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Aluna de escola pública formada em Harvard lista mitos sobre estudar fora

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Tabata Amaral Pontes, de 22 anos, se formou em ciências políticas e astrofísica em Harvard (Foto: Marcelo Brandt/ G1)

Tabata Amaral Pontes, de 22 anos, se formou em ciências políticas e astrofísica em Harvard (Foto: Marcelo Brandt/ G1)

 

Filha de ex-vendedora de flores colecionou medalhas em olimpíadas estudantis. Agora, vai trabalhar com educação em multinacional no Brasil.

Vanessa Fajardo, no G1

Mais do que sorte e talento, Tabata Amaral de Pontes, de 22 anos, atribui suas conquistas às oportunidades. Foram as bolsas de estudo e mentorias que abriram de vez as portas para que a aluna esforçada de escola pública na periferia de São Paulo conseguisse na Universidade Harvard , nos Estados Unidos, seu diploma de graduação em ciências políticas e astrofísica.

A convite do G1 , Tabata reavaliou sua trajetória para listar os cinco maiores mitos sobre estudar fora do país.

Desde junho de volta ao Brasil, a filha de ex-vendedora de flores está envolvida em um projeto social que ajudou a fundar, o Mapa Educação , que busca mobilizar os jovens para que a educação seja prioridade no debate político. Em agosto, começará a trabalhar em um fundo de educação de uma empresa multinacional em São Paulo.

Trajetória olímpica
Bem antes da vaga de emprego em uma multinacional, ainda quando estudava na rede pública e tinha 12 anos, Tabata começou uma carreira como “atleta” do conhecimento. Ao todo, colecionou mais de 30 medalhas em olimpíadas de física, química, informática, matemática, astronomia, robótica e linguística.

A possibilidade de morar e estudar no exterior começou a se desenhar quando Tabata teve a oportunidade de deixar a rede pública. À época ela tinha sido destaque na Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas (Obmep) e ganhou uma bolsa no Colégio Etapa.

O colégio também bancou moradia e alimentação da estudante porque sua casa ficava distante, e os pais não podiam arcar com a despesa. Lá viu os horizontes se alargarem e ouviu pela primeira vez sobre a possibilidade de fazer faculdade fora do país.

Neve era a diversão quando a temperatura baixava e chegava até 27 graus negativos (Foto: Arquivo pessoal)

Neve era a diversão quando a temperatura baixava e chegava até 27 graus negativos (Foto: Arquivo pessoal)

 

Quando estava no segundo do ensino médio ganhou uma bolsa da escola Cellep para estudar inglês e contou com a ajuda de instituições para cobrir os gastos do application (processo de candidatura às vagas das universidades norte-americanas).

Quando enfim escolheu Harvard, há quatro anos, Tabata também tinha sido aceita por outras cinco universidades americanas, entre elas, Caltech, Columbia, Princeton e Yale.

CINCO MITOS SOBRE ESTUDAR FORA
Tabata selecionou e deu sua opinião sobre conceitos que “perseguem” os candidatos:

1) É preciso ser gênio
Para ser aceito em uma universidade americana, é preciso ser mais que bom aluno. As atividades extracurriculares são muito bem vistas pelos avaliadores. O diferencial de Tabata foi a paixão pelas ciências e pelas olimpíadas. Para ela, não há nada de genialidade por trás das aprovações.

“Tem pessoas que gostam muito de algumas áreas e são dedicadas, por isso acabam indo bem. Harvard vai valorizar que você tenha uma paixão, que se dedique e faça alguma coisa bacana com isso para a sociedade.”

2) Só ricos estudam lá
Fazer graduação em uma universidade americana de ponta pode custar até R$ 500 mil, incluindo mensalidades, hospedagem e alimentação durante os quatro anos. As bolsas são concedidas a partir da situação socioeconômica da família, e não por mérito. Se o aluno foi aceito, a instituição vai dar as condições para que ele estude, independentemente de sua condição financeira.

Tabata na Índia, onde esteve em 2013, para pesquisar o sistema de ensino (Foto: Arquivo pessoal)

Tabata na Índia, onde esteve em 2013, para pesquisar o sistema de ensino (Foto: Arquivo pessoal)

 

Tabata é filha de uma ex-vendedora de flores e tem um irmão, mais novo, universitário. O pai trabalhava como cobrador de ônibus e faleceu pouco antes de ela embarcar para o exterior. A família não poderia arcar com nenhuma despesa. Ela recebeu bolsa integral da universidade e ajuda de custo para transporte, passagens aéreas para o Brasil e compra de livros, mas trabalhou durante o curso para poder ajudar a mãe no Brasil. “Nada que atrapalhasse meus estudos.”

Para ela, falta de dinheiro não é impeditivo. “Se você tem um sonho grande de estudar nos Estados Unidos e não tem como pagar, não desista por isso. Eu realmente não poderia pagar um centavo e consegui.”

3) Inglês tem de ser fluente
O application exige um teste que mede da proficiência do aluno no inglês (Toefl) e uma prova chamada SAT, uma espécie de Enem americano, toda em inglês. A ideia é medir o quanto o aluno domina o idioma. No entanto, para ser aprovado, no processo como um todo, a fluência no inglês não é determinante.

Tabata aprendeu inglês em um ano, depois que ganhou a bolsa do Cellep. Ela conta que conseguiu ter notas suficientes nas provas do application , mas não era fluente.

“Tinha um inglês muito ruim. Chegando em Harvard tive dificuldade de me comunicar com os americanos, tanto que meus melhores amigos são os latinos e os indianos. Fui sentir que estava fluente só depois do meu primeiro ano, quando fui entender música e filme.”

Ela conta que só foi fazer piadas em inglês no último ano de curso. “Lembro da primeira vez que alguém falou para mim: a Tabata também está engraçada em inglês. Não lembro o que eu disse, mas um amigo falou: nossa ‘ up grade ’!”

4) Quem estuda nos Estados Unidos não volta para o Brasil
Ficar nos Estados Unidos nunca foi um projeto, mesmo com as pessoas dizendo que retornar ao Brasil seria uma “burrice.” Ela elenca pelo menos dois motivos: o contexto político pelo qual o país atravessa e a vontade de impactar a educação.

“Eu estudei ciências políticas, sou fascinada por esse tema. A gente está passando por um contexto histórico muito importante para o Brasil. Então, quer laboratório mais bagunçado e mais interessante para quem gosta de aprender como esse?”

Tabata diz que se ficasse nos Estados Unidos seria mais difícil voltar depois ao Brasil. “Lá a vida é mais fácil, mais segura e mais meritocrática. Só que eu quero ter impacto aqui, entrar para a política. Nunca considerei ficar.”

5) Meritocracia: quem quer consegue
A história da brasileira inspira muitos comentários do tipo “quem quer consegue”, mas para ela, suas conquistas não têm a ver com mérito.

“Vivemos em um país muito desigual e injusto. Tive a benção de ter muitas oportunidades bacanas e aproveitar. Esforço é muito importante, mas se eu não tivesse tido essas oportunidades eu não estaria aqui.”

Ela diz que sua trajetória prova o quanto a educação pode transformar e servir de inspiração. “Se você pegar a população brasileira e der uma educação de qualidade, boas oportunidades, nosso país vai ser mais justo e mais bacana. Não dá para falar ‘quem quer consegue’ porque não é assim. Quem quer e está em uma escola pública de baixa qualidade em uma cidade pequena, não consegue. Sinto muito, mas é verdade.”

Tabata com ao lado do irmão Alan e da mãe Reni na formatura em Harvard, no fim do mês de maio (Foto: Arquivo pessoal)

Tabata com ao lado do irmão Alan e da mãe Reni na formatura em Harvard, no fim do mês de maio (Foto: Arquivo pessoal)

 

Dificuldades e lições
A adaptação em Harvard não foi fácil. Ela embarcou logo após perder o pai, teve dificuldades com idioma, com a “comida sem sabor” e com o frio, que chegava até 27 graus negativos. “Me senti sozinha e cheguei a me questionar se aquele era realmente meu lugar.”

Mas vieram os amigos e a vida, entre estudos e trabalho, foi tomando rumo. “Levou um tempo para eu me encontrar, mas Harvard passou a ser um dos meus lugares preferidos no mundo que eu sinto muitas saudades agora.”

De lá, a maior lição que fica é a importância das pessoas. “Quando você passa quatro anos com gente tão fora de série, você se sente com vontade de fazer mais. Não importa o que eu faça, vou me preocupar em estar perto de pessoas que sabem muito mais do que eu. O que te faz crescer são as pessoas.”

Os limites da meritocracia na educação

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Helio Gurovitz, na Época

Nesta semana será lançado aqui no Brasil Quando a máscara cai, livro em que o escritor americano Walter Kirn – conhecido como roteirista do filme Amor sem escalas, com George Clooney e Vera Farmiga – narra sua insólita amizade de mais de dez anos com um homem que se identificava como Clark Rockefeller e, depois, revelou-se um falsário, farsante e assassino. É uma história espetacular, cujos ingredientes de suspense e mistério têm tudo para fazer dela um sucesso. A questão suscitada pelo caso de Rockefeller é: como alguém pôde enganar tantos por tanto tempo? A melhor resposta foi dada por Kirn, mas num livro anterior, ainda sem tradução no Brasil: Lost in the meritocracy (Perdido na meritocracia). Nele, Kirn narra sua própria trajetória de enganador. Conta como desenvolveu um talento incomum para responder exatamente aquilo que seus professores queriam ouvir e tornou-se um especialista em todo tipo de prova, teste de aptidão e entrevista – sem reunir conhecimentos sólidos sobre coisa alguma. Seu sucesso sem nenhum mérito, como ele mesmo reconhece, revela não apenas os limites do competitivo sistema americano de ensino. Mostra também o equívoco de basear a educação exclusivamente na classificação dos estudantes por meio de notas, grifes, insígnias ou degraus cada vez mais altos e inacessíveis – que conduzem a lugar algum.

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Kirn se descreve como um “filho natural da meritocracia”. Meritocracia é aquele sistema que avalia alunos, professores e escolas em provas, depois premia quem se sai melhor. Procura conferir, por meio de métricas e números, mais objetividade aos critérios de avaliação. Em princípio, nada mais justo. O efeito colateral é, nas palavras de Kirn, valorizar quem, como ele, demonstra “aptidão para mostrar aptidão”. “Eu vivia para prêmios, placas, citações, estrelas e nem pensava em algum objetivo, além da minha aparição nas listas de honrarias”, escreve. “Aprender era secundário, ser promovido era primário.” Desde os 5 anos, Kirn foi a mascote dos professores. Concursos de ortografia, debates simulados, sinônimos e antônimos, o tempo de encontro de caminhões trafegando em direções opostas – todo tipo de desafio era visto como mais um passo na escalada que o conduziu de uma fazenda no interior do Minnesota à renomada Universidade Princeton. Lá, passou a dominar o uso de um vocabulário cifrado, de significado obscuro, e desenvolveu uma competência inigualável para a embromação acadêmica. Descobriu então, na marra, que o mundo era mais complexo. O primeiro choque foi social. Suas origens humildes o depreciavam naquele ambiente de patrícios. Ele se atirou a um universo de drogas, vandalismo, sexo e pretensões artísticas duvidosas, que o levou ao colapso nervoso e à afasia. Kirn só se recuperou após um verão de trabalho ameno na biblioteca. No final de seu curso em Princeton, sofreu a primeira derrota na infindável escala meritocrática: foi preterido na concorrida bolsa de estudos Rhodes, para cursar pós-graduação em Oxford, Inglaterra. Mesmo assim, acabou por lá graças a uma outra bolsa, menos conhecida. Só então Kirn diz que começou a estudar por prazer, não pela ambição de reconhecimento. Seu maior aprendizado em Princeton, aquilo que faz dele um excelente escritor, veio de fora das classes. “Não é o que aprendemos na aula que determina o que nos tornamos, são nossas experiências.”

Seu livro nos coloca diante de uma reflexão fundamental em matéria de educação. A palavra “meritocracia” tem sido adotada como mantra por todos aqueles que defendem a reforma no sistema de ensino brasileiro, sobretudo por fundações e institutos mantidos pelo capital privado. Não é que eles estejam errados. É preciso mesmo vencer a resistência corporativa dos sindicatos de professores, encastelados em seus privilégios e avessos a qualquer sistema de avaliação de suas competências. Mas de nada adianta idolatrar os modelos coreano, chileno e finlandês, ou alimentar uma casta de doutores que dominam conhecimentos esdrúxulos em inglês, alemão, chinês – se nosso problema real é ensinar português e matemática às crianças brasileiras da periferia. Apenas a meritocracia não dará conta de transpor o fosso social ou de romper nossa singularidade cultural, que resiste a aceitar o valor do conhecimento – ou alguém aí viu algum vídeo de algum ex-presidente no Facebook sobre os últimos livros que leu ou os últimos desafios de matemática que resolveu? Para um aluno aprender, o mais importante são os exemplos, atitudes, valores. Os sistemas meritocráticos não se preocupam com isso. Inspirados em técnicas de avaliação empresarial, eles só atuam sobre aquilo que é possível para medir; transformam o talento numa espécie de moeda, acumulada aos milhões e bilhões. Só que, em educação, é verdade que dá para medir muita coisa – menos o que importa.

Livro para ensinar política para crianças de 5 a 7 anos consegue financiamento coletivo

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Brunella Nunes, no Hypeness

Desde que somos apenas um brotinho, nossos pais já têm mil planos e ambições para nós. Acontece que pai e mãe, na prática, não decide nada por ninguém, mesmo que as crianças cresçam sem noção alguma sobre poder e liberdade de escolha. Pensando nisso, o grupo do Laboratório Hacker vai criar um livro infantil focado em política, o “Quem Manda Aqui?”, primeiro volume de uma série de livros com o tema.

O livro, voltado para crianças de 5 a 7 anos, vai traduzir em imagens e poucas palavras conceitos como Monarquia, Ditadura, Democracia, Desígnio Divino e Meritocracia, além de falar sobre formas de decisão como Voto e Consenso. Segundo um dos idealizadores do projeto, Pedro Markun, o livro colaborativo terá ainda a participação das próprias crianças para ser elaborado.

Serão quatro oficinas em diferentes regiões de São Paulo dedicadas a ideias de pais e filhos que participarão como autores. Na obra, personagens e situações serão representados em linguagens visuais como colagem, pintura, desenho, material utilizado posteriormente na produção editorial.

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Entre os outros projetos bacanas já realizados por eles, Pedro citou alguns para o Hypeness: “faz um tempo que a gente vem explorando atividades para o público infantil que tentem explicar ou provocar uma reflexão política. A oficina de ‘Como fazer um projeto de lei?’ transforma as crianças em legisladores e coloca elas para pensar em soluções para problemas da cidade – que a gente escreve em forma de lei e encaminha para a Câmara Municipal”.

E por quê escolher as crianças? Pedro contou que os adultos têm dificuldades para visualizar soluções criativas, presos na realidade. “As crianças não têm essa limitação e são sempre capazes de imaginar outros futuros possíveis”, pontuou.

O projeto do livro arrecadou R$ 12.987 via financiamento coletivo, valor dedicado totalmente à causa e aos seus colaboradores, profissionais que serão remunerados. A obra infantil será publicada com Licença Livre (CC-BY) e ficará disponível gratuitamente para download.

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O trabalho do Laboratório Hacker é composto por um grupo de hackers, ativistas, desenvolvedores, advogados, palhaços e acadêmicos que buscam novas maneiras de fazer política a partir das tecnologias digitais. O espaço esta aberto das 14h as 20hs para quem quiser aparecer, na rua Alfredo Maia, 506 – próximo ao metrô Armênia.

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*Fotos cedidas gentilmente pela equipe Laboratório Hacker

Agradecimentos: Pedro Markun, Larissa Ribeiro e Raul Duarte

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