Canal Pavablog no Youtube

Posts tagged megalivrarias

Livrarias se reinventam para enfrentar crise e internet

0

xlivraria-da-feb.jpg.pagespeed.ic.igfpq0SeNq

Publicado no Extra

RIO – Vista de fora, a Livraria Camerino, na Zona Portuária, parece uma loja de fotocópias, miudezas e artigos de papelaria. Mas quem cruza uma das três portas do antigo imóvel, em frente ao Jardim Suspenso do Valongo, descobre lá dentro um mundo de estantes e prateleiras abarrotadas de publicações usadas, entre elas, livros didáticos, romances, guias, almanaques e revistas raras. São 15 mil títulos à venda no sebo aberto desde 1971 e que pertence, há várias gerações, à família do livreiro Paulo Félix, de 55 anos. Já a livraria Lumen Chisti é especializada em edições novas, com conteúdos religiosos, mas quem procura a lojinha no pátio do Mosteiro de São Bento, também na área do Porto, encontra, ainda, chocolates e doces produzidos no Sul do país, imagens e medalhas.

Os dois endereços estão no “Guia de Livrarias da Cidade do Rio de Janeiro”, lançado pela Associação Estadual de Livrarias (AEL-RJ), no mês passado. Editado após dois anos de pesquisa, o material, no entanto, já chega às mãos dos leitores com necessidade de correção: dos 204 estabelecimentos listados, oito já fecharam as portas. Há três anos, eram 252.

Segundo o presidente da associação, Antônio Carlos de Carvalho, esse foi o primeiro guia do gênero produzido pela instituição e, como o objetivo era fazer um mapa completo, o levantamento incluiu todos os tipos de estabelecimentos do ramo. Há pequenas livrarias de rua, sebos, as que têm bistrô, as religiosas, as que diversificam com papelaria e as megalivrarias, que também vendem artigos eletrônicos. A diversificação pode ser a razão de essas casas resistirem aos tempos céleres da internet e dos e-books.

A MAIS ANTIGA É DE 1897

Das 204 apresentadas no guia carioca, a da Federação Espírita (Avenida Passos 28), fundada em 1897, é a única em atividade desde o século XIX. Além disso, sete foram abertas em 2016. No texto de abertura, o guia explica que esta mudança de perfil das lojas é, na verdade, uma volta às origens, “quando o livro era apenas um dos itens oferecidos”:

— Infelizmente, algumas que estão no guia, como a Casa Cruz e uma filial da Saraiva no Centro, fecharam. Mas ele mostra que ainda existem muitas. A realidade é que a grande maioria não vende só livros. Vende jogos, CDs, revistas e até café. Muitas se transformaram quase em bazares. Mas acredito que ainda é possível viver só de vender livros na cidade. Tanto que nossa família esta há mais 40 anos nesse ramo, e minha livraria só vende livros — defende Antônio Carlos, dono da Galileu (Rua Major Ávila 116, Tijuca).

Das livrarias cariocas, 25% são de títulos gerais, de várias áreas de conhecimento. As outras são segmentadas. Há 33 livrarias religiosas (sendo 15 evangélicas) e 27 sebos, segundo o guia. As que vendem livros didáticos e paradidáticos somam 28. A Livraria Camerino (Rua Camerino 52, Centro), por exemplo, tem principalmente livros de ciências exatas, para estudantes de graduação.

— Vendo pela internet para estudantes de 38 faculdades do Brasil, principalmente livros de engenharia e matemática. Metade do meu movimento vem daí — conta Paulo Félix, que, nos dias de visita guiada à Zona Portuária, costuma receber turistas à procura de livros sobre a história da região.

A Solário (Rua Sete de Setembro 169) é uma das tradicionais que resistem no Centro. Mas, como a maioria, também aderiu às vendas pela internet:

— Nos meses de janeiro e fevereiro, o forte são os didáticos. Ao longo do ano, vendemos os outros tipos de livros, como romance, esoterismo, autoajuda e infantis. Estamos sempre brigando com as vendas pela internet, com redes que compram em atacado e dão descontos. Tem até rede de eletrodomésticos vendendo livro no site. Mas, pela minha experiência, quem gosta de ler não vai desistir nunca de um livro. Temos que continuar — diz o gerente Alfredo Silva, há 15 anos na Solário.

Uma folheada no guia mostra que muitos proprietários diversificaram os negócios para garantir a sobrevivência. A Antiqualhas Brasileiras (Rua da Carioca 10, Centro) exibe na vitrine cachaça, objetos antigos e algumas capas de obras sobre o Rio Antigo. A Letra Viva (Rua Luís de Camões 10) é outro exemplo. No amplo salão, estantes de livros usados dividem espaço com as mesas de um bistrô. O proprietário Luiz Barreto acredita que o caminho para atrair os leitores é o ambiente:

— Somos um sebo, mas não aquele modelo antigo, escuro, empoeirado, mal-arrumado. O cliente vem e tem vontade de ficar mais tempo. Também fazemos leilões virtuais de livros de arte. O importante é diversificar os negócios.

ZONA NORTE TEM MAIS ESPAÇOS

Os endereços indicados no guia são divididos pelas regiões da cidade, com mapas e um pequeno resumo de cada estabelecimento. A Zona Norte aparece em primeiro lugar, com 63 lojas; seguida do Centro, com 60; da Zona Sul, com 54, e da Zona Oeste, com 28. A publicação, que não será vendida, foi distribuída para editoras, livrarias e órgãos públicos.

Em 2014 e 2015, a cidade perdeu 18 estabelecimentos, segundo a associação. Para Bernardo Gurbanov, diretor-presidente da Associação Nacional de Livrarias, a crise do setor não pode ser interpretada como o fim do livro:

— O desafio de manter uma livraria é muito grande. O livro concorre com muitas outras alternativas de entretenimento, com as novas tecnologias. E cabe às livrarias e às editoras buscarem alternativas, como oferecer serviços agregados. Mas acredito que o livro vai manter seu espaço, porque um mundo sem histórias é inconcebível.

Segundo o Painel das Vendas de Livros no Brasil, pesquisa que o Sindicato Nacional dos Editores de Livros divulga mensalmente em parceria com a Nielsen Bookscan, apesar da crise, houve um crescimento de 6,02% na quantidade de livros vendidos no país. Estudos mostram que o número de leitores voltou a aumentar: em 2011, representava 50% da população e, em 2015, chegou a 56%. O índice de leitura indica que o brasileiro lê, em média, 4,96 livros por ano. A média anterior era de quatro.

Livrarias investem em público de nicho

0
A sommelier Alexandra Corvo na escola Ciclo das Vinhas, que abriu livraria especializada em vinhos

A sommelier Alexandra Corvo na escola Ciclo das Vinhas, que abriu livraria especializada em vinhos

Anna Rangel, na Folha de S.Paulo

Se não dá para competir com os preços, a logística ou o estoque das megalivrarias, a alternativa para as pequenas lojas é investir em nichos onde as grandes não conseguem ou não querem entrar.

Há quem se especialize em uma área, como música ou arquitetura, ou invista em títulos que as líderes do setor só entregam sob encomenda.

“Assim, o livreiro oferece duas coisas que as grandes não podem: uma curadoria bem apurada dos volumes e um atendimento cuidadoso, de saber o que o cliente quer”, diz Bernardo Gurbanov, presidente da ANL (Associação Nacional de Livrarias).

Segundo a entidade, os negócios de menor porte representam 70% das cerca de 3.100 livrarias brasileiras.

Para selecionar bem os volumes que estarão no catálogo, o empreendedor precisa dominar o assunto.

A sommelier Alexandra Corvo, 42, que abriu neste ano uma pequena livraria especializada em sua escola de vinhos, a Ciclo das Vinhas, desistiu de “ter todos os livros possíveis no acervo”.

“Entendi que ser livreiro significa aprender a escolher. Tem muito material ruim, e precisamos filtrá-lo”, diz.

ESPAÇO PARA CRESCER

Brasil lança poucos volumes e população ainda gasta pouco por ano

ll

O investimento no estoque foi baixo, segundo Corvo, já que a maioria das editoras trabalha sob consignação -ou seja, eventuais encalhes são devolvidos.

Mas, se a ideia é investir em um número grande de títulos, como a Free Note, livraria especializada em música, a empreitada pode custar mais. “Se recebemos 2.000 livros, são cerca de 1.500 capas diferentes.

Mas precisamos ter estoque para que o cliente possa pegar os livros e decidir ali mesmo pela compra”, diz o administrador Vinícius Grossi. Para ele, vale a pena assumir o custo extra.

A empresa, que faturou R$ 900 mil em 2016, espera crescer cerca de 10% em 2017.

Mas, além de ter o livro, é preciso indicá-lo para as pessoas certas. Por isso, o empresário deve estar atrás do balcão, ajudando o cliente a construir sua biblioteca.

“Entender a necessidade do freguês é um trabalho artesanal, que leva tempo, mas é indispensável”, afirma Gurbanov, da ANL.

Esse contato direto é o maior ativo da livraria Vilanova Artigas, especializada em arquitetura, segundo o proprietário, Antonio Ricarte, 54, o Toninho dos Livros.

Em 2016, sua empresa faturou cerca de R$ 600 mil.

Há 45 anos no ramo, quando circulava pelas faculdades paulistanas vendendo livros, ele se tornou fornecedor e amigo de arquitetos de renome, à época calouros.

“Eles nos pediam títulos e criamos um grande acervo de raridades porque aprendemos o que vale a pena vender”, afirma Ricarte.

O grande desafio do empreendedor, segundo Ribeiro, é capacitar a equipe de vendedores. Sem isso, fica difícil criar essa relação de confiança, fundamental para manter o negócio de pé.

E, para Ribeiro, é preciso se desapegar do anseio de oferecer o menor preço. Isso porque as grandes têm uma margem de negociação maior com as editoras. “O público de nicho busca qualidade, e isso custa”, diz.

PESQUISA DE CAMPO

Para identificar espaços no mercado, é preciso investigar os gargalos das líderes, diz Ribeiro. “O problema da grande é o sucesso da pequena.”

A produtora de eventos Elisa Ventura, 53, proprietária da livraria Blooks, descobriu na prática seu nicho: caçar itens já esgotados ou só disponíveis por encomenda nos grandes estabelecimentos.

“Os clientes relatavam dificuldades em encontrar alguns livros e fomos direcionando nossos esforços em função disso”, afirma.

Um jeito barato de descobrir essas lacunas é usar as redes sociais, segundo Ribeiro.

A dica é postar capas e testar a reação do público. Depois, basta entrar em contato e oferecer o título.

“As redes são o novo balcão, mas a maioria dos livreiros não percebeu isso”, afirma Ribeiro.

*

13º lugar
é a posição do Brasil no ranking mundial dos maiores mercados de livros

70%
das livrarias brasileiras são de pequeno porte

R$ 37,74
é o tíquete médio nas livrarias do país

27,54%
é o desconto médio dado aos livros, em relação ao preço de capa

Pequenas livrarias superam grandes redes e ressurgem em Nova York

0
Foto: Gabriel Cabral/Folhapress

Foto: Gabriel Cabral/Folhapress

Giuliana Vallone, na Folha de S.Paulo

Quando surgiram os primeiros cartazes anunciando uma nova livraria no número 450 da avenida Columbus, em Nova York, o blog de notícias locais “West Side Rag” publicou: “Ou a máquina do tempo em que entrei na semana passada funcionou, ou o universo está aprontando alguma: alguém está planejando abrir uma loja de livros no Upper West Side.”

Esse “alguém” era Chris Doeblin, proprietário de três livrarias da marca Book Culture, em Manhattan -a última aberta em novembro de 2014. E os dados da Associação dos Livreiros Americanos (ABA, na sigla em inglês) mostram que ele não está sozinho.

O número de livrarias independentes nos Estados Unidos cresceu 27% desde 2009, chegando a 2.094 no ano passado. Se parece pouco comparado ao pico de cerca de 4.000 nos anos 1990, antes da invasão das grandes redes, como Barnes & Noble, Borders e Virgin, representa uma evolução importante sobre as 1.400 da última década.

E essa não é a única boa notícia para os fãs dos livros de papel. As vendas em lojas também estão em alta: subiram cerca de 8% anualmente desde 2012. “Há uma percepção errada de que as livrarias independentes estão em perigo. Estamos em um ótimo momento”, diz Jessica Bagnulo, proprietária da Greenlight, livraria aberta no Brooklyn, em 2009.

Há algumas razões que explicam o respiro dado às livrarias após anos de teorias apocalípticas sobre o fim das lojas independentes e dos livros impressos. Primeiro, o declínio das grandes redes americanas nos últimos anos abriu espaço para o ressurgimento das pequenas lojas. A Borders, a segunda maior dos EUA, pediu concordata em 2011, e fechou suas mais de 500 lojas no país.

Sua rival, Barnes & Noble, continua em atividade com cerca de 600 megalivrarias, mas os números diminuem a cada ano. E as remanescentes têm focado em outros produtos, como material de papelaria, revistas e presentes. Em todas elas, há um Starbucks.

“Eles têm um estoque gigante de livros, mas vendem muitas outras coisas. E é bem difícil achar um livro em uma loja enorme”, afirma John Mutter, autor da “Shelf Awareness” (algo como Consciência das Prateleiras), uma newsletter sobre o mercado de livros nos EUA.

Além disso, diz John, as livrarias independentes encontraram uma abordagem que funciona bem com os clientes. “Elas decidiram enfatizar as coisas que você não consegue online: conhecer autores, grupos de leitura, encontrar pessoas que também se interessem por livros.”

Esses benefícios não são novidade no mercado, mas sua importância aumentou devido a um movimento em ascensão nos Estados Unidos nos últimos anos: o “buy local” (“compre local”), que incentiva o comércio de produtos plantados ou fabricados perto de onde são consumidos. A ideia inicial, que ganhou força a partir da crise de 2008, é apoiar os pequenos negócios para revigorar a economia. Mas a onda cresceu e gerou uma busca por um estilo de vida mais comunitário.

“Esse movimento, que vai muito além dos livros, tem tido um impacto enorme nas comunidades e na atitude dos consumidores. Isso é uma parte importante da equação”, afirma Oren Teicher, presidente da ABA.

POR AQUI

No Brasil, a situação é bem diferente da americana. Aqui, os e-books, tímidos em vendas, nunca foram a maior ameaça. O setor enfrenta problemas estruturais muito mais sérios.

Para o presidente da Associação Nacional de Livrarias (ANL), Afonso Martin, “não somos tão profissionais quanto outras áreas da indústria ou do varejo”. E ilustra a desorganização do setor com o exemplo da livraria Ao
Livro Verde, de Campos dos Goytacazes (RJ). Fundada em 1844 e considerada a primeira do Brasil, ela não aparecia no anuário organizado pela própria ANL até 2013.

A tendência no mercado brasileiro é de movimento oposto ao da cidade de NY. As pequenas livrarias estão fechando, enquanto as grandes e médias aumentam e investem em filiais.

É o caso da livraria Argumento, dona de duas lojas no Rio de Janeiro. Inaugurada em 1978, em São Paulo, com o principal propósito de vender livros da editora Paz e Terra -então comandada pelo próprio fundador da livraria, Fernando Gasparian-, a loja expandiu (mas não exagerou) nas últimas duas décadas.

A receita para o sucesso, de acordo com Marcus Gasparian, um dos donos da livraria, é simples, e segue a lógica das lojas independentes americanas. Além do “tamanho humano”, tudo depende do atendimento. “Não temos vendedor, temos livreiros”, diz. “Eles são os atores, eu cuido apenas da bilheteria. Sou só o dono do teatro.”

SUPERESTIMADO

Nos EUA, a volta das livrarias também conta com a falta de interesse por livros digitais. Em 2012, a consultoria PricewaterhouseCoopers divulgou relatório prevendo que os e-books seriam responsáveis, até 2016, por metade das vendas de livros no mercado norte-americano.

Errou feio: os números mais recentes da Associação dos Editores Americanos (AAP, em inglês) mostram que a fatia de mercado dos digitais chegou a 23,4% em 2014. Os dados estão estagnados desde 2012, quando a parcela de e-books ficou em 22,5%.

“Imagino que teremos apenas aumentos modestos daqui para frente, dado que a tecnologia já está disponível há algum tempo”, diz Tina Jordan, vice-presidente da AAP. O Kindle, o e-reader da Amazon, primeiro no mercado, foi lançado em 2007.

Mas a participação dos livros digitais varia entre os segmentos, fazendo com que as lojas físicas tenham que repensar parte de sua estratégia.

Clássicos de capa mole são o grande sucesso das vendas de livros digitais na Amazon, o que torna impossível para uma livraria independente contar com eles para ser bem-sucedida. Elas se dão melhor com livros de capa dura, literatura infantil e culinária. Por sorte, lojas menores podem se adaptar mais rápido ao gosto do freguês.

“Os clássicos eram parte significativa do nosso negócio, porque os estudantes precisam, mas agora eles leem como e-book”, diz Chris Doeblin, da Book Culture. A proximidade de suas lojas com a Universidade Columbia faz com que universitários sejam parte importante da sua clientela. Com as mudanças no mercado, ele decidiu manter só uma livraria voltada para este público.

“Criamos outro modelo, com uma boa seção para crianças. Queremos um espaço alternativo, em que as pessoas encontrem mais que livros”, conta. Nestas lojas, ele vende também itens como brinquedos na seção infantil e artigos de cozinha junto com os livros de culinária.

“Ainda estamos lutando para continuar como um negócio viável, mas há muito mais boas notícias hoje do que há dez anos”, afirma Teicher, da ABA. “Estou nesse mercado há mais de 25 anos. Se ganhasse um dólar a cada vez que alguém diz que as livrarias independentes estão morrendo, eu estaria rico”.

Go to Top