Contando e Cantando (Volume 2)

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Como (e por que) ler Manoel de Barros, o poeta das miudezas

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O autor publicou seu primeiro livroem 1937, 'Poemas concebidos sem pecado'

O autor publicou seu primeiro livroem 1937, ‘Poemas concebidos sem pecado’

 

A pedido do ‘Nexo’, dois conhecedores da obra do mato-grossense aconselham por onde começar a lê-lo e destacam um poema preferido

Juliana Domingos Lima, no Nexo

O poeta mato-grossense Manoel de Barros morreu em 2014 e faria 100 anos em 19 de dezembro de 2016. Sua obra conta com 18 livros de poesia publicados, textos infantis e relatos autobiográficos. É marcada pela inventividade na linguagem, característica que já o fez ser comparado a Guimarães Rosa (autor contemporâneo a ele), pela proximidade com a natureza e com aquilo que é prosaico.

“Poderoso para mim não é aquele que descobre ouro.
Para mim poderoso é aquele que descobre as insignificâncias (do mundo e as nossas).
Por essa pequena sentença me elogiaram de imbecil.
Fiquei emocionado.
Sou fraco para elogios”

Manoel de Barros

No poema “Tratado geral das grandezas do ínfimo”

“A grande marca da poesia de Manoel de Barros é seu interesse de poeta pelas pequenas coisas. Pelas miudezas, dejetos, lixos, sobras – tudo aquilo que, no mundo dominado pelo consumo de hoje, nós costumamos desprezar”, afirmou o escritor e crítico literário José Castello em entrevista ao Nexo. “A poesia de Manoel nos mostra o valor do pequeno – numa época em que todos querem ser grandes e poderosos e vencedores”, completa.

Castello também ressalta a relação da obra do poeta com a transfiguração. Para ele, essa qualidade transforma o olhar do leitor frente à realidade.

Um mecanismo usado pelo poeta que propõe um novo olhar para o mundo é dar voz às coisas: “É o que acontece no poeminha sobre os caracóis: ‘Ah, como serão ardentes nos caracóis os desejos de voar!’ Essa é uma perspectiva que vem do caracol. Quem vai imaginar que o caracol quer voar? Manoel imagina pontos de vista que não são humanos. Isso significa se tornar ‘coisal’, quando o homem se funde com a natureza”, diz Adalberto Müller Jr., professor de Teoria da Literatura da UFF (Universidade Federal Fluminense), em uma entrevista para a revista “Ciência e Cultura”.

“Difícil fotografar o silêncio.
Entretanto tentei. Eu conto:
Madrugada, a minha aldeia estava morta.
Não se via ou ouvia um barulho, ninguém passava entre as casas.
Eu estava saindo de uma festa,
Eram quase quatro da manhã.
Ia o silêncio pela rua carregando um bêbado.
Preparei minha máquina.
O silêncio era um carregador?
Estava carregando o bêbado.
Fotografei esse carregador.”

Manoel de Barros

No poema “Difícil carregar o silêncio”

Bacharel em Direito e nome da geração de 45

Barros se formou bacharel em Direito no Rio de Janeiro em 1941. Depois, viveu entre a capital carioca e o Pantanal, seu habitat de origem. Antes de se formar, em 1937, o autor publicou seu primeiro livro: “Poemas concebidos sem pecado”.

Manoel de Barros foi personagem no documentário “Só dez por cento é mentira” (2008) dirigido por Pedro Cézar. Seus textos também inspiraram peças de teatro e o álbum “Música de sobrevivência”, de Egberto Gismonti.

“Eu o fantasiei magro e triste, mas ele é gorducho e tem o vigor de um empresário feliz. Eu imaginei um homem quieto e inadaptado, e ele é um senhor firme, que se move com nobreza e não esconde o desencanto. Eu imaginei um homem ingênuo, que passasse os dias entre cachorros e passarinhos, catando frutos no mato, os pés metidos na terra, e agora devo aceitar que Manoel de Barros não é a figura que eu tirei de seus poemas. Poemas e poeta estão separados por um abismo, e é ele que, a partir de agora, deve me interessar. A poesia está nessa divisão, é essa fenda que se abre à minha frente.”

José Castello

Trecho do perfil do poeta, parte do livro ‘Inventário de Sombras’

Manoel de Barros pertenceu à geração de 45, da qual também fizeram parte os poetas João Cabral de Melo Neto e Mário Quintana. Sua linguagem é cheia de neologismos e resgata uma fala pura, de matuto.

“Para mim, o que torna o Manoel de Barros um grande poeta é um olhar grande para as coisas pequenas e uma certa liberdade de usar as palavras e brincar com elas de uma maneira bem matuta, bem interiorana. De conseguir ver que a poesia está nesse modo de falar mais rústico, de uma certa maneira”, diz o leitor e artista plástico Kammal João.

“A obra de Barros é inexplicável como o milagre, como qualquer obra de arte quando é genuína. É um poeta por necessidade, por dom… Do estado de ruína do mundo, à inevitável fragmentação do sujeito, sua obra reflete o desmoronamento de uma cultura e de uma forma de humanidade. Seu universo pantaneiro aparece poeticamente filtrado por pontos de vista humanos, animais, vegetais e minerais altamente elaborados: um mundo intocado e profundamente humanizado, um mundo poético, encantado”

Jorge La Rossa

Escritor e tradutor da obra de Manoel para o espanhol, no site da Fundação Manoel de Barros

O Nexo perguntou a dois conhecedores da obra do poeta sobre seus poemas eleitos e sobre a melhor entrada para começar a ler Manoel de Barros:

Kammal João é artista plástico e ilustrador
José Castello é crítico literário e escritor, autor de “Inventário de Sombras”, coletânea de perfis literários que captam captar uma face desconhecida de escritores, entre eles Manoel de Barros

Por onde começar a ler Manoel de Barros

Kammal João Por afinidade, por afetividade, “Tratado geral das grandezas do ínfimo”, que tem bem a ver com o meu modo de olhar para a poesia dele.

José Castello Por qualquer lado. Na “Poesia Completa” publicada pela editora Leya, por exemplo, os livros são apresentados em ordem cronológica. Mas isso é totalmente dispensável. Há várias maneiras de entrar na poesia de Manoel e cada leitor deve escolher a sua, inventar a sua. Eu, por exemplo, gosto muito de abrir a “Poesia Completa”, ou os livros separados agora republicados pela Alfaguara, ao acaso. Deixar que o acaso me ajude a ler Manoel. Ele valorizava muito o acaso e agindo assim sei que estou me aproximando um pouco mais dele.

O poeta em um poema

Kammal João Tendo que escolher um poema, escolheria exatamente um do livro “Tratado das grandezas do ínfimo”, que chama “A Pedra”. A escolha vem porque nesse momento, me encontro em um projeto [http://www.cadernosecaminhos.com/] na Chapada Diamantina, cercado por pedras. Esse poema tem reverberado bastante no meu olhar para o entorno por aqui.

José Castello Escolheria “Matéria de poesia”, o poema em três partes que abre o livro de mesmo nome, publicado em 1970, quando ele tinha 54 anos. Nesse poema, Manoel tenta fazer um resumo de sua estratégia poética. Fala do inútil, do pouco, dos detritos, do ordinário, das “coisa sem préstimo”, do “sem importância”, dos destroços, do inexistente, da loucura, etc, como matéria de sua poesia. Nele, Manoel age, um pouco, como um crítico de si mesmo. Tenta ler a si mesmo. Cita um verso do poeta francês Arthur Rimbaud que resume tudo isso: “Perder a inteligência das coisas para vê-las”. Vê-la não com a razão, mas com a invenção – o que significa reinventá-las. “Poesia é a loucura das palavras”, ele define. Escreve também: “Cada um tem seu caminho”, o que significa uma defesa intransigente do Singular e do Um. Coisas como a cópia, as “tendências”, o consagrado, o premiado não interessavam a Manoel. Ele escrevia em direção contrário: para buscar aquilo por que ninguém se interessava. As “inutilidades”, como definia com tanta precisão.

App transforma poemas de Manoel de Barros em animações

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O app oferece quatro recursos: Clipes, Poesias, Desenhar e Foto - Agência O GLOBO / Reprodução

O app oferece quatro recursos: Clipes, Poesias, Desenhar e Foto – Agência O GLOBO / Reprodução

Publicado em O Globo

RIO — Musicados por Márcio de Camillo e ilustrados e animados pelas iluminuras de Martha Barros, os versos de Manoel de Barros viraram “poesias brincantes” em um novo aplicativo para tablets e celulares iOS e Android, lançado nesta semana. Intitulado Crianceiras, reúne dez clipes animados e quatro poesias interativas, além de um “caderno” no qual os leitores podem tocar nas palavras e ver animações, sons e definições. O aplicativo, que pode ser baixado gratuitamente, é um desdobramento do projeto de mesmo nome, concebido por Camillo e lançado em 2012, como disco e espetáculo.

Responsável pela direção e produção do app, Bruna Pligher diz acreditar que a interação da tecnologia com a poesia tem “um enorme potencial”:

— Nada vai substituir a poesia em seu estado mais puro. Mas o app serve como um convite à poesia e a apresenta em uma nova forma. Colocar a obra do poeta numa tecnologia de que as crianças gostam pode provocar nelas uma nova percepção da arte e aumentar o interesse pelos livros do Manoel.

O app oferece quatro recursos: Clipes, Poesias, Desenhar e Foto. Poemas musicados por Camillo, como “Boa sombra” e “O menino e o rio”, ganham clipes com animações de Martha Barros, filha de Manoel. Já no tópico Poesias, as palavras se transformam em brinquedos, num formato interativo em que o usuário vai aprendendo mais sobre o poema a partir de sons e desenhos. Outro recurso permite desenhar com as cores, as texturas e os personagens das iluminuras.

— Não acho que o aplicativo pode ajudar a compreender a poesia de Manoel de Barros, porque o próprio Manoel de Barros já dizia que a poesia não era para ser compreendida. A ideia é incorporar um novo olhar para a poesia no cotidiano. Nesse sentido, acho que o carro-chefe são as animações. Foi um desafio aproximar as crianças do visual, sem deixar de manter a identidade da Martha, que tem uma obra visualmente poética, muito próxima da do Manoel. Quisemos trabalhar só com textura, com o sugestivo, porque queríamos estimular a imaginação — diz Bruna.

Opções para apresentar a poesia às crianças

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poesia

Anna Rachel Ferreira, em Nova Escola

Eu tenho uma questão pessoal com poesia. O primeiro livro de poemas que me lembro de ter lido por completo foi Libertinagem, de Manuel Bandeira (1886-1968), quando cursava o Ensino Médio. Não me recordo de muita coisa sobre os textos, só de que, na época, não gostei. Depois tentei outros autores, mas sempre ficava com a sensação de que os poetas só complicam as coisas simples por alguma razão desconhecida. A maneira rebuscada, exagerada e abstrata – na minha concepção – como eles se expressam me deixava irritada. E eu sempre acabava deixando a leitura de lado com a decepção de quem não compreendeu o que tentavam lhe dizer.

Até que um dia, um ser iluminado acrescentou o livro Memórias Inventadas – A Segunda Infância, de Manoel de Barros (1916-2014), à lista de um dos vestibulares que eu prestaria naquele ano. Nunca me esqueço do estranhamento ao pegar aquela caixinha de papelão que mais parecia um presente, criado especialmente para mim. Quando aberta, ela guardava páginas soltas, mas encaixadas e amarradas com um laço de fita cor de laranja. Era uma simplicidade tão bonita que me motivou a ter bastante cuidado ao tocá-la. Após soltar o laço, eu manuseei as folhas delicadamente e as espalhei na cama dos meus pais. Permaneci um breve momento ali admirando as letras e as ilustrações em um encantamento inebriante.

Tinha ficado toda animada quando a professora explicou sobre a sonoridade de Barros, de como as palavras formavam sons que criavam imagens na nossa cabeça e traziam sensações em nossos corpos. Então, comecei a ler em voz alta, imaginando as águas batendo nas pedras, sentindo a brisa no meu rosto, totalmente mergulhada naquele universo novo. Gostei tanto que fiz meu irmão – 5 anos mais novo que eu – sentar do meu lado, fechar os olhos e me ouvir ler alguns dos textos de prosa-poética – classificação dada àquela obra. Não sei dizer como se sentiu ou ainda se ele se lembra disso mas, para mim, foi um momento mágico e, por isso, inesquecível!

Ainda tenho minhas dificuldades com o gênero, mas fico pensando se não foi uma questão de ter sido apresentada a ele muito tarde ou de maneira incorreta. Não sei dizer com certeza. Mas, a lembrança desse meu momento com Manoel de Barros me é tão cara que acho um pecado que alguém passe pela vida sem ter uma experiência assim. Cheguei à conclusão de que, nesse caso, quanto antes puder viver isso, melhor.

Por essa razão, pedi para a Bruna Escaleira, colaboradora de NOVA ESCOLA, escritora e apaixonada por poesia, fazer uma lista com indicações de leitura para apresentar os poemas às crianças. Confira os comentários dela!

 

Poesia fora da estante 2

Poesia Fora da Estante – Volume 2
(org. Vera Aguiar, Simone Assumpção e Sissa Jacoby, 112 págs., Ed. Projeto, tel.: 51/3346-1258, 28 reais)
Além de ser muito bem amarrada, guardo um carinho especial por essa coletânea. Foi o livro que me apresentou à poesia – pra nunca mais nos separarmos! Os poemas cuidadosamente escolhidos, de autores renomados ou pouco conhecidos, vão mostrando que poesia é uma brincadeira fácil e surpreendente.

 

 

 

 

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Ou Isto ou Aquilo
(Cecília Meireles, 66págs., Ed. Global, tel.: 11/3277-7999, 39 reais)
Um clássico da literatura infantil! A trivialidade da temática escolhida por Cecília faz com que a obra seja sempre atual. A sutileza da sonoridade cativa os pequenos desde o primeiro verso.

 

 

 

 

 

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Exercícios de Ser Criança
(Manoel de Barros, 48 págs., Ed. Salamandra, tel.: 11/2790-1300, 39 reais)
Nunca é cedo para desconstruir conceitos. Com Manoel, os pequenos aprendem que poesia não é só verso e rima – e pode estar em qualquer canto do quintal!

 

 

 

 

 

 

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O Bicho e o Alfabeto
(Paulo Leminski, 72 págs., Ed. Cia das Letrinhas, tel.: 11/3707-3500, 39 reais)
Uma leitura leve e com humor inteligente. Nesse livro para crianças, o ar brincalhão do Leminski “adulto” ganha ainda mais ternura.

 

 

 

 

 

 

 

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Berimbau e outros poemas
(Manuel Bandeira, 64 págs., Ed. Global, tel.: 11/3277-7999, 35 reais)
O poeta que falou tanto da sua infância quando adulto não podia ficar de fora das prateleiras dos pequenos. As ilustrações aproximam ainda mais os famosos poemas do cotidiano das crianças de hoje.

 

 

 

 

 

 

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Cultura
(Arnaldo Antunes, 48 págs., Ed. Iluminuras, tel.: 11/3031-6161, 38 reais)
Mais um adulto que não esqueceu como é ser criança. Ou será uma criança que aprendeu a ser adulto? De qualquer maneira, vale a pena ler as “sacadas” dignas de quem está começando a descobrir o mundo!

Reedição da obra de Manoel de Barros tem antologia com poemas de 18 livros

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manoel de barros

Uma semana antes da morte do poeta, a Alfaguara adquiriu os direitos de publicação que antes pertenciam à Leya

Publicado no Divirta-se [ via Correio Brasiliense]

Manoel de Barros morreu em novembro do ano passado, mas deixou um baú de felicidades os leitores. Na arca simbólica, há coisas inéditas que devem chegar em breve às prateleiras das livrarias. Uma semana antes da morte do poeta, a Alfaguara adquiriu os direitos de publicação que antes pertenciam à Leya. Em março, a editora começou o relançamento da obra do matogrossense sob coordenação da artista plástica Martha de Barros, filha do poeta.

O primeiro volume, Meu quintal é maior do que o mundo, é uma antologia de poemas coletados nos 18 livros que a editora pretende relançar. A seleção ficou a cargo de Martha, que queria um livro capaz de iniciar leitores novos. “O que buscamos foi não apenas suprir essa necessidade imediata, como também lançar um formato inédito que contivesse um pouco de toda sua obra: uma antologia”, explica. “Desta forma, podemos atender não apenas àqueles que já são seus leitores e fãs, mas também àqueles que ainda não conhecem bem sua obra, já que a antologia organiza e retoma cada fase da produção literária do poeta, servindo como uma espécie de iniciação à poesia dele.”

Além dos 18 livros de poesia, a Alfaguara vai reeditar os infantis Poeminha em língua de brincar e Cantigas por um passarinho à toa e um volume de prosa da coleção Para ler na escola, com poemas voltados para o ambiente escolar. O novo projeto incorpora material iconográfico inédito — como manuscritos, desenhos e cartas — e os caderninhos do poeta devem aparecer em outra edição. “Ainda estamos em fase de levantamento de material iconográfico e a ideia é fazer uma edição ‘definitiva’. Sobre edições de luxo, ainda não há projetos nesse sentido”, avisa Martha. Em Meu quintal é maior que o mundo, um fac-símile de uma carta de Antônio Houaiss lembra como as palavras do poeta podem ser lidas como um filtro contra a “arrogância, a exploração, a estupidez, a cobiça, a burrice”.

» Entrevista // Martha de Barros

Os livros de Manoel de Barros costumam ser obras inteiras, completas, com grande sentido embutido. Como foi extrair trechos para montar uma antologia? Que critérios você seguiu?
Foi difícil, pois tudo que eu relia achava precioso. Seus poemas têm uma força muito grande… tive insônia, dificuldade mesmo. Mas segui minha intuição, escolhendo os trabalhos que o próprio poeta mais gostava e também os consagrados pelo seu público.

O relançamento será em ordem cronológica em relação aos anos em que as obras foram publicadas?
Ainda estamos resolvendo isso com a editora. Existe essa possibilidade, sim. Mas não é necessário seguir a exata ordem em que os livros foram publicados originalmente. A antologia, nesse sentido, funciona bem como um primeiro passo no projeto de relançamento, já que serve quase como um guia e foi toda organizada na ordem cronológica de publicação de seus livros.

Suas ilustrações acompanham os livros? Quais?
Por enquanto estou trabalhando com as imagens de capa e organizando todo material.

O que te guia quando ilustra a obra de Manoel? Seu traço é parecido com o dele. Há uma simbiose entre pai e filha?
Ele me escolheu para fazer o que chamava de “iluminuras” para seus livros. Meu trabalho sempre foi independente do dele. Tínhamos uma sensibilidade parecida e uma identificação artística familiar e de amizade.

O que está previsto para os cadernos do Manoel de Barros? Haverá edição fac-simile? Eles podem vir a fazer parte de uma exposição?
Ainda estamos organizando o material deixado por ele. Penso que ainda há muita coisa a ser feita — inclusive exposições.

O poeta deixou algo inédito? Ele ainda escrevia nos últimos tempos de vida?
Sim, ele deixou inéditos que estamos organizando para entrar na reedição dos livros novos ou em outros trabalhos ou publicações.

Ele escreveu muitas poesias para os filhos. Você vê, de certa forma, sua vida e sua infância espelhadas na poesia de Manoel de Barros? Como ele
era como pai?
Sou impregnada de poesia, aprendi a gostar desde cedo, trabalhei com ele durante muito tempo. Sempre foi um bom pai e amigo especial. Sua poesia me emociona e trabalhar com ela tem me ajudado a suportar tantas perdas.

O que te toca e te emociona mais na poesia dele?
A poesia dele tem uma alegria própria da infância que nos revigora a alma!

Luto nas letras e grandes transformações no mercado: veja o que marcou o ano

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Luto nas letras e grandes transformações no mercado - Arte

Luto nas letras e grandes transformações no mercado – Arte

O Brasil perdeu grandes autores como João Ubaldo Ribeiro, Ariano Suassuna, Ivan Junqueira e Manoel de Barros

Publicado em O Globo

RIO – Este foi um ano de notícias tristes para a literatura brasileira, com as mortes de grandes autores como João Ubaldo Ribeiro, Ariano Suassuna, Ivan Junqueira e Manoel de Barros. Foi também um ano de transformações radicais no mercado editorial. Em março, a aquisição do selo de interesse geral do grupo espanhol Santillana pelo conglomerado Penguin Random House levou à união entre duas das maiores editoras do país, Companhia das Letras e Objetiva, que juntas detêm 6% das vendas em livrarias brasileiras.

Além disso, em agosto, a Amazon começou a vender edições físicas no Brasil. O mercado reagiu mal aos preços praticados pela gigante norte-americana, considerados muito baratos. A iniciativa resgatou a discussão sobre a lei do preço fixo para livros no país, que limitaria os descontos oferecidos ao leitor. Dessa forma, tanto grandes redes quanto livreiros independentes praticariam os mesmos preços.

Enquanto pequenos livreiros e a Câmara Brasileira do Livro apoiam há uma década a medida, o Sindicato Nacional dos Editores de Livros (Snel), entidade de grande peso político na indústria, se opõe historicamente à iniciativa. O Snel organizou um seminário sobre o tema, com convidados de Alemanha e França (países com leis do tipo), mas não chegou a um consenso sobre o assunto.

Enquanto esse debate não avança, o mercado digital se expande. Entre os lançamentos nacionais em e-book, o grande destaque foi para os quatro livros do jornalista Elio Gaspari sobre os anos de chumbo, “A ditadura envergonhada”, “A ditadura escancarada”, “A ditadura derrotada” e “A ditadura encurralada”, publicados pela Intrínseca. Além de nova versões impressas, as obras ganharam edições digitais enriquecidas por centenas de documentos, áudios e vídeos, oferecendo uma experiência de leitura inédita no Brasil.

Mas o ano ficará definitivamente marcado pela comoção causada pela morte de grandes nomes do meio literário nacional — como Ivan Junqueira, João Ubaldo Ribeiro, Ariano Suassuna e Rubem Alves (todos em julho), Leandro Konder e Manoel de Barros (ambos em novembro) — e de dois ganhadores do Nobel, o colombiano Gabriel García Márquez (em abril) e a sul-africana Nadine Gordimer (em julho).

Nos últimos meses, os leitores tiveram acesso a obras póstumas de Ubaldo (“Noites lebloninas”, pela Alfaguara), Suassuna (que teve um poema inédito incluído no novo livro de Raimundo Carrero, “Romance do bordado e da pantera negra”, pela Iluminuras) e Junqueira (“Essa música” e “Reflexos do sol-posto”, ambos pela Rocco).

Os leitores também puderam reencontrar autores que tiveram obras reeditadas depois de muito tempo longe das livrarias. A Cosac Naify trouxe de volta livros de Murilo Mendes (“Poemas”, “A idade do serrote”, “Convergência” e uma nova “Antologia poética”) e Jorge de Lima (“Invenção de Orfeu”, “Poemas negros” e “Calunga”). A Companhia das Letras começou a republicar a obra de Millôr Fernandes, homenageado da Flip 2014.

O MICO DE 2014

Literatura brasileira de biquíni: País homenageado no próximo Salão do Livro de Paris, que acontece entre 20 e 23 de março de 2015, o Brasil será representado no evento por 48 autores. Mas, por alguma razão, a revista francesa “Le nouvel observateur” resolveu noticiar a presença brasileira em seu site com uma foto de modelos seminuas, segurando uma bandeira do país. Uma imagem que pouco diz sobre literatura — e que ainda reforça clichês sobre a imagem do Brasil. A escolha editorial causou indignação entre escritores e editores.

— É justamente contra esse tipo de preconceito que eu batalho aqui na França, com minha editora especializada no Brasil — disse a editora francesa Paula Anacaona.

Como resposta, a revista disse que o fato não merecia “uma crise diplomática” e alegou um erro técnico no corte da foto — originalmente, deveria aparecer apenas a bandeira do Brasil, sem as modelos. Na primeira versão do post, contudo, a legenda não indicava uma bandeira e sim “Torcedoras brasileiras na última Copa do Mundo”. Horas depois, o corte e a legenda da foto foram modificados.

AS APOSTAS PARA 2015

O filão editorial dos 450 anos do Rio: Em 2015 o Rio de Janeiro completará 450 anos de fundação. O aniversário oficial da cidade é dia 1º de março, mas durante todo o ano o mercado editorial estará aquecido com dezenas de publicações que vão apresentar recortes diversos da História e da cultura do Rio. O Comitê Rio450, criado para planejar e organizar as comemorações do aniversário, vai apoiar a publicação de mais de 80 títulos de diversas editoras, entre reedições de raridades e novidades. A Casa da Palavra, por exemplo, tem em sua programação, entre outros títulos, “Roteiro da escravidão”, livro organizado pelo antropólogo Milton Guran sobre a herança africana no Rio, mais centrada na região portuária, e “Rio em prosa e verso”, antologia para crianças organizada pelo livreiro Rodrigo Ferrari. A Edições de Janeiro publicará, entre variados títulos, “A formação da Guanabara”, organizado por Paulo Knauss (com imagens do Arquivo Público do Rio de Janeiro) e “Mata Atlântica — Uma história do futuro”, livro de fotografia, com textos de Fabio Rubio Scarano.

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