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Anna Rachel e Paula Peres, em Revista Escola

Hoje vamos falar de um autor muito marcante para a literatura mundial, o escritor português José Saramago (1922-2010). Entre as curiosidades que envolvem o vencedor do Nobel de Literatura de 1998 está o fato de sua leitura causar certo estranhamento à primeira vista, especialmente pela ausência de pontos finais. É como se Saramago evidenciasse o poder do leitor para ressignificar sua obra.

Foi o que senti há algum tempo, quando li Todos os Nomes (280 págs., Ed. Cia das Letras, tel. 11 3707-3500, 49,50 reais). Mas nunca mais tive contato com qualquer produção do autor. Cerca de um mês atrás, porém, encontrei a repórter de NOVA ESCOLA Paula Peres em uma estação de metrô, e ela estava segurando o livro Memorial do Convento (408 págs., Ed. Cia das Letras, tel. 11 3707-3500, 49 reais). Descobri que, coincidentemente, era a primeira experiência dela com o trabalho do escritor português.

Fiquei curiosa para saber as percepções iniciais da Paula e tentei rememorar quais foram as minhas. Lembrei que gostei muito do livro e que contava todas as sensações para a Ana Lígia Scachetti, editora responsável de NOVA ESCOLA e dona do exemplar que eu estava lendo. Enfim, imaginei que Paula também poderia ter muitas coisas interessantes para falar sobre o autor. Por isso, pedi a ela que compartilhasse as impressões (ainda quentinhas na memória!) com a gente aqui no blog.

 

Oi pessoal,

Como a Anna disse, esse foi meu primeiro contato de verdade com o famoso José Saramago. Uma vez li algumas páginas de “Claraboia” (384 págs., Ed. Cia das Letras, tel. 11 3707-3500, 49 reais), na livraria mesmo, mas este é justamente o livro que foge ao famoso estilo do escritor português. Não havia os parágrafos gigantes sem pontos finais e a falta de pontuações nos diálogos. Essas características, tão próprias do autor, eu só vim a conhecer em “Memorial do Convento” mesmo.

Adquiri o livro em uma dessas feiras com grandes promoções de editoras, quando geralmente compramos muito mais livros do que temos condições de ler. E ele ficou na minha estante por alguns meses, até que um grande amigo, fã de Saramago, anunciou que estava de mudança para Brasília. Fico sentimental com despedidas, e achei que entrar no universo de Saramago seria uma boa homenagem a esse colega agora distante (geograficamente).

Confesso que, no começo, tive de reler algumas páginas mais de uma vez para me situar… Isso é um diálogo? Quem está falando dessa vez? É o narrador? É uma pergunta ou afirmação? Mas logo fui conquistada pela maneira como o autor equilibra poesia, magia, humor e ironia em seu texto, e essas relações entre narrador, personagens e diálogos fluiu naturalmente.

Para quem não conhece a obra, o romance se passa em Portugal do século 18, durante o processo colonial. O rei D. João V ordena a construção de um palácio em Mafra (o tal convento do título) como cumprimento de uma promessa. Para a construção, foram usados muitos recursos minerais brasileiros e recursos braçais portugueses. Entre os operários está Baltasar Sete-Sóis, ex-soldado que perdeu a mão esquerda na guerra e, segundo o próprio, agora que era “maneta” estava “mais parecido com Deus, porque Ele também não tem a mão esquerda”. Como ele sabia disso? Não vou entregar a resposta.

Baltasar é apaixonado por Blimunda Sete-Luas, uma moça bonita e com o dom misterioso de enxergar as pessoas por dentro. Junto com o padre Bartolomeu Lourenço, eles elaboram e constroem uma máquina para leva-los ao céu. A tocante magia dessa relação do trio com a “passarola” foi o que mais me chamou a atenção no livro.

Por um mês, mergulhei na geografia de Portugal, nos costumes regionais, nas relações da Família Real, na vida dos personagens, na construção do Palácio Nacional de Mafra e, é claro, na história de amor entre Sete-Sóis e Sete-Luas, que prendeu minha atenção e meu fôlego até a última linha. Assim, deixo o convite feito pelo meu amigo do início dessa conversa: não deixe de voar junto a Baltasar e Blimunda na engenhoca do padre Bartolomeu. Você também vai se encantar!