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Posts tagged Milton Hatoum

‘É uma ficção que tem muito a ver com a minha vida’, diz Milton Hatoum sobre novo livro

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O escritor Milton Hatoum: maior romancista brasileiro vivo - Divulgação

O escritor Milton Hatoum: maior romancista brasileiro vivo – Divulgação

Alexandre Gaioto, no Viva Maringá

Milton Hatoum não pode conceder entrevistas. O maior romancista brasileiro vivo, que já participou de dois eventos literários em Maringá – enfrentando intermináveis sessões de autógrafos e dialogando com o público – encaminha uma resposta gentil e cordial, avisando que a editora Companhia das Letras pediu que não comentasse, por enquanto, o seu próximo romance, “A Noite da Espera”, que já está em pré-venda na internet e será lançado no dia 27.

O silenciamento de Hatoum é absolutamente compreensível. Seu último romance, “Cinzas do Norte”, foi publicado em 2005 e faturou os prêmios literários mais importantes do País, como o Portugal Telecom e o APCA. Hatoum e editora sabem que têm em mãos não apenas um romance: eles têm, simplesmente, a obra mais esperada dos últimos anos da literatura brasileira.

Embora Hatoum não possa falar no momento – ele prometeu entrevista para depois do lançamento da obra -, é possível ter uma ideia, mais ou menos, do que será a primeira parte da trilogia “O Lugar Mais Sombrio”.

Processo criativo

Em abril de 2014, o romancista manaura considerava “O Lugar mais Sombrio” uma sequência de apenas dois romances – e não três -, de acordo com entrevista publicada no Correio Braziliense, concedida à jornalista maringaense Ariádiny Rinaldi.

Ao Estado de S. Paulo, três anos antes, Hatoum não parecia cogitar a ideia de uma trilogia. O autor comentava que “O Lugar mais Sombrio” seria o título do próximo romance e revelava ao jornalista Daniel Piza que não saberia se conseguiria cumprir o prazo da editora, finalizando a obra até julho de 2011. Ou seja: a proposta da trilogia – uma lacuna, é fato, na literatura nacional – não foi planejada desde o início da escrita, mas surgiu com o tempo.

Questionado em 2014 no Correio Braziliense sobre o que uniria os dois livros de “O Lugar mais Sombrio”, Hatoum respondeu: “A mulher do segundo volume conheceu dois dos personagens do primeiro livro quando esteve no Brasil. Então, nessa segunda parte do romance ela está relembrando e contando para um amigo uma história de amor que ele não conheceu. Uma relação amorosa, a qual ele não teve acesso, mas que foi dramática. É quase trágico para ela”.

Vida real

O romance – ou, agora, a trilogia – segundo o autor “é uma ficção que tem muito a ver com a minha vida”, comenta, adiantando que será seu primeiro romance escrito sob a perspectiva feminina e que terá momentos ambientados durante o regime militar.

“Eu tinha 12 anos quando saí da província, Manaus, para morar em Brasília, que estava fervendo naquele momento. Cheguei no Distrito em 1968, no ano do AI-5”, comentou ao Correio Braziliense.

Cerca de 4.080 noites depois do lançamento de “Cinzas do Norte”, Hatoum está prestes a matar a curiosidade de seus leitores. As esperas nunca foram tão angustiantes nem tão líricas.

NA TELINHA
Romance mais lido de Hatoum, “Dois Irmãos” é o segundo de sua trajetória e foi contemplado com o Prêmio Jabuti. Na Globo, minissérie foi dirigida por Luiz Fernando Carvalho.

NOVELA
Em uma prosa mais enxuta, autor aborda a história da decadência de uma família em “Órfãos do Eldorado”. Virou filme em 2015, nas mãos de Guilherme Coelho.

ÉPICO
Ambientado em Manaus, “Cinzas do Norte” faturou os prêmios Bravo!, APCA (Associação Paulista dos Críticos de Arte) e Portugal Telecom.

ESTREIA AVASSALADORA
Em seu primeiro romance, “Relato de um Certo Oriente”, Hatoum faturou o Prêmio Jabuti de Melhor Romance e já foi publicado em vários países da Europa.

Flica 2016 terá Milton Hatoum, Conceição Evaristo e Ana Maria Machado

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O escritor amazonense Milton Hatoum, autor de livros como Dois Irmãos e Relato de um Certo Oriente, participa, na sexta, da mesa A Voz do Autor, junto com o escritor baiano João Filho (Foto: Divulgação)

O escritor amazonense Milton Hatoum, autor de livros como Dois Irmãos e Relato de um Certo Oriente, participa, na sexta, da mesa A Voz do Autor, junto com o escritor baiano João Filho (Foto: Divulgação)

 

Em sua sexta edição, a Flica chega à sexta edição entre os dias 13 e 16 de outubro, em Cachoeira

Publicado no Correio 24Horas

A mesa de abertura da Flica – Festa Literária Internacional de Cachoeira, no dia 13 de outubro, às 15h, terá a participação de Mary Del Priore. A historiadora carioca vai falar sobre o seu mais recente livro, Histórias da Gente Brasileira, que, em vez de se concentrar nas grandes personalidades brasileiras, registra os hábitos do brasileiro comum, mostrando como as pessoas se vestiam, onde moravam e o que comiam.

Pela primeira vez, a Flica vai dedicar uma mesa, exclusivamente, a um autor e a um livro. O mediador da conversa é Jorge Portugal, professor e secretário estadual da Cultura. Outros autores nacionais, como Milton Hatoum e Ana Maria Machado, a homenageada deste ano, também participarão da Flica 2016.

Hatoum, autor de livros como Dois Irmãos e Relato de um Certo Oriente, participa, na sexta, da mesa A Voz do Autor, junto com o escritor baiano João Filho. Ana Maria Machado, conhecida também por sua produção dedicada às crianças, falará sobre seus romances voltados para o público adulto.

A literatura fantástica também terá espaço, com Eduardo Spohr, de A Batalha do Apocalipse, e a baiana Scarlet Rose, de Finlândia. A poesia e a prosa de ficção são destaques na mesa com a mineira Conceição Evaristo e a baiana Lívia Natália.

Os destaques internacionais são o colombiano Juan Gabriel Vásquez e congolês Kabengele Munanga. A Flica, que chega à sexta edição, segue até dia 16. O evento é uma realização da iContent e da Cali – Cachoeira Literária, com patrocínio da Coelba, Oi e governo do estado.

PROGRAMAÇÃO FLICA 2016

Quinta 13/10

Mesa 1 – 15h
“Histórias da gente brasileira”
Mary Del Priore
Mediação: Jorge Portugal

Mesa 2 – 19h
A confirmar

Sexta 14/10

Mesa 3 – 10h
“Do Éden à Finlândia”
Eduardo Spohr e Scarlet Rose
Mediação: Suzane Lima Costa

Mesa 4 – 15h
“A voz do autor”
Miltom Hatoum e João Filho
Mediação: Mirella Márcia

Mesa 5 – 19h
“O mar, um mapa, a audácia”
Ana Maria Machado conversa com Mônica Menezes

Sábado 15/10
Mesa 6 – 10h
“Histórias de humor sutil, micromundos familiares e fratura generalizada”
Juan Gabriel Vásquez (Colômbia) e Antonio Prata
Mediação: Zulu Araújo

Mesa 7 – 14h
“Exílios interiores”
Ana Martins Marques e Ângela Vilma
Mediação: Mônica Menezes

Mesa 8 – 17h
“As águas dos contrassonetos e os olhos da vândala insubmissão”
Conceição Evaristo e Alex Simões
Mediação: Lívia Natália

Mesa 9 – 20h
“Entre cidades atlânticas”
Kabengele Munanga (Congo) e Goli Guerreiro
Mediação: Zulu Araújo

Domingo 16/10

Mesa 10 – 10h
Caruru dos 7 Poetas na Flica

Milton Hatoum avalia que o maior patrimônio é o bom leitor

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Hatoum e o livro que considera a maior obra da literatura (Foto: Divulgação)

Hatoum e o livro que considera a maior obra da literatura (Foto: Divulgação)

 

Amanda Celio, no Correio de Uberlândia

O ofício é escrever e o desafio é captar os dramas universais que atingem o ser humano. Para Milton Hatoum, a literatura não é um jogo de palavras, mas uma forma de conhecimento que o leva a expor um pouco da própria essência nos enredos dos romances, contos, ou crônicas que escreve. O premiado escritor manauense é presença confirmada no 5º Festival Literário de Araxá (Fliaraxá), em que será o homenageado.

O evento acontece entre os dias 14 e 18 deste mês na cidade mineira, com entrada franca. Suas obras são alvo de adaptações para TV, cinema e histórias em quadrinhos. Porém, com quase 30 anos de carreira literária, o autor revela que tudo foi inesperado e que seu maior patrimônio são seus bons leitores.

São quatro romances publicados e um quinto em produção. No trabalho de Hatoum, as memórias e lembranças do autor se fundem numa narrativa que tem como pano de fundo as experiências vividas em Manaus. “Tento escrever aquilo que de fato diz alguma coisa dentro de mim. Minhas inquietações e meus questionamentos diante da vida ou da situação política de meu País”, afirma.

Antes de escrever, a leitura de outras obras e, sobretudo, os clássicos autores, como Machado de Assis, Joseph Conrad, William Faulkner e Shakespeare foram fundamentais para Hatoum. Porém, ao finalizar a leitura “Grande Sertão: Veredas”, do mineiro Guimarães Rosa, o escritor sofreu um bloqueio criativo que quase o impediu de seguir na carreira literária. “Para mim, essa é a maior obra da nossa literatura. É ousado e fala de temas como a vida, a metafísica, a religião. Após terminar a leitura eu pensei: por que escrever depois disso? Faz sentido escrever alguma coisa?”, diz.

Com uma linguagem marcante, enredos complexos e o aprofundamento nos dramas familiares, Hatoum é constantemente comparado aos grandes escritores do Brasil e do mundo, de Graciliano Ramos a Marcel Proust. Mas o autor foge das comparações e acredita que seu trabalho apenas traduz o seu próprio modo de ser. “Não saberia escrever algo que não vivenciei. Essas comparações são exageradas. Fico feliz, pois são leitores que foram buscar informações nas minhas influências. É uma honra, mas, certamente não mereço”, afirma.

Adaptações

Os romances e contos de Milton Hatoum também mexem com produtores e artistas de outras mídias. Como exemplo, a obra “Dois irmãos” foi adaptada para o formato das histórias em quadrinhos pelos gêmeos Fábio Moon e Gabriel Bá, e recebeu, no último mês, o Prêmio Eisner, considerado o Oscar dos quadrinhos. A mesma obra virou minissérie da Rede Globo e estreará em janeiro de 2017, sob a direção de Luiz Fernando Carvalho. “Sempre tive muita sorte com adaptações. O Fábio e o Gabriel trabalharam quatro anos nessa história. Viajaram até Manaus, conversaram muito comigo e o resultado foi maravilhoso. Eu vi o primeiro capítulo da minissérie e é deslumbrante também. Chorei um pouco, pois vi ali alguns momentos da minha infância e juventude”, diz.

Hatoum conta ainda que deixa os roteiristas e produtores livres para trabalharem diretamente nas suas obras. “Eu não imaginava nada disso. Apenas escrevia, pensava no conceito de personagens e na passagem do tempo das histórias”, afirma.

Novo trabalho

Em 2008, Hatoum publicou seu último romance, “Órfãos do Eldorado”. Agora, trabalha há oito anos em um novo projeto. Sob o título provisório de “O lugar mais sombrio”, a ser divido em dois volumes. O primeiro volume é ambientado em Brasília e São Paulo e tem como pano de fundo o período da Ditadura Militar (1964-1985), mas não trata-se de um romance político. “São histórias de vida de vários personagens. É uma pesquisa sobre a vida desses personagens. A fórmula é bem diferente dos meus outros romances. Esse ano não vou terminar nada, mas, quem sabe no ano que vem? Antes que ele acabe comigo”, diz.

Milton Hatoum diz que continua exigente com o próprio trabalho e que ninguém escreve para ser best-seller

CORREIO DE UBERLÂNDIA – Em quase 30 anos de vida literária, com inúmeros prêmios, adaptações de obras e traduções, o que mudou em Milton Hatoum enquanto autor?
MILTON HATOUM – O escritor não pensa muito nessas coisas. Tudo isso aconteceu ao longo do tempo, desde 1989 quando publiquei meu primeiro romance. Continuo exigente com a linguagem, com meu trabalho. Minha exigência é quase doentia, quase um caso clínico, por isso que publico pouco. Fico contente por ter muitos leitores e bons leitores com o alcance de alguns romances. No fundo é o que todo escritor quer. Ninguém escreve para ser best-seller, a não ser aqueles que só pensam nisso. Muda alguma coisa na minha própria obra. Ela começou com um relato íntimo, da memória, com narradores que falavam do passado. Depois de um drama familiar que expandiu para a cidade e, por fim, para o País. E no romance que estou escrevendo, a Amazônia já não aparece mais, não é ambientado lá.

De que formas as efervescências políticas e os tempos de incertezas atuais lhe atingem?
Acredito que atinge qualquer pessoa com sensibilidade política. Acompanho tudo isso de alguma forma e escrevo crônicas sobre a política brasileira no jornal “Estado de S. Paulo”. Nunca diretamente, mas com viés crítico. Isso atinge de certa forma o que estou escrevendo. O novo romance fala de um grupo de jovens que viveram no período da ditadura. Há algumas semelhanças políticas entre aquele momento e esse, como a violência da polícia. Isso me assombra um pouco. Não consigo ficar alheio ao que está acontecendo. No entanto, não defendo e nunca militei em nenhum partido. A posição do intelectual deve ser independente. Sempre independente.

Tolstoi dizia que “canta a tua aldeia e serás universal”. Isso se encaixa na sua obra?
Hoje em dia está na moda a globalização, alguns escritores escrevem sobre qualquer lugar e mesmo sem a experiência desses lugares. Eu vivi a minha infância em um lugar muito específico. Como escritor do Amazonas eu tento me aprofundar nas questões locais para atingir o universal, uma dimensão mais geral.

Qual a sua avaliação sobre o mercado editorial brasileiro?
Cresceu muito nos últimos anos com um demanda diferente daquela de quando eu comecei. Havia, ao contrário de hoje, muitos suplementos literários de peso. Temos muitas universidades e isso fez com que aumentassem o público leitor.

Pesquisas e estudos apontam um baixo índice de leitura dos brasileiros em relação a outros países. A que você atribui esse desempenho?
Isso se dá, basicamente, por causa da qualidade da nossa escola pública. O jovem brasileiro, de modo geral, não tem acesso à literatura. A escola é precária, o ensino é precário e os professores têm um salário miserável. Não há estímulo. E muitas escolas não possuem bibliotecas ou não têm bons livros nela. Essa é a razão, a grande questão nacional. Nossos políticos fecham os olhos para isso.

Qual a sua análise em relação à produção literária no Brasil atualmente?
É muito diversificado. Há bons escritores desde a minha geração. É difícil falar de muitos. Recebo muitas publicações, só não tenho mais idade para ler tudo.

Quais são os desafios enfrentados pelos jovens escritores no Brasil?
Falta maturidade para os jovens. É preciso esperar um pouco para começar a escrever. Os romances falam sobre a passagem do tempo, por isso, é fundamental esperar o tempo passar. O desafio ainda é ler com calma os bons livros. Eu sou um péssimo conselheiro, mas a literatura pede paciência, sobretudo o romance, que exige reflexão. Não acredito numa espontaneidade, nessa coisa apressada. Para um escritor jovem, eu daria meu exemplo. Eu li muito antes de começar a escrever. Pensei muito no que escrever, no que me tocava profundamente. Às vezes, você escreve 20 livros e não escreve nenhum. Ou escreve um e já é um grande livro. O jovem não deve se apressar. Com o tempo, ele vai encontrar sua razão, ou “desrazão”, para escrever seu livro.

Diante de todas as suas obras publicadas até aqui, qual é sua obra-prima, no seu ponto de vista? Por quê?
Sei que o “Dois Irmãos” tem um alcance enorme. Mas eu mesmo não tenho preferência. O que fiz com cada um deles foi escrever com toda minha energia e paixão pela minha linguagem. O que posso dizer é que em nenhum deles eu fui desonesto com aquilo que quis fazer.

Quem só lê best seller não pode ser bom escritor, diz Hatoum a estudantes

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Fonte Deutsche Welle

Fonte Deutsche Welle

Artur Rodrigues, na Folha de S.Paulo

“Ninguém pode se tornar um escritor sem duas coisas: sem experiência de vida e de leitura. Quem lê só best seller e ‘Cinquenta Tons de Cinza’ não pode ser bom escritor”.

A lição é do escritor Milton Hatoum a uma plateia de estudantes municipais em um centro cultural na Vila Nova Cachoeirinha (zona norte de SP), nesta quinta (16).

No evento do Circuito São Paulo de Cultura, promovido pela prefeitura, o escritor encampou a difícil tarefa de tentar fazer adolescentes entenderem a importância da paciência na arte e na vida.

“O escritor espera o tempo passar para escrever sobre o passado. O romance é a arte da paciência. Você não pode escrever um romance em poucas semanas, poucos meses”, disse ele, que reescreveu seu romance mais conhecido, “Dois Irmãos”, 16 vezes.

Prosador tardio, lembrou ter publicado primeiro romance aos 36 anos, após tentativas de ser poeta (“É muito difícil escrever poesia) e arquiteto (“Fiz poucos projetos, todos desastrados”).

Hatoum contou também a experiência como aluno de outra escola pública, melhor e que reunia todas as classes sociais. “Esse projeto foi interrompido na época da ditadura”, diz.

Em bate-papo informal, respondeu perguntas sobre bullying, vaidade, inspiração e aposentadoria. “Não sei até quando vou ter fôlego para escrever. Estou escrevendo um romance (em dois volumes) há cinco anos”, disse. “Talvez depois desses dois eu não escreva mais nada.”

Na abertura, o prefeito Fernando Haddad (PT) aconselhou os jovens a lembrarem da conversa no futuro, quando tiverem contato com a obra do autor. Foi embora logo em seguida, deixando na plateia alguns secretários municipais, como o ex-senador Eduardo Suplicy (Direitos Humanos) e Nabil Bonduki (Cultura).

Literatura brasileira precisa reconquistar franceses, dizem jornais

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Cartaz do Salão do Livro promovendo encontro com escritores brasileiros Foto: DR

Cartaz do Salão do Livro promovendo encontro com escritores brasileiros
Foto: DR

Publicado na RFI

Por ocasião da abertura do Salão do Livro de Paris, que tem o Brasil como convidado de honra, os principais jornais franceses trazem nesta quinta-feira (19) extensas reportagens e críticas sobre a literatura brasileira. Desconhecida do grande público francês atualmente, a produção literária do Brasil deve ganhar maior visibilidade com a presença de 48 autores em um dos principais eventos mundiais do setor.

Com o título “Uma literatura exuberante”, o suplemento de literatura do jornal Le Figaro dedica duas páginas para explicar a desconexão que se estabeleceu entre os leitores franceses e a produção literária do Brasil. Por outro lado, a edição traz uma lista com nomes de vários escritores que já tiveram suas obras traduzidas para a língua de Voltaire, como Sérgio Rodrigues, Adriana Lisboa, Luiz Ruffato e Paulo Lins.

Em uma retrospectiva histórica, Le Figaro lembra que jovens talentos do Rio de Janeiro, São Paulo e Belo Horizonte se inspiraram em autores franceses como Victor Hugo, Guy de Maupassant e Charles Baudelaire para iniciar suas carreiras. Muitos deles, lembra o diário, se encontraram a partir do final do século 19 na Academia Brasileira de Letras, inspirada na mesma existente na França.

O interesse pela produção literária brasileira se estendeu ainda por vários anos depois que Blaise Cendrars divulgou a “efervescência criativa” que observou no movimento modernista dos anos 20. Segundo o jornal, a vinda a Paris de autores fugindo da ditadura militar (1964-1985) ajudou a manter os laços entre os dois países, mas, depois, a relação conheceu uma “distensão”.

Palavras de editores

Na falta de uma explicação precisa, o presidente e fundador da Companhia das Letras, Luiz Schwarcz, sugere, em entrevista ao jornal, que a literatura do Brasil perdeu espaço na França devido a falta de editores que leem português e a pouca disposição de agentes de editoras brasileiras em promover os autores do país. Schwarcz acredita que alguns nomes da nova geração poderão contribuir para ocupar esse vazio, preenchido, por enquanto, por famosos como Chico Buarque e Bernardo de Carvalho.

Em entrevista ao Le Figaro, Michel Chandeigne, fundador da livraria portuguesa e brasileira, considera que a literatura verde-amarela só não é mais divulgada na França pela falta de um grande autor que seja ao mesmo tempo popular e de uma grande qualidade literária.

Em relação aos grandes escritores brasileiros do século 20, como Guimarães Rosa e Carlos Drummond de Andrade, o editor Chandeigne explica que o autor de Grande Sertão Veredas morreu jovem demais (aos 59 anos) e sua genialidade só é percebida quando se lê sua maior obra no original.

No entanto, ele não tem explicação para o desconhecimento de Drummond, “uma injustiça total”.Chandeigne lamenta que sua poesia “magnífica e popular” tenha sido tão mal traduzida na França. Drummond mereceria um Nobel de Literatura, tanto quanto Clarice Lispector, opina o editor francês.

Muitos autores contemporâneos brasileiros encontram seu público na França, como Bernardo de Carvalho e Milton Hatoum, exemplifica. O problema, insiste Chandeigne, é que não surgiu mais nenhuma figura emblemática da literatura como Jorge Amado, autor conhecidíssimo e “que todo mundo tinha vontade de ler”.

A versão francesa de Bahia de todos os Santos, de 1938, atingiu mais de 100 mil exemplares, feito que permanece histórico. “Ninguém o substituiu. Mas também é a época em que vivemos que reflete isso. O interesse do público é mais esparso e diversificado que antes”, concluiu.

Literatura brasileira atual e realidade urbana

Em um longo artigo de capa no suplemento conhecido como “O Mundo dos Livros”, o correspondente no Brasil do vespertino Le Monde, Nicolas Bourcier, viajou por São Paulo e Rio de Janeiro para revelar a característica atual da produção cultural no país.

A peça de teatro Puzzle, de Felipe Hirsch, que explora um painel de palavras presentes no cotidiano dos brasileiros, é o ponto de partida para o jornal ilustrar a tendência verificada de artistas e autores de se inspirarem cada vez mais na realidade, muitas vezes cruel, para expressar sua arte. “O país abandonou definitivamente o realismo mágico para enfrentar cruamente e concretamente uma realidade cada vez mais complicada”, explicou Hirsch ao Le Monde.

Para o jornal francês, a escolha dos escritores para participar do Salão do Livro de Paris revela esse novo paradigma da produção brasileira. A constatação é confirmada pela comissária do Salão, a professora e filósofa Guiomar de Grammont que disse ao Le Monde: “O autor quer falar agora do que ele vive, do que ele vê”.

Outro entrevistado pelo jornal, Godofredo de Oliveira Neto, professor de literatura e escritor também presente no Salão do Livro, explica que os intelectuais não representam mais um papel intermediário na sociedade, como já foi o caso de Jorge Amado ou Guimarães Rosa.

“É como se os autores brasileiros assumissem seu papel político e cultural. Eles escrevem sobre seu bairro e até promovem a leitura de suas obras nas periferias para mostrar que a cidade pertence a eles também e que eles não estão excluídos”, explicou o escritor. “O Brasil se lê, então, cru. E se alimenta do racionalismo urbano”, constata o correspondente do Le Monde.

O suplemento do diário traz resenhas críticas de quatro autores que terão suas obras presentes no Salão, entre eles, o livro de estreia de Fernanda Torres, Fim, traduzido pela editora Gallimard. O crítico Frédéric Potet afirma que a atriz utilizou seu primeiro romance para criticar ferozmente o culto da aparência que se instalou no Brasil.

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