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Saiba como Bia Bittencourt criou – e toca sozinha! – a Feira Plana

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Saiba como Bia Bittencourt criou – e toca sozinha! – a Feira Plana, o mais importante encontro de arte impressa do país

Phydia de Athayde, no Draft

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Realizada em março deste ano, a segunda edição da Feira Plana atraiu 11 000 pessoas

Bia Bittencourt está em Nova York. Mas não a imagine em nenhum lugar diferente do MoMA PS1, o posto avançado do icônico museu, no Queens, local que abrigou até este domingo a décima edição anual da New York Art Book Fair. De graça e aberta ao público, a feira recebeu 27 000 pessoas no ano passado e este ano trouxe livros, catálogos, zines e periódicos de mais de 350 artistas, antiquaristas, instituições e publishers independentes, de 28 países.

O que Bia faz lá? Pira, respira, se inspira e renova sua paixão de vida pela arte e poesia impressas. Bia é a one-woman-entrepeneur responsável pela Feira Plana, exposição e venda de arte impressa que é um enorme sucesso em São Paulo há dois anos, realizada no MIS. A versão brasileira segue o molde da inspiradora nova-iorquina mas tem cara de Brasil, tem cara de Bia.

A New York Art Book Fair aconteceu este fim de semana no MoMA PS1, no Queens

Bia esteve na New York Art Book Fair que aconteceu este fim de semana no MoMA PS1, no Queens

Bia tem 29 anos, é filha única de pai bancário e mãe professora de inglês e português, e cresceu rodeada de livros e bonecas. A coleção Os Pensadores ficava em seu quarto e não por outro motivo suas Barbies se chamavam Diderot, Platão, Espinosa. Ela fez colegial técnico em economia, na Fundação Bradesco, e tentou cinco vezes entrar no programa Jovem Aprendiz, ligado à instituição. “Nunca consegui um emprego no banco, como os meus amigos. Eu não passava no teste psicotécnico”, diz, e se diverte ao lembrar que sempre preferiu desenhar a fazer qualquer coisa mais racional.

A atração pelo abstrato a levou à Belas Artes. Na época da faculdade, trabalhava em museus — como “oficineira”, no MAM, e como “educativo”, no Masp — e chegou a dar aula de educação artística em escola pública antes de ir para a Fiz TV, um canal colaborativo que a Abril Radiodifusão incorporou à MTV Brasil em 2009. Bia passou a produzir o “Fiz na MTV” e a ter como missão garimpar os vídeos que apareciam no programa.

“Quando você acha alguém que tem potencial, é preciso apoiar, incentivar a produção. Você não pode descobrir alguém e jogar no mundo”

Ela ainda não sabia, mas já estava depurando seu talento para encontrar, se relacionar e selecionar o trabalho produtores independentes. “Quando você acha alguém que tem potencial, é preciso apoiar, incentivar a produção. Você não pode descobrir alguém e jogar no mundo”, diz Bia. Alguns dos criadores que ela conheceu esta época também produzem em papel, caso de Raul Chequer, Daniel Furlan e Juliano Enrico, da TV Quase, e hoje expõem na Feira Plana. Bia deixou a MTV em 2013, quando o canal foi vendido e relançado pela Viacom, e tornou-se editora de vídeos da TV Folha (o braço audiovisual do jornal Folha de S.Paulo).

Bia Bittencourt

Bia Bittencourt brincando de ser Picasso

Apesar da vida profissional ir mais para o vídeo, Bia nunca deixou pesquisar artistas gráficos, nem de produzir seus “livrinhos”, como gosta de dizer. Da adolescência até meados da faculdade, fez parte da Iuoma, uma associação internacional de arte postal, e enviava e recebia criações pelo correio. “Aí nasceu meu gosto por fanzines e pela autopublicação”, conta ela, que é a criadora da produtora Ursinho Trovão (também uma de suas assinaturas artísticas para trabalhos gráficos e animações), tem parcerias com as editoras Bote e E-Stilingue (esta, de livros interativos digitais), e mantém sozinha uma espécie de loja e micro editora virtual, a Kaput Livros.

Mas o estalo transformador, o momento em que ela vislumbrou o que era a sua missão de vida, veio quando Bia visitou a New York Art Book Fair. Ela estava na cidade por sugestão do namorado, o músico e artista plástico Carlos Issa, hoje seu marido. Lá, ficou alucinada ao encontrar não centenas, mas milhares de pessoas produzindo e expondo algo que ela amava quase heroicamente. “Não imaginava que existiam tantos artistas e anônimos fazendo coisas reprodutíveis em tão alto nível”, conta.

Aqui no Brasil, existia a Tijuana, que também é uma feira de arte impressa, concebida dentro da Galeria Vermelha e da qual Bia já tinha participado como artista. “Mas acho que faltava algo que fosse gratuito, feito em um espaço público e aberto a receber projetos de qualquer um”, diz ela. “Tenho um gosto muito específico e queria poder fazer a curadoria. Queria materiais de design e com refino gráfico, mas que fossem acessíveis. Que o artista pudesse vender barato e para qualquer um.”

A ideia estava na cabeça e, embora conhecesse muita gente que gostaria de convidar para a sua Feira Plana, Bia tinha zero aptidão de administradora. “Uma amiga tinha acabado de fazer um projeto no MIS, me indicou, e a curadoria do museu gostou da ideia. Eu tinha o espaço e deste ponto até a primeira edição da Feira, foi um caos”, conta. Artistas reconhecidos no meio, como Fabio Zimbres e Jaca, iam confirmando, e nos bastidores a bagunça imperava.

Quando Bia viu que precisaria de algum dinheiro para que os convidados tivessem onde efetivamente expor, recorreu ao MIS, que forneceu os 2 mil reais usados na compra de cavaletes e folhas de papelão improvisadas como mesinhas. A primeira edição da Feira Plana aconteceu em março de 2013 e levou milhares de pessoas ao museu. Um público ávido para consumir aquela arte impressa meio alternativa, com jeito de algo exclusivo, escolhido com a dedo para estar ali. Era isso mesmo.

Feira Plana

Na primeira edição da Feira Plana, as mesinhas eram feitas de cavaletes e folhas de papelão

A segunda edição da Feira ocupou o mesmo espaço no MIS, em março deste ano, e segundo Bia reuniu 11 000 pessoas. Uma novidade foi o patrocínio da Adidas, e a organizadora diz que a marca não fez exigências quanto ao destino dos 15 mil reais oferecidos. “Eles foram super legais. Pude comprar mesinhas de verdade, convidar alguns gringos e imprimir o livrinho da Feira em risográfico”, conta, exultante. “Risográfico é como um silk, uma impressão que só uma gráfica em São Paulo faz em pequena escala. É muito mais legal.”

Mas o sucesso da Feira Plana, até o momento, é algo literalmente imensurável. “Os expositores não pagam para se inscrever, nem me repassam nada. Não tenho ideia do quanto circulou nas duas edições. A única base é a minha mesa, que vendeu de 2 a 5 mil reais”, diz Bia.

“Existe demanda para ter mais edições, mas eu não conseguiria, pois levo de seis a sete meses para organizar cada uma, e acho bom que existam outras feiras assim na cidade”

Ela tem um jeito específico de lidar com fazer o que acredita. Pelo menos por enquanto, opta por manter um emprego que a permita se realizar fora dali. “Prefiro que não seja uma relação direta, que eu tenha o meu trabalho da firma, e que eu tenha coisas por fora, para não embaralhar”, diz. Se ainda faltam condições de tornar a Feira um empreendimento financeiramente sustentável, isso não pesa tanto porque o evento é anual. “Até existe demanda para ter mais edições, mas eu não conseguiria, pois levo de seis a sete meses para organizar cada uma, e acho bom que existam outras na cidade.”

Feira Plan

A Feira Plana lota os jardins do MIS, durante um final de semana, há dois anos

Ela já concebeu novidades para a próxima Feira que, desta vez, será dedicada à fotografia. Além de livros e fotozines, terá a presença de convidados especiais já confirmados, como o fotógrafo Ari Marcopoulos (que foi assistente de Andy Warhol), Erik van der Weijde, Pedro Alfacinha e a editora Renata Catambas. O número de expositores será um pouco menor, cerca de 100 contra 150 da última edição, para facilitar as interações com o público. Apesar de um recente abaixo assinado de moradores do entorno do MIS pedindo o fim dos eventos no local, o museu garantiu à Bia que não há risco de cancelamento.

A realizadora segue à mil. Ano que vem será a primeira vez que Bia chama um coletivo de designers para criar a identidade visual do evento, missão entregue à República, formada por Adriana Komura, Caco Neves e Bruno Oliveira. Bia fez surgir aparentemente do nada a maior e mais importante feira de arte impressa do país, e às vezes subestima seu próprio poder transformador. “Não tenho a menor ideia de como os negócios funcionam. O que faço não dá dinheiro, mas tem coisas que a gente faz porque quer ver funcionando, sabe?”

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Lena Bergstein aproxima pintura e palavra

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Artista carioca volta ao MAM depois de 20 anos para mostrar 15 obras inéditas, entre telas e ‘livros-pinturas’ em que frases de amor são aplicadas sobre a tinta azul

Artista conta que leu texto de Walter Benjamin sobre “um horizonte azul que nunca desaparece” e decidiu adotar tal cor para suas novas criações Monica Imbuzeiro

Artista conta que leu texto de Walter Benjamin sobre “um horizonte azul que nunca desaparece” e decidiu adotar tal cor para suas novas criações Monica Imbuzeiro

Audrey Furlaneto, em O Globo

Lena Bergstein, 67 anos, acumula pilhas de cadernos de notas. Ao longo da vida, registrou trechos de textos que leu, escreveu suas próprias histórias, anotou, desenhou e, muitas vezes, pintou aquilo que viu. Ao hábito de tomar notas e criar cadernetas, soma-se o gosto pela palavra, como forma gráfica, e pelo livro, como objeto.

Dos caderninhos, do apreço pela escrita e pela pintura, nasceram as 15 obras inéditas que ela expõe agora no MAM do Rio. A artista carioca, que fez sua última individual no museu há 20 anos, abre hoje, às 16h, a mostra que leva seu nome e reforça a marca de sua produção: a relação entre texto e imagem, escrita e pintura.

Lena expõe no térreo do museu. Passada a recepção, o visitante já entrevê as grandes telas azuis que a artista criou desde 2010 especialmente para a mostra. Além das oito pinturas (em telas sem chassi, presas, nos cantos, por delicados preguinhos), há sete “livros-pinturas”, dispostos sob suportes na altura do quadril do espectador. Isso porque ele pode folhear cada um dos livros, cujas páginas são feitas de telas, quase sempre azuis e com palavras e frases em outras cores, por cima da massa azulada.

A técnica de Lena lembra a que se faz com papel carbono: ela aplica um pedaço de jornal na tela já pintada e, sobre o papel, escreve o que deseja. Em seguida, retira o papel. Trata-se de um processo de transferência, como ela define. O que resta é a tela com a palavra.

— Essa forma de trabalhar, com transferência para a tela, é também herança do meu passado gráfico — explica a artista que, nos anos 1970, estudou gravura no MAM e, diz, decidiu então seguir carreira profissional como artista plástica.

De lá para cá, fez várias mostras no exterior, como em 1986, na Galeria Segno Gráfico, em Veneza, ou em 1998 na Galeria Debret e no Salão do Livro, em Paris. Participou da Europalia em 2011, quando o festival na Bélgica foi dedicado ao Brasil.

Nas telas que criou para o MAM, há frases como “Quando dizemos eu te amo, dizemos tudo”, extraídas do livro “O amor — como é e como se faz”, do filósofo Jean-Luc Nancy.

— Queria que fosse uma exposição também sobre o amor — diz ela. — Achei esse pequeno livro do Nancy, e tinha visto um texto de Benjamin, em que ele falava de um horizonte azul que nunca desaparece. Comecei a mergulhar nesse universo azul e trabalhei como se ele fosse um universo amoroso.

A arte de fazer livro

Abertos, os “livros-pinturas” chegam a um metro de largura. As páginas ficam pesadas pela tinta carregada de pigmentos (ela gosta da ideia de muita matéria sobre a página), e o ato de folhear é um ritual lento.

— Fazer livro é algo que convive comigo há muito tempo — diz ela, que ilustrou e organizou “Enlouquecer o subjétil” (Ateliê Editorial), com texto de Jacques Derrida (1930-2004). O título ganhou o Jabuti de Produção Editorial em 1998. — Para quem gosta de escrever, era um caminho natural escrever na tela. É o lugar para relacionar a pintura e a palavra.

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