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Iniciativas literárias ampliam o debate sobre o racismo, um dos grandes temas de 2017

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Voz. Ketty Valêncio só vende obras de autores menos conhecidos em sua livraria Foto: Gabriela Bilo/Estadão

Voz. Ketty Valêncio só vende obras de autores menos conhecidos em sua livraria Foto: Gabriela Bilo/Estadão

 

A livraria Africanidades, em São Paulo, a editora Malê, no Rio, e o novo conceito dororidade, criado por Vilma Piedade, são alguns destaques do ano

Maria Fernanda Rodrigues, no Estadão

Em uma rua tranquila de Perdizes, a bibliotecária Ketty Valêncio dá mais um passo na concretização do negócio idealizado no MBA que fez na Fundação Getúlio Vargas e que começou em 2014 com uma livraria online especializada em obras de autores afro-brasileiros. Nos últimos dias de 2017, a Africanidades ganhou uma sala no número 1.158 da rua Aimberê, onde estão à venda 100 títulos. Mas o sonho vai além: ela quer, como já queria na pós-graduação, criar um espaço de diálogo e de memória – com clube de leitura, eventos culturais, debates, exibição de filmes, shows, etc.

O leitor encontra, ali, poesia, história de amor, de racismo, histórias de luta. Ketty seleciona a dedo o que vai vender e, embora admire a obra de Carolina Maria de Jesus, “a mestra das mestras”, de Conceição Evaristo ou de Chimamanda Ngozi Adichie, essas autoras não estarão nas prateleiras de sua livraria. “Elas não precisam de mim, estão em qualquer livraria. Vendo uma literatura desconhecida e posso não ter lucro, mas apresento essa produção”, explica.

Na Minha Pele (Companhia das Letras), de Lázaro Ramos, também não será encontrado na Africanidades. O livro em que o ator conta sua história enquanto reflete sobre temas como o racismo foi o mais vendido na última Festa Literária Internacional de Paraty – uma Flip que se abriu mais a autores negros, homenageou Lima Barreto e se emocionou com o depoimento espontâneo da professora Diva Guimarães, neta de escravos.

“Não sei qual será meu próximo livro ou se escreverei sobre esse assunto novamente, mas eu queria muito falar para o público que leu Na Minha Pele para não me tornar obsoleto em discussões que considero tão urgentes”, pede Lázaro Ramos. Ao todo, desde que saiu, em junho, o livro vendeu 70 mil exemplares.

Lázaro ajudou a colocar o racismo em pauta este ano, um caminho que vem sendo trilhado, há décadas, por pesquisadores, militantes e autores que buscam espaço nas editoras, livrarias e debates para apresentar sua produção – de denúncia e combate ou apenas literária. E 2017 foi ano de colher frutos.

A Malê, que lançou seu primeiro livro em 2016, viu duas obras de seu catálogo premiadas pela Associação Paulista de Críticos de Arte no começo do mês: Calu: Uma Menina Cheia de História, de Cássia Valle e Luciana Palmeira com ilustrações de Maria Chantal, na categoria infantil/juvenil, e Dia Bonito Para Chover, de Lívia Natália, em poesia.

“O mercado literário ainda não reflete a nossa diversidade de escritores, priorizando difundir os livros escritos por homens brancos das regiões Sul e Sudeste. Na Malê, invertemos este padrão e priorizamos investir em publicações de escritoras negras e, em seguida, de escritores negros”, conta o editor Vagner Amaro, criador, também, do Prêmio Malê de Literatura, para revelar novos autores. A dificuldade, ele conta, ainda é a resistência das grandes redes de livrarias e de distribuidores em tornar disponíveis os títulos. “Os livros têm grande procura e sempre recebemos mensagens de leitores pedindo que nossos livros estejam nas livrarias.”

A Africanidades e a Malê se juntam a outras livrarias e editoras especializadas em autores negros. Mas a grande novidade do ano que se encerra e que continuará em debate em 2018 é a palavra que a língua portuguesa e o movimento feminista acabam de ganhar: dororidade.

O conceito é explicado no livro Dororidade (Nós) e Vilma Piedade, sua criadora, sintetiza aqui: “Dororidade contém a sororidade, mas sororidade não contém necessariamente a dororidade. Existe uma coisa que une as mulheres, a dor cruel provocada pelo machismo e pela perda. Mas tem uma dor na mulher preta que é diferente: a dor provocada pelo racismo.” A ideia, então, é incluir a pauta da mulher jovem negra nas questões defendidas pelo feminismo.

No livro, a ativista questiona: “Nesse jogo cruel do racismo, quem perde mais? Quem está perdendo seus filhos e filhas?” E responde: “Todos pretos. Todas pretas. A resposta está estampada nos dados oficiais sobre o aumento do genocídio da juventude preta”.

Essa fala nos leva a Acari, no Rio – à Escola Municipal Jornalista Daniel Piza, onde Maria Eduarda Alves da Conceição, de 13 anos, morreu baleada pela polícia em abril, e que fica pertinho de Costa Barros, onde os meninos Roberto, Wilton, Carlos, Wesley e Cleiton morreram com 111 tiros em 2015. Um livro está ajudando um grupo de alunos a discutir questões importantes – e chamou a atenção de algumas mães, que também quiseram participar do clube de leitura.

Lançado em fevereiro nos Estados Unidos e um pouco depois aqui, O Ódio Que Você Semeia (Galera/Record), de Angie Thomas, conta a história de Starr, uma garota negra de família pobre, que estuda em escola de rico e um dia testemunha a execução de um amigo, desarmado, por um policial.

“Apesar do cenário ser bem americano, com suas gangues e a classe média negra politizada e atuante, é possível fazer um paralelo com a realidade brasileira em vários níveis”, conta Ana Lima, editora da Galera.

Premiado pelo National Book Award e, nos últimos dias, selecionado pela Cátedra Unesco de Leitura PUC-Rio como um dos melhores infantojuvenis do ano, o livro chamou a atenção da historiadora e professora da UFRJ, Giovana Xavier, que idealizou o projeto Qual é a sua semente? com a professora Claudieli, da EM Daniel Piza. Os 50 alunos do curso Intelectuais Negras da UFRJ, todos cotistas, já leram e em 2018 recebem o grupo de 30 adolescentes (de 11 a 15 anos) para uma conversa na universidade sobre a leitura, o presente e o futuro.

Humor e metáfora para falar com crianças

O escritor Henrique Rodrigues acredita que o humor, a ironia e as metáforas são importantes na hora de tratar de problemas seculares como o racismo. Por isso, escolheu dois objetos inanimados para falar sobre a convivência com os diferentes.

Primeiro título infantil da Malê, pelo selo Malê Mirim, O Pé de Meia e o Guarda-Chuva, que ganhou ilustrações de Walther Moreira Santos, foi apresentado no Salão do Livro de Paris, este ano, quando o autor participava da Primavera Literária Brasileira, organizada pela Sorbonne, e que abriu caminho para a publicação, lá, em 2018, de seu romance O Próximo da Fila (Record), sobre um garoto que trabalha numa lanchonete para ajudar a família.

“No livro, a meia, que é branquinha, acostumada a viver com a irmã da mesma cor, se encontra com o guarda-chuva, que é preto. Numa conversa com crianças, um garotinho disse que teve uma ideia maluca de passar a usar só meias de cores diferentes. A gente riu, mas vi que ele entendeu a questão, que me parece um dos grandes desafios dos adultos: precisamos conviver com o diferente, porque isso é o que soma, não o ódio”, conta o autor que acaba de ser homenageado pelo Ciep Adão Pereira Nunes, onde estudou. Não muito distante da Escola Municipal Daniel Piza, o colégio conta agora com a Sala de Leitura Henrique Rodrigues. “Esse foi o maior prêmio literário que eu poderia receber.”

O Profile de Dorian Gray

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Leonne Castro, no Literatortura

As relações contemporâneas entre imagem e realidade na internet.

A imagem do cão morderá no futuro. Ao menos foi assim que o filósofo Vilém Flusser predisse por meio de um ensaio no ano de 1983, referente ao futuro da cultura. Trinta anos se passaram e o futuro é agora, mas e quanto à imagem do cão, morde? Morde, claro!

Essa metáfora foi usada para ilustrar uma teoria simples, mas deveras pertinente. Toda imagem, seja vídeo ou foto, significa a cena que nela está contida. Não é senão representação simbólica do objeto capturado. Ou seja, a foto de um cão significa um cão, mas não tem pretensão de sê-lo. Quem olha uma fotografia interpreta os sinais visuais e enxerga o que ali está ilustrado, buscando construir um sentindo. Neste caso, então, a foto é o significante e o que ela representa o significado. Porém, o que se tem notado é uma subversão dessa lógica.

Em uma época de constantes transformações nos veículos de informaçãoe comunicação, percebe-se que aquilo que era imagem perde gradativamente o caráter representativo e passa a ganhar força como campo das essências. A foto de uma cena de guerra, por exemplo, deixa de significar a guerra e passa a sê-la, para aqueles que não a presenciaram, mas que, por sua vez, só tomam conhecimento através do jornal que folheiam. Nas palavras de Vilém “para o receptor da imagem o vetor de significação se inverteu, e o universo das imagens passa a ser a ‘realidade’.”

Da mesma forma funcionam nossos perfis nas redes sociais. Pense: lá consta foto, nome, idade, preferências, escolhas culturais e até uma linha do tempo, traçando o comportamento do usuário ao longo dos dias. Tudo é tão plausível e verossimilhante que chega a confundir. Trata-se de uma imagem que montamos de nós mesmos e que passa a ser o que somos para um número significativo de pessoas. Quando não se teve a oportunidade de conhecer alguém com mais afinco, é com base na internet que formamos nosso [pré]conceito – prática comum inclusive em empresas, que buscam informações de funcionários e candidatos em processo de seleção. É como se fôssemos, cada um de nós, eternos Dorian Gray’s, com nosso retrato intacto aos olhos do mundo, sem se preocupar com os bastidores da alma.

Escrito por Oscar Wilde no final do século XX, o Retrato de Dorian Gray conta a história de um homem que, ao receber uma herança, passa a frequentar a alta sociedade inglesa e ser influenciado por ela através de Lorde Henry Wotton. Ao ter seu retrato pintado, Dorian deseja permanecer eternamente jovem e belo e, por força sobrenatural não explicada, obtém sucesso. A partir de então, todas as consequências físicas de seus atos e de sua vida hedonista, boemia e errante acontece diretamente à pintura e não ao seu corpo. Tal acontecimento, aliado à influência direta de seu amigo, torna o rapaz de eterna beleza um homem insensível e imoral, capaz de cometer as maiores atrocidades sem qualquer lampejo de remorso permanente. Assim como um Dorian Gray, escondemos nossa alma, corrompida em maior ou menor grau, em algum lugar longe da vista dos desavisados e mostramos na capa somente o melhor de nós.

“Nunca conheci quem tivesse levado porrada”, diria o Pessoa na figura de Álvaro de Campos. Ou então, por isso mesmo, foi Álvaro quem disse? Pois bem, se o poeta hoje vivo estivesse, provavelmente diria: eu nunca conheci quem tivesse defeitos na internet. Percebamos a ironia, todos nós temos falhas, seja dentro ou fora das redes sociais. Porém é muito mais fácil suprimi-las quando temos tempo para pensar antes de responder a discussões; dezenas de possibilidades de estampar sorrisos na foto do perfil; ou centenas de filósofos para citar sem ter lido a obra. Fica tudo um tanto mais belo – e outro tanto mais falso, talvez. Não cabe aqui fazer um julgamento precipitado sobre os benefícios ou malefícios das redes sociais e afins. A proposição é unicamente reflexiva, pois, se pensarmos, fazendo as necessárias analogias, na vida real não agimos de forma tão diferente, certo?

Oh! Dorian Gray, como deves estar com inveja de mim agora! Se tu que és nobre e rico, para seres eternamente belo e jovem precisaste desejar de todo coração. Tu que já com a angústia daqueles que encaram a finitude da vida e a efemeridade do belo pela primeira vez, precisaste esconder o teu eu verdadeiro num sótão escuro.Se chegaste a beira do pranto e corrompeste toda tua alma como consequência, eu rio de ti. Pois eu, pífio plebeu, para ter a imagem preservada e ser para sempre como quero parecer, precisei somente estar de acordo com os termos de uso do Facebook.

E eu nem li o contrato.

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“que coisa, não?”

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