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Dificuldade para viver de literatura não desanima escritores da periferia

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 Paraty  (RJ) -  Os  escritores Jéssica Oliveira, Marçal Aquino, Márcio  du  Coqueiral e Diego  Moraes falam sobre o que os leva a escrever e as dificuldades que encontram para viver de literatura  Tomaz Silva/Agência Brasil


Paraty (RJ) – Os escritores Jéssica Oliveira, Marçal Aquino, Márcio du Coqueiral e Diego Moraes falam sobre o que os leva a escrever e as dificuldades que encontram para viver de literatura Tomaz Silva/Agência Brasil

 

Vinicius Lisboa, na Agência Brasil

A Flipzona, que tem programação própria durante a Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), reuniu autores de três diferentes periferias brasileiras na tarde de hoje (1º) para falar sobre o que os leva a escrever, os obstáculos que enfrentam e como suas origens estão presentes em sua obra.

Jéssica Oliveira, de Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, Márcio du Coqueiral, de Aracaju, e Diego Moraes, de Manaus, responderam a perguntas do escritor Marçal Aquino e rejeitaram o desânimo com as dificuldades de viver de literatura.

“Falta muita coisa, mas a gente tem que hackear e tem que fazer na raça também”, afirmou Jéssica, que escreve crônicas muitas vezes inspiradas em histórias que ouve nas três horas diárias de transporte público entre a Baixada Fluminense e o centro do Rio de Janeiro. “Estou há apenas duas gerações do analfabetismo, e a pessoa que mais me dá repertório para escrever, minha avó de 86 anos, não sabe ler e assinar o próprio nome.”

A autora conta que sempre foi estimulada a gostar de ler, mas começou a querer escrever quando um professor recomendou livros de autores de sua cidade. “Antes, só lia autores distantes da nossa convivência. Comecei a ler e a sair por pro barzinho e encontrar os caras”, lembrou Jéssica. “Quando eu falo do Rio de Janeiro, posso escolher de que Rio de Janeiro eu vou falar. Moro na periferia da periferia, em Morro Agudo.”

Ela questiona a visão de quem acredita que só a publicação em papel dá legitimidade aos escritores e afirma que as dificuldades financeiras não farão com que pare de escrever. “Se rolar dinheiro, bom. Se não rolar, vou escrever também.”

Romances perdidos em enchente

Márcio du Coqueiral, nascido em Estância, Sergipe, e morador da capital, Aracaju, chegou a ficar dois anos sem escrever após uma experiência traumática: uma enchente em sua rua fez com que perdesse tudo em casa, incluindo dois romances finalizados e um terceiro em produção. “Não escrevia nem bilhete”, lembrou o escritor, que conseguiu salvar poucos textos, que reuniu no livro O que Sobrou da Enchente.

Em sua obra, o escritor diz que tenta estimular pessoas que não gostam de ler. Com textos curtos espalhados em ônibus, papéis de pão e outros locais inesperados, Márcio quer incentivar “as pessoas a perderem um minuto lendo aquilo”.

Desempregado e com duas filhas, Márcio trabalha atualmente como freelancer, escrevendo as memórias de um advogado de sua cidade, e não rejeita trabalhos braçais para pagar as contas, nem vê problema nisso. “Faço da minha literatura o que um médico em zona de guerra também faz. O que ele tem à mão, ele aproveita”.

“Manaus é de asfalto e sangra”

Autor de Manaus, Diego Moraes conta que sua literatura nada tem a ver com a tradição de lendas regionais do Amazonas. “A minha Manaus é de asfalto, sangra”, diz ele. E acrescenta: “esse lance de pertencer a um lugar é balela. A escrita pode ter um passaporte infinito, pode ser cosmopolita sempre”, afirmou Diego.

Apesar disso, ele defende que os autores não sejam fake (falsos). “Vejo muito isso na periferia. Tentam escrever algo que não dominam, tentam escrever uma novela do Manoel Carlos”, critica ele, referindo-se ao autor de novelas da Rede Globo que costuma ambientar tramas no bairro do Leblon.

Com uma trajetória que inclui ter vivido em situação de rua por um ano e se recuperado da dependência química de cocaína, ele afirma que a literatura alivia suas dores. “A literatura é meu refúgio e minha fortaleza. A literatura é onde eu gozo e onde eu sinto tesão”, diz o escritor, que tem como um dos maiores orgulhos saber que sua literatura desperta o interesse de jovens da periferia, inclusive cooptados pela criminalidade. “Vejo moleques que estavam no tráfico e que me seguem. Tem coisa melhor que isso?”

Para Diego Moraes, o escritor não pode esperar nada de ninguém. “Do céu, só vai cair merda de pombo e chuva”, diz ele, que promete para seu primeiro livro: “vem pancada por aí”.
Edição: Nádia Franco

Bienal do Livro de Minas debate as chances de se viver de literatura

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Café Literário apresenta conversa com Marcelino Freire, que há oito anos deixou de vez o trabalho numa agência de publicidade, e Marçal Aquino, a quem não interessa pagar as contas só com dinheiro dos livros

Café Literário apresenta conversa com Marcelino Freire, que há oito anos deixou de vez o trabalho numa agência de publicidade, e Marçal Aquino, a quem não interessa pagar as contas só com dinheiro dos livros

 

Leila Reis, no Hoje em Dia

Nem Carlos Drummond de Andrade deixou o trabalho na repartição pública nem Guimarães Rosa largou a medicina. Mas o sonho de muito escritor hoje é “Viver de Literatura”, tema de mesa do Café Literário da Bienal do Livro de Minas, domingo (17), às 15h, com mediação de Rogério Pereira.
De um lado estará Marcelino Freire, que há oito anos deixou de vez o trabalho numa agência de publicidade, e de outro, Marçal Aquino, a quem não interessa pagar as contas só com dinheiro dos livros.

Os direitos autorais apenas pingam na conta bancária, mesmo de autores consagrados como os dois, mas alguns estão, sim, vivendo de literatura. Depois de ganhar prêmios e conquistar a crítica, Marcelino Freire, pernambucano radicado em São Paulo, é constantemente convidado para feiras e bienais, cursos e workshops, e até produz o próprio evento, a Balada Literária, na capital paulista.

Prioridades

Toda vez que revisava um rótulo de água mineral, antes da libertação do emprego, escrevia um conto. “Sempre priorizei os compromissos com a literatura e conseguia conciliar. Quando não deu mais para fazer os dois, optei pelos livros”, conta o autor de “Angu de Sangue”, que completa 15 anos com relançamento pela Ateliê Editorial.

Marcelino lança em setembro “Mulungu”, um romance polca-prosa, com dança e música, em que o maracatu dá o tom. A personagem principal é Dora, de Dorival Caymmi. “Amor é Crime”, de 2011, está em reedição pela Record.

Passou a dar oficinas de escrita, escrever artigos para jornais, permitindo a transição para uma vida dedicada aos livros. “Mas só com direitos autorais realmente não dá para viver”.

Profissionalização

Marçal Aquino é roteirista de cinema e de TV e não quer viver de literatura, mas, “viver para a literatura”. Depois de vender milhares de livros com quatro títulos da Coleção Vagalume (Editora Ática), viu outros autores de sua geração tentando se profissionalizar. “Nunca me angustiei por não viver exclusivamente de literatura”, afirma o escritor.

“Não penso nisso. Gosto de fazer outras coisas e não quero escrever por encomenda. Quando eu vivia do trabalho de redator, tinha que pegar o que aparecia. Não quero que isso aconteça com a literatura. Só escrevo por prazer”.

A mesa da Bienal terá, provavelmente, momentos picantes se ele repetir, por exemplo, a frase dita na entrevista: “Escritor que participa de tanto evento virou personagem. Tem que comprar roupa nova o tempo todo”.

Averso a redes sociais, recusa quase todos os convites que recebe para eventos. “Vou a BH porque tenho bons amigos aí. E adoro o Marcelino Freire”, diz.

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