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Katrina Dodson e a nova tradução de ‘Macunaíma’ de Mário de Andrade

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Tradutora em visita à Biblioteca Nacional, da qual participa de um Programa de Residência - Custódio Coimbra / Custodio Coimbra

Tradutora em visita à Biblioteca Nacional, da qual participa de um Programa de Residência – Custódio Coimbra / Custodio Coimbra

 

Tradutora americana foi premiada por sua versão em inglês dos contos de Clarice Lispector

Bolívar Torres, em O Globo

RIO – A californiana Katrina Dodson sempre desejou morar no exterior, mas a necessidade de se distanciar da política conservadora e belicista do então presidente dos Estados Unidos George W. Bush deu o empurrão definitivo para uma mudança de ares. Em 2003, ela resolveu passar um tempo no Brasil — e foi durante esse exílio voluntário que descobriu a literatura de Clarice Lispector, cujos contos veio a traduzir anos mais tarde. Lançado em 2015 com o título de “Complete stories”, a publicação recebeu, em março, o PEN Translation Prize — o mais prestigioso prêmio de tradução dos Estados Unidos. A incursão na prosa labiríntica da autora de “A hora da estrela”, aliás, não é o único fruto da sua relação com o país, já que a tradutora, de 37 anos, acaba de se lançar em um novo desafio. Até 2018, vai verter para o inglês um clássico do nosso modernismo, “Macunaíma, o herói sem nenhum caráter” (1928), de Mário de Andrade. Só há uma tradução do romance, feita há mais de 30 anos pelo americano E. A. Goodland — e que ainda hoje é contestada.

— A tradução dele é muito problemática — diz Katrina, que está no Rio como bolsista do Programa de Residência de Tradutores Estrangeiros, da Fundação Biblioteca Nacional. — Goodland não tem o ouvido de quem escreve, traduz as palavras sem a mágica, sem o ritmo, a poesia e a música que o original tem. Os professores de literatura sabem que há necessidade de uma nova tradução, até porque querem muito ensinar o livro nos Estados Unidos.

Graduada em Letras pela Universidade da Califórnia, Berkeley, Katrina trabalhava como consultora de marketing para empresas de biotecnologia em São Francisco quando resolveu experimentar uma nova vida no Brasil. Depois, voltou aos Estados Unidos para fazer doutorado em Literatura Comparada e desde então tem vindo regularmente ao Brasil. Entre 2011 e 2012, esteve no Rio como bolsista Fulbright para pesquisar sua tese de doutorado sobre a escritora Elisabeth Bishop. Em suas andanças cariocas, conheceu o poeta e professor de tradução Paulo Henriques Britto, que considera seu mentor, e o americano Benjamin Moser, biógrafo de Clarice, que a convidou para traduzir os contos da autora depois de descobrir o seu trabalho.

EXPERIÊNCIA DESORIENTADORA

Para a nova tradução de “Macunaíma”, que deverá manter o mesmo título do original, Katrina recebeu R$ 10 mil do Programa de Residência de Tradutores Estrangeiros. O dinheiro está bancando uma curta residência no Brasil, que inclui uma “viagem macunaímica” de um mês por lugares fundamentais para a compreensão dos contextos históricos, culturais e geográficos do livro. Já passou por Rio e São Paulo — onde pesquisou manuscritos e a marginália de Mário de Andrade e trocou ideias com especialistas do autor modernista —, e em breve visitará o Rio Negro, onde o personagem do romance vai buscar de volta a sua consciência. No futuro, ainda planeja explorar o estado de Roraima, local de nascimento do herói mítico.

Até agora, a tradutora terminou apenas dois capítulos do livro de Mario de Andrade, que resgata os mitos indígenas para compor alguns traços da formação cultural do Brasil. Já é o suficiente, porém, para ela saber que terá dificuldade para integrar as palavras tupis do texto à versão em inglês. Outra certeza é a necessidade de um glossário para guiar o leitor pelos termos mais obscuros.

— A linguagem é desorientadora até para o leitor brasileiro, e quero que os estrangeiros tenham esse mesmo tipo de experiência. Por isso vou deixar alguns elementos em tupi, como nome de macacos, de palmeiras, essas coisas — adiantou Katrina. — Alguns ditados e palavras são mesmo muito difíceis de verter. O tradutor anterior transformou a frase característica do personagem, “Ai que preguiça”, em “Oh! What a fucking life!” (algo como “Ai que vida fodida!”). Esse palavrão não faz sentido, porque a preguiça de Macunaíma é uma coisa entre o prazeroso e o preguiçoso.

Paradoxalmente, a complexidade linguística de “Macunaíma” torna a obra mais fácil de traduzir do que os contos de Clarice, acredita Katrina.

— Clarice também tem uma linguagem diferente, mas é muito sutil e precisa. Com ela era como se eu andasse numa corda bamba, tive que me restringir. Já “Macunaíma” é tão impossível de traduzir palavra por palavra que eu posso me soltar e, dentro do espírito dele, inventar mais.

Se a eleição de Bush motivou uma mudança de ares, agora a situação é outra. A tradutora considera a surpreendente ascensão de Donald Trump à presidência uma “emergência enorme” e se sente obrigada a permanecer em seu país.

— É o maior desastre público que já vivi. Sei que preciso ficar e defender o que ficará cada vez mais vulnerável: os direitos, os valores de igualdade e até o próprio planeta. Mas é bom estar aqui nessa curta residência para falar com os brasileiros da situação internacional, de Trump, do Temer, do Crivella, e assim pensar melhor em como o que está acontecendo nos Estados Unidos está relacionado com o resto do mundo.

Macunaíma agora é de domínio público

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A partir deste ano, essa e outras obras de Mário de Andrade poderão ser reproduzidas e adaptadas livremente

Liria Jade, no Diário de Cuiabá

Mário de Andrade, criador de Macunaima, o herói sem caráter

Mário de Andrade, criador de Macunaima, o herói sem caráter

Um dos maiores clássicos da literatura brasileira, Macunaíma, de Mário de Andrade, entrou em domínio público este ano. Isso acontece porque o primeiro dia do ano é “tradicionalmente” o Dia do Domínio Público e as obras podem ser usadas livremente por qualquer pessoa, sem restrições ou necessidade de pagamento ou autorização. Isso significa que a obra poderá ser copiada, xerocopiada, reproduzida e adaptada livremente, assim como todas as outras obras do autor modernista.

As regras de domínio público variam conforme o país. No Brasil, de acordo com a legislação, as obras ficam livres de direitos autorais no primeiro dia do ano seguinte em que se completam 70 anos da morte do autor. Logo, todas as obras de Mário de Andrade entram em domínio público neste ano.

Mário de Andrade – O escritor brasileiro morreu em fevereiro de 1945. Ele foi a figura central do movimento de vanguarda de São Paulo e figura-chave do movimento modernista que culminou na Semana de Arte Moderna de 1922. O escritor foi um dos integrantes do “Grupo dos Cinco”, que deu início ao modernismo no Brasil, formado também por Oswald de Andrade, Anita Malfatti, Tarsila do Amaral e Menotti Del Picchia.

A descentralização da cultura é um dos objetivos do Modernismo e pode ser percebida na obra de Andrade. Suas obras mais conhecidas são o livro de poesias Pauliceia Desvairada, que inspirou a Semana Moderna, e os romances Amar, verbo intransitivo, de 1927, e Macunaíma, de 1928.

Seu livro mais conhecido, Macunaíma, busca uma valorização da cultura nacional. A obra foi adaptada para o cinema por Joaquim Pedro de Andrade em 1969, com Grande Otelo interpretando o protagonista.

Conheça a obra Macunaíma – Ao nascer, Macunaíma manifesta sua principal característica: a preguiça. O herói vive às margens do mítico Rio Uraricoera com sua mãe e seus irmãos, Maanape e Jiguê, numa tribo amazônica. Após a morte da mãe, os três irmãos partem em busca de aventuras. Macunaíma encontra Ci, Mãe do Mato, rainha das Icamiabas. Depois de dominá-la, com a ajuda dos irmãos, faz dela sua mulher, tonando-se assim imperador do Mato Virgem.

O herói tem um filho com Ci e esse morre, ela morre também e é transformada em estrela. Antes de morrer dá a Macunaíma um amuleto, a muiraquitã (pedra verde em forma de sáurio), que ele perde e que vai parar nas mãos do mascate peruano Venceslau Pietro Pietra, o gigante Piaimã, comedor de gente. Como o gigante mora em São Paulo, Macunaíma e seus irmãos vão para lá, na tentativa de recuperar a muiraquitã.

Depois de muitas aventuras por todo o Brasil na tentativa de reaver sua pedra, o herói a resgata e regressa para a sua tribo.

Ao fim da narrativa, após uma vingança, ele perde a pedra de novo, dessa vez sem chance de recuperação. Cansado de tudo, Macunaíma vai para o céu transformado na Constelação da Ursa Maior.

Domínio Público – Quando dizemos que uma obra entrou em domínio público significa que, se você copiar o trabalho, não vai estar infringindo direitos autorais. As pessoas podem reproduzir, copiar, criar obras derivadas, remixar e o que mais lhe vier à cabeça.

Domínio público, no Direito da Propriedade Intelectual, é o conjunto de obras culturais, de tecnologia ou de informação (livros, artigos, obras musicais, invenções e outros) de livre uso comercial, porque não são submetidas a direitos patrimoniais exclusivos de alguma pessoa física ou jurídica, mas que podem ser objeto de direitos morais.

Em geral, os países tornam uma obra pública no primeiro dia do ano seguinte em que se completam 50 ou 70 anos da morte do autor.

Mario de Andrade, Paul Valéry, Béla Bartók: saiba quem está em domínio público a partir de 2016

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Foto: /reprodução

Foto: /reprodução

Dia 1º de janeiro é também o Dia do Domínio Público, quando obras têm seus direitos autorais expirados

Tatiana Dias, no Nexo

A partir desta sexta-feira (1), um dos maiores clássicos da literatura brasileira, Macunaíma, de Mario de Andrade, estará em domínio público. Isso significa que a obra poderá ser copiada, xerocada, reproduzida e adaptada livremente – assim como todas as outras do autor modernista.

Além dele, os poetas Paul Valéry e Ada Negri, o compositor Béla Bartók e o guitarrista de blues “Blind” Willie Johnson, todos mortos em 1945, estão na lista dos autores livres de direitos autorais a partir de agora.

No Brasil, a regra de domínio público é a seguinte: as obras ficam livres de direitos autorais no primeiro dia do ano seguinte em que se completam 70 anos da morte do autor. Mario de Andrade morreu em 1945.

As regras de domínio público, no entanto, variam de acordo com o país. Naqueles em que os direitos autorais expiram após 50 anos da morte do autor, como o Canadá e a Nova Zelândia, obras de personalidades como Malcolm X e T. S. Eliot, mortos em 1965, já ficarão livres a partir deste 1º de janeiro.

O “Dia do Domínio Público é comemorado por várias entidades internacionais de acesso ao conhecimento. Normalmente, quando uma obra cai em domínio público, há um súbito interesse e maior procura por ela. Em 2015, “O pequeno príncipe”, de Antoine de Saint-Exupéry, ficou livre de direitos autorais. Como consequência, só no Brasil, o mercado editorial tinha disponíveis 58 edições diferentes da obra. E se engana quem pensa que o domínio público não é rentável: as vendas aumentaram 123% e os lucros, 69%.

Quem cai em domínio público em 2016

1 – Mario de Andrade

Foto: Divulgação/Nova Fronteira/IEB-USP

Foto: Divulgação/Nova Fronteira/IEB-USP

 

O escritor brasileiro morreu em fevereiro de 1945. É um dos principais nomes do movimento modernista, maior responsável pela Semana de Arte Moderna de 1922 e influência fundamental na literatura, poesia, fotografia e pesquisa folclórica brasileira. Suas obras mais conhecidas são o livro de poesias “Pauliceia Desvairada”, que inspirou a Semana Moderna, e os romances “Amar, verbo intransitivo”, de 1927, e “Macunaíma”, de 1928.

2 – Paul Valéry

Foto: /reprodução

Foto: /reprodução

 

O poeta e filósofo francês, considerado o último dos simbolistas, foi indicado ao prêmio Nobel 12 vezes. Escreveu sobre arte, música, eventos cotidianos e história. Em sua vida, passou por uma grande crise existencial e ficou sem escrever por duas décadas, até que publicou a obra-prima ‘La Jeune Parque’ (sem edição brasileira), em 1917.

3 – Ada Negri

Foto: /Wikimedia Commons

Foto: /Wikimedia Commons

 

A poetisa italiana foi a primeira mulher a entrar para a (mais…)

As cartas de Mario de Andrade a Anita Malfatti, Carlos Drumond e Portinari

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Mario de Andrade. / ACERVO IEB-USP

Mario de Andrade. / ACERVO IEB-USP

Exposição das cartas trocadas pelo escritor com os principais expoentes das artes do século 20 abre as portas em São Paulo

Camila Moraes, no El País

Há uma maneira de se aproximar de Mário de Andrade (1893-1945) para conhecê-lo como quem conviveu com ele: debruçar-se sobre suas cartas. O escritor paulistano – também músico e agitador cultural – sofria, como ele mesmo diz, de “gigantismo epistolar”. Escrevia cartas de todos os estilos e tons, sobretudo aos amigos, com quem tricotava com a mesma facilidade que estabelecia as bases do Modernismo brasileiro. Pois, para quem quer ter o gostinho de ser seu amigo, as cartas de Mário acabam de virar tema de uma exposição que abre as portas neste sábado, 19 de setembro, no Centro Cultural dos Correios, em São Paulo – depois de passar pelo Rio de Janeiro e por Brasília e ser vista por 50.000 visitantes.

O valor dessas cartas aumenta à medida em que seus destinatários não eram personagens quaisquer. Mário era uma das vozes e mentes principais de um grupo composto pelos maiores representantes das artes e da cultura no Brasil em sua época. À amiga Tarsila do Amaral, por quem nutria certa paixão, escreveu em novembro de 1923, quando a pintora e outros modernistas passavam uma temporada na França – com a qual Mário não estava muito de acordo:

“Cuidado! Fortifiquem-se bem de teorias e desculpas e coisas vistas em Paris. Quando vocês aqui chegarem, temos briga, na certa. Desde já, desafio vocês todos juntos, Tarsila, Oswaldo, Sérgio para uma discussão formidável. Vocês foram a Paris como burgueses. Estão épates [chatos]. E se fizeram futuristas! (…) Se vocês tiverem coragem, venham para cá, aceitem meu desafio”.

O desafio em questão era construir um Brasil moderno, com cara de brasileiro. Sobre esse país autêntico e pra frente, pelo qual Mário não se cansava de lutar, ele falou ao poeta Carlos Drummond de Andrade – que tanto o admirou, apesar dos estilos diferentes de ambos.

“Carlos, devote-se ao Brasil junto comigo. Apesar de todo o ceticismo, apesar de todo o pessimismo e apesar de todo o século XIX, seja ingênuo, seja bobo, mas acredite que um sacrifício é lindo. (…) Nós temos que dar ao Brasil o que ele não é, e que por isso até agora não viveu, nós temos que dar uma alma ao Brasil e para isso todo o sacrifício é grandioso, é sublime”, disse o escritor em uma carta de novembro de 1924. O discurso, de tão pertinente aos dias de hoje, chega a comover.

Bom conselheiro e crítico que era, Mário de Andrade era procurado pelos amigos para que opinasse sobre a produção artística deles. À pintora e sua grande amiga Anita Malfatti, dirigiu-se em uma carta cujo ano é desconhecido assim:

“Agora são 10 e meia. Apenas me levantei. Mas a primeira coisa que faço é pensar em ti e no teu desenho. Acabo de tornar a olhá-lo. Queres a minha opinião sobre ele, orgulhosinha? Pois fica sabendo que me entusiasmei”.

Era o tipo de interlocução íntima e, ao mesmo tempo, profissional, que o escritor tinha também com o pintor Cândido Portinari. Os dois foram especialmente íntimos no período em que, depois de afastado de seu cargo no departamento de cultura da prefeitura de São Paulo, foi chamado para trabalhar em um cargo menor no Rio de Janeiro, no começo da década de 30. À época, as diferenças entre as paisagens e especialmente entre os climas paulistano e carioca chamavam ainda mais a atenção. Os amigos se corresponderam certo dia, em 1935, e Mário discorreu sobre um fevereiro:

“O Carnaval aqui esteve bem divertido, apesar da frieza paulista. Eu, pelo menos, me diverti à larga e os bailes estiveram colossais, todos dizem. Mas nem assim deixava de imaginar de vez en quando no que estariam fazendo vocês aí do grupinho”.

Mário de Andrade – Cartas do Modernismo, em cartaz até 11 de novembro, traz a correspondência do autor de uma maneira didática, pincelando em diferentes estações de visita os momentos mais marcantes de sua trajetória. Dividida em períodos e feita para ser degustada em camadas, de acordo com o conhecimento de cada um sobre Mário, a mostra traça uma cronologia do Primeiro Modernismo por meio de reproduções de obras, livros e textos. No Segundo Modernismo, trata da amizade de Mário com Portinari mostrando a admiração e o carinho mútuos. Para ampliar a experiência, algumas obras de arte modernistas de Anita Malfatti, Tarsila do Amaral, Di Cavalcanti e, claro, Portinari, complementam os textos. (mais…)

Mário de Andrade, muito além do debate sobre a homossexualidade

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Sessão de abertura da Flip, Beatriz Sarlo (à esq.), Eliane Moraes (centro) e Eduardo Jardim (à dir.) / Tânia Rêgo (Agência Brasil)

Sessão de abertura da Flip, Beatriz Sarlo (à esq.), Eliane Moraes (centro) e Eduardo Jardim (à dir.) / Tânia Rêgo (Agência Brasil)

Flip teve início nesta quarta com um debate dedicado ao intelectual brasileiro. Segundo a ensaísta Eliane Moraes, ele “não pode ser reduzido à sua sexualidade”

Camila Moraes, no El País

“Não estou interessado em ser conhecido em 1985”, disse certa vez Mário de Andrade, conforme recordou seu biógrafo, Eduardo Jardim, durante a mesa de abertura da 13ª Festa Literária de Paraty. Ao lado da crítica literária argentina Beatriz Sarlo e da ensaísta Eliane Robert Moraes no encontro titulado As margens de Mario, Jardim perfilou o escritor, homenageado desta Flip, como um dos grandes intelectuais brasileiros – também músico, pesquisador, agitador cultural –, que expressava publicamente a ansiedade de que suas ações e criações impactassem em seu próprio tempo.

Mario viveu sua idade adulta e mais ativa entre os anos 1917 e 1937, período em que liderou o modernismo brasileiro, cujo auge foi a Semana de 22, e realizou diversos feitos de toda ordem artística e cultural. No entanto, morreu em 1945 sem ver concretizada a maioria de seus projetos de vida, que tinham a ver com a valorização da cultura popular brasileira e a criação de uma identidade nacional própria. Somente nos dias atuais – muito depois do que ele mesmo temia – é que Mário de Andrade passa por um resgate.

Mário de Andrade em sua casa, em 1938. / Acervo IEB-USP

Mário de Andrade em sua casa, em 1938. / Acervo IEB-USP

Segundo Eliane Robert Moraes, que é professora da USP e examinou a obra de Mário a partir do erotismo, esse reconhecimento tardio perpassa a homossexualidade do autor – centro de uma polêmica de décadas envolvendo desde cartas pessoais censuradas até uma desvalorização do traço erótico presente transversalmente em sua literatura. “Chegou o momento de poder liberar em Mário de Andrade o que é de ordem pessoal para reconhecer o que é de ordem estética. Eros foi muitas vezes silenciado [em sua produção]. Cabe a nós ouvi-lo”, disse Eliane, que também é escritora. “Sim, nosso escritor era homossexual, era gay. Há resquícios disso em sua obra, ainda que não possamos falar de uma obra homoerótica. Nosso desafio é não reduzi-lo à sua sexualidade”, acrescentou, num esforço de superar a banalidade da polêmica.

Filósofo que lecionou por anos na PUC-Rio, Eduardo Jardim examinou, à luz de sua trajetória pessoal, a diversidade característica do escritor, que ele atribui a uma “permanente dualidade”. “É uma espécie de bivitalidade, que marca todos os escritos e iniciativas de Mario de Andrade. Uma tensão da qual ele nunca escapou. Ao contrário, fez que ele continuasse produzindo”, disse o especialista, se referindo a embates de Mário entre suas facetas nacional e universal, intelectual e popular, exigente e sensual.

Já Beatriz Sarlo discorreu sobre as distâncias culturais entre a Argentina e o Brasil nos anos 1920, comparando Mário de Andrade em São Paulo a escritores que foram seus contemporâneos em Buenos Aires, como Jorge Luis Borges. “As diferenças entre eles começam com as pesquisas de Mário em música popular, que nunca teriam ocorrido a um escritor portenho da década de 20. Passam pelas viagens, como as que ele fez à Amazônia, e chegam ao caráter carnavalesco de sua obra, que continua uma profunda celebração da festa, do ritual”, declarou Sarlo. A ensaísta, que participa de outra mesa no sábado pela manhã, elogiou a multiculturalidade brasileira, que ela relaciona com uma personalidade mais aberta e cordial do que a argentina.

Deve ter se espantado quando, no meio da plateia, o ator Pascoal da Conceição surgiu declamando versos de Mário de Andrade citados inicialmente por Eduardo Jardim. Vestido a caráter, como costuma fazer em eventos relacionados ao intelectual, ele subiu ao palco para finalizar sua intervenção, bastante emotiva e tão pouco convencional de acordo com os moldes do evento. Ao contrário do que pensaram os presentes por alguns instantes, nada tinha sido programado. “Foi uma surpresa, mas até as surpresas podem fazer parte da Flip de vez em quando”, finalizou o curador da festa, Paulo Werneck.

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