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Walcyr Carrasco destaca importância da leitura e conta detalhes dos seus trabalhos no Flipoços em MG

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Walcyr Carrasco conversou com público em duas palestras no Flipoços em MG (Foto: Tiago Ivan da Silva)

 

Dramaturgo falou sobre suas obras destinadas ao público infantil, além do sucesso de “Verdades Secretas”.

Publicado no G1

O público do Festival Literário Internacional de Poços de Caldas, o Flipoços, acompanhou duas palestras do dramaturgo e jornalista Walcyr Carrasco, nesta sexta-feira (4). Com o auditório lotado em ambas as sessões, o autor da novela “O Outro Lado do Paraíso” falou sobre a influência da leitura na profissão e destacou algumas de suas principais obras.

No período da tarde, a palestra foi acompanhada por mais de 400 alunos das escolas do Sul de Minas, que ouviram sobre a força da literatura na carreira. “Tudo o que conquistei foi porque gostava de ler. Eu só consegui ser reconhecido porque sempre li muito. Me apaixonei pelos livros quando li as primeiras obras de Monteiro Lobato, numa cidade menor do que Poços de Caldas. A leitura me abriu as janelas para o mundo”.

O escritor ainda destacou que a leitura é um hábito: “Aprendemos a gostar de algo quando temos uma meta, quando é importante para nós. Às vezes parece difícil, mas quando nos acostumamos a leitura flui facilmente”.

Walcyr Carrasco começou a escrever por volta de 12 anos e teve o primeiro livro publicado aos 28 anos de idade. Agora, no Flipoços, lançou três livros infantis – “Mordidas que podem ser beijos”, “Lais, a fofinha” e “O menino narigudo”.

À noite, na palestra “As verdades secretas de Walcyr Carrasco”, o autor falou para o público adulto sobre a obra que ganhou o prêmio Emmy Internacional, de melhor telenovela.

Mas o destaque foi para sua novela atual, que terá o último capítulo exibido no próximo dia 11. Em “O Outro Lado do Paraíso”, Walcyr contou sobre a inspiração em clássicos da literatura, como “O Conde de Monte Cristo”.

“Li este livro umas três ou quatro vezes e a protagonista Clara é inspirada no personagem principal, um homem. Desta vez, eu preferi trazer as características para uma personagem feminina”.

O autor ainda destacou alguns atores do atual trabalho que se encerra na próxima semana, como Sérgio Guizé, Bianca Bin, Marieta Severo e Fernanda Montenegro. Sem detalhes sobre o último capítulo, Walcyr Carrasco disse que ainda não sabe sobre a próxima obra e que pretende descansar antes de um novo trabalho.

Lavrador larga a roça para estudar e se torna médico após 19 anos em MG

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Lavrador largou a roça aos 20 anos e se dedicou aos estudos para se tornar médico em Monte Belo (Foto: Reprodução EPTV / Tarcísio Silva)

Lavrador largou a roça aos 20 anos e se dedicou aos estudos para se tornar médico em Monte Belo (Foto: Reprodução EPTV / Tarcísio Silva)

 

Mesmo sem recursos, ele decidiu estudar e agora realizou sonho.
História virou capítulo de livro de cardiologista que também o ajudou.

Publicado no G1

Um morador de Monte Belo (MG) superou a baixa escolaridade e a falta de dinheiro para realizar um sonho: deixar de ser lavrador e se tornar médico. Após 19 anos investindo nos estudos e muita superação, ele hoje é motivo de orgulho para os pais. A história de José Reinaldo virou até capítulo de livro.

O início dessa história começa na zona rural de Monte Belo, onde o trabalho não era nada fácil.

“Eu tinha uma vida rural né, trabalhei em Alfenas em uma fazenda, lá eu cuidava de vaca. Aí a gente pediu conta e veio para Monte Belo, aí eu arrumei um emprego em uma granja de suínos”, conta José Reinaldo Lopes da Silva.

Quando ele decidiu ser médico, ele tinha apenas o ensino fundamental. Aos 20 anos, José Reinaldo então decidiu deixar a roça e voltar a estudar. O que ele nem imaginava na época é que demoraria quase duas décadas até ele ver o sonho virar realidade.

“Se você pensar que são 19 anos, é uma vida, de batalha, mas, valeu a pena”.

José Reinaldo é de família simples. Os pais têm pouco estudo e sempre trabalharam pesado para criar os oito filhos. A mãe, Dona Divina, cortava cana e fazia de tudo. “Eu tinha que trabalhar né, deixar eles pequenininhos pros maiorzinho cuidar, foi muito díficil, e eu larguei de trabalhar com 52 anos porque não aguentei mais, de cortar cana. A gente ficava até com dó dele, porque passava até fome, tem dia que ele passava com uma banana”, conta a aposentada Divina Rosa Lopes.

O interesse pela medicina veio em um momento de sofrimento da irmã, Sueli. Ela ficou doente e José Reinaldo precisou acompanhá-la no hospital.

“Como era hospital escola, tinha uma rotina de corrida de leito, que eles falam. Os professores vão com os alunos do 5º, 6º ano e eles vão discutir o caso, e eu gostava muito disso. A cada dia mais que eu permanecia lá, foi nascendo o desejo de ser médico mesmo”, conta José Reinaldo.

Durante o tratamento da irmã, ele encontrou pelo caminho pessoas que o incentivaram a lutar pela profissão. Uma delas foi uma cardiologista.

“Como ele já era técnico de enfermagem, ele queria pagar a consulta da irmã e foi aí que eu disse pra ele para que não pagasse a consulta, que comprasse livros e estudasse, porque ele já tinha dito que tinha a intenção de ser médico”, conta a médica Ana Márcia de Melo.

A médica descobriu que os dois tinham muito em comum. Além de parentes distantes, eles também enfrentaram dificuldades para estudar. A cardiologista escreveu um livro e dedicou um capítulo para contar a história de José Reinaldo.

“Esse livro é uma autobiografia que é uma alusão às pessoas que fazem as coisas de uma forma diferente. Eu entitulei essas pessoas de ‘flores de maio’. As flores de maio elas florescem no inverno e não na primavera, elas fogem do convencional. E o Zé realmente é uma flor de maio, ele fugiu totalmente do convencional, porque é um menino que saiu da zona de risco, da marginalidade, da pobreza, de tudo que poderia ser o futuro dele e se tornou uma pessoa de bem”, completou a médica.

Com pouco estudo, José Reinaldo encontrou um abismo entre ele e a medicina. Venceu todas as dificuldades dando um passo de cada vez. Foi aprovado no vestibular para Medicina na faculdade em Ribeirão Preto (SP), mas não tinha dinheiro para pagar as mensalidades. Foi aí que escreveu uma carta contando a sua história.

“Eu fiquei seis meses lá dentro com se tivesse passeando, sem me preocupar, sem preocupar com pagar nem nada, e foi correndo as mensalidades. Depois disso (da carta), eu consegui bolsa integral nele, aí, já estava preocupado só com estudar”, conta o novo médico.

Filho de família simples, ex-lavrador chegou a passar fome durante os estudos (Foto: Reprodução EPTV / Tarcísio Silva)

Filho de família simples, ex-lavrador chegou a passar fome durante os estudos (Foto: Reprodução EPTV / Tarcísio Silva)

 

Depois de 6 anos, José Reinaldo colou grau e finalmente se tornou médico. Motivo de orgulho para os pais. “Só de ver ele em cima da mesa para assinar (a ata de colação) eu fiquei muito emocionada”, disse a mãe.

“Um pai pobre estudar um filho para médico não é fácil não”, disse o aposentado Pedro Lopes, pai de Reginaldo.”

Agora, o novo médico, que dá expediente no Hospital Bom Pastor, de Varginha (MG), pretende ajudar os amigos da terra e retribuir também tudo o que fizeram por ele. “É uma alegria indescritível, eu entrando aqui hoje no Hospital Bom Pastor, não tenho nem palavras para mensurar o que estou sentindo neste momento”, disse o médico.

E para quem acha que não é possível realizar seus sonhos, José Reinaldo tem um recado. “Trace uma meta e persiga até o fim e não desista nunca, enquanto há vida, há esperança”, completou.

Saga quixotesca de um recém-formado à procura de emprego na Pauliceia

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Eliane Trindade na Folha de S.Paulo

Ele desembarcou em São Paulo em 1º de agosto após 18 horas de viagem desde Foz do Iguaçu em um ônibus de sacoleiros. Trazia na bagagem o diploma em Letras pela Unila (Universidade Federal de Integração Latino Americana ) e os sonhos, definidos como “fumaça na penumbra, belos e efêmeros”.

Bruno Eliezer Melo Martins, 27, logo descobriu que sonhar na Pauliceia, para um rapaz “latino americano sem dinheiro no banco, sem parentes importantes e vindo do interior” como ele, é tarefa quixotesca.

Tal qual Dom Quixote de la Mancha, do romance de 1605 de Miguel de Cervantes, o mineiro de Poços de Caldas tenta vencer seus moinhos de ventos, enquanto busca emprego como mediador cultural, tradutor (de espanhol e francês), revisor ou educador.

Nas entrevistas de emprego, ele usa o terno comprado no Paraguai com dinheiro emprestado por um amigo para fazer bonito na cerimônia de colação de grau em julho.

Um outro amigo descolou a casa na qual ficou alojado nos primeiros 20 dias em Sampa. A aclimatação à metrópole inóspita foi em meio aos livros da sortida biblioteca da família em viagem aos Estados Unidos.

“Creio que nesse período li uns 15 livros. Tenho uma meta de, copiando o exemplo de José Mindlin [bibliófilo], ler ao menos dois por semana”, diz o recém-formado bacharel, filho de um serralheiro e de uma dona de casa.

Leu tanto (de Samuel Beckett a Julio Cortázar, passando por José Lezama Lima, autor pelo qual se apaixonou na graduação), que “na solidão de uma casa de artista até pensei que poderia ser feliz ali.”

Com a volta dos donos, Bruno foi parar numa ocupação do Movimento dos Sem-Teto no centro de São Paulo. Pesadelo que durou dez dias.

“Não gosto nem de lembrar, fiquei doente, vi gente passando fome, tentei organizar qualquer coisa e não consegui diálogo, assembleias todos os dias, vi gente usando muita droga, pessoas enfermas e em estado degradante. Ainda é difícil falar de tudo que vi e vivi ali. Foi duro, triste.”

De lá saiu para um quartinho, com um beliche e uma cama, sobre a qual abriga seus livros, um guarda-roupa e uma pequena mesa. Aluga o cômodo no apartamento de uma senhora simpática, que o faz lembrar da dona de pensão do conto “As Formigas”, de Lygia Fagundes Telles.

É dali que pesquisa sobre possibilidades de empregos, envia currículos. “Não para poetas, mas qualquer vaga.” Ele conta que dia desses foi à avenida Paulista ler poemas de Manuel Bandeira: Estrela da Manhã, Pasárgada.

“Mas os pedintes pareciam receber mais moedas que eu. Percebi que recitar Bandeira e não ser escutado era um desrespeito com o próprio. Poesia não pede esmola, tampouco a literatura precisa disso.”

O recém-formado também desbrava a riqueza cultural de uma São Paulo cosmopolita e cara. “A cidade oferece muitas opções e dentro das minhas possibilidades tenho participado, algumas (a maioria, na verdade) são pagas, os cursos são caríssimos e nem todos oferecem bolsas ou descontos”, lamenta, mas se joga nas bibliotecas públicas e em cursos gratuitos que garimpa.

Sua preocupação maior, admite, é a absoluta falta de recursos financeiros. “Meu salário é o pouco do cheque especial que ainda tenho. A situação é de completa pindaíba, as contas chegam, sei que em breve conseguirei algo, mas penso quase com desespero neste momento.”

Em meio ao “ciclo vicioso dos desprovidos de recursos”, Bruno relata como é duro saber que sem um tostão não se pode nada. “Porém sigo como um Quixote inabalável em busca do literário, da paixão, da vida, dessa busca pela dignidade através do poema, da cultura, da beleza.”

“Não sou um sujeito revoltado, mas a minha intensidade da busca pela cultura é uma grande forma de protesto frente ao capital agressivo, ao imediato, à causa e ao efeito.”

A seguir, trechos das “Quixotadas Paulistanas”, o diário que o bacharel em letras, está escrevendo sobre suas vivências na Pauliceia, embrião do primeiro romance de um jovem sonhador.

“O que quero mesmo é escrever não sobre o que me passa, mas sobre a ficção prazerosa da própria vida. Não sei que será do futuro, como se dará minha vida. Às vezes, a única certeza é a incerteza. Mas nessa incerteza há também um prazer incontido de estar vivo e acreditar, por mais que digam o contrário, que o sonho é o caminho mais belo para a realidade.”

QUIXOTADAS PAULISTANAS

Prestes a completar dois meses em São Paulo e na antevéspera de seus 27 anos, nosso personagem vai a uma reunião que definiria seus rumos.

Na verdade, sua reunião era mais do que uma simples entrevista de emprego marcada pela recrutadora para cumprir sua meta diária de entrevistas, era a primeira vez em todo o período de sua estada em São Paulo que lhe convocavam para uma reunião/entrevista.

O dia de nosso personagem e candidato começou com uma parcimoniosa preparação com o requinte de um primeiro dia de trabalho, colocando aquele seu melhor terno e chamuscando a si com o restinho do perfume almiscarado, presente de tantos anos, de um amigo rico.

Nosso personagem tinha certeza de que a vaga seria sua, tinha confiança e pensava que seria um presente do céu que viria para sanar suas relações com cruéis credores e mercenários bancos.

Não viu problema em tomar um café numa boa cafeteria, comer dois croissants, pedir geleia de damasco e mais um expresso, para pagar, usou elegantemente seu cartão de crédito cujo limite foi atingido com aquela última compra.

Marcada para às 10h da manhã, lá vai o nosso candidato à vaga de professor em uma escola particular.

No prédio em que fica o escritório da agência de empregos, na rua Sete de Abril, é muito cordialmente recebido pelo porteiro que lhe indicou o sétimo andar na sala 107.

Por alguma razão, nosso candidato se sentiu oprimido por tantos setes e até se lembrou do sétimo pecado na lista dos dez melhores mandamentos, não roubarás, lembrou-se então de que não cometeria nenhum deslize e jamais mentiria em uma entrevista.

A sala 107 estava repleta de todas as pessoas, na recepção após pedirem-lhe a carteira de identidade, mandaram-no aguardar. Sentiu-se um pouco incomodado por ter um tratamento tão padrão, mas não deu muita importância a isso. Queria mesmo é falar de literatura e dos romances que já lera.

Possivelmente o candidato observou todas as outras pessoas e imaginou histórias, todos eles estavam como ele, desempregados e inservíveis, fora das engrenagens, nas margens da população economicamente ativa, sem dinheiro para pagar as contas mais básicas e comendo no crédito.

Nosso candidato pensou na dureza da vida e nos nãos que todos aqueles poderiam ouvir, mas para si, visualizava em sua primeira entrevista um glorioso sim e começaria a trabalhar como professor de literatura com um modesto salário, mas que seria o suficiente para vida digna, isto é, com as contas pagas.

Quando foi chamado, nosso candidato falou muitas coisas interessantes e que serviam para a vida, falou até de Dom Quixote resumindo a história para a entrevistadora que disse não conhecer, um cúmulo para o entrevistado.

Em resumo, disse a ela, Dom Quixote é a aventura de um leitor fascinado.

No final, a entrevistadora agradeceu muito a disponibilidade do candidato, mas não poderia dar prosseguimento ao processo seletivo, sem explicar o porquê, ela desejou-lhe boa sorte.

Nosso candidato não exigiu explicações, preferiu aceitar dignamente seu primeiro não e sair de cabeça bem erguida e também sorrindo para disfarçar que bem dentro de si ocorria uma tormenta que faziam os olhos marejar daquilo que chamam de decepção.

QUIXOTADAS NÚMERO 2

Nosso candidato, ao sair de seu primeiro e sonoro não, caminhou pelas ruas desconhecidas até uma casa de velas.

Velas e alfazema, mesmo sem ter o que comemorar não resistiu e comprou um robusto, se não para fumar, ao menos para guardar, marcando esse dia. Pagou o charuto com as moedas e as notinhas amassadas que ainda restavam em seus bolsos.

Sentiu as alfazemas como um perfume que lhe traria boas notícias, fechou os olhos e respirou profundamente o ar a loja de produtos esotéricos e saiu com o havano no bolso e ainda sem rumo.

É muito difícil saber o que realmente se passa com nosso candidato, um sujeito de tanto maravilhamento, mas também meio triste com a vida, com as coisas e com os sem rumos de seu itinerário.

Seus pés querem leva-lo em várias direções e por isso, parado espera para pensar para onde poderia ir. Vê uma banca de doces, se pudesse compraria um pé-de-moleque, já não há dinheiro.

Vê um viaduto, e do outro lado da calçada, um antiquário. Resolve caminhar até lá para conhecer um pouco das histórias de pessoas tão desconhecidas que um dia usaram aquelas quinquilharias.

O candidato viu um divã e ficou impressionado com seu formato, nada que fugisse as regras de um divã convencional, mas os pés eram dourados e era revestido por couro branco. Se possuísse um studio poderia comprar aquele divã e nele leria as obras completas de Freud e Lacan.

A dona do antiquário acompanhada de sua cadeira giratória observa todos os passos do candidato, muito provavelmente sabendo que não conseguirá dele nenhum tostão.

O candidato sai, continua sem rumo, mas, mesmo sem querer encontra um caminho conhecido, seus pés que o querem em todas as direções encaminha-o para o quarto alugado.

Sem pretensões entra no quarto, tira o calçado, deita e olha a luminária de duas lâmpadas, mas que só tem uma. Não sabemos que pensa o candidato. Mas é possível perceber que ele ainda sonha em trabalhar, talvez como poeta.

QUIXOTADA NÚMERO 3

De como passou o candidato uma manhã fria, sem ter onde ir.

É na brisa empoeirada da manhã que nosso candidato se debate em pensamentos de ternura para com seu primeiro emprego imaginário.

Sonha acordar cedo, preparar a valise com cadernos e canetas, tomar o café preparado por ele mesmo e sair para labutar os versos da vida.

Pensar na vida enquanto lavra as réstias de um equilibrado poema sobre a desventura de viver nesse tempo….

Nosso candidato caminha ainda com o comércio fechado, observando os pictogramas nas portas sem identificar qualquer coisa de compreensível…

Caminhava olhando atentamente o chão com a sujeira e os paralelepípedos semi soltos, fixava o olhar em bitucas de cigarro procurando identificar a marca, recolhia algum pedaço de papel para ler, pensando ser um trecho de algum poema.

Nosso preocupado candidato corria os olhos nas placas, nos stands, nos vendedores de bolos e cafés que se acumulam nas calçadas. Pensou que poderia fumar, mas não havia cigarros e se lembrou que havia deixado de fumar.

O sal do suor frio que lhe descia nas pestanas e a respiração ofegante de uma manhã de caminhos apressados para lugar algum conferiam ao nosso candidato o sono do desalento de suas aventuras.

Não poderia ser diferente, a busca por emprego era um segredo só seu e permitir que os outros soubessem de sua falta de ocupação corresponderia a reconhecer o fracasso de tantos anos.

Por isso, nosso candidato mantém uma série atividades como sair apressado pela segunda-feira e procurar em todos os lugares, inclusive embaixo das pedras e nos bancos indicativas de empregos quaisquer.

Nesse momento o candidato pensou até na vaga de pedinte, porém, sabemos que nosso candidato tem muito orgulho e, caso recebesse essa oferta, recusaria tal vaga.

O varredor, que varria a rua pela qual passava o candidato, sorria cantando uma trova muito alegre, mas o cantante não fez mais que aumentar a tristeza de nosso candidato.

Nesse meio tempo já se passara mais da metade da manhã e muito cansado o candidato resolveu se sentar próximo a uma praça. Sem querer adormeceu e não teve nenhum sonho. Mas foi acordado por um carinhoso vendedor de amendoim.

UM PEQUENO ROMANCE

Conheci o autor das “Quixotadas” por indicação de um amigo comum, que vive na Espanha, e pediu que o recebesse para uma conversa, na qual sugeri que Bruno escrevesse crônicas sobre as tantas histórias relatadas no almoço.

Dois dias depois, ele me enviava os primeiros textos, transcritos em parte acima. Neste domingo, o recém-formado candidato ao primeiro emprego enviou também o primeiro capítulo do que chama de “romanceto”.

“Estou escrevendo um livro novo, minha amiga desconhecida. O título provisório é ‘São Paulo, me Abrace’. Estou me sentindo afogado pela fumaça desse elegante tabaco que me consome a vida. Estou me sentindo perdido e imóvel, estou vendo minha vida passar nas gretas do vazio.”

Com 60 estandes e livros a partir de R$ 5, Flipoços atrai visitantes em MG

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Estandes trazem diversidade durante o Flipoços (Foto: Bruno Alves / Flipoços)

Estandes trazem diversidade durante o Flipoços (Foto: Bruno Alves / Flipoços)

 

Livreiros apostam em diversidade e preços mais em conta para clientes.
Escritores independentes aproveitam o espaço para conquistar o público.

Publicado no G1

Com 60 expositores, a 11ª edição do Festival Literário de Poços de Caldas (MG), o Flipoços, oferece opções de leitura para todos os tipos de público. Desde os locais temáticos, com livros sobre educação, negritude e culinária, a estandes com livros infantis, livros feitos de pano e feltro e livros em promoção, que custam a partir de R$ 5.

O livreiro Marcos Ferreira da Silva participa do evento há 7 anos. Ele é de Divinópolis (MG) e roda o Brasil em festivais literários e diz ter um carinho especial por Poços de Caldas. “Essa feira aqui é muito boa. Viemos, neste ano, com um diferencial. Trouxemos um diferencial, que são livros mais procurados, mas também alguns raros”, disse.

Para quem é fã de leitura, como o estudante João Gabriel Marçal Dias, de 21 anos, os livros mais em conta são um prato cheio. “Eu sou apaixonado por literatura, de todos os tipos, então, já guardo um dinheiro para comprar bastante coisa no Flipoços e ler durante o ano”, comentou, enquanto comprava cinco exemplares de romances variados.

Há também, além de livros, cabines fotográficas sobre literatura, estandes voltados a livros de mágica, a revistas, venda de roupas e produtos poéticos em diferentes suportes, venda de doces regionais, de mel, além das palestras e atividades que ocorrem diária e simultaneamente. E ainda o espaço Flipocinhos, com atividades diárias para o público infantil.

Flipocinhos traz atividades para crianças (Foto: Bruno Alves / Flipoços)

Flipocinhos traz atividades para crianças (Foto: Bruno Alves / Flipoços)

 

Autores independentes
Os autores independentes, que também participam do evento, ficam felizes com a movimentação. Neste ano, são esperadas 60 mil pessoas. Para a pedagoga e poeta Marília Rossi, que lança o livreto “Partida”, tem sido uma boa oportunidade. Com uma mala e a pergunta: ’o que te cabe?’, ela disponibiliza post-its para que os passantes possam escrever o que carregam em suas malas pessoais, seja de viagem ou de vida.

“Eu estou no estande de escritores independentes. Resolvi fazer uma intervenção com o público e tem dado certo. No domingo (1º), vendi todos exemplares que eu tinha comigo e tive que mandar fazer mais”, destacou.

O escritor Márcio Dias também está no evento. Para ele, esta é a oportunidade de divulgar o trabalho. “Aqui a gente faz contato, conversa com os visitantes, mostra o trabalho que ele ainda não teve acesso e assim acaba fazendo vendas”, contou.

E estas falas vão ao encontro do que pensa o presidente da Câmara Brasileira do Livro (CBL), Luís Antônio Torelli, que esteve presente pelo segundo ano no Flipoços. “Eu sou suspeito para falar, mas eu penso que o Flipoços tem os mesmos objetivos que nós, na Câmara, que é fomentar a criação de novos leitores e o evento cumpre esse papel muito bem, ao conseguir colocar o livro como muito acessível ao leitor”, disse.

Meninas apaixonadas por livros se tornam escritoras mirins no Sul de MG

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Ana Clara nasceu em BH, mas livro infantil surgiu em São Lourenço.
Sophia é de Rio Branco (AC) e escreveu primeiro livro em Campestre.

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Publicado em G1

Em um mundo onde as crianças estão cada vez mais ligadas à tecnologia, duas meninas no Sul de Minas mostram que o hábito de ler e escrever ainda pode ser mais interessante do que os adorados videogames e smartphones. Elas não nasceram no Sul do estado. Uma veio de longe, lá do Rio Branco, no Acre, e hoje, mora na zona rural de Campestre (MG). A outra nasceu na capital mineira e há quase 5 anos mora em São Lourenço (MG). Cada uma com uma história diferente de vida e de perseverança.

O que as duas têm em comum? O amor pela literatura e pelo mundo de fantasias que existe nas histórias infantis. E mais uma coisa: seus próprios livros. Mesmo ainda tão jovens, elas se tornaram escritoras, e agora também sonham com o estrelato no mundo artístico.

Do Acre para Minas
A garotinha de sorriso doce nasceu em Rio Branco (AC), mas desde março deste ano mora com o pai na zona rural de Campestre. Sophia Ferreira Carvalho, de 7 anos, fez do improviso uma oportunidade para escrever o primeiro livrinho.

“Eu precisava levar um livro para a escola, mas eu não tinha nenhum em casa e acabei fazendo o meu livrinho com a ajuda do meu pai”, explica a garotinha.

O pai de Sophia conta que ele nasceu em Poços de Caldas (MG), mas acabou indo morar no Acre, onde ficou por 11 anos. Lá ele casou e teve três filhos, mas as coisas mudaram e ele resolveu voltar para o Sul de Minas, desta vez com a filhinha nos braços.

“Minha ex-esposa e meus outros dois filhos ainda estão em Rio Branco. Como a Sophia é muito apegada a mim, ela acabou vindo para cá comigo. Daí um dia eu cheguei do trabalho e a minha filha me disse chorando que precisava levar um livrinho pra escola. Mas todos os livros dela ficaram no Acre. Felizmente ela havia escrito uma historinha no tablet e eu só precisei fazer as ilustrações e montar o livro, de forma artesanal mesmo. Ficou bem simples, mas fez sucesso entre os coleguinhas”, explica o pai e grande incentivador, Fábio Carvalho.

Ideia promissora
“O aniversário de Marina” escrito em folha de papel couchet de forma bem artesanal, narra uma festa surpresa feita pelos amiguinhos à personagem. A ideia, mesmo que muito simples, fez tanto sucesso que já tem até encomendas para novos livrinhos.

“A minha amiga Lívia leu meu livro um monte de vezes. Depois a Letícia Amélia me pediu um. Falta só meu pai desenhar, eu já fiz até uma nova história”, conta a pequena escritora que já tem mais duas aventuras prontas para virar livro.

Além da veia literária, Sophia tem planos para investir em outras formas artísticas.

“Meu pai está me ajudando a gravar um programa para a internet. Já tem nome e até filmei um de teste. Depois a gente coloca no canal de vídeo na web pra todo mundo ver”, finaliza inspirada por outras jovens artistas da internet e sonhando com o estrelato. Mas o nome ela não revela. “É surpresa”, finaliza Sophia.

Na contramão do diagnóstico
Quem vê a pequena escritora mirim de olhar cativante nem imagina que ela já enfrentou diversos problemas de saúde. Aos 7 meses de vida, Ana Clara de Souza Santos foi diagnosticada com a Síndrome de Kawasaki – uma doença que que afeta principalmente crianças com menos de 5 anos e provoca erupção cutânea, febre, inflamação dos gânglios linfáticos e, por vezes, inflamação do coração e das articulações.

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Até completar três anos, a garotinha sofreu com convulsões e o pediatra acreditava que ela pudesse ter problemas de aprendizado. Na época, a mãe recebeu dos médicos a indicação de que a mudança de endereço poderia ajudar a filha. E foi o que a professora Ana Maria Carvalho de Souza fez. Mudou-se com a filha de Belo Horizonte para o Sul de Minas.

Atualmente, mãe e filha moram em São Lourenço e comemoram o lançamento do primeiro livro da escritora mirim. A menina de apenas 8 anos, que estuda em uma escola municipal, deve lançar em novembro deste ano o livro “Sonhos de uma Sapeca Levada da Breca” com histórias e ilustrações desenvolvidas por ela.

“As ideias surgem da minha imaginação porque eu adoro ler, desenhar e escrever. E aí eu penso muito e vem na minha mente um tanto de coisas que eu gosto de colocar no papel”, conta a menina que sonha em ser escritora, mas que também pretende pintar quadros, ser cantora e artista.

“Ah, e eu já escolhi meu nome artístico, mudei o meu sobrenome que é Souza Santos para Saso. Por isso, assino minha obra como Ana Clara Saso”, afirma a escritora mirim.

Mãe orgulhosa
A mãe da escritora conta que, até conseguir que uma editora se interessasse pela história da filha, foi preciso ouvir muito não. “Eu encaminhei o material dela para umas 50 editoras até que uma em Pará de Minas se interessou. Mas eu não ia desistir. A família inteira ajudou na realização desse sonho. Um pouquinho daqui, um pouquinho dali e conseguimos enfim tornar o sonho dela realidade”, explica Ana Maria.

Por indicação da editora, as ilustrações das 11 histórias que compõem o livro não ganharam cor. “Eles disseram que está na moda livro para colorir, então as ilustrações feitas pela minha filha perderam a cor, mas o fato é que vira um incentivo a mais para que os pais comprem uma edição”, conta a mãe.

Emocionada, a mãe conta que a filha é uma inspiração de vida. “Eu já segurei a Ana Clara no colo, com ela prestes a morrer. Hoje eu estou muito orgulhosa da minha menina. Ela já passou por cada coisa, e hoje é uma menina saudável e cheia de vida. Ela é uma das melhores alunas da classe e sempre tira boas notas. Ela é minha vida”, completa.

 

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