As amigas Fernanda Antunes, 26, e Elaine Lucas, 28, utilizam livros de colorir que compraram

As amigas Fernanda Antunes, 26, e Elaine Lucas, 28, utilizam livros de colorir que compraram. Fabio Braga/Folhapress

Gabriela Malta e Gabriela Alves, na Folha de S.Paulo

Há pouco mais de uma semana, capturadas pelo tédio, a biomédica Fernanda Antunes, 26, e a psicóloga Elaine Lucas, 28, resolveram ir à livraria. Saíram de lá com um livro que não continha muitas palavras, mas muitas imagens para colorir.

Desde então, elas estabeleceram uma competição para ver quem conseguia terminar de colorir primeiro. Por enquanto, Elaine está na frente.

Esses livros para adultos colorirem encontraram um espaço inusitado nas prateleiras das livrarias e viraram moda entre pessoas de diversas idades, que publicam as suas “obras” em redes sociais como o Instagram.

“Eu comprei o livro porque gostava de pintar quando era pequena, e fazer coisas que lembram a infância trazem uma sensação de leveza”, conta Fernanda, que agora diz ter o que fazer “em um domingo entediante”.
Além disso, diz ela, ter o livro era um ótimo pretexto para comprar uma caixa com muitos lápis de cor.

O mecanismo “antiestresse”, segundo a psicóloga Maria Olímpia Saikali, não tem nada a ver com a regressão à infância, porém. Ela explica que o processo de se envolver em alguma atividade prazerosa leva à produção de endorfinas e, consequentemente, à redução do estresse.

Para Elisa Kozasa, pesquisadora do Instituto do Cérebro do Hospital Israelita Albert Einstein, uma pessoa ocupada em terminar a pintura do livro não se concentra nas preocupações incômodas do dia a dia.
“Você está no controle daquela atividade que está fazendo, escolhe as cores que são agradáveis para você, e seu cérebro fica focado nisso”, afirma ela.

Elaine está de acordo. “É gostoso ver o desenho em branco e ir preenchendo. É bom fazer uma atividade sem a pressão que todas as responsabilidades do dia a dia exigem”. Além disso, ela diz sentir especial prazer ao terminar a pintura e contemplar a sensação de missão cumprida.

O livro que Elaine e Fernanda colorem é baseado na fauna e flora da Escócia e se chama “Jardim Secreto”. Criado pela ilustradora daquele país Johanna Basford e publicado no Brasil pela Sextante, a obra, de 96 páginas, já vendeu mais de 1,5 milhão de cópias no mundo e de 100 mil por aqui.

No mesmo nicho, outros livros para colorir trazem de mandalas (“Mandalas Mágicas”, da Vergara & Riba), mitologia (“Fantasia Celta”, da editora Alaúde) e, bom, até sexo em grupo (“Suruba para Colorir”, da Bebel Books). A maioria dos livros custa por volta de R$ 30.

Os desenhos já vêm impressos nas páginas e cabe à pessoa preenchê-los com as cores que desejar.

“É um lazer diferente do que fazer um curso de desenho e pintura, porque aprender a desenhar é mais difícil. Demora um tempo para que a pessoa tenha traços firmes e coerentes. No livro, o desenho já vem pronto e a pessoa se dedica a colori-lo. Mesmo alguém que não tenha tantas habilidade artísticas consegue se surpreender com a qualidade do trabalho que executou”, diz Kozasa.

Além disso, trata-se de uma fonte de lazer que não envolve computadores ou celulares. É um prazer mais lento: “A pessoa se dá um tempo maior do que dois minutos para fazer alguma coisa”.

Mas a surpresa pode não ser positiva para todos. Dependendo da personalidade da pessoa, dizem os especialistas, se ela enxerga o livro mais como desafio do que como lazer, pode haver mais frustração do que relaxamento.

Outra angústia pode ser começar a se sentir pressionado pela beleza das pinturas das outras pessoas –especialmente quando elas ficam se exibindo na internet.