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Cortella: “Não é só a educação dos filhos que é necessária, mas a dos pais também

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Para o filósofo Mário Sérgio Cortella, uma das principais referências do país em educação, somos a primeira geração que testemunha mudanças de paradigmas tão velozes. E é natural que os pais se sintam perdidos. Então, afinal, qual o segredo para não ficar ultrapassado na educação dos filhos?

Naíma Saleh, na revista Crescer

“A novidade não é a mudança no mundo, é a velocidade da mudança.” Foi assim que o filósofo Mário Sérgio Cortella, professor há 42 anos, pai e avô, abriu a palestra Novos Tempos, Novos Paradigmas, que aconteceu em São Paulo, no fim de setembro. Diante de uma plateia hipnotizada pelo vozeirão com sotaque sulista e pela naturalidade em tratar temas complexos sem firulas, ele deixou claro que o grande desafio da atualidade é acompanhar as transformações para não ficar para trás. Sim, estamos vivendo um tempo de reviravoltas sem precedentes: na tecnologia, no trabalho, nas relações. Nesse contexto, mudar não é apenas imprescindível, mas inevitável. Principalmente quando se fala em educação. Em entrevista exclusiva à CRESCER, Cortella separa o que é velho do que é antigo, defende que pais podem ser, sim, amigos dos filhos sem perder a autoridade e critica o peso colocado na escola para assumir um papel que é da família. Confira!

Mário Sérgio Cortella (Foto: Marcos Camargo/Editora Globo)

Mário Sérgio Cortella (Foto: Marcos Camargo/Editora Globo)

 

Como essa mudança tão veloz de paradigmas tem afetado a forma como os pais criam os filhos?

Uma parte das famílias acabou perdendo um pouco a referência dada à velocidade das mudanças e à rarefação do tempo de convivência com as crianças. Isso fez com que muitas acabassem terceirizando o contato com os filhos e delegando à escola aquilo que é originalmente de sua responsabilidade. Só que isso perturba a formação das novas gerações. É claro que criar pessoas dá trabalho e exige esforço. Acontece que, no meio de todas essas mudanças, alguns pais e mães ficam desorientados. Por isso, é necessário que eles encontrem apoio, em livros, revistas, grupos de discussão. Não é só a educação dos filhos que é necessária, mas a dos pais também.

Ao mesmo tempo que muitas famílias terceirizam os cuidados, há um movimento de mães e pais largando a carreira para se dedicar exclusivamente aos filhos, não?

Claro. Uma das coisas mais importantes na vida é entender que a palavra prioridade não tem “s”. Não tem plural. Se você disser: “tenho duas prioridades” é porque não tem nenhuma. Então, deve estabelecer qual é a sua prioridade. Sua prioridade é o convívio familiar? Então dê força a isso. É a sustentação econômica? Vá fundo. Só que, ao escolher, não sofra. É evidente que ninguém precisa abandonar a carreira em função da família, mas é necessário buscar o equilíbrio – da mesma forma como se faz para andar de bicicleta: só há equilíbrio em movimento. Se você parar, desaba. Tenha em mente que haverá momentos em que a família é o foco. Em outros, a carreira. Mas lembre-se de que a vida é mais como maratona do que como uma corrida de 100 metros rasos: você não sai disparado feito um louco. Tem horas que vai mais rápido, outras em que desacelera. O segredo é ir dosando.

Você diz que, em um mundo de mudanças, nem tudo o que é antigo é velho. Como saber o que está ultrapassado na criação dos filhos?

No convívio familiar, uma coisa que é antiga, mas não é velha, é o respeito recíproco. Outra é a capacidade de o adulto saber que a criança é “subordinada” a ele, ou seja, que está sob as suas ordens. O pai não pode se tornar refém de alguém que ele orienta e cria. Agora, uma coisa que é velha e que deve ser descartada é o autoritarismo, a agressão física, o modo de ação que acaba produzindo algum tipo de crueldade. Isso é velho e é necessário, sim, mudar. Na relação de convivência em família é preciso modificar aquilo que é arcaico. O que não dá para perder é a honestidade, a afetividade e a gratidão. Tudo isso vem do passado e tem que continuar.

E como os pais podem construir essa autoridade sem autoritarismo?

O pai e a mãe têm que saber que ele ou ela é a autoridade. Ao abrir mão disso, há um custo. Quem se subordina a crianças e jovens, e têm sobre eles alguma responsabilidade, está sendo leviano.

Mas você acha que dá para ser amigo dos filhos?

Claro. O que não pode é ser íntimo no sentido de perder a sua autoridade. Eu tenho amizade com os meus alunos, mas isso não retira a autoridade nem a responsabilidade que eu tenho sobre eles como professor. Há uma frase que precisa ser deixada de lado que diz que “o amor aceita tudo”. Isso é uma tolice. O amor inteligente, o amor responsável é capaz de negar o que deve ser negado. A frase certa é: “Porque eu te amo é que eu não aceito isso de você”. O amor que tudo aceita é leviano, irresponsável.

Atualmente, se joga muita responsabilidade na escola. Qual é o limite entre os deveres dos pais e dos professores na educação das crianças?

É uma coisa estranha: a escola fica quatro ou cinco horas com as crianças, em um dia que tem 24 horas, com 30 alunos juntos. É um estabelecimento que deve ensinar a educação para o trabalho, educação para o trânsito, educação sexual, educação física, artística, religiosa, ecológica e ainda português, matemática, história, geografia e língua estrangeira moderna.

Supor que uma instituição com essa carga de atividade seja capaz de dar conta daquilo que uma mãe ou um pai é que tem que ensinar a um filho ou dois é não entender direito o que está acontecendo. A função da escola é a escolarização: é o ensino, a formação social, a construção de cidadania, a experiência científica e a responsabilidade social. Mas quem faz a educação é a família. A escolarização é apenas uma parte do educar, não é tudo. Já tem personal trainer, personal stylist, agora querem personal father, personal mother. Não dá, é inaceitável.

Por outro lado, os pais interferem demais na escola?

Há uma diferença entre interferir e participar. A escola tem que ser aberta à participação. Quando há uma interferência é sinal de que está mal organizado. O que acontece nas escolas particulares, que são minoria e representam apenas 13% do total, é que muita gente não lida mais com a relação família versus escola como parceria. É mais como se fosse um relacionamento regido pelo Código do Consumidor, como um cliente, como se o ensino fosse o mesmo que a aquisição de um carro. Essa relação é estranha e precisa ser rompida.

A educação de gênero tem gerado repercussão no meio escolar. Como você acha que as escolas devem abordar esse tema?

Uma sociedade que não é capaz de atender à diversidade que a vida coloca é uma sociedade tola. É preciso lembrar que a natureza daquilo que é macho e fêmea está na base biológica, mas o gênero se constrói na convivência social. O macho e a fêmea vêm da biologia. Mas o que define masculino e feminino é aquilo que vai se construindo no dia a dia. Por isso a escola tem que trazer o tema. É claro que não vai incentivar uma discussão que seja precoce para crianças de 8, 9, 10 anos. Mas também não vai fazer com que aquele que é diferente seja entendido como estranho. Aquele que é diferente é apenas diferente, não é estranho. Nessa hora, é tarefa da escola acolher. Se a família não concorda e a escola é privada, mude a criança de escola. Agora, se for uma instituição pública, é um dever constitucional e republicano admitir a diversidade.

Mário Sergio Cortella: Escola deve abandonar conceitos arcaicos

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DESCRIÇÃO: Inteligência Coletiva - especial 130 anos do Colégio Farroupilha. Na foto filósofo, escritor e professor Mário Sérgio Cortella.

Na foto filósofo, escritor e professor Mário Sérgio Cortella.

 

Publicado no Correio do Povo

Considerado um dos expoentes intelectuais do país, o professor Mário Sérgio Cortella esteve em Porto Alegre, neste mês, para falar sobre gestão do conhecimento. Nascido em Londrina, no Paraná, o filósofo e escritor tem mestrado e doutorado em Educação e atuou por 35 anos na PUC-SP, com docência e pesquisa na Pós-Graduação em Educação. Em entrevista ao Correio do Povo, o professor diagnosticou, opinou e teorizou sobre alguns dos principais assuntos relacionados ao tema. O filósofo defende que a escola precisa enfrentar e se desfazer de conceito arcaicos, como os que entendem que o professor é o detentor do saber ou que o conhecimento é absoluto e indubitável. Para ele, a escola precisa ter uma natureza muito mais de seleção do que de acumulação de conhecimento

O que é a gestão do conhecimento?
Mário Sérgio Cortella: É a ideia de que nós temos que lembrar que vivemos em uma sociedade que tem o conhecimento como uma referência, e que o conhecimento se constrói a partir das informações. E que nós temos um novo mundo, relativo às informações, novas tecnologias, novos modos de acesso, mas temos também uma dificuldade grande de ter critérios de seleção, tamanha a oferta de informações a que as pessoas acabam sendo inundadas, como se fosse uma avalanche informacional que os captura. [A gestão do conhecimento] tem como necessidade maior a formação da capacidade de ajudar a ter critérios que separem, selecionem e guardem aquilo que de fato importa, diferenciando do meramente passageiro e acessório.

Como a escola pode melhorar sua Gestão do Conhecimento?
Mário Sérgio Cortella: A escola precisa dar uma distinção entre aquilo que, vindo do passado, já não serve mais, o que a gente chama de arcaico, daquilo vindo do passado que precisa ser preservado, guardado, que é a tradição. Não é casual que gaúchos entendam isso muito bem e a cada momento façam o seu centro de tradição gaúcha. Porque a tradição tem que ser guardada. Tem que ser colocado pra trás aquilo que não tem mais lugar. E, nesse sentido, a escola tem coisas que são tradicionais e outras que são arcaicas. Uma das bandeiras arcaicas é lidar com o conhecimento como se ele fosse inamovível, absoluto e indubitável. Outra coisa arcaica é supor que só o professor detém o conhecimento. A outra coisa arcaica é supor que esse conhecimento só é obtido dentro da escola. Portanto, tudo isso tem que ser ultrapassado para que a gente consiga construir uma capacitação das pessoas e que nos capacite também para a gente fazer melhor aquilo que a gente quer fazer bem.

Qual é a influência do excesso de informações na educação?
Mário Sérgio Cortella: Depende da escola que se terá. Nós temos uma diversidade muito grande, no Brasil, de escolas do campo público e privado, seja no seu modo de ação, seja sua localização, seja em relação ao tipo de presença de alunos que ela carrega. Portanto, não há um modo único no qual essa escola se coloque. Mas, independentemente de como ela é, onde se localiza ou quem a frequenta, há desse turbilhão de informações o impacto que é tontear um pouco as pessoas em relação àquilo que elas, de fato, precisam conhecer. De maneira geral, quase gera nas pessoas angústia, imaginando que ela tem que ler tudo, saber tudo, conhecer tudo e não é verdade. Sempre dependerá daquilo que você tem como objetivo. Por isso, a escola, especialmente, tem que ter uma natureza muito mais seletiva do que cumulativa. Não basta inundar o aluno de informações. É preciso que ele construa critérios que elevem a capacidade de boas escolhas, no campo da informação e da conduta, da vida e do conhecimento.

As ocupações das escolas são resultado das reações da sociedade devido ao atual momento político e econômico?
Mário Sérgio Cortella: Parte sim. A questão é que, hoje, uma parcela dos jovens começa a entender que há causas que têm que ser construídas. Causas que, por exemplo, pra minha geração se situavam no campo da política nacional, no enfrentamento de uma situação ditatorial, de ausência de liberdade de expressão e de pensamento. Novas causas têm que vir à tona. Por exemplo, o jovem ter o seu lugar sem necessariamente passar por mera constatação, mas ser aquele que reivindica melhoria da qualidade do trabalho, estruturas escolares mais adensadas, participação na decisão dos rumos do trabalho pedagógico. Então, acho que há uma contaminação positiva em relação a isso, seja no Rio de Janeiro, São Paulo ou Porto Alegre. Houve esses movimentos que tiveram, de um lado, um nível bonito, uma beleza na participação dos jovens, e, de outro alguns, destemperos, que são inerentes a quem não está habituado a fazê-lo e constrói sua forma de fazer no próprio processo. Mas é um aprendizado que traz uma beleza muito forte de uma juventude que não se contenta mais apenas numa consumolatria desesperadora, mas que quer ter voz, afinal de contas é no futuro que viveremos, então é melhor fazê-lo bem desde agora.

Como está sendo tratada a ética dentro das escolas?
Mário Sérgio Cortella: A escola não é imune a tudo o que está à volta dela. A escola sozinha não movimenta as coisas. Paulo Freire, nosso grande educador, dizia: “Não é a escola sozinha que vai mudar o mundo, mas sem a escola o mundo não muda”. Portanto, o tema da ética não tem a escola como sua referência mais exclusiva. Afinal de contas, o número de horas que uma criança ou jovem fica exposta ao processo escolar é muito menor do que o inverso. Uma criança fica, em média, quatro ou cinco horas na escola e as outras 19 fora, em contato com mídia, família e amigos. Aliás, vale muito pouco se uma escola tiver uma matéria chamada ética. O mundo dos valores tem que ser trabalhado no conjunto do projeto pedagógico em todas as disciplinas. E ética, para lidar com crianças e jovens, tem que ser de natureza exemplar e não teórica. Aquilo que se mostra, por exemplo, na educação física, jogos cooperativos em vez de fazer só competição, ter um momento para as crianças da educação infantil do brinquedo partilhado, do lanche coletivo, tudo aquilo que vai moldando valores de convivência que não precisa ser colocado teoricamente.

Como é o momento da educação no Brasil? Quais são as lacunas?
Mário Sérgio Cortella: Na educação básica brasileira temos apenas 13% das pessoas que estão na escola privada, 87% estão nas escolas públicas. Portanto, quase a totalidade da população que frequenta a escola está no nível público. Dado que o nível privado é um direito constitucional mas é minoritário, no nível público nós temos quatro grandes questões: a primeira delas é a democratização do acesso e da permanência. Isto é: colocar todas as crianças e jovens dentro da educação infantil, do ensino fundamental e do ensino médio a frequentar escolas, não apenas a matrícula, mas nelas permanecerem. Segundo, a ideia da democratização da gestão. A nossa Constituição Federal de 88, depois a lei de Diretrizes e Bases de 96, prevê que a comunidade tenha participação na gestão da estrutura escolar e isso ainda é muito diminuto. Se eu perguntar se você conhece o Conselho Municipal de Educação de Porto Alegre, ele existe e precisa existir por lei. Quem escolhe as pessoas? Como elas lá estão? Quem gere a educação na cidade onde você mora? Ocupa aquele posto por qual mandato? Essa questão é séria, a democratização da gestão. Terceiro, uma nova qualidade de ensino em que a gente, sem perder aquilo que é referência na história da educação, não fique atrasado com plataformas digitais, trabalhar com conteúdo que sejam mais significativos, ter uma atualização do processo pedagógico. Quarto e último, algo que é vergonhoso no nosso país. Um país que faz uma Olimpíada deveria ser capaz também de impedir que, ainda hoje, em 2016, 13 milhões de homens e mulheres não sejam capazes de lerem o lema da própria bandeira. Essa é, absolutamente, uma vergonha inacreditável, que a sétima nação mais poderosa do planeta em termos econômicos tenha ainda 13 milhões de pessoas, com mais de 15 anos de idade, que não leem “Ordem e Progresso”.

Levando em consideração o surgimento de leis sobre educação que nascem já defasadas, não faltam discussões sobre a realidade?
Mário Sérgio Cortella: Tudo é sempre bonito no papel. Isso é inerente a atividade da educação. A gente lida com gerações e gerações mudam todos os dias. O fato de você lidar com educação escolar faz com que haja desatualização cotidiana. Afinal de contas, aqueles que entraram na escola esse ano não estavam no passado e aqueles que estavam no passado já estão em outra postura. Portanto, essa desatualização é inerente a quem lida com o processo. É diferente da área de saúde que se tem uma patologia que você cura e ela cessa. Não há cura em educação. Educação é uma formação incurável. Portanto, todos esses planos têm um nível de precariedade que é muito contínua. A grande questão no Brasil é que eles entram em precariedade antes de serem implementados. Tudo aquilo que foi furtado da nação, seja pela atividade pública ou privada, nas últimas décadas, e que agora veio à tona com a Lava Jato e outras operações, seriam o suficiente para não termos essa questão. A gente tem, por exemplo, várias associações comerciais que, com toda a razão, fazem algo chamado impostômetro – que é avaliar o quanto estamos pagando de tributos no cotidiano. É uma coisa ótima. Mas tem que fazer o sonegômetro também. A Receita Federal calcula que, em 2015, tenham sido deixados de serem pagos em impostos, por sonegação, R$ 400 bilhões. Isso é mais do que o orçamento do MEC [Ministério da Educação]para um ano. Se eu não tivesse a sonegação, não teríamos essas questões. A implementação de vagas e projetos de estrutura seriam mais do que suficientes dentro disso. Não é questão de boa vontade, é questão de evitar a ladroagem.

Que escola é acessível para todos?
Mário Sérgio Cortella: A gente avançou imensamente nisso. Hoje, 97% das crianças em idade escolar do ensino fundamental estão matriculadas, mas não necessariamente têm permanência. Segundo, há uma defasagem imensa ainda na educação infantil e no ensino médio. Apenas metade dos jovens que deveriam estar no ensino médio o frequentam. Por outro lado, a questão não é confundir qualidade versus quantidade. Numa democracia, quantidade total é sinal de qualidade social. Qualidade sem quantidade é privilégio. Não se confunda qualidade com privilégio. Por exemplo, São Paulo, onde eu moro, se come muito bem. Quem come? Quem como o que? Por isso, se as pessoas não comem, eu não posso falar em qualidade, tenho que falar em privilégio. O que nós temos no Brasil ainda é uma estrutura de escolarização em que há uma apologia do privilegiamento, não da qualidade.

por Marco Aurélio Ruas

Bem-formada, nova geração chega mal-educada às empresas, diz filósofo

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Cortella lança o livro "Por que fazemos o que fazemos?" sobre a busca de propósito no trabalho

Cortella lança o livro “Por que fazemos o que fazemos?” sobre a busca de propósito no trabalho

 

Segunda-feira, seis da manhã. O despertador toca e você não quer sair da cama. Está cansado? Ou não vê sentido no que faz?

na BBC Brasil

Na introdução de seu novo livro, o filósofo e escritor Mario Sergio Cortella coloca em poucas palavras o questionamento central da obra Por que fazemos o que fazemos?. Lançada em julho, ela trata da busca por um propósito no trabalho, uma das maiores aflições contemporâneas.

Em entrevista à BBC Brasil, Cortella, também doutor em Educação e professor, fala como um mundo de múltiplas possibilidades levou as pessoas a negarem ser apenas uma peça na engrenagem.

O filósofo explica como a combinação de um cenário imediatista, anos de bonança e pais protetores fez com que a “busca por propósito” dos jovens seja muitas vezes incompatível com a realidade.

“No dia a dia, eles se colocam como alguém que vai ter um grande legado, mas ficam imaginando o legado como algo imediato.”

Essa visão “idílica”, afirma, transforma escritórios e salas de aula em palcos de confronto entre gerações.

“Parte da nova geração chega nas empresas mal-educada. Ela não chega mal-escolarizada, chega mal-educada. Não tem noção de hierarquia, de metas e prazos e acha que você é o pai dela.”

Leia os principais trechos da entrevista abaixo:

BBC Brasil – O que desencadeou a volta da busca pelo propósito?

Mario Sergio Cortella – A primeira coisa que desencadeou foi um tsunami tecnológico, que nos colocou tantas variáveis de convivência que a gente fica atordoado.

A lógica para minha geração foi mais fácil. Qual era a lógica? Crescer, estudar. Era escola, e dependendo da tua condição, faculdade. Não era comunicação em artes do corpo. Era direito, engenharia, tinha uma restrição.

Essa overdose de variáveis gerou dificuldade de fazer escolhas. Isso produz angústia em relação a esse polo do propósito. Por que faço o que estou fazendo? Faço por que me mandam ou por que desejo fazer? Tem uma série de questões que não existiam num mundo menos complexo.

Não foi à toa que a filosofia veio com força nos últimos vinte anos. Ela voltou porque grandes questões do tipo “para onde eu vou?”, “quem sou eu?”, vieram à tona.

Livro de Cortella foi lançado em julho e traz reflexão sobre trabalho

Livro de Cortella foi lançado em julho e traz reflexão sobre trabalho

 

BBC Brasil – Podemos dizer que nesse contexto vai ser cada vez menor o número de pessoas que não tem esses questionamentos?

Mario Sergio Cortella – Cada vez menor será o número de pessoas que não se incomoda com isso. O próprio mundo digital traz o tempo todo, nas redes sociais, a pergunta: “por que faço o que faço?”, “por que tomo essa posição?”. E aquilo que os blogs e os youtubers estão fazendo é uma provocação: seja inteiro, autêntico. É a expressão “seja você mesmo”, evite a vida de gado.


BBC Brasil – No seu livro, você fala da importância do reconhecimento no trabalho. Qual é ela?

Mario Sergio Cortella – O sentir-se reconhecido é sentir-se gostado. Esse reconhecimento é decisivo. A gente não pode imaginar que as pessoas se satisfaçam com a ideia de um sucesso avaliado pela conquista material. O reconhecimento faz com que você perca o anonimato em meio à vida em multidão.

No fundo, cada um de nós não deseja ser exclusivo, único, mas não quer ser apenas um. Eu sou um que importa. E sou assim porque é importante fazer o que faço e as pessoas gostam.

BBC Brasil – Pelo que vemos nas redes sociais, os jovens estão trazendo essa discussão de forma mais intensa. Você percebeu isso?

Mario Sergio Cortella – Há algum tempo tenho tido leitores cada vez mais jovens. Como me tornei meio pop, é comum estar andando num shopping e um grupo de adolescentes pedir para tirar foto.

Uma parcela dessa nova geração tem uma perturbação muito forte, em relação a não seguir uma rota. E não é uma recuperação do movimento hippie, que era a recusa à massificação e à destruição, ao mundo industrial.

Hoje é (a busca por) uma vida que não seja banal, em que eu faça sentido. É o que muitos falam de ‘deixar a minha marca na trajetória’. Isso é pré-renascentista. Aquela ideia do herói, de você deixar a sua marca, que antes, na idade média, era pelo combate.

O destaque agora é fazer bem a si e aos outros. Não é uma lógica franciscana, o “vamos sofrer sem reclamar”. É o contrário. Não sofrer, se não for necessário.

Uma das coisas que coloco no livro é que não há possibilidade de se conseguir algumas coisas sem esforço. Mas uma das frases que mais ouço dos jovens, e que para mim é muito estranha, é: quero fazer o que eu gosto.

'Tsunami tecnológico' gerou volta da busca por um propósito, diz Cortella

‘Tsunami tecnológico’ gerou volta da busca por um propósito, diz Cortella

 

BBC Brasil – Esse é um pensamento comum entre os jovens quando se fala em carreira.

Mario Sergio Cortella – Muito comum, mas está equivocado. Para fazer o que se gosta é necessário fazer várias coisas das quais não se gosta. Faz parte do processo.

Adoro dar aulas, sou professor há 42 anos, mas detesto corrigir provas. Não posso terceirizar a correção, porque a prova me mostra como estou ensinando.

Não é nem a retomada do ‘no pain, no gain’ (‘sem dor, não há ganho’). Mas é a lógica de que não dá para ter essa visão hedonista, idílica, do puro prazer. Isso é ilusório e gera sofrimento.

BBC Brasil – O sofrimento seria o choque da visão idílica com o que o mundo oferece?

Mario Sergio Cortella – A perturbação vem de um sonho que se distancia no cotidiano. No dia a dia, a pessoa se coloca como alguém que vai ter um grande legado, mas fica imaginando o legado como algo imediato.

Gosto de lembrar uma história com o Arthur Moreira Lima, o grande pianista. Ao terminar uma apresentação, um jovem chegou a ele e disse ‘adorei o concerto, daria a vida para tocar piano como você’. Ele respondeu: ‘eu dei’.

Há uma rarefação da ideia de esforço na nova geração. E falo no geral, não só da classe média. Tivemos uma facilitação da vida no país nos últimos 50 anos – nos tornamos muito mais ricos. Isso gerou nas crianças e jovens uma percepção imediatizada da satisfação das necessidades. Nas classes B e C têm menino de 20 anos que nunca lavou uma louça.

BBC Brasil – Quais as consequências dessa visão idealizada?

Mario Sergio Cortella – Uma parte da nova geração perde uma visão histórica desse processo. É tudo ‘já, ao mesmo tempo’. De nada adianta, numa segunda-feira, castigar uma criança de cinco anos dizendo: sábado você não vai ao cinema. A noção de tempo exige maturidade.

Vejo na convivência que essa geração tem uma visão mais imediatista. Vou mochilar e daí chego, me hospedo, consigo, e uma parte disso é possível pelo modo que a tecnologia favorece, mas não se sustenta por muito tempo.

Quando alguns colocam para si um objetivo que está muito abstrato, sofrem muito. Eu faço uma distinção sempre entre sonho e delírio. O sonho é um desejo factível. O delírio é um desejo que não tem factibilidade.

Muitos jovens querem deixar grande legado, mas não tem noção de esforço, diz filósofo

Muitos jovens querem deixar grande legado, mas não tem noção de esforço, diz filósofo

 

BBC Brasil – Muitos deliram nas suas aspirações?

Mario Sergio Cortella – Uma parte das pessoas delira. Ela delira imaginando o que pode ser sem construir os passos para que isso seja possível. Por que no campo do empreendedorismo existe um nível de fracasso muito forte? Porque se colocou mais o delírio do que a ideia de um sonho.

O sonho é aquilo que você constrói como um lugar onde quer conquistar e que exige etapas para chegar até lá, ferramentas, condições estruturais. O delírio enfeitiça.

BBC Brasil – Qual é o papel dos pais para que a busca pelo propósito dos jovens seja mais realista?

Mario Sergio Cortella – Alguns pais e mães usam uma expressão que é “quero poupar meus filhos daquilo que eu passei”. Sempre fico pensando: mas o que você passou? Você teve que lavar louça? Ou está falando de cortar lenha? Você está poupando ou está enfraquecendo? Há uma diferença. Quando você poupa alguém é de algo que não é necessário que ele faça.

Tem coisas que não são obrigatórias, mas são necessárias. Parte das crianças hoje considera a tarefa escolar uma ofensa, porque é um trabalho a ser feito. Ela se sente agredida que você passe uma tarefa.

Parte das famílias quer poupar e, em vez de poupar, enfraquece. Estamos formando uma geração um pouco mais fraca, que pega menos no serviço. Não estou usando a rabugice dos idosos, ‘ah, porque no meu tempo’. Não é isso, é o meu temor de uma geração que, ao ser colocada nessa condição, está sendo fragilizada.

BBC Brasil – Sempre lemos e ouvimos relatos de conflitos entre chefes e subordinados, alunos e professores. Como se explicam esses choques?

Mario Sergio Cortella – Criou-se um fosso pelo seguinte: crianças e jovens são criados por adultos, que são seus pais e mantêm com eles uma relação estranha de subordinação. A geração anterior sempre teve que cuidar da geração subsequente e essa vivia sob suas ordens.

A atual geração de pais e mães que têm filhos na faixa dos dez, doze anos, é extremamente subordinada. Como há por parte dos pais uma ausência grande de convivência, no tempo de convivência eles querem agradar. É a inversão da lógica. Eu queria ir bem na escola para os meus pais gostarem, não era só uma obrigação.

Essa lógica faz com que, quando o jovem vai conviver com um adulto que sobre ele terá uma tarefa de subordinação, na escola ou trabalho, haja um choque. Parte da nova geração chega nas empresas mal-educada. Ela não chega mal-escolarizada, chega mal-educada.

Não tem noção de hierarquia, de metas e prazos e acha que você é o pai dela. Obviamente que ela também chega com uma condição magnífica, que é percepção digital, um preparo maior em relação à tecnologia.

7 livros para entender a origem da corrupção no Brasil

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Raphael Martins, na Exame

São Paulo – A todo tempo, a corrupção é tema chave em qualquer discussão sobre política no Brasil. Mensalão, cartel de trens em São Paulo, Operação Lava Jato, contas secretas na Suíça e Operação Zelotes são só alguns dos últmos escândalos que movimentaram o noticiário do país.

Mas qual a origem de tantas ocorrências de atos corruptos na sociedade?

Atrás da respostas presentes na literatura especializada, EXAME.com foi atrás de cientistas políticos, professores universitários e de cursinhos preparatórios para vestibular em busca de uma seleção dos melhores livros para entender como a formação social do brasileiro influencia a representação política.

O resultado foi uma lista de sete livros que mostram como a corrupção está encrustada na população desde tempos longínquos, com ações que desencadearam uma cultura de desmandos já na época do Império até os dias de hoje, em que atitudes cotidianas reforçam esses hábitos do “jeitinho brasileiro”.

Veja nos slides um breve resumo dos livros e comentários dos estudiosos sobre cada um.

“Raízes do Brasil” – Sérgio Buarque de Holanda (1936)

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Raízes do Brasil é considerado pelos acadêmicos um dos clássicos da historiografia e ciências sociais brasileiras. Trata, em especial, da incapacidade social de separar vida pública e privada, ajudando a entender as bases do interesse.

“É uma obra que observa o surgimento do ‘homem cordial’ no Brasil, sempre hábeis em confundir interesses privados com o patrimônio público”, diz Gianpaolo Dorigo, do Curso Anglo. “É uma obra que foge do denuncismo tão característico de obras sobre o assunto. É um livro de História, escrito com bastante rigor e método e que acaba por desvendar as origens estruturais da corrupção no país.”

“Homens livres na ordem escravocrata” – Maria Sylvia de Carvalho Franco (1964)

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O livro é fruto de tese de doutorado de Maria Sylvia de Carvalho Franco, datada de 1964, e traz questões para entender a formação histórica da sociedade brasileira. Para Rodrigo Prando, sociólogo da Universidade Presbiteriana Mackenzie, esta é uma das leituras mais intrigantes para desvendar as possíveis origens da corrupção no Brasil, especialmente no seio dos órgãos públicos.

“O capítulo 3 é iluminador de certas práticas culturais muito comuns no país que podem ter gerado práticas corruptas, entre eles a confusão entre o patrimônio estatal e a propriedade privada”, diz o sociólogo.

“Desde o Império, a concentração da renda pública deixou os cofres municipais escassos. Recorria-se ao dinheiro do cidadão comum, então, muitas vezes, os recursos públicos foram apropriados por funcionários estatais ou por cidadãos ricos que haviam ‘emprestado’ ao município.”

“Os Donos do Poder” – Raymundo Faoro (1975)

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Faoro se utiliza de preceitos do direito, história e ciência política para formar um estudo para compreender a formação social do Brasil, desde a colônia até a Revolução de 1930. Tamanha a importância a obra, foi indicada por dois dos especialistas.

“É uma das principais obras do sociólogo e se destaca pela apresentação dos aspectos históricos associados à corrupção no contexto brasileiro”, diz Leonardo Nunes, analista político da Prospectiva Consultoria. “Faoro aponta no período colonial a origem da corrupção, que acaba se tornando parte da estrutura economia e política do país.”

Gianpaolo Dorigo é outro entusiasta. “É um livro que busca as origens da classe dirigente brasileira e a encontra em meio ao período colonial, quando a burocracia portuguesa acabou transplantando para o Brasil sua estrutura patrimonialista”, diz o coordenador de História do Curso Anglo.

“Carnavais, malandros e heróis: para uma sociologia do dilema brasileiro” – Roberto DaMatta (1997)

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Outra indicação de Rodrigo Prando, do Mackenzie, é de autoria de Roberto DaMatta. “Ele já pode, sem dúvidas, ser colocado no panteão de autores indispensáveis para se entender o Brasil”, diz.

Segundo o sociólogo, o título é fundamental pois o autor apresenta a dificuldade de se estabelecer relações sociais assentadas na igualdade de direitos e deveres, em relações impessoais.

“Aqui, no Brasil, não queremos ser tratados como indivíduos e sim como pessoas, ou seja, a partir de um conjunto de relações pessoais, fortemente marcadas pelo personalismo e familismo”, afirma. “DaMatta apresenta esse dilema brasileiro: como passar de uma sociedade relacional, personalista, para uma sociedade alicerçada na igualdade jurídica e abstrata, onde todos são iguais perante a lei”.

Trocando em miúdos, o que DaMatta indica é a problemática do “jeitinho brasileiro”, que busca resolver o conflito a partir de uma abordagem simpática e evitando o confronto.

“Esse jeitinho, como forma de navegação social, está presente em todos os segmentos da sociedade nacional, é, ainda, o uso da criatividade no cotidiano, mas, também, da constante burla das regras, recaindo na ‘malandragem’”, diz Prando. “Outra forma de resolver os conflitos, quando falha o ‘jeitinho’, é usar da posição hierárquica, tão bem expressa numa frase: ‘Você sabe com quem está falando?’. Ambos são presentes na arena da corrupção brasileira, seja ela uma ‘pequena’ contravenção até crimes envolvendo milhões de reais.”

“A Corrupção e a Economia Global” – Kimberly Ann Elliott (2002)

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Para mostrar como a corrupção não é um problema exclusivo do país, há também a indicação do livro “A Corrupção e a Economia Global”, de Kimberly Ann Elliott, que vasculha e expõe as causas e consequências da prática, colocando também em evidência toda a problemática para o desenvolvimento econômico ao redor do globo.

Em certo momento, discute-se também as melhores medidas de combate à corrupção e políticas de transparência que podem coibir o avanço do aparelhamento público e privado. A recomendação é de Leonardo Nunes, analista político da Prospectiva Consultoria.

“O livro desenvolve um panorama bastante completo (mais…)

“Começamos a sair da indigência educacional”, afirma educador Mario Sergio Cortella

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Rodrigo Andrade, no De Fato Online

educador Mario Sergio Cortella

Professor Mário Sergio Cortella aponta que embora tenha evoluído nos últimos 30 anos, Brasil ainda precisa galgar muitos passos na área da educação. DIVULGAÇÃO

“Saímos da UTI, mas continuamos na enfermaria”. A constatação é do professor, filósofo e escritor Mario Sergio Cortella ao analisar o cenário da educação brasileira. Uma das principais vozes dessa área no país, o especialista acredita que a situação melhorou nos últimos 30 anos, mas que ainda estamos distantes do ideal. O momento é de evoluir e aproveitar os novos métodos e pensamentos, mas sem deixar de lado tudo o que já se construiu.

Nascido em Londrina/PR, Mario Sergio Cortella, 60 anos, tem mestrado e doutorado em Educação. Atuou por 35 anos como professor titular da PUC-SP, leciona como convidado na Fundação Dom Cabral e ensinou no Programa de Educação Continuada da Fundação Getúlio Vargas (GVPEC). Possui mais de 20 livros publicados e também já atuou como secretário Municipal de Educação de São Paulo, entre 1991 e 1992.

Cortella é figura carimbada quando a educação está em debate. Tem colunas em importantes órgãos de imprensa e frequentemente está em programas de rádio e televisão. Na juventude experimentou a vida monástica em um convento da Ordem Carmelitana Descalça, mas abandonou a perspectiva de ser monge para seguir a carreira acadêmica. Estudou Filosofia e depois se dedicou à Educação. Partiu para o mestrado e em seguida para o doutorado. Nesse último nível, teve orientação de ninguém menos que Paulo Freire, considerado o Patrono da Pedagogia no Brasil.

No último dia 5 de agosto esteve em João Monlevade para ministrar palestra aos professores do município. Antes, porém, recebeu a equipe de DeFato para uma entrevista. O local não poderia ser mais adequado, uma biblioteca. Espaço para ideias e inspirações. E Cortella as tem em abundância. Confira:

O senhor sempre cita uma frase, de que “a vida é muito curta para ser pequena”. Qual o significado disso?
Essa frase é de um grande pensador britânico do século XIX e é curioso, porque algumas pessoas acham que essa frase é minha. Eu a cito, mas é de autoria do Benjamin Disraeli, que foi primeiro ministro da rainha Vitória. E o que ele quer dizer com essa frase é que nós já temos uma vida que não tem extensão muito grande, e apequená-la, isso é, torná-la banal, fútil, inútil ou superficial, é o que a gente não deve fazer. Por isso, uma vida com um propósito, uma vida com um sentido, com uma razão de ser é o que temos que procurar. Afinal de contas, a vida é um mistério estupendo e, acima de tudo, para nós é uma dádiva. Perdê-la com tolice, com superficialidade, com egoísmo, com desperdício de existência é uma forma de apequená-la. Esse é o sentido da frase.

O que apequena a vida da gente hoje?
Em grande medida duas coisas que são extremamente negativas: de um lado o individualismo exacerbado, isso é, a aceitação malévola de que a regra da vida é cada um por si e Deus por todos, ao invés de ser o que tem que ser que é um por todos e todos por um; e em segundo lugar uma “consulmolatria”, um desespero adorado pelo consumo no qual se confundi abundância com desperdício, com sobra inútil. Temos, portanto, a formação das gerações dentro dessas perspectivas. Há uma frase antiga de que o mundo que nós vamos deixar para os nossos filhos depende dos filhos que nós vamos deixar para o mundo. E há uma formação hoje dos jovens dentro dessa lógica de consumo. Não de uso das coisas, mas de um consumo desesperador, a tal ponto de que hoje, para uma parte das famílias, aliás para quase a totalidade, e para as crianças, sair de casa para passear é sinônimo de comprar alguma coisa. Isso é, se não comprou algo, parece que não saiu. Sendo que se deve sair para caminhar, para ver a lua juntos, para ver formiga trabalhar, para sentar na beira da grama. Ou seja, coisas que dão o sentido que não é um uso tolo das coisas que se tem. E é claro que as duas coisas se conectam, porque no mundo da empresa, no mundo da família, no mundo da cidade, quem admite essa ideia do individualismo tem como lema a ideia do fazemos qualquer negócio. E há negócios que não devem ser feitos. Aqueles que tornam a vida imunda, que tornam a tua trajetória banal e a tua existência indigna. Portanto, desse ponto de vista isso é marcante nos tempos atuais, mas não é invencível. Isso é só uma característica. Na história da humanidade, grandes momentos graves também puderam dar a luz a uma nova situação.

No doutorado, o senhor foi orientado por Paulo Freire, que propôs um método diferente para a pedagogia, com base no criticismo. Ele recebeu o título de “Patrono da Educação Brasileira”. O Brasil que dá essa consideração a Paulo Freire, segue seus preceitos?
Uma parte. Você tem uma parte de pessoas no país que utiliza a metodologia Paulo Freire. A gente precisa fazer uma distinção entre metodologia e método. Metodologia é tua concepção sobre educação, a sua filosofia sobre o trabalho pedagógico. Método é o procedimento, o caminho. Por exemplo, você tem o método Paulo Freire para alfabetização de adultos, que não tem serventia direta para as crianças, mas tem uma metodologia Paulo Freire que serve para a educação em geral. Que é a ideia de que a escola tem de estar conectada com a realidade do aluno, a percepção dialógica de convivência, a formação permanente de educadores escolares. Portanto, a filosofia de educação Paulo Freire, sua metodologia, ela se estende para várias áreas, em qualquer nível de ensino. Já o método, aquele com o qual ficou mais conhecido na aula Pedagogia do Oprimido, é mais específico para educação de jovens e adultos. Não é exclusivo, mas é o mais recomendado. Agora, o Brasil em relação ao método Paulo Freire, o Mova, que é o Movimento de Alfabetização de Jovens e Adultos, existe pelo país afora, é apoiado por várias prefeituras, independentemente do partido. A metodologia ocupa com grande força parte do trabalho que fazemos. Lembrar que tudo isso é Paulo Freira já é mais rarefeito. Paulo Freire escreveu tudo isso há quase 50 anos, e produziu uma experiência concreta há meio século. No ano passado completamos exatamente 50 anos da experiência realizada em Angicos, no Rio Grande do Norte. Portanto, nesse meio século, nós lemos e discutimos tanto isso que Paulo Freire escreveu, que hoje a gente volta a ler Paulo Freire e acha ele óbvio. E a gente só o acha óbvio porque foi exatamente ele que disse aquilo que nós passamos os últimos 50 anos estudando em outros lugares. Por isso ele é menos reconhecido até no nosso país, mas tem uma presença mundial que é marcante. E ele é o patrono da educação brasileira tal como Caxias é do Exército, Tamandaré da Marinha.

Em recente entrevista a DeFato, o especialista em empreendedorismo Fernando Dolabela criticou o modelo educacional atual, por considerar que “mata a criatividade” dos alunos. Concorda?
Sim. Se você observa, nós temos uma grande disfunção, quase que um anacronismo dentro dessa atividade. Por exemplo, nossos alunos são do século XXI, nós docentes somos do século XX e uma parte das metodologias e organizações é do século XIX. Claro que há uma anacronia, uma perda de relação de tempo quanto a isso. Uma parcela do que a escola faz é ultrapassada, mas nem tudo. A gente não deve confundir na vida aquilo que é antigo com aquilo que é velho. Tem coisas na educação escolar que são antigas, mas não são velhas. A aula expositiva é antiga, mas não é velha. A atenção aos conteúdos é antiga, mas não é velha. A relação com a comunidade escolar é antiga, mas não é velha. O que é velho? É o autoritarismo, o desprezo à participação do docente e do discente na relação de gestão, a descaracterização da presença do aluno na capacidade de também ele gerar conhecimento, isso tudo é velho. Por isso, em mundo de mudanças, nós usamos cautela para não sermos mudancistas, isso é, acabarmos caindo em uma armadilha que é nos fixarmos de mais na novidade e deixar aquilo que é novo de lado. Tem muita coisa que é mera novidade. A novidade vem, produz uma certa mudança e vai embora. E tem coisas que são novas. Elas ficam no tempo. A obra de Guimarães Rosa é nova, o pensamento de Platão é novo, a música de Catulo da Paixão Cearense, a pintura de Aleijadinho. Isso não é novidade, persiste no tempo e não fica ultrapassado, mantém vitalidade. Por isso, Dolabela está correto ao levantar que uma parte daquilo que hoje é escola é, de fato, anacrônica, mas nem tudo.

Então, em que estágio estamos?
Temos de ter cautela para não supor que se possa desmontar tudo aquilo que se faz e se fez na área da educação e construir outra coisa. Educação lida com processo. E o processo se dá com pessoas no tempo. Por isso que se olharmos hoje a educação brasileira, não podemos ter uma visão catastrofista, que é de achar que as coisas não funcionam, e nem triunfalista, de achar que já resolvemos tudo. Nosso país, nos últimos trinta anos, começou a sair da indigência educacional. Nos dois governos do Fernando Henrique, nos dois do Lula e agora da Dilma nós começamos a sair da indigência. Saímos da UTI, mas continuamos na enfermaria. Ainda não tivemos alta e demoraremos um pouco para tê-la, mas nós estamos numa condição absolutamente superior ao que nós tínhamos em outros tempos. O que significa que a escola tem que se preparar para isso. Aliás, essa é a razão para a minha palestra aqui em Monlevade.

Pois é, o que é dito nessa palestra? O senhor aconselha professores?
Não. Não aconselho, eu trago reflexão. Eles são especialistas em algo que eu não sou, que é educação básica. Seria curioso que eu os aconselhasse, eu nunca alfabetizei uma criança, nunca ensinei fora do ensino superior. Eles é que podem me aconselhar em relação a isso. Eu posso, sim, trazê-los a refletir um pouco sobre a atitude docente, em relação à perspectiva avaliativa metodológica, à presença do conhecimento no nosso cotidiano, tudo aquilo que é minha área, como alguém do campo da filosofia e da educação. Por isso a intenção não é nem admoestá-los, não é chamar atenção deles negativamente e nem ensiná-los algo que eles já sabem melhor do que eu. Mas é não deixá-los tranquilos, supondo que as coisas só porque eles já sabem fazer desse modo seja o único jeito possível. Tem um viés que é incomodativo, mas no sentido pedagógico do tema. Provocar um pouco a reflexão de maneira que os educadores sejam capazes de fazer melhor aquilo que estão fazendo.

O que pensa do sistema de cotas?
Eu sou absolutamente favorável a sistema de cotas emergencialmente no campo da atividade escolar, no serviço público e em algumas das estruturas em que se passa por um sistema seletivo de duas maneiras: o processo seletivo por entrevista, que de maneira geral descarta aquele que não tem o padrão usual, isso na área privada; e na área pública a possibilidade de se retomar o fôlego que se perdeu com uma situação agravada com alguns séculos de escravatura. Portanto, é uma solução emergencial que não pode durar mais do que três décadas, e nosso país talvez adiante isso para duas. A nação norte-americana fez políticas afirmativas por três décadas e tem hoje um presidente que é afrodescendente. Jamais haveria uma Condoleezza Rice, ou um Colin Powell como general do exército se não fosse a política afirmativa. Obama nunca teria entrado em Harvard, por mais que ele seja capacitado. Quando alguém diz para mim assim: mas isso é um privilégio. Eu respondo: Não, isso é uma recuperação de uma injustiça por um período determinado. Quando alguns argumentam comigo que desejariam que tudo fosse na base da igualdade, minha pergunta é mais simples: Você é a favor de retirar as UTIs dos hospitais? Porque o argumento é o mesmo. Por que alguns são atendidos nos quartos de enfermaria e outros têm direito a uma UTI com boa aparelhagem. Ué, porque ele está em uma situação pior. Ótimo, isso é a cota. Aquele que está em uma situação desvalida durante um período recebe um atendimento prioritário. Assim que a gente conseguir equalizar e não houver mais necessidade de se colocar alguém em uma UTI, aí não haverá UTI para ninguém.

O senhor tem um livro de título “Política para não ser idiota”. Em época de eleição, como se enquadra esse termo “idiota”?
Há uma frase antiga, que está nesse livro, que diz que os ausentes nunca têm razão. Portanto, numa estrutura de diversidade, de confronto, colocar-se como neutro ou ausente é ser cúmplice da negatividade. As pessoas precisam entender que a democracia tem as eleições como um patrimônio e não um encargo. E muitas vezes a gente olha o período eleitoral como sendo um encargo. Eu preciso ouvir um programa, preciso ler, preciso assistir, preciso ir votar. Isso não é encargo, é patrimônio. É só você ter um movimento inverso, isso é, a ausência de democracia, para perceber o quanto isso é um patrimônio. Por outro lado, o cidadão tem responsabilidade em relação a essa questão. Afinal, é ele que faz a escolha. E se é ele que faz a escolha, ele que faça a escolha certa para não ser alvo de si mesmo.

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