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Livro e exposição resgatam pioneiros da edição artesanal no país

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Raquel Cozer, na Folha de S.Paulo

Se hoje editoras artesanais como a carioca A Bolha e a paulista Mínimas são vedetes, com seus livros cuidadosamente trabalhados, no extenso cenário de casas independentes do país, devem isso a nomes como os dos poetas João Cabral de Melo Neto, Geir Campos e Thiago de Mello, que nos anos 50 mostraram que livros podem ser obras de arte –sem custar uma fortuna.

Numa época em que o apuro gráfico não era uma preocupação de editores, atentos apenas ao conteúdo –à exceção de pioneiros como José Olympio, no cenário não artesanal–, eles e alguns poucos colegas abriram as portas para edições em pequena escala, com atenção especial para o papel escolhido, a tipologia, a diagramação e a capa.

Um recorte desse movimento foi realizado pela produtora editorial Gisela Creni, da Companhia das Letras, como dissertação de mestrado em história na USP, nos anos 1990, e ganha agora edição caprichada em livro, com apoio da Fundação Biblioteca Nacional, pela editora Autêntica. Com a parceria, foi possível disponibilizar o livro, todo colorido, por R$ 39,90.

Imagem do livro 'Editores Artesanais Brasileiros' (Autêntica), de Gisela Greni, que deu origem a mostra na Biblioteca Mindlin

Imagem do livro ‘Editores Artesanais Brasileiros’ (Autêntica), de Gisela Greni, que deu origem a mostra na Biblioteca Mindlin (Divulgação)

“Editores Artesanais Brasileiros” investiga a produção caseira de João Cabral de Melo Neto (sob o selo O Livro Inconsútil), Manuel Segalá (Philobiblion), Geir Campos e Thiago de Mello (Hipocampo), Pedro Moacir Maia (Dinamene), Gastão de Holanda (O Gráfico Amador, Mini Graf e Fontana) e Cleber Teixeira (Noa Noa).

EXPOSIÇÃO
A obra originou exposição homônima, sob curadoria de Cristina Antunes, em cartaz na Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin, na Cidade Universitária da USP, cujo acervo foi usado para a pesquisa de Gisela Creni.

“A ideia surgiu quando trabalhei com [o poeta e editor] Augusto Massi na antologia Artes e Ofícios da Poesia [Secretaria Municipal de Cultura/Artes e Ofícios, 1991]. Comecei a entrar em contato com esses nomes e percebi que todos tinham uma característica em comum: todos se autopublicavam e trabalhavam com esmero as próprias edições”, ela conta.

Todos também se preocupavam em editar autores da mais alta qualidade, especialmente nomes que ainda não eram tão reconhecidos como hoje, como Carlos Drummond de Andrade e Cecília Meireles.

“O próprio Thiago de Mello se autopublicou, o João Cabral, e ambos vieram a ser reconhecidos como grandes escritores. Só depois alguns desses livros hoje centrais para a literatura brasileira ganharam edições comerciais”, diz Gisela.

Cada capítulo inclui um levantamento inédito da produção de cada um desses editores, além de, na maior parte do caso, vir acompanhado de depoimentos dos retratados, que contam suas visões pessoais dessa história.

‘CROWDFUNDING’
Há curiosidades como o modelo de financiamento trabalhado por editoras como a Hipocampo, que antecipou o modelo hoje conhecido como “crowdfunding”, com obras sendo produzidas a partir de um pagamento prévio dos interessados.

A autora não pôde falar com todos os editores –João Cabral, por exemplo, à época da pesquisa, informou não ter condições de dar entrevista (viria a morrer em 1999)–, mas conseguiu depoimentos emocionados como o de Thiago de Mello, que explicitou o orgulho do serviço prestado como editor, do qual não tinha a dimensão na época.

Para Gisela, esse trabalho pioneiro inferferiu não só na produção de casas artesanais hoje como na das maiores editoras do país, inclusive a própria Companhia das Letras onde ela trabalha, já que o bom acabamento passou a ser dissociado da ideia de uma edição cara demais.

“Além de terem sido responsáveis por um salto na qualidade da produção editorial no país, essa é uma história intimamente ligada à história da poesia brasileira”, ela conclui.

Imagem do livro 'Editores Artesanais Brasileiros' (Autêntica), de Gisela Greni, que deu origem a mostra na Biblioteca Mindlin (Divulgação)

Imagem do livro ‘Editores Artesanais Brasileiros’ (Autêntica), de Gisela Greni, que deu origem a mostra na Biblioteca Mindlin (Divulgação)

Imagem do livro 'Editores Artesanais Brasileiros' (Autêntica), de Gisela Greni, que deu origem a mostra na Biblioteca Mindlin (Divulgação)

Imagem do livro ‘Editores Artesanais Brasileiros’ (Autêntica), de Gisela Greni, que deu origem a mostra na Biblioteca Mindlin (Divulgação)

Imagem do livro 'Editores Artesanais Brasileiros' (Autêntica), de Gisela Greni, que deu origem a mostra na Biblioteca Mindlin (Divulgação)

Imagem do livro ‘Editores Artesanais Brasileiros’ (Autêntica), de Gisela Greni, que deu origem a mostra na Biblioteca Mindlin (Divulgação)

Imagem do livro 'Editores Artesanais Brasileiros' (Autêntica), de Gisela Greni, que deu origem a mostra na Biblioteca Mindlin (Divulgação)

Imagem do livro ‘Editores Artesanais Brasileiros’ (Autêntica), de Gisela Greni, que deu origem a mostra na Biblioteca Mindlin (Divulgação)

Imagem do livro 'Editores Artesanais Brasileiros' (Autêntica), de Gisela Greni, que deu origem a mostra na Biblioteca Mindlin (Divulgação)

Imagem do livro ‘Editores Artesanais Brasileiros’ (Autêntica), de Gisela Greni, que deu origem a mostra na Biblioteca Mindlin (Divulgação)

Imagem do livro 'Editores Artesanais Brasileiros' (Autêntica), de Gisela Greni, que deu origem a mostra na Biblioteca Mindlin (Divulgação)

Imagem do livro ‘Editores Artesanais Brasileiros’ (Autêntica), de Gisela Greni, que deu origem a mostra na Biblioteca Mindlin (Divulgação)

EDITORES ARTESANAIS BRASILEIROS
AUTORA Gisela Creni
EDITORA Autêntica
QUANTO R$ 39,90 (160 págs.)
EXPOSIÇÃO em cartaz na Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin, na Cidade Universitária da USP; de seg. a sex., das 9h30 às 18h30, e sáb., das 9h às 13h

Jovem cria programa para quem quer largar a faculdade

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Felipe Maia, na Folha de S.Paulo

O norte-americano Dale Stephens, 21, largou o colégio aos 12 anos por não querer “perder tempo com coisas monótonas”. Estudou em casa e em grupos de alunos, fez estágios, conseguiu entrar na faculdade e largou o curso após menos de um semestre.

Stephens é frequentemente convidado pela mídia americana, incluindo o jornal “New York Times” e a rede de TV CNN, para falar sobre por que a universidade é uma “perda de tempo”.

E fatura com isso: o jovem participou da primeira turma da Thiel Fellowship, uma bolsa de US$ 100 mil (R$ 226 mil) concedida por Peter Thiel, o fundador do PayPal que se tornou um megainvestidor.

O benefício é concedido a jovens que não desejam estudar na universidade e, em lugar disso, desenvolver seus sonhos empresariais.

Agora, Stephens montou um negócio em torno da sua falta de experiência acadêmica e quer estimular outros jovens a fazer o mesmo.

Fundador da UnCollege.org, Dale Stephens, 21 anos (Adriano Vizoni/Folhapress)

Fundador da UnCollege.org, Dale Stephens, 21 anos (Adriano Vizoni/Folhapress)

A organização que ele criou, a UnCollege lançou um programa que cobra US$ 13 mil (R$ 30 mil) de jovens interessados em largar a faculdade por um ano e “aprender a aprender por si mesmo”.

As atividades incluem aulas em San Francisco (EUA) sobre temas como comunicação avançada, negociação e autoavaliação. Thiel deve ser um dos professores.

“São coisas que você deveria aprender na escola, mas ninguém se interessa por ensinar”, disse o jovem à Folha.

Ele esteve no Brasil na semana passada para dar palestras na escola de negócios Perestroika.

O programa da UnCollege também inclui uma viagem a um local para o qual o participante nunca tenha ido, estágios em empresas e a confecção de um projeto.

Stephens diz que a organização recebeu cerca de 200 inscrições para o curso -grande parte dos interessados está terminando o ensino médio e quer adiar a entrada na faculdade.

Ele reconhece que pode ser difícil investir em um sistema de educação criado por alguém tão jovem e sem experiência.

“Eu concordo que pode não ser a coisa mais racional do mundo, mas eu não estou dizendo que vou ensinar algo que está no sistema [na educação formal], mas algo que está fora”, diz.

O americano diz que a ideia não é ter lucro com o programa, mas, sim, “criar um negócio sustentável”.

Sobre ter largado os estudos, o jovem reconhece ser “bem preguiçoso”. “Não quero fazer coisas nas quais não vejo sentido.”

Dinamarca receberá a primeira escola de Lego do mundo

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Colégio criado pela empresa acolherá alunos entre 3 e 7 anos
Corpo estudantil será composto por dinamarqueses e estrangeiros
Mensalidade chegará a pouco mais de R$ 1.050

Criança interage com estátuas no parque Legoland, no interior da Dinamarca Eduardo Maia / Agência O Globo

Criança interage com estátuas no parque Legoland, no interior da Dinamarca Eduardo Maia / Agência O Globo

Publicado em O Globo

RIO – O mundo dos sonhos da Lego agora terá mais uma atração, desta vez inteiramente educacional. Kjeld Kirk Kristiansen, neto do fundador da empresa, abrirá, em agosto, a primeira escola de Lego do mundo. A Escola Internacional de Billund (município da Dinamarca) será voltada para crianças entre 3 e 7 anos. Além de muitas peças e minifiguras, o espaço terá ciclovias, estúdio de música e playgrounds.

O colégio obedecerá o sistema escolar dinamarquês e terá metade do corpo estudantil formado por alunos dinamarqueses e a outra metade, por estrangeiros. O britânico Richard Matthews, físico e educador que já esteve à frente de diversas instituições de ensino, será o diretor do colégio.

A princípio, serão aceitas crianças entre 3 e 7 anos, mas se o sistema der certo, a escola será aberta para crianças e adolescentes entre 8 e 16 anos em 2015. O governo subsidiará 66% das mensalidades, e os pais pagarão o que sobrar – o que dará, por criança, US$ 517 (cerca de R$ 1.059).

Renato Lessa fala dos desafios à frente da Biblioteca Nacional

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Cientista político explica em entrevista os primeiros passos que pretende dar para resolver os sérios problemas de infra-estrutura da instituição
Ele discorda dos gastos assumidos pelo governo para a Feira de Frankfurt, mas garante que vai cumprir os compromissos

Renato Lessa posa na Biblioteca Nacional Camilla Maia / Agência O Globo

Renato Lessa posa na Biblioteca Nacional Camilla Maia / Agência O Globo

André Miranda, em O Globo

RIO – Quando foi anunciado que o cientista político Renato Lessa, de 58 anos, seria o novo presidente da Fundação Biblioteca Nacional, uma amiga mandou a ele uma mensagem de parabéns, com um recado: “Que Deus e o governo ajudem você”.

Pelos problemas que o esperam, Lessa realmente vai precisar da ajuda de todos os lados na gestão da instituição. Há um ano, desde uma inundação, sua sede no Rio está sem ar-condicionado, o que, no verão, levou a temperatura dos armazéns de livros para até 50 graus. Outro ponto a ser enfrentado por Lessa, oficialmente no cargo desde segunda-feira, são as críticas quanto aos atrasos e ao orçamento elevado na organização brasileira na Feira de Frankfurt, a maior do mundo para o mercado literário, que vai homenagear o Brasil em outubro.

Em entrevista no gabinete da presidência da Biblioteca Nacional ­­— com as janelas abertas pela falta de refrigeração —, Lessa reconheceu que há muito a ser feito. Segundo ele, serão necessários mais 120 dias para que um sistema antigo de ar-condicionado volte a funcionar na Biblioteca, e o tempo para que o sistema geral seja religado é indeterminado. Lessa também discorda dos gastos assumidos pelo governo para Frankfurt — R$ 15 milhões de investimentos diretos e a possibilidade de mais R$ 3 milhões via renúncia fiscal —, por acreditar que a homenagem deveria ser de responsabilidade do setor privado. Mas promete cumprir os compromissos.

Por fim, o novo presidente da Biblioteca Nacional discorda de Galeno Amorim, que esteve no cargo nos últimos dois anos, quanto à quantidade de municípios sem bibliotecas no Brasil: “É um número vergonhoso”.

Como foi feito o convite para o senhor assumir a presidência da Fundação Biblioteca Nacional? A ministra (Marta Suplicy, da Cultura) pediu algo específico ao senhor?

Foi em meados de março, poucas semanas antes de ela anunciar a mudança. Nós tivemos uma primeira conversa excelente, muito franca. O que me deixou muito seguro para aceitar o convite foi a possibilidade de institucionalizar políticas para a Biblioteca Nacional, sem que dependam de rompantes ou projetos pessoais, com um clima de independência. Além disso, ao mesmo tempo em que a ministra me deu autonomia e liberdade para estruturar a gestão da Biblioteca, ela manifestou também um enquadramento geral de como vê a coisa. A maior preocupação da ministra, da qual eu compartilho inteiramente, é ter uma restruturação tanto da Biblioteca Nacional quanto da política do livro. É um movimento que não incidiu apenas sobre a Biblioteca Nacional, ele inclui também a vinda do Castilho (José Castilho Marques Neto, presidente da editora Unesp) para a reorganização da política do livro e do Sistema Nacional de Bibliotecas como política pública de Estado em Brasília.

A junção de responsabilidades da Biblioteca Nacional com a política do livro era justamente uma das maiores críticas que parte do mercado fazia ao seu antecessor, Galeno Amorim.

A Biblioteca Nacional estava sobrecarregada. O excesso de atribuições torna impossível que todas recebam igual atenção. Não era um desenho adequado. Agora, a Biblioteca vai ficar desasfixiada para cuidar de suas atribuições naturais.

Em alguns de seus artigos publicados em jornais, o senhor já expressou críticas aos governos do PT. Isso em algum momento foi impeditivo para aceitar o convite?

Não foi só ao PT, também fui crítico aos governos anteriores. Mas em momento algum esse assunto apareceu na conversa com a ministra. Meus artigos não são secretos, têm a ver com meu lado de intelectual público, como observador dos hábitos políticos brasileiros. Não foram artigos que se dirigiam a este ou aquele governo. Isso é sabido, é público, estou longe de abjurar as coisas que eu escrevi. E acho que isso qualifica o convite, mostrando a ideia de independência de pensamento e de juízo.

Ainda há uma infinidade de livros físicos em circulação, mas ao mesmo tempo existe hoje um processo de digitalização em curso, de aumento da presença dos livros digitais. Em vista disso, qual o senhor considera ser o papel de uma biblioteca hoje? Esse papel está mudando?

Eu acho que o papel da biblioteca não se altera. O que as configurações novas trazem é a importância de uma biblioteca acrescentar dimensões a seu papel, que é a guarda de acervos valiosos. Fazer a guarda desses acervos incorporando tecnologias que permitam a recuperação e o restauro, mas isso tudo associado a uma perspectiva de publicização, de conquistar públicos leitores de diferentes níveis. Desde o leitor eventual até pessoas profissionalmente ligadas à pesquisa que têm na biblioteca seu local de trabalho. Acho que o futuro da biblioteca tem a ver com a capacidade de atender essa diversidade pública. Mas isso implica naturalmente um projeto agressivo de digitalização, mas não só do acervo específico de uma biblioteca, mas uma digitalização que componha redes de acervos digitalizados. Por exemplo, você pode imaginar uma grande biblioteca virtual que reúna as bibliotecas dos países lusófonos, em que os usuários possam compartilhar os acervos. Outro recorte possível é com a América do Sul. Existe um mundo para ser explorado de compartilhamentos de base da nossa Biblioteca Nacional com outras bibliotecas do mundo.

Como vai a digitalização do acervo da Biblioteca Nacional?

Ainda é muito pequeno, temos cerca de 25 mil títulos digitalizados. São 11 milhões de páginas.

De um total de quantos?

O total é complicado. Nunca houve um censo rigoroso de qual é o tamanho da Biblioteca, é uma coisa que precisamos fazer. Existe um número mágico de 9 milhões.

Mas são 9 milhões de títulos, de volumes físicos?

Por exemplo, naqueles 25 mil títulos digitalizados, a gente considera “O Globo” um título. Mas se forem exemplares, esse número já aumenta. Então não tenho como dizer um percentual do que já foi digitalizado. Mas posso dizer que é muito pouco, muito pequeno em função do volume do acervo. É uma prioridade das maiores, até porque, voltando à pergunta anterior, o papel da biblioteca depende da digitalização.

Falando sobre os problemas que a Biblioteca Nacional enfrentou nos últimos meses, o que ainda mais chama a atenção é a falta de ar-condicionado. É uma situação que se estende há um ano e que é prejudicial para usuários e funcionários, mas também é prejudicial para os livros. Ainda falta muito para isso se resolver?

É horrível para os livros. No pico do verão, me disseram que a temperatura no armazém de obras gerais bateu 50 graus. Você não pode ter um acervo valioso assim. O ideal são 23 graus, 22 graus. Mas, infelizmente, ainda está longe de chegarmos lá. Em marcha, começamos agora um processo de recuperação de um sistema antigo de ar-condicionado, e a estimativa que me deram é que a obra termine em 120 dias. Então a expectativa é que enfrentemos o verão com esse sistema antigo em funcionamento. Será um verão melhor do que o anterior, mas ainda longe do que a Biblioteca precisa. Já o sistema geral de refrigeração é de uma complexidade imensa e vai depender de um projeto de reforma. Temos dinheiro para isso e temos decisão de fazer a obra em seguida. Mas seria irresponsável eu dizer quando isso vai ficar pronto.

Qual a verba para essa reforma da refrigeração?

Existe um volume de recursos para as obras gerais da Biblioteca, que incluem as obras da sede e do anexo. O BNDES entra com pouco mais de R$ 40 milhões. Conseguimos também uma parte do PAC das cidades históricas, fizemos jus aos recursos porque somos um prédio histórico. E vamos ter ainda aplicações do orçamento da Biblioteca. Tudo isso vai dar um total de R$ 70 milhões. Vão ser usados para obras de estrutura, da refrigeração, da recuperação da claraboia, do reboco que andou caindo para a rua, da segurança, coisas assim. Enfim, são obras para levantar a infraestrutura. A administração anterior contratou a Fundação Getulio Vargas para fazer os termos de referência dessas obras, e eu vou ter uma reunião com eles na segunda-feira para saber em que pé isso está.

Mas olhando o acervo hoje, é possível que alguma obra tenha sofrido algum dano por causa do calor?

Não tenho notícias de danos ao acervo.

Outra questão muito discutida é a participação brasileira na Feira de Frankfurt, em outubro, quando o país será homenageado. Com a mudança na diretoria da Biblioteca Nacional, muda algo na organização da feira?

A participação brasileira na Feira de Frankfurt é uma política de governo que mobiliza o Ministério da Cultura e o Itamaraty. Acho importante desfazer um pouco a ideia de que a Feira de Frankfurt é a Biblioteca Nacional. Não é. A homenagem em Frankfurt significa que o governo brasileiro aceitou e entendeu que essa é uma oportunidade de promoção brasileira no exterior. O projeto é gerido por um comitê gestor, e a Biblioteca faz parte desse comitê, mas há outros integrantes, como a Funarte e o Ministério da Relações Exteriores.

Mas a Biblioteca tem um papel grande na organização.

Tem um papel grande, sim. Mas, na minha perspectiva, não é um papel compatível com as funcões próprias da Biblioteca. Como a Feira de Frankfurt tem uma dimensão econômica muito forte, algumas questões deveriam estar a cuidado dos editores do setor privado. Eu entendo que também há um interesse estratégico do Brasil, o que leva o poder público a participar, mas não me parece correto que isso seja pensado como exclusivamente fincado dentro de uma esfera estatal. Mas isso foi decidido em 2010 com comprometimentos financeiros e com o comprometimento da Biblioteca em algumas decisões, e isso será mantido. Estamos discutindo, hoje, que esse paradigma não se repita em outros eventos dessa natureza. Não cabe ao presidente da Biblioteca Nacional ser o dirigente dessa internacionalização dos livros brasileiros, e não associo o que penso sobre a Biblioteca Nacional a eventos do tipo. E ainda tenho uma reserva aos custos assumidos para a viabilização de negócios, sobretudo numa indústria que tem pujança, força e muita qualidade.

Quanto vai ser o gasto do governo em Frankfurt?

O orçamento total não vai passar de R$ 18 milhões. Desses, R$ 15 milhões vêm do orçamento do Estado brasileiro, pelo Fundo Nacional de Cultura. Já a Câmara Brasileira do Livro teve autorização para captar, via Lei Rouanet, R$ 13 milhões, dos quais nada ainda foi captado. Então, o que temos garantido hoje são R$ 15 milhões, e ainda faltam R$ 3 milhões para fechar o orçamento. Esse dinheiro virá ou de renúncia fiscal ou de patrocínio.

Houve algumas críticas sobre possíveis atrasos da preparação brasileira para Frankfurt. Alguma dessas críticas chegou ao senhor?

Com relação a prazos, nada chegou a mim. O que eu sei é que houve uma preocupação natural em relação à mudança na presidência da Biblioteca. Essas coisas são institucionais, mas envolvem relações pessoais. Então, quando há uma mudança dessas, surgem incertezas. Mas eu garanto que estamos trabalhando com a perspectiva de realizar o projeto na integridade.

Uma pergunta que é feita há anos e cuja resposta sempre foi um pouco nebulosa é sobre o número de municípios brasileiros ainda sem bibliotecas. O senhor sabe quantos faltam?

Eu não sei o número para te dizer, mas sei que é um número vergonhoso. A questão não é apenas o número de municípios sem biblioteca, mas temos que nos perguntar que bibliotecas existem e que pessoas trabalham nessas bibliotecas. Há gente que trabalha sem salários, com heroísmo. Essa é uma preocupação fortíssima da Elisa Machado, que dirige o Sistema Nacional de Bibliotecas: dar consistência a esse sistema, criando bibliotecas e fortalecendo as bibliotecas que existem.

É curioso porque, quando Galeno Amorim assumiu a presidência da Biblioteca Nacional, há pouco mais de dois anos, ele disse que faltavam “poucas dezenas” de municípios sem biblioteca no Brasil.

Eu não acho. A leitura no Brasil ainda é muito pequena, precisamos aumentar a familiaridade do brasileiro com o livro. Temos que ver isso realisticamente, como um obstáculo e desafio. Não como uma maldição que se abateu sobre a gente. A democratização do país não é só poder votar e ter liberdade para dizer o que pensa, democratização é a população ter acesso à cultura. E a biblioteca é um espaço fundamental desse processo.

Granta Portugal publicará inéditos de Fernando Pessoa

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Edição portuguesa da revista, que será lançada em maio, terá cinco sonetos desconhecidos do poeta lisboeta
Os poemas pertencem a diferentes períodos da vida do autor

Escritos entre 1910 e 1929, sonetos de Pessoa trazem alusões políticas e rimas com palavrão Mônica Torres Maia / Arquivo

Escritos entre 1910 e 1929, sonetos de Pessoa trazem alusões políticas e rimas com palavrão Mônica Torres Maia / Arquivo

Bolívar Torres, em O Globo

O primeiro nome revelado pela “Granta” portuguesa é um velho conhecido. Para sua estreia em terras lusitanas, prevista para 21 de maio, a revista literária inglesa, famosa por garimpar escritores no mundo inteiro, publicará cinco sonetos inéditos de Fernando Pessoa, os únicos que ainda permaneciam desconhecidos em sua obra. Trata-se de uma joia rara, descoberta entre os 30 mil documentos guardados na Biblioteca Nacional Portuguesa pelos pesquisadores Jerônimo Pizarro e Carlos Pitella-Leite depois de mais de uma década de investigação.

— Não podia haver melhor maneira de iniciar o projeto Granta, em Portugal, do que com este pequeno tesouro de um dos mais extraordinários poetas de todos os tempos — exulta o jornalista Carlos Vaz Marques, diretor da revista no país. — O tema deste primeiro número é o “Eu”, e Pessoa é o autor de língua portuguesa, e provavelmente da literatura universal, que mais radicalmente problematiza esta questão. Não por acaso uma das primeiras seleções poéticas de Fernando Pessoa, publicada no Rio de Janeiro no princípio dos anos 1970, tinha por título “O eu profundo e outros eus”. É uma sorte e um privilégio que Pessoa tenha escrito nesta nossa língua comum.

Os poemas pertencem a diferentes períodos da vida do autor e não constituem, por isso, um núcleo homogêneo. O mais antigo tem data provável de 1910, o mais recente foi escrito em 1929. Além dos cinco textos publicados pela “Granta”, a equipe de Pizarro e Pitella-Leite ainda descobriu sonetos inéditos escritos por Fernando Pessoa em inglês.

— Sendo Pessoa um autor genialmente multifacetado por natureza, há nestes sonetos diversas faces desse gênio poliédrico — avalia Marques. — Em um dos poemas, por exemplo, encontramos um Pessoa mais rude, capaz de rimar com um palavrão. Um poeta de escárnio e maldizer. Há também um soneto com alusões políticas, e um extraordinário poema de amor que poderá ter tido como destinatária Ofélia Queiroz, a única namorada da poeta.

Depois de ter passado pelo Brasil em 2012, a “Granta” será publicada em Portugal pela editora Tinta da China, com periodicidade semestral e tiragem ainda indefinida. Na noite de lançamento, serão conhecidos os autores contemporâneos selecionados para o primeiro número. A revista contará com um portfólio fotográfico, que, nesta primeira edição, terá assinatura do fotógrafo português Daniel Blaufuks. Outro projeto é explorar o vasto “Baú Granta”, nunca publicado no país, e que conta com textos de nomes famosos como Salman Rushdie, Martin Amis e Saul Bellow.

Além de divulgar novos talentos da língua portuguesa, as futuras publicações continuarão revelando textos inéditos de grandes escritores mortos.

— Para o segundo número, e esta é uma novidade em primeira mão, estamos trabalhando num belíssimo encontro luso-brasileiro: a correspondência literária entre os poetas Jorge de Sena e Carlos Drummond de Andrade — antecipa Marques.

Desacordo Ortográfico

O objetivo, contudo, é seguir o modelo britânico da Granta, especialista em divulgar jovens talentos. A publicação será destinada aos leitores de língua portuguesa de todos os países, informa Marques, e buscará autores em “todo o espaço lusófono”. Mas adianta que a revista não adotará o Acordo Ortográfico, evitando ater-se a “pequenas polêmicas de circunstância”.

— O Acordo Ortográfico é uma convenção política — argumenta o jornalista. — A língua é infinitamente mais do que a ortografia. Deixamos a decisão da forma ortográfica ao cuidado dos autores que publicarem conosco.

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