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No Brasil, uma de cada cinco crianças de oito anos não sabe ler

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O Ministério da Educação (MEC) divulgou nesta quinta-feira (17), os dados da Avaliação Nacional de Alfabetização, que mede aprendizado de leitura, escrita e matemática

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Publicado em Veja

Quando chegam ao fim do terceiro ano do Ensino Fundamental, uma em cada cinco crianças de oito anos (22,2%) não consegue ler uma frase inteira. Nesse período, em que deveriam estar completamente alfabetizadas, elas decifram apenas algumas palavras isoladas, de acordo com os dados da Avaliação Nacional de Alfabetização (ANA), divulgados pelo Ministério da Educação (MEC), nesta quinta-feira (17).

Além disso, mais da metade dos alunos (56,17%) só é capaz de encontrar uma informação em textos se ela estiver na primeira linha, o que revela o baixo fôlego de leitura dos alunos. Se precisa escrever um texto, um em cada três estudantes (34,4%) produz frases ilegíveis, com troca ou omissão de letras nas palavras. Em matemática, a maioria dos estudantes (57%) não consegue solucionar questões com números maiores que 20 ou ler as horas em um relógio de ponteiros.

A avaliação do MEC mede as habilidades de leitura, escrita e matemática de todos os alunos do país até o terceiro ano do Ensino Fundamental. No ano passado, os cerca de 2,3 milhões de estudantes de 49 000 escolas públicas dessa etapa foram avaliados de acordo com o nível em que se encontram nas três áreas. Na escala de leitura, por exemplo, o nível 1, onde estão 22,2% das crianças, é considerado inadequado. Na de escrita, os níveis 1 a 3, em que estão 34,4% dos alunos, são inadequados.

Em evento em São Paulo, nesta terça-feira (15), o ministro da Educação, Renato Janine Ribeiro, adiantou que os níveis 1 e 2 da avaliação “inquietam”. “Em países desenvolvidos e em boas escolas, as crianças estão alfabetizadas muito antes dos oito anos e isso precisa ser uma meta no Brasil”, afirmou.

Diferenças por Estado – No país, as regiões Norte e Nordeste têm os piores resultados. Na escrita, apenas 3,72% dos estudantes do Nordeste e 4,12% do Norte alcançaram o melhor nível da avaliação. No Sul e Sudeste, o registro de alunos nesse patamar foi, respectivamente, de 32,55% e 36,13%. Para a escrita alcançar o melhor nível de avaliação, os estudantes precisam ter capacidade de escrever palavras com diferentes estruturas silábicas e um texto corretamente e com coerência.

Na leitura, apenas sete Estados (Ceará, Distrito Federal, Espírito Santo, Minas Gerais, Paraná, Santa Catarina e São Paulo) alcançaram resultados positivos, ou seja, mais de 50% dos alunos ficaram nos níveis mais altos.

Em matemática, alunos de cinco Estados (Distrito Federal, Minas Gerais, Paraná, Santa Catarina e São Paulo) alcançaram as notas mais altas. Nos outros 22 Estados, as notas ficaram nos níveis mais baixos de aprendizado.

Matemática – De acordo com os resultados da ANA, 17,7% dos estudantes brasileiros estão no nível 3 em matemática, ou seja, são capazes de solucionar problemas com números maiores de 20 e fazer divisões exatas com o apoio de imagens. No nível 4, o mais alto da escala, estão um quarto dos estudantes (25,15%). Eles conseguem ler as horas em relógios analógicos, alguns elementos em gráficos de barras e são capazes de fazer subtrações com centenas e divisões em partes iguais sem o auxílio de imagens.

De acordo com o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), órgão do MEC responsável pela ANA, os resultados do exame de matemática estão ligados às notas da avaliação de leitura, pois, para interpretar os problemas e transformá-los em cálculos é necessária a habilidade de leitura e compreensão dos enunciados.

Exame cancelado – A ANA foi criada com o Pacto Nacional da Alfabetização na Idade Certa (PNAIC), lançado pela presidente Dilma Rousseff em 2012. Os indicadores de 2014 são semelhantes aos números de 2013, primeiro ano em que a avaliação foi feita. Na época, o MEC não divulgou oficialmente os dados da edição por considerá-los apenas um diagnóstico inicial.

Em relação à edição anterior da ANA, houve estagnação nos indicadores. Naquele ano, 57% dos alunos ficaram nos dois primeiros níveis de leitura. Em Matemática o porcentual foi de 58%. Já em escrita, 41,5% haviam ficado nos dois patamares inferiores – à época, a escala usada era de quatro níveis (este ano são cinco).

No início de julho, o MEC cancelou a realização da ANA de 2015. De acordo com o professor Francisco Soares, presidente do Inep, a decisão refletiu a necessidade de cortes financeiros, mas também questões pedagógicas. “Todos tinham de contribuir (com o ajuste fiscal). Mas tem um caráter pedagógico importante”, disse. Há a possibilidade de que a prova seja aplicada a cada dois anos.

Estereótipo de que ‘matematica é para garotos’ afasta meninas da tecnologia, diz pesquisador

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Psicólogo Andrew Meltzoff diz que, aos sete anos, garotas já absorveram dos adultos a ideia de que são inferiores em matemática aos meninos, mesmo que suas notas digam o contrário.

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Publicado em G1

A crença no estereótipo de que homens têm mais habilidade em matemática do que mulheres pode ser absorvida por meninas mais cedo do que se imaginava – e contribuir para afastar mulheres de campos como engenharia e ciências da computação, segundo o psicólogo americano Andrew Meltzoff.

Meltzoff, Ph.D. em Oxford, é especialista em desenvolvimento infantil e co-diretor do Instituto de Aprendizado e Ciências do Cérebro da Universidade de Washington, nos Estados Unidos. Suas descobertas sobre a memória e a capacidade de imitação de crianças nos primeiros meses de vida revolucionaram estudos científicos sobre o desenvolvimento da personalidade, do cérebro e das capacidades cognitivas humanas.

Ele esteve no Brasil no último mês de julho para participar de conferências sobre estudos do cérebro e de uma mesa redonda da Academia Brasileira de Ciências sobre o aprendizado das disciplinas conhecidas pela sigla em inglês STEM – ciência, tecnologia, engenharia e matemática.

Meltzoff falou sobre o poder dos estereótipos culturais no aprendizado das crianças, o principal tema ao qual sua equipe de pesquisadores tem se dedicado nos últimos anos.

“Nos Estados Unidos, as crianças só começam a aprender as operações de multiplicação e divisão no 3º ano. Mas nossas experiências mostram que, antes mesmo de começar a aprender matemática mais complexa, elas já ‘pegaram’ o estereótipo cultural de que matemática é para meninos”, disse, durante a conferência.

Segundo ele, a ideia de que os garotos seriam melhores nas ciências naturais e as meninas, nas ciências humanas, contribui para a baixa proporção de mulheres nos cursos universitários ligados à área e, principalmente, nas empresas de tecnologia.

“Na Universidade de Washington, 46% do departamento de psicologia é de mulheres, mas só 14% do departamento de matemática. Na Universidade de Stanford é semelhante, só 3% do departamento de matemática é de mulheres. Em Harvard e no MIT, os valores são ainda menores”, afirmou.

No Brasil, cursos de engenharia de computação nas principais universidades do país tiveram cerca de 11% de mulheres aprovadas nos vestibulares de 2015. Para Meltzoff, o caminho para impedir que estereótipos sobre homens e mulheres desestimulem meninas a seguir carreira nas disciplinas STEM é manter um diálogo aberto com os filhos desde o início da infância.

Confira os principais trechos da entrevista:

BBC Brasil – O que exatamente são estereótipos culturais? E que tipo de influência eles exercem nas pessoas?

Andrew Meltzoff – Estereótipos são imagens que temos em nossas mentes, que traduzem crenças gerais que temos sobre grupos de pessoas. Eles não são necessariamente verdade, mas, sim, crenças que temos sobre categorias sociais.

É uma tendência natural dos seres humanos formar estereótipos sobre um grupo. Isso simplifica nossa visão de mundo, porque não temos que pensar sobre e responder a cada indivíduo em um grupo, mas formamos uma representação que funciona para todo o grupo.

Isso é simples, mas pode ter efeitos negativos. Um deles é que tendemos a usar o estereótipo para fazer previsões sobre as pessoas. Posso ter um estereótipo de que “homens se interessam por suas carreiras e mulheres, em cuidar da família”, por exemplo. Mas mesmo que alguns homens se interessem mais por suas carreiras do que pela família, isso não é verdade para todos eles.

BBC Brasil – Em que momento da nossa vida estes estereótipos começam a ser assimilados? E como isto acontece?

Andrew Meltzoff – Estamos muito interessados em determinar o momento em que o estereótipo começa e quão cedo no desenvolvimento da criança podemos ver os primeiros sinais de estereótipos. Temos uma grande equipe trabalhando nisso no Instituto de Aprendizado e Ciências do Cérebro na Universidade de Washington.

Publicamos um artigo científico mostrando que estereótipos sobre garotos e garotas relacionados com matemática e leitura começam a aparecer surpreendentemente cedo. A maior parte dos adultos mantém o estereótipo de que garotos se identificam mais com matemática e garotas, com leitura.

Em um estudo que publicamos em 2011, descobrimos que crianças do segundo ano escolar (entre seis e oito anos) já têm esse estereótipo. A maioria das meninas e meninos acha que matemática é coisa de homens. No entanto, eles têm desempenho semelhante em matemática na escola nesta idade. Os meninos não se saem melhor do que as meninas.

Por isso, acreditamos que as crianças adquirem essa crença da cultura que as rodeia. Elas absorvem este estereótipo da cultura adulta.

BBC Brasil – Por que estereótipos culturais são tão importantes no desenvolvimento das crianças?

Meltzoff – Eles são importantes porque podem influenciar a maneira como as crianças pensam umas sobre as outras. Se uma criança acredita que meninas não são boas em matemática, ela tende a tratar as garotas como se não gostassem de números, calculadoras, aritmética ou robôs, por exemplo.

Se as meninas são tratadas assim, e há uma expectativa social ampla de que matemática não é para garotas, elas podem começar a internalizar isso. Elas podem escolher jogos matemáticos com menos frequência, ou serem menos persistentes em problemas matemáticos difíceis, porque elas acham que “meninas não são boas em matemática” ou “matemática não é para mim”.

Com o tempo, isso pode influenciar o conceito que elas têm de si mesmas e suas aspirações para o futuro.

E se a menina é boa em matemática – e muitas são – terá que dedicar energia e tempo extra para lutar contra o estereótipo dos outros. É trágico quando restringimos os sonhos das crianças sobre o que elas podem fazer, o que podem ser e o que podem alcançar.

BBC Brasil – O senhor disse acreditar que o mesmo estereótipo em relação a garotas e matemática exista na América Latina e na Europa. O que sabe sobre os estereótipos culturais sobre gênero no Brasil?

Andrew Meltzoff – Ainda não fizemos este trabalho com as crianças no Brasil, mas adoraríamos colaborar com educadores e cientistas para abordar esse tema, como estamos fazendo no Chile. Mas se você me pede uma opinião, eu diria que sim, as crianças no Brasil e na América Latina também acham que matemática é para garotos e leitura, para garotas.

Será preciso mais pesquisas para saber quão forte é esta crença na América Latina e como ele pode influenciar a performance delas em matemática. O governo brasileiro, assim como o governo americano, quer que suas crianças se interessem mais pelas disciplinas STEM e tenham notas melhores nos testes internacionais.

O que acredito, no momento, é que os estereótipos da sociedade começam a afetar até a performance acadêmica de nossas crianças muito cedo no desenvolvimento delas (na escola primária ou até antes). Por causa deles, os resultados do Brasil e dos EUA nestes testes não são tão bons quanto poderiam ser. Precisamos realizar estudos para saber se isso é realmente verdade. E se for, precisamos fazer algo a respeito!

BBC Brasil – Mas garotos e garotas demonstram habilidades diferentes em disciplinas STEM desde cedo?

Meltzoff – Muitos adultos acham que as meninas têm resultados piores do que os meninos em matemática, mas, na maioria dos países, elas têm notas maiores do que as dos meninos nos primeiros anos da escola.

Os testes padronizados de muitos países também mostram que não há diferença nas performances de garotas e garotos. Em alguns destes países, na verdade, as meninas se saem melhor do que os meninos nos exames. Este assunto é de grande interesse científico e é, como você pode imaginar, muito controverso.

Quando fui ao Brasil, esta é uma das coisas que mais me perguntaram. Há diferenças biológicas nas habilidades STEM? Existem forças culturais que empurram meninas e mulheres para longe dos campos STEM? Precisamos de estudos objetivos muito bons para responder a estas questões.

BBC Brasil – Como o senhor acha que esses estereótipos influenciam o número de mulheres em campos STEM? Os baixos índices encontrados nos EUA também são comuns em outros países?

Meltzoff – Sim, sabe-se que há muito poucas mulheres em geral nos campos STEM, especialmente na altamente influente indústria das ciências da computação. Estereótipos e expectativas culturais podem levar a um número menor de mulheres na escola ou na universidade entrando em disciplinas que as preparam para carreiras na ciência da computação.

Se as mulheres não se inscreverem nestas aulas tanto quanto os homens, acabaremos com menos mulheres na indústria. Em alguns campos STEM, começamos a perder muitas mulheres cedo em suas trajetórias acadêmicas. Já escrevemos alguns artigos sobre isso. Talvez possamos atrair mais mulheres para a ciência da computação se entendermos melhor o que as está afastando disso.

BBC Brasil – Por que é importante ter mais mulheres nos campos STEM e, especialmente, em ciência da computação?

Meltzoff – Há dois motivos. O primeiro é a equidade social. Ciência da computação é um campo com muitos empregos lucrativos. Não é justo termos tão poucas mulheres neste campo. O segundo motivo é que o próprio campo será beneficiado ao trazer mais mentes criativas e brilhantes com outras perspectivas.

Se desencorajamos muitos estudantes a permanecer neste campo, nos prejudicamos como sociedade. Ao trazer mais mulheres e minorias subrepresentadas no campo, podemos melhorar os tipos de jogos criados, os tipos de software.

BBC Brasil – Que tipo de trabalho o senhor e sua equipe estão desenvolvendo para recrutar mais garotas para campos STEM? Que países se mostraram interessados nestas ideias?

Meltzoff – Nossa pesquisa mostra que o ambiente físico é muito importante para a maneira como as mulheres enxergam a ciência da computação. Publicamos recentemente um estudo que mostra que mais mulheres se interessam por aulas de ciência da computação se a sala de aula não for tão geeky.

Se a sala tinha pôsteres de Jornada nas Estrelas e estátuas de Spock em todos os lugares, menos garotas do ensino médio queriam estar na aula do que se a sala tivesse itens mais neutros na decoração. Usando análises estatísticas, descobrimos que as garotas sentiam que não “pertenciam” ao ambiente mais geeky e achavam que teriam notas menores.

Isso é interessante porque mostra que a decoração de uma sala pode projetar estereótipos que podem afastar as garotas da disciplina. Elas se afastavam porque não sentiam que aquilo correspondia à sua identidade como mulher.

Pessoas tanto na educação quanto na indústria já expressaram interesse nisso. É relativamente barato mudar o ambiente das salas de aula e escritórios. E pode fazer a diferença.

Espanha e Cingapura demonstraram muito interesse em ideias para intervenções que atraiam mais garotas para a matemática nos primeiros anos escolares. Achamos que mais países ficarão interessados quando obtivermos resultados de nossos testes lá.

BBC Brasil – Como os pais podem saber em quais estereótipos sobre gênero seus filhos acreditam?

Meltzoff – Desde a escola primária, os pais podem perguntar aos filhos quem gosta mais de matemática – se meninos ou meninas. Quem gosta de robôs? Quem gosta mais de ler? Estas são questões simples que mostram estereótipos que as crianças podem estar absorvendo.

Falar com os filhos sobre as coisas em que eles acreditam pode abrir os olhos dos pais. E falar sobre essas coisas é útil. Não faz sentido ignorar esses assuntos. Estereótipos existem. As crianças percebem isso. Não dá para fingir que não vemos esses estereótipos, só não temos que apoiá-los!

Há estereótipos nos meios de comunicação, em filmes, em livros, em lojas. Nossas crianças crescerão expostas a eles. Mas podemos ensiná-las a não aplicar estes estereótipos nelas mesmas e não deixar que eles limitem seus sonhos e visões de futuro.

Os estereótipos podem ser difundidos na sociedade, mas não determinam nosso destino. Os pais podem ajudar nisso.

Vovô italiano completa Ensino Fundamental aos 91 anos

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Nicola Torello ‘gabaritou’ provas de matemática, inglês e redação; ele agora quer aprender a usar computador.

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Publicado no G1

Aos 91 anos, um vovô italiano acaba de conseguir um feito extraordinário: concluir o Ensino Fundamental – e com distinção.

Nicola Torello frequentou a escola todos os dias nos últimos meses para se preparar para os exames finais, segundo o site de notícias Chieti Today.

Ele ‘gabaritou’ as provas de matemática, inglês e redação ─ esta última com uma dissertação sobre Alessandro Manzoni, um dos escritores mais famosos da Itália.

Torello passou a vida trabalhando como alfaiate, mas diz ter passado experiências inesquecíveis quando voltou aos bancos escolares: em uma de suas redações, ele relembrou com emoção quando lutou pela Grécia durante a 2ª Guerra Mundial com apenas 19 anos.

Pelo feito, o italiano ganhou uma grande festa, organizada por seus quatro filhos, seis netos e professores. Até o prefeito da cidade de Chieti, na região central de Abruzzo, participou do evento para parabenizá-lo, segundo a imprensa local.

Torello, que completará 92 anos em outubro, parece estar empolgado com a conquista. Ele agora quer aprofundar seus conhecimentos em tecnologia.

“Quero aprender a usar o computador”, disse ele.

“Quero continuar a aprender, porque gosto de ter a agenda cheia”, acrescentou.

Escola maior tende a ser melhor para a formação, diz ministro

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Fábio Takahashi, em Folha de S.Paulo

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Divulgados na semana passada, os resultados do Enem trazem atualmente diversas informações além das notas. Para o ministro da Educação, Renato Janine Ribeiro, os pais devem estar especialmente atentos ao tamanho das escolas.

“Tendo a dizer: procure uma escola maior. Ali, seu filho terá contato com pessoas mais diferentes entre si”, disse o ministro à Folha.

A decisão não é simples, porque os colégios com as melhores notas no Enem costumam ser pequenos (os quatro primeiros têm entre 31 e 60 estudantes no final do ensino médio).

A seguir, a entrevista com o ministro, que falou também sobre medidas que devem ser adotadas para melhorar o ensino médio e o peso da desigualdade social nas notas.

Folha – Qual a avaliação do sr. sobre os resultados do Enem?

Renato Janine Ribeiro – Queremos mostrar que os resultados não são apenas fruto de mérito pessoal, do estudo, mas há componentes sociais fortes. O objetivo não é desqualificar os resultados ou o Enem. É entender como podemos melhorar a escola e o aluno. Quais fatores são internos e externos às escolas? Desigualdade social é externa à escola, tem um peso impressionante e é opressora. Fatores internos têm peso menor, mas papel libertador [podem melhorar a situação do jovem]. Você não consegue assegurar igualdade de oportunidades só pela escola.

O sr. quer dizer que enquanto a desigualdade social não diminuir a educacional também não diminui?

Nossas políticas enfrentam a desigualdade educacional. Mas a social ainda é muito cruel. Não é desigualdade administrável, como na França, Inglaterra ou EUA.

Esse discurso não enfraquece a mobilização para melhorar a qualidade do ensino?

É apenas um retrato da realidade. Não tira nada da escola, que tem um papel. Mas não podemos culpar o aluno pobre pela nota ruim. Nem considerar que o muito rico alcançou notas altas apenas a partir de seu mérito.

O mérito maior vem das escolas públicas, simples, que conseguem bons resultados, mesmo com alunos pobres. Não das escolas que selecionam alunos, excluem os que têm problemas ou aliciam bons estudantes de outras escolas para o 3º ano do ensino médio (quando o Enem vale para a nota do colégio).

O maior número de indicadores divulgados visa diminuir essas práticas?

Estamos colocando o dedo na ferida, apontando procedimentos que não são escolares e distorcem o verdadeiro mérito. Mas nossa meta mesmo é saber o que na escola melhora a nota.

E o que é?

Professores com melhor formação, que lecionam em apenas uma escola, e estabilidade no corpo docente são alguns dos exemplos. Mas a diferença na nota no Enem entre os mais ricos e os miseráveis é 611 contra 429 [pontos]. Para o miserável chegar lá é muito complicado. Queremos que ele chegue lá.

E como fazer isso?

Parte da responsabilidade é da educação, parte fora. Por exemplo, a busca ativa do Ministério do Desenvolvimento Social, que vai atrás de quem é miserável [e não é beneficiário de programas federais]. A intervenção não é só educativa. Mas ela ajuda.

E quando o ensino médio de fato vai melhorar?

Não dá para dizer. Sobre o que fazer há alguns pontos. Fortalecer português, matemática e ciências. E articular melhor as matérias.

Sobre a articulação, há uma discussão no governo sobre o currículo. E sobre a carga maior de português, matemática e ciências, o que sr. pretende fazer?

Podemos fortalecê-las no contra-turno, além do português, sem sacrificar as humanas. Inicialmente, penso em fazer isso nos institutos técnicos federais, que têm ensino médio. Pode ser modelo para as demais escolas.

Voltando aos resultados do Enem, que sugestão o sr. daria para famílias que estão escolhendo escolas?

Depende de várias coisas. Se tem dinheiro para mensalidade ou se vai para a escola pública. Escolha uma escola perto de casa, que não estresse o aluno indo e voltando.

A nota do Enem é importante. Você pode identificar várias escolas da região, mas deve visitá-las. E, hoje, quando você olha na tabela do Enem, há diversos indicadores: se a escola atende classes sociais mais pobres, se tem permanência longa dos alunos e se é grande.

Tendo a dizer: procure uma escola maior. Ali, seu filho terá contato com pessoas mais diferentes entre si. Vai conhecer o preguiçoso, o esforçado, o desobediente, tipos de pessoas que ele encontrará na vida. Numa escola pequena, as pessoas podem ser muito parecidas. A nota pode ser maior, porque é mais fácil dar aula para estudantes parecidos. Mas, no futuro, o garoto ou a garota não vai conseguir lidar com um mundo cada vez mais complexo.

Esse convívio compensa a nota menor no Enem?

Claro que, se a escola é ruim, tem de sair. Mas a partir de determinado patamar… A escola não é apenas aulas. Tem muito material na internet, a pessoa pode ler romances. É mais importante para a pessoa sentir que está se formando. Mais importante do que saber os afluentes das margens esquerda e direita do rio Amazonas é saber pensar.

Alunos brasileiros têm baixo nível de aprendizagem em exame da Unesco

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Teste avaliou o desempenho de 134 mil estudantes do ensino fundamental em matemática, leitura e ciências naturais em 15 países

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Renata Mariz, em O Globo

A maioria dos alunos brasileiros ficou nos níveis mais baixos de aprendizagem (I e II, em uma escala que vai até IV) nos resultados do Terceiro Estudo Regional Comparativo e Explicativo (Terce), divulgados nesta manhã em Santiago (Chile). Coordenado pelo Escritório Regional de Educação da UNESCO para América Latina e o Caribe, o Terce avaliou o desempenho escolar de estudantes do ensino fundamental em matemática, leitura e ciências naturais de 15 países.

Em matemática, 83,3% dos estudantes brasileiros do 7º ano e 60,3% dos que cursavam o 4º ano ficaram nos níveis I e II. Apenas 4% e 12%, respectivamente, tiveram menção máxima, no nível IV, na disciplina. Em leitura, no 4º ano, foram 55,3% nos dois primeiros níveis. Entre os alunos do 7º ano, o índice foi de 63,2%. Em ciências naturais, 80,1% também ocuparam as duas classificações mais baixas.

O Chile é o país que mais se destaca, com índices elevados no nível IV: 39,9% em leitura (3ª série), 34,2% em leitura (6ª série), 21,9% em matemática (3ª série), 18,4% em matemática (6ª série) e 18% em ciências naturais (6ª série). O Terce envolveu mais de 134 mil alunos de 15 países e do estado mexicano de Nuevo León. No Brasil, passaram pelo teste estudantes do 4º ao 7º ano. Nos demais países, os participantes cursavam da 3ª à 6ª série.

Os países que participam do Terce são Argentina, Brasil, Chile, Colômbia, Costa Rica, Equador, Guatemala, Honduras, México, Nicarágua, Panamá, Paraguai, Peru, República Dominicana e Uruguai, além do estado mexicano de Nuevo León. Notas dos alunos em cada disciplina foram divulgadas em 2014. O relatório apresentado hoje mostra a distribuição dos estudantes por níveis de aprendizado.

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