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Aluno corta redes sociais e passa em nove universidades de medicina

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Ângelo Cavalcanti, de Suzano, foi aprovado em nove universidades de medicina. Ele também gabaritou em química e biologia na Fuvest (Foto: Angelo Cavalcanti/ Arquivo Pessoal)

Ângelo Cavalcanti, de Suzano, foi aprovado em nove universidades de medicina. Ele também gabaritou em química e biologia na Fuvest (Foto: Angelo Cavalcanti/ Arquivo Pessoal)

 

Ângelo Cavalcante, de Suzano, gabaritou em química e biologia na Fuvest.
Aluno vai estudar na USP, mas passou em instituições públicas e particulares.

Jamile Santana, no G1

Ângelo Thomaz Duarte Cavalcante, de 20 anos, ficou ‘desaparecido’ do ambiente digital no último ano. Desativou suas contas nas redes sociais e restringiu as saídas de fim de semana com os amigos. Cortou até o celular. Tudo isso por um objetivo: ser aprovado em medicina na Universidade de São Paulo (USP). E o esforço valeu a pena. Além da USP, Angelo foi aprovado em outras oito universidades de medicina, sendo quatro públicas e gabaritou nas disciplinas de biologia e química na Fuvest. O morador de Suzano é o primeiro da família a estudar em uma universidade pública e a cursar medicina.

O segredo, segundo ele, foi tomar uma atitude dolorida, mas bem simples: sair das redes sociais e cortar o celular. “Eu resolvi ficar bem focado nos estudos. Não foi fácil, porque eu só estudava. Cortei celular, desativei minhas contas nas redes sociais e quase parei de sair de casa. A rotina era de 14 horas de estudo ou mais, mas valeu à pena”, contou.

O morador de Suzano fez o ensino médio na Etec Presidente Vargas, em Mogi das Cruzes, que apesar de pública, seleciona seus alunos por meio de um exame. Quando terminou, há dois anos, já engatou no cursinho. “Eu já sabia que queria fazer medicina desde os 16. Eu tinha outras opções, mas conforme fui crescendo, fui tendo certeza de que não me vejo fazendo outra coisa. Meus pais me deram condições para que eu só estudasse. Em casa tem um ambiente legal para o estudo, então tudo favorece”, detalhou.

A rotina era pesada: cursinho a partir das 7h20 até as 13h30, pausa para voltar para casa, almoçar e descansar, e cara nos livros a partir das 15h30 até 23h30 em alguns dias. “Peguei um ritmo legal de estudos. Então fazia essa rotina de segunda a sábado e descansava aos domingos. Nos domingos que eu precisava estudar, fazia isso em um horário reduzido”, disse. A lista de aprovação contempla nove universidades, sendo: USP, Unifesp, Unicamp, Federal de Goiânia, Unicid, PUC Sorocaba, PUC Campinas, Anhembi Morumbi e Santa Casa.

Na PUC Sorocaba, foi aprovado em 1° lugar e ganhou uma bolsa de 50%. Na unidade, o aluno também gabaritou em matemática. Na Fuvest, prova que lhe deu acesso à USP, Ângelo gabaritou em Biologia e Química na 2° fase. Na Unicamp, gabaritou em Física. “Estudei com mais afinco essas matérias porque são as três disciplinas obrigatórias e mais exigidas no currículo pra medicina: biologia, química e física. Dei atenção para as demais matérias também, mas foi bom acertar todas as questões nessas com mais peso pra carreira”, disse. Na Unicid, além de ter ficado em 3° lugar, tirou 9,2 em redação.

Angelo ainda aguarda detalhes sobre alguns vestibulares, mas já escolheu onde vai estudar e, por enquanto, qual carreira dentro da medicina seguir. “Vou pra USP que é o meu sonho. O resultado saiu dia 2 (de fevereiro), mas a ficha nem caiu ainda. Penso em ser cirurgião, mas pode ser que a convivência na área me faça mudar de ideia”, disse.

Ângelo Cavalcanti, de Suzano, listando as universidades em que foi aprovado. (Foto: Angelo Cavalcanti/ Arquivo Pessoal)

Ângelo Cavalcanti, de Suzano, listando as universidades em que foi aprovado. (Foto: Angelo Cavalcanti/ Arquivo Pessoal)

Negra, pobre e da rede pública fica em 1º em curso mais concorrido da Fuvest

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Moradora de um conjunto habitacional na periferia de Ribeirão Preto, Bruna diz que a opção pela medicina veio há apenas um ano. Foto: Reprodução/Facebook

Bruna Sena, 17, comemora o 1º lugar em medicina da USP de Ribeirão, o mais concorrido da Fuvest

 

Jairo Marques, na Folha de S.Paulo

É com uma frase provocativa estampada em uma rede social que Bruna Sena, 17, primeira colocada em medicina da USP de Ribeirão Preto, carreira mais concorrida da Fuvest-2017, comemora e passa um recado de sua conquista: “A casa-grande surta quando a senzala vira médica”.

Negra, pobre, tímida, estudante de escola pública, criada apenas pela mãe, que ganha R$ 1.400 como operadora de caixa de supermercado, Bruna será a primeira da família a interromper o ciclo de ausência de formação superior em suas gerações. Fez em grande estilo, passando em uma das melhores faculdades médicas do país.

A mãe, Dinália Sena, 50, que sustenta a casa desde que Bruna tinha nove meses e o pai deixou o lar, está entre a alegria e o pavor. Tem medo que a filha seja hostilizada. “Por favor, coloque no jornal que tenho medo dos racistas. Ela vai ser o 1% negro e pobre no meio dos brancos e ricos da faculdade.”

Já a filha mostra-se tranquila. Acredita que será bem recebida e tem na ponta da língua a defesa de sua raça, de cotas sociais e da necessidade de mais oportunidades para os negros no Brasil. “Claro que a ascensão social do negro incomoda, assim como incomoda quando o filho da empregada melhora de vida, passa na Fuvest. Não posso dizer que já sofri racismo, até porque não tinha maturidade e conhecimento para reconhecer atitudes racistas”, diz a caloura.

“Alguns se esquecem do passado, que foram anos de escravidão e sofrimento para os negros. Os programas de cota são paliativos, mas precisam existir. Não há como concorrer de igual para igual quando não se tem oportunidade de vida iguais.”

GEORGE ORWELL

Para enfrentar a concorrência de 75,58 candidatos do vaga, Bruna fez o básico: se preparou muito, ao longo de toda sua vida escolar. “Ela só tirava notas 9 ou 10. Uma vez, tirou um 7 e fui até a escola para saber o que tinha acontecido. Não dava para acreditar. Falei com o diretor e ele descobriu que tinham trocado a nota dela com um menino chamado Bruno”, orgulha-se a mãe.

George Orwell, autor do clássico “A Revolução dos Bichos”, fábula que conta a insurreição dos animais de uma granja contra seus donos, está entre os favoritos da garota, que também gosta de romance e comédia e é fã da série americana “Grey’s Anatomy”, um drama médico.

No último ano do ensino médio, que cursou pela manhã na escola estadual Santos Dumont, conseguiu uma bolsa de estudos em um cursinho popular tocado por estudantes da própria USP, para onde ia à noite. “Minha escola era boa, mas, infelizmente, tinha todas as dificuldades da educação pública, que não prepara o aluno para o vestibular. Falta conteúdo, preparo de alguns professores. Sem o cursinho, não iria conseguir.”

Segundo Bruna, que mora em um conjunto habitacional na periferia de Ribeirão Preto, vários de seus colegas de escolas nem “nem sabem que a USP é pública e que existe vestibular para passar”.

Com ajuda financeira de amigos e parentes, Bruna fazia kumon de matemática, mas o dinheiro não deu para seguir com o curso de inglês. “Tudo na nossa vida foi com muita luta, desde que ela nasceu, prematura de sete meses, e teve de ficar internada por 28 dias. Não tenho nenhum luxo, não faço minhas unhas, não arrumo meu cabelo. Tudo é para a educação dela”, declara a mãe.

Ainda segundo Dinália, “alguns conhecidos ajudaram. Uma amiga minha sempre dava livros para ela. Uma vez, essa amiga colocou R$ 10 dentro de um livro para comprarmos comida e escreveu: ‘Bruna, vence a vida, não deixe que ela te vença, estude'”.

Bruna Sena, 17, estudou a vida toda em escola pública e é defensora das cotas sociais

Bruna Sena, 17, estudou a vida toda em escola pública e é defensora das cotas sociais

FUTURO

A opção pela medicina aconteceu há cerca de um ano, por influência de professores do cursinho popular que frequentou o CPM, ligado à própria Faculdade de Medicina da USP-Ribeirão. “Claro que não sei ainda qual especialidade pretendo seguir, mas sei que quero atender pessoas de baixa renda, que precisam de ajuda, que precisam de alguém para dar a mão e de saúde de qualidade”, declara.

Engajada na defesa de causas sociais como o feminismo, o movimento negro e a liberdade de gênero, a adolescente orgulha-se do cabelo crespo e de sua origem, mas é restrita nas palavras sobre o pai, que não paga pensão e não a vê há anos. “Minha mãe ralou muito para que eu tivesse esse resultado e preciso honrar isso. Sou grata também a minha escola, ao cursinho. Do meu pai, nunca entendi o desprezo, me incomoda um pouco, mas agora é hora de comemorar e ser feliz.”

Trigêmeos da BA passam juntos em medicina pelo Sisu: ‘A ficha não caiu’

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Trigêmeos Amanda (à esqueda), Giovanni e Ingrid passaram juntos em medicina (Foto: Reprodução/Facebook)

Trigêmeos Amanda (à esqueda), Giovanni e Ingrid passaram juntos em medicina (Foto: Reprodução/Facebook)

Moradores de Salvador, irmãos dizem ter realizado sonho de infância.
Trio ficou sabendo resultado na terça, após MEC divulgar aprovados.

Alan Tiago Alves, no G1

O sonho de infância de cada um dos trigêmeos Ingrid, Amanda e Giovanni Calfa, de 18 anos, que moram em Salvador, virou realidade de uma vez só. Os irmãos foram aprovados ao mesmo tempo em cursos de medicina — área profissional que desde crianças queriam seguir — em universidades federais públicas por meio do Sistema de Seleção Unificada (Sisu), que tem como base a nota no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) 2016.

Eles ficaram sabendo do resultado na segunda-feira (30), quando foram divulgados os aprovados na primeira lista de 2017 do Sisu. “A gente estava sob muita pressão, porque não queríamos que apenas um ou dois passassem. Estudamos muito, sofremos juntos, e seria injusto se os três não tivessem conseguido ao mesmo tempo. Felizmente, deu tudo certo e ainda estamos comemorando muito. Na verdade, a ficha ainda não caiu”, disse Amanda, em contado com o G1 nesta terça-feira (31).

De acordo com o Ministério da Educação (MEC), ao todo, foram 2.498.261 inscritos e 4.880.047 inscrições, já que quase todos os candidatos fizeram duas opções de curso. Ingrid e Geovanni foram aprovados em primeira chamada na Universidade Federal de Alagoas (UFAL). Já Amanda, foi selecionada na Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB).

“Na realidade, a gente estava torcendo para que todos pudessem passar em uma mesma faculdade, mas não deu. A nossa primeira opção era a UFBA [Universidade Federal da Bahia], pelo fato de ser aqui em Salvador, e aí não precisaria viajar e ficar longe da família. Mas infelizmente, nesse primeiro momento não deu para ficarmos juntos”, destacou Ingrid.

Após a aprovação, eles saíram para comemorar, pintaram os rostos e tiraram fotos para postar nas redes sociais, onde receberam dezenas de mensagens de colegas que os parabenizaram pela conquista.

Os trigêmeos ainda aguardam os resultados das demais listas de chamadas da UFBA e da UFAL na expectativa de que possam estudar juntos. “A Amanda ficou com uma nota bem próxima do último colocado que passou na UFAL e, numa segunda chamada, pode ser convocada, e ir estudar comigo e com o Geovanni. Estamos esperando. Também vamos aguardar nova chamada da UFBA, porque se os três passarem a gente fica junto aqui mesmo”, afirmou Ingrid.

Sonho de infância
Filhos de uma administradora e um publicitário, os trigêmeos afirmam que não há médicos na família, mas que, mesmo assim, sempre se identificaram com a área profissional. Eles têm outros dois irmãos mais velhos — um rapaz de 28 anos, que é formado em arquitetura e atualmente faz engenharia, e uma jovem de 26, que cursa arquitetura.

“O gosto por medicina surgiu da gente mesmo. A minha mãe, por exemplo, nunca sugeriu que seguíssemos essa ou aquela área, mas sempre apoiou a nossa decisão de ingressar na área de medicina. A gente foi amadurecendo e não tinha nenhuma outra área que a gente se identificasse da mesma forma. Nunca tive dificuldade com nenhuma matéria, mas nunca tive afeição por exatas ou humanas. Sempre gostei mais de ciências naturais e também sempre gostei de lidar com pessoas. Não tenho dúvidas de que escolhemos o curso certo”, afirmou Ingrid.

Os irmãos concluíram o Ensino Médio no Colégio Militar Salvador (CMS), no ano passado, e afirmam que sempre estudaram juntos para o Enem.

“A gente passou o ano sofrendo junto. A Ingrid e o Geovanni ainda tiveram tempo de fazer um curso [pré-vestibular] intensivo antes da prova, enquanto eu concluía o Ensino Médio. Concluí pouco tempo depois porque entrei depois deles no Colégio Militar. A gente saía de manhã para estudar e, às vezes, só voltava à noite. Além disso, também estudávamos juntos nos finais de semana”, conta Amanda.

Os irmãos afirmam que a mãe ficou muito feliz com a tripla aprovação, mas angustiada pelo fato de que vão se separar. “Ela ficou meio preocupada porque cada um vai para um canto, mas não esconde a felicidade com o nosso resultado.Ela viu o nosso sofrimento, viu que a gente se esforçou muito para chegar a esse resultado e ficou muito orgulhosa. Para a gente, passar foi uma sensação indescritível”, disse Amanda.

Como os aprovados em primeira chamada devem realizar a matrícula nos dias 3, 6 e 7 de fevereiro, nas instituições em que estudarão, os trigêmeos já estão de viagem marcada. “Estamos ainda resolvendo muitas coisas e vamos viajar domingo para fazer a pré-matrícula”, destacou Ingrid.

Os irmãos contam que ainda não pensaram em qual área da medicina irão seguir e que vão aguardar um contato maior com a área para decidir os rumos a tomar. “A gente ainda não parou para pensar se vamos fazer no futuro uma mesma especialidade. Isso só devemos decidir após conhecer melhor a área. Muitas pessoas entram no curso com uma ideia e, no decorrer dos estudos, mudam de planos. Então, vamos deixar isso para pensar mais para frente”, afirmou Ingrid.

Aluna nota 1.000 no Enem é hackeada e inscrita em produção de cachaça

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Tereza Gayoso, nota máxima na redação do Enem 2017 (Foto: Reprodução/ Facebook)

Tereza Gayoso, nota máxima na redação do Enem 2017 (Foto: Reprodução/ Facebook)

 

Hackers invadiram o site do Ministério da Educação e alteraram as opções de cursos de estudantes

Guilherme Caetano e Murilo Santos, na Época

O site do Sistema de Seleção Unificada (Sisu), do Ministério da Educação, foi hackeado na noite da segunda-feira (30) após terem sido divulgados os resultados do Exame Nacional do Ensino Médio, o Enem. Vários estudantes foram inscritos em cursos escolhidos pelos hackers. Tereza Gayoso, de 23 anos, nota máxima na redação do exame e que pretendia cursar medicina, soube nesta terça-feira (31) que havia sido inscrita em produção de cachaça, no Instituto Federal do Norte de Minas Gerais, em Salinas. “Eu não consigo acreditar que fizeram essa ruindade comigo.”

Um estudante do Distrito Federal, também afetado pela ação dos hackers e que pediu para não ser identificado pela reportagem, afirmou que foi inscrito em ciências sociais na Universidade Federal do Acre, contra a sua vontade. “Acho triste eu precisar me preocupar com minha segurança em um site do governo”, afirmou. “O site do Ministério era para ser, teoricamente, seguro.”

Atualização: Às 19h30, o Ministério da Educação encaminhou a seguinte nota para a redação:Sobre suposto hackeamento dos sistemas do Sisu e Enem o MEC/Inep esclarecem:

1- Os sistemas do MEC e do Inep não registraram, até o momento, indício de acesso indevido a informações de estudantes cadastrados, que configure incidente de segurança.

2- Há relatos na imprensa de casos pontuais de acesso indevido a dados pessoais de candidatos, que teriam possibilitado mudança de senha e de dados de inscrição, como opção de curso. A senha é sigilosa e só pode ser alterada pelo candidato ou por alguém que tenha acesso indevidamente a dados pessoais do candidato.

3- Casos individuais que forem identificados e informados ao MEC como suposta mudança indevida de senha e violação de dados, o MEC vai remetê-los para investigação da Polícia Federal. Nos dois casos citados pela imprensa, o Inep já identificou no sistema data, hora, local, operadora e IPs de onde partiram as mudanças de senha. Os dados serão encaminhados para a Polícia Federal.

4- Ressaltamos, também, que todas as ações realizadas no sistema são registradas em “log”, de forma a possibilitar uma auditoria completa.

5- A Secretaria de Ensino Superior (SESU) destaca que a atual gestão assumiu em maio de 2016, com o processo do ENEM 2016 em curso, na última semana de inscrições. Por isso, todo o sistema de operacionalização do ENEM foi definido na gestão anterior e estava em funcionamento, não podendo ser alterado no meio do processo.

6- Para o ENEM 2017 as equipes do INEP/SESU estão trabalhando para aperfeiçoar o Exame, de forma a garantir segurança e tranquilidade aos inscritos.

Antes de entrar na Uerj, aluna negra ouviu que não tinha ‘cara de médica’

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"Lembro que quando me perguntavam o que eu queria cursar e eu falava medicina, tinha gente que virava e falava: 'ah, mas você quer isso mesmo? Você não tem cara de médica'", diz a estudante Mirna Moreira

“Lembro que quando me perguntavam o que eu queria cursar e eu falava medicina, tinha gente que virava e falava: ‘ah, mas você quer isso mesmo? Você não tem cara de médica'”, diz a estudante Mirna Moreira

 

Janaína Garcia, no UOL

O relato de uma jovem negra estudante de medicina na Uerj (Universidade Estadual do Rio de Janeiro) viralizou nas redes sociais, no último fim de semana, ao expor as condições sociais da jovem em contraste com o ambiente acadêmico.

No texto, a estudante Mirna Moreira, 22, falou também do preconceito enfrentado antes de ela entrar na universidade, onde cursa o segundo ano após ingressar pelo sistema de cotas. “Lembro que quando me perguntavam o que eu queria cursar e eu falava medicina, tinha gente que virava e falava: ‘ah, mas você quer isso mesmo? Você não tem cara de médica'”, escreveu.

Moradora do Complexo do Lins, na zona norte do Rio, Mirna definiu que seu “maior acerto” foi ter assumido a estética de mulher negra, nos cabelos soltos. “Antes de entrar nesse espaço da universidade, eu entendi que é muito importante estar ali porque existe a questão da representatividade, que se estende para fora da academia também. Quando eu visto meu jaleco branco e subo o Morro dos Macacos representando a instituição Uerj, como fiz em uma ação sobre sexualidade na adolescência numa escola pública, e as meninas negras dessa escola pedem para tirar fotos comigo, elogiam meu cabelo crespo, e de alguma forma me veem como referência, eu só tenho mais certeza disso”, definiu.

“Por isso, principalmente nos espaços acadêmicos, eu faço questão de afirmar que sou do Complexo do Lins. Esse lugar faz parte da minha identidade. Sei da onde eu vim, quem me ajudou a chegar até aqui, e não foi nenhum médico de formação, foi minha mãe que trabalhou como diarista por muitos anos, meu pai que já trabalhou como pedreiro, e que sempre priorizaram meus estudos. Eu sei quem são os pretos que construíram a base para que hoje eu esteja aqui hoje”, escreveu.

Jovem quer “devolver à sociedade” como médica do SUS

Em entrevista ao UOL, a jovem contou que já passou por situações nas quais ela vê um viés racista — como a “surpresa” de alguns colegas quando, ano passado, ainda no primeiro bimestre de aulas, ela gabaritou em uma prova de anatomia prática.

“Apenas duas alunas gabaritaram: eu e uma colega, branca. Houve uma surpresa muito grande da sala somente em relação a mim, e com perguntas do tipo: ‘Você escondeu o jogo?’, já que era o primeiro mês, ainda, de aula. Mas a outra aluna passou pelo mesmo processo de seleção e não houve esse tipo de questionamento; não tenho dúvida de que foi racismo”, atestou.

Mirna fez o ensino fundamental em escola pública, mas seguiu os estudos em escola particular graças à ajuda da madrinha, que vive nos Estados Unidos. “Já questionaram minha cota, já alegaram que eu tenho um tablet… como se eu não tivesse o direito de ter, me esforçando para isso”.

A jovem milita na causa negra também em um coletivo da universidade. É ali o espaço, ela aponta, onde vários outros relatos semelhantes ao que ela diz ter ouvido são apresentados, mas de outros cursos. “Isso de ‘não ter cara’ de uma profissão’ é quase unânime entre os negros da faculdade que estão nos cursos tradicionais”.

Para o futuro, a aluna de medicina quer “devolver à sociedade” o que ela chama de investimento — seja por projetos sociais ou pelo trabalho no SUS (Sistema Único de Saúde). “Eu tenho noção de que o meu estudo sai do bolso da sociedade”, justificou.

Hoje, a mãe de Mirna é telefonista, e o pai, bombeiro. A filha integra um grupo de dez negros em uma sala de 104 alunos na medicina.

Mais jovens negros nas universidades

Dados da SIS 2015 (Síntese de Indicadores Sociais), pesquisa produzida pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) e divulgada em dezembro passado, mostraram que, em uma década, foi constatado crescimento na proporção de universitários na faixa etária de 18 a 24 anos –de 32,9%, em 2004, para 58,5%, em 2014–, com destaque para o recorte por cor ou raça, de acordo com os critérios de classificação do instituto.

Do total de estudantes pretos ou pardos de 18 a 24 anos, 45,5% estavam na universidade no ano passado. Há dez anos, essa proporção era de 16,7%. Entre os brancos, também houve aumento –de 47,2%, em 2004, para 71,4%, em 2014.

Também ano passado, outro estudo do IBGE revelou que os negros representavam apenas 17,4% da parcela mais rica do país, em 2014 – apesar de a população que se identifica como preta ou parda ter crescido entre a parcela 1% mais rica da população brasileira, cuja renda média é de R$ 11,6 mil por habitante.

Segundo o IBGE, os negros (pretos e pardos) eram a maioria da população brasileira em 2014, representando 53,6% da população. Os brasileiros que se declaravam brancos eram 45,5%.

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