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Professor ‘rapper’ utiliza a música para ensinar história em Guarujá, SP

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Altair Peique, de 28 anos, dá aulas em uma escola estadual.
Alunos melhoraram o desempenho na escola com o método.

Professor Altair Peique usa até um boné para animar os alunos durante as aulas (Foto: Mariane Rossi/G1)

Professor Altair Peique usa até um boné para animar os alunos durante as aulas (Foto: Mariane Rossi/G1)

Mariane Rossi, no G1

Um professor criou letras de rap para ensinar história aos alunos de uma escola estadual de Guarujá, no litoral de São Paulo. Ele conseguiu estimular os jovens a estudar mais e os resultados apareceram dentro e fora de aula. Além disso, o ‘professor do rap’ usa a redes sociais e a conversa para se aproximar dos alunos e mostrar que a educação é capaz de garantir um futuro brilhante para eles.

O professor de História Altair Peique, de 28 anos e nascido em Vicente de Carvalho, teve o exemplo de educação em casa. O pai e a irmã professora foram a sua inspiração para seguir carreira em sala de aula. “Apesar de sermos de uma família simples, nós sempre demos muito enfoque para a educação”, conta ele. Por isso, enquanto lecionava na Escola Estadual Vicente de Carvalho, Altair percebia uma falta de interesse dos alunos nas suas aulas de História e ele tinha consciência que precisava mudar essa realidade. “Eu percebi que os alunos estavam tendo um pouco de dificuldade em absorver a disciplina. História é uma matéria que não é muito acessível para os alunos. Eu precisava dar uma apimentada na aula”, afirma Peique.

No começo do ano, ele tentou fazer uma experiência com a turma do Ensino Médio. Ele se inspirou nos professores de cursinhos para poder lidar com os alunos de uma forma diferente. “Eu via que tinha professores que davam aula com violão, que cantavam, ensinavam física assim. Além de professor, sou músico e, então, aproveitei minha experiência e comecei a inserir as músicas com eles”, lembra. O professor levou um tema para a classe e criou um refrão com rima. Ele também adicionou uma batida de rap ao texto e criou uma música com a matéria que estava sendo estudada na aula. Os alunos começaram a ler a letra na lousa e cantaram os refrões, que não saiam da cabeça dos jovens. Assim, ele conquistou a simpatia e a atenção dos alunos e, com isso, começou a ensinar história de uma forma descontraída.

A metodologia passou a ser usada frequentemente. “Eu trago os tópicos, por exemplo, sobre a Crise de 1929. Dou uma introdução, explico como uma aula normal, porque não dá para eu chegar só com a música. Depois da introdução, eu faço a música junto com eles, eles vão me ajudando a rimar e eles vão decorando os pontos principais para a matéria”, explica o professor. Os alunos ficam animados com o rap, fazem batidas diferentes e acompanham a letra batucando na carteira escolar enquanto, sem perceber, adquirem conhecimento. “Eu chego em casa cantando”, conta a aluna Gabriela Galdino de Lima, 17 anos.

Professor escrevendo a matéria e a letra da música na lousa (Foto: Mariane Rossi/G1)

Professor escrevendo a matéria e a letra da música
na lousa (Foto: Mariane Rossi/G1)

As músicas tiveram impacto na vida dos alunos. Segundo o professor, o interesse pela história aumentou e os jovens estão se dedicando mais e os resultados aparecem nas provas. “O primeiro resultado que eu vejo é a questão dos vestibulares, do interesse maior deles. Eu não crio minhas provas, eu pego perguntas dos principais vestibulares. O que eu acho da matéria eu incluo na prova e eles conseguem fazer. Eu preciso sempre estar estimulando eles”, afirma o professor.

O rap dentro da sala de aula também levou alguns alunos a mudarem de comportamento. “Antigamente eu só dormia nas aulas de história. Foi um modo legal de me despertar mais para os estudos”, acredita o aluno Lucas Cardoso dos Santos, 17 anos. O professor também diz que há alunos com deficiência intelectual na classe. Quando a música chegou, eles se aproximaram dos outros alunos. “Eles dois participam disso. Até é uma forma deles estarem interagindo. Eu me recordo no começo do ano que um desses meninos era meio introvertido e ele começou a participar também. As pessoas se sentem melhores participando, construindo juntas”, comemora.

Altair cantando rap durante as aulas de História (Foto: Mariane Rossi/G1)

Altair cantando rap durante as aulas de História
(Foto: Mariane Rossi/G1)

E, para se aproximar ainda mais, o professor que usa o rap como metodologia de ensino também passou a utilizar as redes sociais como meio de comunicação. Peique criou grupos nas redes sociais para discutir e tirar dúvidas das matérias. Além disso, ele disponibiliza conteúdo, filmes, documentários, exercícios e qualquer tipo de dica que possa ajudar o aluno a entender melhor alguns temas de História.

Dentro de sala de aula, os alunos obedecem e respeitam o professor porque o veem como um amigo. Peique diz que ouve os alunos, brinca e tenta entender os problemas pessoais de cada um. “Eu sempre tive muita afinidade com os meus alunos, nunca tive problema com a sala. A gente sempre fala a mesma língua. Às vezes você vê um aluno em um dia ruim e você como profissional deixa passar batido, mas eu não. Eu puxo eles em um canto e começo a desenvolver. Eu praticamente sou um amigo que ensina história. Eles me vêem como um irmão mais velho”, afirma. O professor diz que isso é mais uma forma de aproximá-lo do mundo em que vivem os alunos para que ele sempre tenha uma relação de amizade com eles.

O professor, que é apaixonado por história desde criança, fala ainda que a música é apenas um detalhe e é, na verdade, uma forma de estímulo. “Se cada professor encontrar um estímulo, na sua área, na sua limitação, na sua qualidade para trabalhar, você conseguir fazer com que eles absorvam a matéria é o principal”, diz. Ele diz que continuará incentivando e procurando formas para que seus alunos adquiram mais conhecimento, não importa como. “Eu gosto de desafiar eles a buscar novos conhecimentos e mostrar que eles podem ir além. Eu acho que é esse tipo de estímulo que eu quero passar para os meus alunos: acreditar na educação”, finaliza.

Professor e os alunos após uma aula de história (Foto: Mariane Rossi/G1)

Professor e os alunos após uma aula de história (Foto: Mariane Rossi/G1)

Alunos da UFRRJ denunciam no Facebook crimes no campus

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Criada em maio, página ‘Abusos cotidianos – UFRRJ’ já reúne 22 relatos, como uma tentativa de estupro sofrida por uma estudante
Diretor de vigilância diz que precisa de um efetivo três vezes maior para dar conta de toda a área da Rural

Página no Facebook para denunciar crimes no campus já conta com mais de 1.200 “curtidas”

Página no Facebook para denunciar crimes no campus já conta com mais de 1.200 “curtidas”

Eduardo Vanini, em O Globo

RIO – Agressões, tentativa de estupro e assédio são alguns dos problemas que compõem uma extensa lista de reclamações feita por alunos da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) que começa a se formar na internet. Diante do quadro de insegurança instaurado no interior do campus, em Seropédica, eles criaram a página “Abusos cotidianos – UFRRJ” no Facebook. Lá as vítimas podem fazer denúncias sem que sejam identificadas. A maior parte dos casos é de assédio a alunas.

Aberta em maio deste ano, a comunidade já reúne 22 relatos (veja alguns trechos abaixo) e mais de 1.200 “curtidas”. Um dos casos mais graves é de uma tentativa de estupro que teria ocorrido em 19 de maio. Na ocasião, uma estudante teria sido atacada por um homem desconhecido que teria agredido e rasgado a roupa da vítima. Mas, ao notar que uma viatura de segurança do campus se aproximava do local, ele acabou fugindo.

A aluna do 2º período de psicologia Ellen Mariane, de 20 anos, é uma das criadoras da página. Ela conta que a combinação de um campus que se estende por mais de três mil hectares e um efetivo de apenas 62 guardas torna a universidade um ambiente propício a essas práticas. Além disso, segundo ela, há a falta de cuidados e de manutenção das instalações que se repetem ao longo de anos.

– Havíamos chegado a um ponto em que não conseguíamos enxergar o chão, devido à falta de iluminação – diz.
Sobre a quantidade de assédios, ela conta que boa parte vem dos próprios profissionais que atuam no campus.

– Por conta do Reuni (Programa de Apoio ao Plano de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais), há muitas obras aqui. É comum os homens que trabalham nessas construções mexerem com as garotas. Por isso, já criamos até um abaixo-assinado para que as empresas responsáveis pelos trabalhos capacitem seus funcionários.

Todo esse quadro acabou forçando os alunos a mudarem seus hábitos. Ellen conta que há casos de pessoas que pensam em trancar a faculdade por medo da falta de segurança e outros que deixaram de assistir aulas à noite.

Segundo a estudante, a página já garantiu alguns resultados positivos, como a restauração da iluminação do campus. Além disso, a visibilidade aos fatos também transformou a postura dos próprios alunos.

– Resolvemos dar mais visibilidade aos fatos justamente para forçar a direção tomar providências. Agora, isso está começando a acontecer. Também percebemos que os próprios alunos estão mais conscientes e participam com mais afinco das mobilizações e dos atos – nota.

Para o diretor da Divisão de Guarda e Vigilância (DGV) da UFRRJ, Renan Canuto, o efetivo reduzido e a grande extensão do campus de Seropédica prejudicam os trabalhos de segurança no local. Sem dar números concretos, Canuto afirmou que o ideal seria um contingente três vezes maior do que o atual.

Segundo ele, a universidade já abriu licitação para instalar um sistema de câmeras de vigilância e adquirir mais duas pickups, além de fazer o restabelecimento da iluminação da área. Canuco argumentou ainda que algumas denúncias dos estudantes seriam “infundadas, e aproveitou para pedir que casos de crimes também sejam comunicados a delegacias, e não somente no Facebook:

– Eles denunciam no Facebook, mas (os casos) têm que estar na delegacia, né? Cada um põe o que quer na rede. Para mim, algumas denúncias são infundadas. Se fossem verdadeiras, a delegacia de Seropédica estaria lotada de registros de ocorrência, o que não é verdade.

Veja alguns relatos que estão na página, reproduzidos da mesma maneira que foram escritos:

“Era noite já e não tinha nenhuma iluminação (um problema que temos enfrentado aqui no campus), quando de repente me deparei com um indivíduo na minha frente. Ele me mandou parar, obedecer tudo que ele falasse ou eu sofreria as conseqüências. Eu não tinha reação. Eu não conseguia me mover. Diante disso ele irritado me deu um tapa no rosto, mandou eu tirar a blusa. Diante da minha negativa ele tentou puxar minha calça causando um rasgo nela. (…) Da onde estávamos dava pra ver a guarda universitária do campus, foi quando percebi um carro da guarda saindo e subindo a rua, olhei assustada pro carro e ao perceber a movimentação o indivíduo se assustou, me largou e disse pra eu ir andando disfarçadamente pra onde eu estava indo, sem falar com ninguém, sem pedir ajuda, ou ele iria atrás de mim, porque sabia meu nome e onde eu morava. (…) Diante disso, hoje, eu me encontro em total pavor.”

“Me sinto abusada,invadida por não poder caminhar com segurança dentro da universidade…Assim como eu,já vi várias meninas sendo abordadas por esses caras que trabalham nas obras da Rural. O problema é essa cultura de achar que ”ah,foi só uma cantada mais grosseira,é normal!’”

“(…) Já fui assediada por professores desta universidade, com propostas indecentes, desde aqueles que foram diretos e chamaram para um jantarzinho mais intimo aos indiretos que chamam para uma cervejinha fora da rural (…) te prometem vantagens (…) e quando vc se recusa e rejeita a proposta é perseguida, ja tive muita vontade de abandonar meu curso por causa dessas coisas (…)”

“Numa tarde, a caminho do bandex, passei por um grupo de aproximadamente 10 funcionários e ouvi insultos de todos, um deles ainda ousou aproximar o rosto do meu ouvido para sussurrar asneiras; ao me manifestar, me afastando e rebatendo o que ouvia, tentando me manter firme, eles começaram a me ofender e hostilizar mais ainda, só que dessa vez num tom ameaçador, me deixando extremamente assustada e indignada.”

Uniforme Inteligente inibe alunos que matavam aula registrando presença

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Família recebe mensagem avisando que a criança chegou na escola.
Uniforme inteligente não é obrigatório, mas tem agradado os pais.

Alunos do ensino fundamental já podem usar o uniforme inteligente (Foto: Mariane Rossi/G1)

Alunos do ensino fundamental já podem usar o uniforme inteligente (Foto: Mariane Rossi/G1)

Mariane Rossi, no G1

A primeira escola privada do país a implantar o uniforme inteligente, que avisa os pais quando o aluno entra ou sai da escola, fica em Santos, no litoral de São Paulo. A etiqueta já está sendo usada há quase um mês nos uniformes e tem sido uma novidade para as crianças e um tranquilizador para os pais.

O sistema do uniforme inteligente é bem simples. Uma etiqueta é colocada em uma das peças de roupa da criança. A escola possui uma espécie de antena que detecta a etiqueta assim que a criança entra, sai da escola ou quando o aluno vai para um segundo período para fazer cursos extras, reforço ou reposição de provas. O aparelho envia um email ou uma mensagem no celular, escolhido pela família, avisando que a criança entrou ou saiu do colégio.

Vandressa Guimarães Duarte Gaspar, diretora do colégio Onis, que foi a primeira escola particular a adotar esse sistema, diz que houve uma preparação de cerca de um ano para utilizar o uniforme inteligente. “Desde o ano passado a gente vem fazendo reuniões com os pais e com a empresa”, explica a diretora

A diretora da escola fala sobre o sistema (Foto: Mariane Rossi/G1)

A diretora da escola fala sobre o sistema
(Foto: Mariane Rossi/G1)

Os pais que se interessaram pela novidade tecnológica tiveram que fazer um cadastramento e indicar o número do celular que a família quer que receba a mensagem. Apesar disso, sempre surgem dúvidas dos pais. “Alguns têm receio se isso pode causar algum problema em relação à saúde, mas é uma etiqueta normal, não acontece nada”, afirma a diretora.

Ela também esclarece que a etiqueta pode ser lavada e passada várias vezes e, mesmo assim, não irá perder a validade e eficiência. “Eles fizeram um teste de lavagem mais de 100 vezes e ela é prensada em um sistema deles. A criança usa, abusa, lava, passa, quantas vezes quiser e ela não sai. A criança cresce, perde a roupa e a etiqueta continua”, explica a diretora.

Aluna usando o uniforme com a etiqueta (Foto: Mariane Rossi/G1)

Aluna usando o uniforme com a etiqueta
(Foto: Mariane Rossi/G1)

O uniforme inteligente não é obrigatório, já que os pais precisam pagar pelas etiquetas e pelas mensagens. Os técnicos da empresa responsável pelo material fazem plantões no colégio para inserção das etiquetas nos uniformes com uma máquina própria.

A etiqueta pode ser colocada na roupa ou em qualquer objeto do material escolar do aluno. “Temos muitos problemas de perda na escola. Então pode ser inserido em estojo, lancheira e pertences pessoais das crianças. Os pais podem inserir a etiqueta nesses pertences”, afirma a diretora. Na secretaria da escola há um leitor que identifica a etiqueta e de qual criança é aquele objeto.

Além de evitar perdas, o uniforme inteligente serve como um tranquilizador para os pais dos alunos. “A mensagem chega na hora. O filho passou às 17h36, o pai recebe a mensagem no mesmo minuto: ‘O Pedro acabou de entrar na escola’. Os pais que trabalham ficam mais seguros. Já os adolescentes que gostam de matar a aula acabam ficando intimidados com o sistema”, diz Vandressa.

Mensagem no celular avisando que a criança chegou na escola (Foto: Mariane Rossi/G1)

Mensagem no celular avisando que a criança
chegou na escola (Foto: Mariane Rossi/G1)

O sistema já havia sido implantado em fevereiro de 2012 em uma escola pública em Vitória da Conquista, no interior da Bahia. A cidade recebeu a nota mais baixa do país entre as redes municipais de ensino. O Estado instalou a etiqueta em todos os uniformes. Na unidade, 35% dos alunos não frequentavam as aulas. Depois das etiquetas, esse número caiu para 10%.

Em Santos, nos 15 primeiros dias da implantação do sistema, quase 70 alunos já usavam o uniforme inteligente. A diretora acredita que esse número irá crescer com o passar do tempo, já que a maioria dos pais está conhecendo o serviço e muitos estão gostando da novidade.

Vitor dos Santos Farias, de 13 anos, estuda desde pequeno na escola. Quando a mãe dele soube do uniforme inteligente, logo quis etiquetar duas camisetas e a mochila de Vitor. Ele diz que a tecnologia ajuda a não perder a mochila. Já Renata Luiza Dias, em menos de um mês do sistema já tem quatro camisetas e um agasalho com a etiqueta. “Eu achei meio estranho, mas depois foi normal. Não me incomoda e minha mãe disse que ficou mais tranquila”, conta a jovem.

A diretora acredita que o sistema está dando certo. Ela afirma que a escola e os pais ainda estão em fase de adaptação. Neste ano, o sistema começou a ser implantado apenas com os alunos do ensino fundamental e, no ano que vem, a diretora também pretender colocar a tecnologia na pré-escola.

A partir de 2014, todos os uniformes da escola serão vendidos com a etiqueta inserida, mas a ativação é opcional. “Se o pai quiser ativar, procura a secretaria da escola, faz o preenchimento de uma ficha, assina a autorização e a gente ativa a etiqueta”, finaliza a diretora.

‘Vovó do Rap’ faz sucesso ao criar poesias e transformá-las em música

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Aos 63 anos, Judimar Molina começou a escrever após morte do marido.
Ela já recebeu dezenas de prêmios nacionais e internacionais com as letras.

'Vovó do Rap' com a roupa para uma apresentação em Praia Grande (Foto: Mariane Rossi/G1)

‘Vovó do Rap’ com a roupa para uma apresentação em Praia Grande (Foto: Mariane Rossi/G1)

Mariane Rossi, no G1

De cabelos brancos, ela coloca o boné de aba reta e ajeita o bermudão com a palavra ‘hip hop’. A grossa corrente de prata também não pode faltar no figurino da ‘Vovó do Rap’ durante as apresentações. Aos 63 anos, Judimar Gomes Molina descobriu o talento de transformar suas poesias em rap, e assim, levar uma mensagem de conscientização para os jovens de Praia Grande, no litoral de São Paulo.

Após a morte do marido, Judimar tirou todas as antigas poesias do fundo do armário. O que antes era motivo de brigas entre o casal passou a se tornar o maior hobby dela. Para voltar a escrever e não cair na solidão, ela resolveu terminar os estudos. Durante o casamento, tentava aprender com os próprios filhos um pouco da língua portuguesa, já que o pai só deixou ela estudar até a 4ª serie e, mesmo após o casamento, o marido também não permitia os estudos. Por isso, aos 50 anos, Judimar voltou para a 5ª série.

1Pouco tempo depois, ela passou a fazer parte do grupos de poetas de Santos e Praia Grande e, finalmente, entrou na faculdade de pedagogia. Para vivenciar a profissão, começou a fazer trabalho voluntário nas escolas de Praia Grande. Na sala de aula, ela descobriu sua vocação: incentivar a poesia e transformá-las em rap. Assim, encontrou uma forma de usar suas rimas para se aproximar da sociedade e, principalmente, dos jovens.

Judimar descobriu esse talento por acaso. “Os meus amigos estavam fazendo umas poesias tipo Castro Alves, com um linguajar culto e eu era a quarta a falar. Mas a criançada não estava nem aí. Até a gente não entende direito algumas palavras. E como eu gosto de interagir e estava vendo um desinteresse muito grande, pensei que deveria inovar. Começou a vir uma poesia na minha cabeça, e que vinha com uma batida diferente”, conta ela. Quando foi a vez de Judimar, ela cantou poesia mais ritmada e o rap se formou. A plateia de alunos pediu bis e ela continuou. Daí em diante, Judimar voltou a escrever poesias todos os dias e declamá-las em forma de raps. Ela se juntou ao Sarau das Ostras, um grupo de rap e hip hop de Praia Grande, e passou a fazer apresentações com os rappers, que a acolheram e passaram a chamá-la carinhosamente de ‘Vovó do Rap’. Para entrar no clima, ela aprendeu a usar boné, bermudão e camiseta larga para ‘combinar’ com os outros integrantes. “Onde tem evento eu vou com eles. Eles gostam de mim”, afirma ela.

Judimar também levou o rap para outras escolas, asilos e para as crianças. Ela conta que muitas diretoras e professoras ligam para ela ir ajudar na conscientização de diversos temas abordados pela escola, como drogas e desigualdade social. “Eles pedem pra fazer um rap sobre a semana da família, sobre a dengue, sobre o ECA ou temas infantis”, explica. A ‘Vovó do Rap’ acredita que o ritmo, as gírias e o vocabulário bem ‘descolado’, que aprendeu a inserir nas letras, lhe aproxima dos jovens. “Às vezes eu vou à escolas e tem uns alunos rebeldes. Quando eu apresento o rap eles se aproximam, querem fazer um rap junto. É legal pra mim. É bom ter o contato com os jovens. Vou passando conhecimento e vou aprendendo também”, comemora. A Vovó do Rap também chegou aos asilos. “Eu comecei e o homem no violão começou a dar uma batidinha. Eles levantaram e começaram a dançar. Falaram que serviu até de exercício físico para eles. Coisas assim são gratificantes. É bom ver esse retorno”, fala Judimar.

Poesias da Vovó do Rap (Foto: Mariane Rossi/G1)

Poesias da Vovó do Rap (Foto: Mariane Rossi/G1)

A ex-faxineira teve que esperar para poder divulgar suas poesias. Quando jovem, ela adorava escrever, mas o marido a proibia. “Ele tinha muito ciúme. Elas ficaram na minha gaveta há muitos anos. A partir do momento que ele faleceu, eu comecei a mostrar as minhas poesias. Agora já são mais de 500. Já ganhei 35 prêmios, até de nível internacional”, conta. A coleção de títulos está por várias partes da casa dela. São troféus, medalhas e livros, além de pastas e mais pastas de poesias.

O sucesso incentivou Judimar a seguir em frente com as composições. Uma notícia no rádio, uma coisa diferente na televisão, tudo é motivo de inspiração para Judimar escrever as letras dos próprios raps. “Às vezes, quando eu sento no computador e falo que eu vou escrever, aquilo começa a ‘jorrar’”, diz. Além das poesias com temas do dia a dia, as preferidas de Vovó do Rap são as rimas que contam causos e tem um final inesperado. Letras românticas e melosas ficam fora do seu repertório. “Gosto mais daquela que faz refletir, que causa impacto, que quando a pessoa lê a poesia, ela pense um pouco sobre aquilo”, fala.

Nos planos da ‘Vovó’ estão os projetos sociais que envolvem música, poesia e educação. Ela quer continuar no voluntariado para ensinar a fazer poesia, ler e declamar. “Quero sempre fazer sobre temas novos, de tudo um pouco, conforme o ambiente. Mas sempre transformando tudo em rap”, finaliza ela.

'Vovó do Rap' quer continuar fazendo letras e trabalhos voluntários com a poesia (Foto: Mariane Rossi/G1)

‘Vovó do Rap’ quer continuar fazendo letras e trabalhos voluntários com a poesia (Foto: Mariane Rossi/G1)

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