percorrem a capital da Irlanda, Dublin, lendo extratos de seu livro mais conhecido, “Ulisses”.

Leituras coletivas, encenações teatrais, exposições fotográficas e concertos serão realizados nesta sexta em Lisboa, Mafra, Azinhaga (terra natal do escritor) e no Porto para recordar o autor “Memorial do Convento”. Em São Paulo, no Teatro Eva Herz, serão exibidas cinco horas de imagens inéditas do documentário “José e Pilar” (2010), dirigido pelo realizador português Miguel Gonçalves Mendes. Em ambos os países os livros de Saramago serão vendidos com desconto neste fim de semana. A festividade também se estende ao mundo virtual. Via Twitter, amigos e admiradores do Nobel português prepararam uma “invasão” de tuítes com suas frases e pensamentos.

“Hoje em dia há demasiada tristeza em Portugal. Se a função da obra de Saramago é, por um lado, desassossegar, por outro lado é levar um sorriso a quem lê”, diz a espanhola naturalizada portuguesa Pilar del Río, de 62 anos.

As homenagens pretendem celebrar a obra de um dos maiores romancistas da língua de Camões, mas não só isso. Uma vertente talvez menos conhecida, a do Saramago “político”, vem ganhando importância nos últimos anos por causa da extrema crise e falta de esperança que atravessam a Europa. “Acho que, cada vez mais, esse lado crítico de Saramago, os textos e ensaios políticos e as colunas opinativas publicadas nos jornais ganharão relevância. Fico curioso para saber como isso será absorvido”, afirma Sérgio Machado Letria, de 36 anos, diretor da FJS.

O romancista foi uma “cabeça lúcida”, alguém muito atento às contradições do mundo e capaz de antecipar as fissuras que hoje já são impossíveis de ser escondidas, na visão do escritor e museólogo Fernando Gómez Aguilera, de 50, autor do livro “Saramago nas Suas Palavras”. “O que hoje está acontecendo no seio da União Europeia foi antecipado em artigos e intervenções públicas ainda nos anos 80, quando Portugal estava imerso no processo de integração europeia. Em seu discurso contra a Comunidade Econômica Europeia, que estava sendo construída, assinalou o poder hierárquico da Alemanha e França frente aos subordinados do Sul.”

Uma vertente talvez menos conhecida do autor, a do “político”, vem ganhando importância em razão da enorme crise por que passa a Europa

É justamente do que hoje se queixam, nas ruas, cidadãos gregos, italianos, espanhóis e portugueses. Não é raro que frases do Prêmio Nobel de 1998 sejam exibidas em cartazes, ou citadas em discursos, durante os recentes protestos no continente. De acordo com Aguilera, a existência de uma Europa dos “mercadores”, a falta de diálogo e de “vínculos políticos reais” foram alguns dos problemas sobre os quais Saramago, em um momento em que a União Europeia era só otimismo, já havia advertido. Para o crítico espanhol, o autor de “Ensaio Sobre a Lucidez” era um intelectual clássico, alguém disposto a colocar o dedo na ferida e provocar debates. “Ele foi um escritor que intervinha na realidade, que tinha suas ideias e não as guardava. Era capaz de agitar, de fazer as ideias circularem. Sempre optou por incomodar o poder, formular perguntas impertinentes, causar mal-estar, e essa é a função de um intelectual.”

Em 2003, em discurso que fez em Madri contrário à guerra no Iraque, Saramago disse que a sociedade civil tinha de ser a mosca que incomoda o poder. Ele mesmo desempenhou ao longo da vida esse papel de impertinente. “Saramago não receou descer à arena e sujar as mãos, tomando posição pública, como o fizeram os grandes intelectuais portugueses”, diz o crítico literário e escritor Miguel Real, de 59 anos. Para ele, o Nobel português era uma espécie de comunista da ordem “do coração e do sentimento”, um homem que manifestou seu desejo de aniquilação da pobreza, da desigualdade e das injustiças em cada página de seus livros. Seu comunismo “hormonal”, como ele próprio denominava, não o impediu de dirigir reiteradas críticas à esquerda.

Uma delas, também em 2003, foi feita na carta aberta em que declarava: “De agora em diante Cuba segue seu caminho, eu fico”. Era uma crítica ao regime de Fidel Castro por ter executado três dissidentes. “Cuba não ganhou nenhuma heroica batalha fuzilando esses três homens, mas, isso sim, perdeu minha confiança, estragou minha esperança e ilusão”, sentenciou o escritor, que disse certa vez: “O heroico de um ser humano é não pertencer a um rebanho”.

Antes de tudo, Saramago era alguém que defendia os direitos humanos, aponta Pilar. “Ele tinha verdadeiro pânico de pessoas de um só livro, fosse esse livro ‘O Capital’, a ‘Bíblia’, o ‘Corão’ ou qual você quiser. E era assim porque normalmente quem tem um só livro nem o lê, mas sim o usa para agredir os demais.”

Zeferino Coelho, publisher da Caminho, editora que publica Saramago em Portugal, defende que essa vertente política do escritor permeia toda a sua produção. “A obra de José Saramago, toda ela e não apenas os textos propriamente políticos, é profundamente política. Ele tinha não só uma preocupação permanente sobre tudo o que se passava no mundo como tinha uma representação desse mundo e uma vontade de agir sobre ele.” Coelho pondera que esse engajamento não fazia dos romances de Saramago algo panfletário.

Para Miguel Real, a principal característica da obra de Saramago é seu caráter ensaístico. “Ele disse isso várias vezes, que escrevia romances porque não sabia escrever ensaios. Foi autor de uma literatura de ideias, isto é, uma literatura que, iluminando os grandes temas do presente à luz de um novo horizonte e de novas interpretações, nasce tanto para interrogar e duvidar quanto para esclarecer e afirmar.” O crítico português avalia que o reconhecimento mundial e a atribuição do Nobel a Saramago se devem a três fatores: escrevia para um “leitor universal”, que poderia ser erudito ou popular; criou um novo estilo na língua portuguesa; e construiu uma literatura “empenhada”, defensora de causas e “denunciadora de situações políticas opressivas”. Ao anunciar o vencedor do Nobel de 1998, a Academia Sueca destacou: “Mediante parábolas sustentadas com imaginação, compaixão e ironia, [Saramago] nos permite continuamente captar uma realidade fugitiva”.

Exposição sobre o escritor na fundação que leva seu nome: em discurso que fez em Madri, Saramago afirmou que a sociedade civil tinha de ser a mosca que incomoda o poder.

Gómez Aguilera aponta a “força da linguagem” e a “capacidade para integrar imaginação e consciência na ficção” como as principais marcas literárias do romancista. “Merece também ser destacada a energia poética e moral de suas fabulações, seu poder de emoção e representação, e seu compromisso com a realidade em que vivia, sem trair a autonomia da literatura”, completa.

Em sua extensa obra, Saramago questionou o poder, a história, a verdade, a justiça e também a Igreja Católica. E foi em razão de seu ateísmo confesso e de sua abordagem sobre temas religiosos que o escritor acabou por ir morar na Espanha. Em 1993, depois de seu romance “O Evangelho Segundo Jesus Cristo” ser impedido de representar Portugal em um concurso literário, Saramago mudou-se para Lanzarote, nas Ilhas Canárias, Espanha. Mantinha uma casa em Lisboa, mas seu descontentamento com o episódio da censura era evidente e declarado. O escritor morreu em 18 de junho de 2010, em Lanzarote, e exatamente um ano depois suas cinzas foram depositadas em frente da Casa dos Bicos, onde funciona a fundação que administra seu legado.

Para muitos foi a reconciliação após o exílio voluntário do autor. “Não houve reconciliação porque não houve briga. Ele nunca esteve brigado com o país. Sua questão foi com algumas pessoas que estavam no poder naquela época. O próprio Saramago deixou isso claro”, pondera Sérgio Letria. “Saramago é muito adorado aqui, é uma figura imprescindível para o país”, completa o diretor da FJS.

Se é que houve alguma rusga entre Portugal e Saramago, ela ficou no passado. Hoje o Nobel português é leitura obrigatória nos colégios, e mesmo quem não é fã de sua narrativa acaba por reconhecer seu valor como pessoa. É o caso da advogada Ana Lúcia Gonçalves, de 31 anos: “Nunca gostei muito do modo como ele escrevia. Mas um dia ele foi à minha aldeia. Havia pagado do próprio bolso a restauração de um órgão de tubo antiquíssimo que havia no convento. Mesmo fraquinho, fez questão de estar no dia em que iam reinaugurar o instrumento. Então alguém perguntou o porquê daquele gesto, se ele era ateu. Ele respondeu que fazia aquilo pelo homem que havia construído o órgão, pela beleza da obra humana que deveria ser preservada. Achei maravilhoso isso e passei a admirá-lo”.

No Brasil, Saramago acumulou leitores – já vendeu mais de 1,5 milhão de livros no país – e amigos, entre eles figuras como Chico Buarque, Sebastião Salgado e Jorge Amado. A proximidade com o escritor baiano, que neste ano completaria 100 anos, foi motivo de uma exposição temporária na Fundação José Saramago. “Os brasileiros que nos visitam ficaram emocionados ao ver tantas fotos de Jorge e José”, comenta Pilar, que brinca que é o Brasil que sustenta a FJS (a maioria de seus visitantes estrangeiros é brasileira). Em uma das tantas visitas do casal ao país, ela registrou assim o deslumbramento com Salvador e a maneira como foram recebidos: “Até José, pouco dado a reuniões grandes, que em situações como estas mais parece um cão perdido, esteve à vontade, descontraído, deixando correr o tempo, sem experimentar a terrível sensação de perda irreparável que tantas vezes, em ocasiões assim, se apodera dele. (…) Custa-nos deixar a Bahia.”

No primeiro andar da Casa dos Bicos, prédio quinhentista que hoje abriga a Fundação José Saramago, no centro de Lisboa, há uma exposição permanente com documentos, fotos e vídeos que contam a vida do escritor. Há imagens raras da infância de José em Azinhaga com o avô Jerônimo, homem que no discurso de recepção do Nobel foi homenageado com as seguintes palavras: “O homem mais sábio que conheci em toda a minha vida não sabia ler nem escrever”.

Ao fim do percurso e após ver algumas preciosidades, como a primeira máquina de escrever do romancista ou a agenda na qual, equivocadamente, marcou o nome da jornalista que iria conhecer dias depois (“Pilar de los Ríos”) e seria, como mais tarde escreveu, “o seu pilar”, o visitante depara com um painel enorme de uma instantânea feita pela fotógrafa Helena Gonçalves, em 2007. Vestido de negro e com o semblante desafiador, Saramago traz atado ao corpo um cinturão, como o de um suicida, mas no lugar de bombas o que carrega são livros. Feliz representação de um escritor capaz de fazer verossímil uma cegueira branca e coletiva de todo um país ou o descolamento da Península Ibérica do restante da Europa transformando-a numa jangada de pedra. Usou as palavras como armas e morreu sendo a mosca que incomodava.

 

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