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Você sabia que o captcha que você digita na internet pode ajudar a mudar o mundo?

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Ademilson Tiago de Miranda Ramos, no Engenharia é:

Tempo atrás, o Captcha, aquelas palavras que digitamos antes de baixar alguma coisa ou verificação de contas, não tinham utilidade nenhuma além de evitar fraudes.

Percebendo isso, um dos inventores da ferramenta, Luis von Ahn, resolveu dar outra utilidade para o Captcha. Quando você digita uma palavra nesta ferramenta, você pode estar ajudando a digitalizar livros.

O que? Como assim?

Sim, se você perceber que o Captcha que está escrevendo é do projeto ReCaptcha, você está ajudando a passar livros para o computador.

Para entender: há um processo automático que digitaliza as obras para um formato digital, mas o sistema do computador tem dificuldades em ler algumas palavras de livros mais antigos. Assim, essas palavras que o sistema não compreende são jogadas no Captcha, nós as reconhecemos e ajudamos o mundo a ter mais livros digitais. Legal né?

Para saber que o que escrevemos está correto, eles disponibilizam duas palavras: uma que o computador sabe e outra que ele não compreende. Ao acertar a que o computador já sabe, ele automaticamente entende que você também acertará a que ele não entende.

São mais de 200 milhões de ReCaptchas resolvidos todos os dias, o que dá cerca de 5 milhões de livros por ano. Isso tudo está explicado no vídeo abaixo, em que Luis também fala sobre outro projeto colaborativo para aprender novas línguas: é o Duolingo.

Portanto, da próxima vez que aparecer um ReCaptcha para você, pense que você não está perdendo o seu tempo e sim ajudando a transmitir o conhecimento para o mundo digital. (:

dica da Suelen Vargas

Faculdade em Brasília sofre ordem de despejo por não pagar aluguel

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Segundo TJ, instituição deve aluguel de R$ 302,8 mil há cerca de 4 anos.
G1 procurou faculdade e advogados de defesa, mas não conseguiu contato.

Alunos da Faculdade Alvorada encontraram as portas da instituição lacrada pela manhã (Foto: Isabella Formiga/G1 DF)

Alunos da Faculdade Alvorada encontraram as portas da instituição lacrada pela manhã (Foto: Isabella Formiga/G1 DF)

Isabella Formiga, no G1

A Faculdade Alvorada, em Brasília, foi lacrada na manhã desta sexta-feira (26) em decorrência de uma ordem de despejo pelo não pagamento de aluguel desde 2008. Os alunos da instituição foram pegos de surpresa ao tentarem ir à aula. A faculdade pode recorrer da decisão.

A determinação da 5ª Vara Cívil do Tribunal de Justiça do Distrito Federal e Territórios (TJDFT), cumprida por oficiais de Justiça, era de que o prédio fosse desocupado voluntariamente até o dia 15 de julho, sob pena de desocupação forçada.

O G1 procurou a faculdade e os advogados de defesa, mas não conseguiu contato até a publicação desta reportagem.

O advogado da proprietária do imóvel, José Miranda, disse que a instituição não paga o aluguel de R$ 302,8 mil desde o dia 31 de dezembro de 2008.

Alunos da Faculdade Alvorada foram surpreendidos com despejo da faculdade de prédio (Foto: Isabella Formiga/G1 DF)

Alunos da Faculdade Alvorada foram surpreendidos com
despejo da faculdade de prédio
(Foto: Isabella Formiga/G1 DF)

“A dívida é milionária, muito elevada, e foi decretado o despejo, que é irreversível”, disse Miranda. “Os alunos já sabiam há quase um ano do despejo, a faculdade também foi avisada com mais de um ano para desocupar o prédio. Os alunos estão em período de férias e o despejo é 100% legal e foi praticado de acordo com determinação da juíza e da desembargadora.”

O Ministério da Educação (MEC) informou que ordem de despejo não partiu do ministério e que enviou dois representantes ao local para garantir a integridade dos documentos acadêmicos dos alunos.

O MEC disse que tem acompanhado a situação da faculdade, que tem apresentado diversos problemas. Na semana passada, a pasta publicou no Diário Oficial da União um despacho suspendendo novos ingressos na instituição e a suspensão da criação de novos cursos por conta de denúncias de atrasos em salários e encargos trabalhistas, quadro de docentes insuficiente, retenção ou não entrega de documentos acadêmicos para alunos, além da adoção de calendário informal e problemas com bolsas do ProUni e do Fies.

Alunos
Aluno de enfermagem, Bruno Batista chegou cedo para a aula nesta sexta e disse que, apesar de acompanhar o trâmite do despejo no site do Tribunal de Justiça, foi pego de surpresa. “A faculdade sempre se omitiu a tudo.” Segundo ele, a faculdade tentava evitar o despejo. “Saía a decisão, eles entram com liminar contra”, afirmou.

Aluano Brito passou em concurso mas não consegue colar grau (Foto: Isabella Formiga/G1 DF)

Aluano Brito passou em concurso mas
não consegue colar grau
(Foto: Isabella Formiga/G1 DF)

Segundo Batista, a faculdade emendou o primeiro semestre letivo com o segundo para que não houvesse férias e a ordem de despejo não fosse cumprida. “Eles não deram férias e emendaram o semestre. O primeiro semestre termina nesta sexta e o segundo semestre já começa na segunda-feira”, contou.

Vários estudantes reclamavam que tentavam há mais de um ano conseguir documentos, como histórico escolar, para fazer a transferência para outra instituição de ensino, mas não conseguem.

Formando em enfermaria, Aluano Brito chegou cedo na faculdade nesta sexta para fazer a colação de grau. Ele disse que foi aprovado em um concurso da Secretaria de Saúde e que precisa da emissão de registro para tomar posse.

“A nomeação sai em agosto. Não posso perder a vaga”, disse Brito. “Estudei durante quatro anos na faculdade. Vou entrar com uma ação na Justiça.”

Renato Lessa fala dos desafios à frente da Biblioteca Nacional

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Cientista político explica em entrevista os primeiros passos que pretende dar para resolver os sérios problemas de infra-estrutura da instituição
Ele discorda dos gastos assumidos pelo governo para a Feira de Frankfurt, mas garante que vai cumprir os compromissos

Renato Lessa posa na Biblioteca Nacional Camilla Maia / Agência O Globo

Renato Lessa posa na Biblioteca Nacional Camilla Maia / Agência O Globo

André Miranda, em O Globo

RIO – Quando foi anunciado que o cientista político Renato Lessa, de 58 anos, seria o novo presidente da Fundação Biblioteca Nacional, uma amiga mandou a ele uma mensagem de parabéns, com um recado: “Que Deus e o governo ajudem você”.

Pelos problemas que o esperam, Lessa realmente vai precisar da ajuda de todos os lados na gestão da instituição. Há um ano, desde uma inundação, sua sede no Rio está sem ar-condicionado, o que, no verão, levou a temperatura dos armazéns de livros para até 50 graus. Outro ponto a ser enfrentado por Lessa, oficialmente no cargo desde segunda-feira, são as críticas quanto aos atrasos e ao orçamento elevado na organização brasileira na Feira de Frankfurt, a maior do mundo para o mercado literário, que vai homenagear o Brasil em outubro.

Em entrevista no gabinete da presidência da Biblioteca Nacional ­­— com as janelas abertas pela falta de refrigeração —, Lessa reconheceu que há muito a ser feito. Segundo ele, serão necessários mais 120 dias para que um sistema antigo de ar-condicionado volte a funcionar na Biblioteca, e o tempo para que o sistema geral seja religado é indeterminado. Lessa também discorda dos gastos assumidos pelo governo para Frankfurt — R$ 15 milhões de investimentos diretos e a possibilidade de mais R$ 3 milhões via renúncia fiscal —, por acreditar que a homenagem deveria ser de responsabilidade do setor privado. Mas promete cumprir os compromissos.

Por fim, o novo presidente da Biblioteca Nacional discorda de Galeno Amorim, que esteve no cargo nos últimos dois anos, quanto à quantidade de municípios sem bibliotecas no Brasil: “É um número vergonhoso”.

Como foi feito o convite para o senhor assumir a presidência da Fundação Biblioteca Nacional? A ministra (Marta Suplicy, da Cultura) pediu algo específico ao senhor?

Foi em meados de março, poucas semanas antes de ela anunciar a mudança. Nós tivemos uma primeira conversa excelente, muito franca. O que me deixou muito seguro para aceitar o convite foi a possibilidade de institucionalizar políticas para a Biblioteca Nacional, sem que dependam de rompantes ou projetos pessoais, com um clima de independência. Além disso, ao mesmo tempo em que a ministra me deu autonomia e liberdade para estruturar a gestão da Biblioteca, ela manifestou também um enquadramento geral de como vê a coisa. A maior preocupação da ministra, da qual eu compartilho inteiramente, é ter uma restruturação tanto da Biblioteca Nacional quanto da política do livro. É um movimento que não incidiu apenas sobre a Biblioteca Nacional, ele inclui também a vinda do Castilho (José Castilho Marques Neto, presidente da editora Unesp) para a reorganização da política do livro e do Sistema Nacional de Bibliotecas como política pública de Estado em Brasília.

A junção de responsabilidades da Biblioteca Nacional com a política do livro era justamente uma das maiores críticas que parte do mercado fazia ao seu antecessor, Galeno Amorim.

A Biblioteca Nacional estava sobrecarregada. O excesso de atribuições torna impossível que todas recebam igual atenção. Não era um desenho adequado. Agora, a Biblioteca vai ficar desasfixiada para cuidar de suas atribuições naturais.

Em alguns de seus artigos publicados em jornais, o senhor já expressou críticas aos governos do PT. Isso em algum momento foi impeditivo para aceitar o convite?

Não foi só ao PT, também fui crítico aos governos anteriores. Mas em momento algum esse assunto apareceu na conversa com a ministra. Meus artigos não são secretos, têm a ver com meu lado de intelectual público, como observador dos hábitos políticos brasileiros. Não foram artigos que se dirigiam a este ou aquele governo. Isso é sabido, é público, estou longe de abjurar as coisas que eu escrevi. E acho que isso qualifica o convite, mostrando a ideia de independência de pensamento e de juízo.

Ainda há uma infinidade de livros físicos em circulação, mas ao mesmo tempo existe hoje um processo de digitalização em curso, de aumento da presença dos livros digitais. Em vista disso, qual o senhor considera ser o papel de uma biblioteca hoje? Esse papel está mudando?

Eu acho que o papel da biblioteca não se altera. O que as configurações novas trazem é a importância de uma biblioteca acrescentar dimensões a seu papel, que é a guarda de acervos valiosos. Fazer a guarda desses acervos incorporando tecnologias que permitam a recuperação e o restauro, mas isso tudo associado a uma perspectiva de publicização, de conquistar públicos leitores de diferentes níveis. Desde o leitor eventual até pessoas profissionalmente ligadas à pesquisa que têm na biblioteca seu local de trabalho. Acho que o futuro da biblioteca tem a ver com a capacidade de atender essa diversidade pública. Mas isso implica naturalmente um projeto agressivo de digitalização, mas não só do acervo específico de uma biblioteca, mas uma digitalização que componha redes de acervos digitalizados. Por exemplo, você pode imaginar uma grande biblioteca virtual que reúna as bibliotecas dos países lusófonos, em que os usuários possam compartilhar os acervos. Outro recorte possível é com a América do Sul. Existe um mundo para ser explorado de compartilhamentos de base da nossa Biblioteca Nacional com outras bibliotecas do mundo.

Como vai a digitalização do acervo da Biblioteca Nacional?

Ainda é muito pequeno, temos cerca de 25 mil títulos digitalizados. São 11 milhões de páginas.

De um total de quantos?

O total é complicado. Nunca houve um censo rigoroso de qual é o tamanho da Biblioteca, é uma coisa que precisamos fazer. Existe um número mágico de 9 milhões.

Mas são 9 milhões de títulos, de volumes físicos?

Por exemplo, naqueles 25 mil títulos digitalizados, a gente considera “O Globo” um título. Mas se forem exemplares, esse número já aumenta. Então não tenho como dizer um percentual do que já foi digitalizado. Mas posso dizer que é muito pouco, muito pequeno em função do volume do acervo. É uma prioridade das maiores, até porque, voltando à pergunta anterior, o papel da biblioteca depende da digitalização.

Falando sobre os problemas que a Biblioteca Nacional enfrentou nos últimos meses, o que ainda mais chama a atenção é a falta de ar-condicionado. É uma situação que se estende há um ano e que é prejudicial para usuários e funcionários, mas também é prejudicial para os livros. Ainda falta muito para isso se resolver?

É horrível para os livros. No pico do verão, me disseram que a temperatura no armazém de obras gerais bateu 50 graus. Você não pode ter um acervo valioso assim. O ideal são 23 graus, 22 graus. Mas, infelizmente, ainda está longe de chegarmos lá. Em marcha, começamos agora um processo de recuperação de um sistema antigo de ar-condicionado, e a estimativa que me deram é que a obra termine em 120 dias. Então a expectativa é que enfrentemos o verão com esse sistema antigo em funcionamento. Será um verão melhor do que o anterior, mas ainda longe do que a Biblioteca precisa. Já o sistema geral de refrigeração é de uma complexidade imensa e vai depender de um projeto de reforma. Temos dinheiro para isso e temos decisão de fazer a obra em seguida. Mas seria irresponsável eu dizer quando isso vai ficar pronto.

Qual a verba para essa reforma da refrigeração?

Existe um volume de recursos para as obras gerais da Biblioteca, que incluem as obras da sede e do anexo. O BNDES entra com pouco mais de R$ 40 milhões. Conseguimos também uma parte do PAC das cidades históricas, fizemos jus aos recursos porque somos um prédio histórico. E vamos ter ainda aplicações do orçamento da Biblioteca. Tudo isso vai dar um total de R$ 70 milhões. Vão ser usados para obras de estrutura, da refrigeração, da recuperação da claraboia, do reboco que andou caindo para a rua, da segurança, coisas assim. Enfim, são obras para levantar a infraestrutura. A administração anterior contratou a Fundação Getulio Vargas para fazer os termos de referência dessas obras, e eu vou ter uma reunião com eles na segunda-feira para saber em que pé isso está.

Mas olhando o acervo hoje, é possível que alguma obra tenha sofrido algum dano por causa do calor?

Não tenho notícias de danos ao acervo.

Outra questão muito discutida é a participação brasileira na Feira de Frankfurt, em outubro, quando o país será homenageado. Com a mudança na diretoria da Biblioteca Nacional, muda algo na organização da feira?

A participação brasileira na Feira de Frankfurt é uma política de governo que mobiliza o Ministério da Cultura e o Itamaraty. Acho importante desfazer um pouco a ideia de que a Feira de Frankfurt é a Biblioteca Nacional. Não é. A homenagem em Frankfurt significa que o governo brasileiro aceitou e entendeu que essa é uma oportunidade de promoção brasileira no exterior. O projeto é gerido por um comitê gestor, e a Biblioteca faz parte desse comitê, mas há outros integrantes, como a Funarte e o Ministério da Relações Exteriores.

Mas a Biblioteca tem um papel grande na organização.

Tem um papel grande, sim. Mas, na minha perspectiva, não é um papel compatível com as funcões próprias da Biblioteca. Como a Feira de Frankfurt tem uma dimensão econômica muito forte, algumas questões deveriam estar a cuidado dos editores do setor privado. Eu entendo que também há um interesse estratégico do Brasil, o que leva o poder público a participar, mas não me parece correto que isso seja pensado como exclusivamente fincado dentro de uma esfera estatal. Mas isso foi decidido em 2010 com comprometimentos financeiros e com o comprometimento da Biblioteca em algumas decisões, e isso será mantido. Estamos discutindo, hoje, que esse paradigma não se repita em outros eventos dessa natureza. Não cabe ao presidente da Biblioteca Nacional ser o dirigente dessa internacionalização dos livros brasileiros, e não associo o que penso sobre a Biblioteca Nacional a eventos do tipo. E ainda tenho uma reserva aos custos assumidos para a viabilização de negócios, sobretudo numa indústria que tem pujança, força e muita qualidade.

Quanto vai ser o gasto do governo em Frankfurt?

O orçamento total não vai passar de R$ 18 milhões. Desses, R$ 15 milhões vêm do orçamento do Estado brasileiro, pelo Fundo Nacional de Cultura. Já a Câmara Brasileira do Livro teve autorização para captar, via Lei Rouanet, R$ 13 milhões, dos quais nada ainda foi captado. Então, o que temos garantido hoje são R$ 15 milhões, e ainda faltam R$ 3 milhões para fechar o orçamento. Esse dinheiro virá ou de renúncia fiscal ou de patrocínio.

Houve algumas críticas sobre possíveis atrasos da preparação brasileira para Frankfurt. Alguma dessas críticas chegou ao senhor?

Com relação a prazos, nada chegou a mim. O que eu sei é que houve uma preocupação natural em relação à mudança na presidência da Biblioteca. Essas coisas são institucionais, mas envolvem relações pessoais. Então, quando há uma mudança dessas, surgem incertezas. Mas eu garanto que estamos trabalhando com a perspectiva de realizar o projeto na integridade.

Uma pergunta que é feita há anos e cuja resposta sempre foi um pouco nebulosa é sobre o número de municípios brasileiros ainda sem bibliotecas. O senhor sabe quantos faltam?

Eu não sei o número para te dizer, mas sei que é um número vergonhoso. A questão não é apenas o número de municípios sem biblioteca, mas temos que nos perguntar que bibliotecas existem e que pessoas trabalham nessas bibliotecas. Há gente que trabalha sem salários, com heroísmo. Essa é uma preocupação fortíssima da Elisa Machado, que dirige o Sistema Nacional de Bibliotecas: dar consistência a esse sistema, criando bibliotecas e fortalecendo as bibliotecas que existem.

É curioso porque, quando Galeno Amorim assumiu a presidência da Biblioteca Nacional, há pouco mais de dois anos, ele disse que faltavam “poucas dezenas” de municípios sem biblioteca no Brasil.

Eu não acho. A leitura no Brasil ainda é muito pequena, precisamos aumentar a familiaridade do brasileiro com o livro. Temos que ver isso realisticamente, como um obstáculo e desafio. Não como uma maldição que se abateu sobre a gente. A democratização do país não é só poder votar e ter liberdade para dizer o que pensa, democratização é a população ter acesso à cultura. E a biblioteca é um espaço fundamental desse processo.

‘Sick-lit’, a nova e polêmica literatura para adolescentes

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André Miranda, no O Globo

Doenças graves, depressão, anorexia, tentativas de suicídio e outros problemas que a fantasia costumava ignorar povoam o estilo

Cavalcante

Cavalcante

Há algumas semanas, a lista dos livros infanto-juvenis mais vendidos nos EUA e na Inglaterra não é encabeçada por histórias com vampiros, princesas, hobbits, detetives ou fadinhas que soltam pó de pirlimpimpim, como vinha acontecendo nas últimas décadas. No topo dos best-sellers do jornal “The New York Times” para o gênero está “A culpa é das estrelas” (lançado no Brasil pela editora Intrínseca), de John Green, em que a protagonista é uma menina com câncer avançado. Em segundo lugar, aparece “As vantagens de ser invisível” (editora Rocco), de Stephen Chbosky, sobre um adolescente depressivo cujo melhor amigo cometeu suicídio e que, dependendo de como forem as coisas na escola, pode ir pelo mesmo caminho.

Esse tipo de história — voltada para adolescentes, mas trazendo personagens envoltos em doenças graves, depressão, anorexia, tentativas de suicídio e outros problemas realistas que a fantasia costumava ignorar — vem sendo chamado de sick-lit, algo como “literatura enferma” em português. É um termo que traz uma conotação negativa e muitas vezes ignora a qualidade dos livros, mas que tem gerado polêmica e pode indicar uma tendência.

De carona no fenômeno

A relação de títulos associados ao sick-lit inclui “Antes de morrer” (Agir), de Jenny Downham, uma trama que acaba de ser adaptada para o cinema sobre uma jovem doente que quer aproveitar seu pouco tempo para atividades como perder a virgindade. Inclui, ainda, “Red tears”, de Joanna Kenrick, sobre uma garota que se automutila, e “Never eighteen”, de Megan Bostic, sobre um adolescente doente que vai atrás das pessoas importantes de sua vida para se despedir, ambos ainda não lançados no Brasil. Os exemplos vão além, com livros como “Extraordinário” (Intrínseca), de R. J. Palacio, sobre um menino que nasceu com uma deformidade facial; e “Como dizer adeus em robô” (Record, previsão de publicação no Brasil para abril), de Natalie Standiford, uma história melancólica que envolve a morte de um adolescente.

— A adolescência é uma fase mais down, em que os jovens sempre se cercaram de temas como esses. Não acredito que faça algum mal específico para o leitor. E não acho que o livro seja a única forma de contato dele com o assunto — afirma Julia Schwarcz, editora dos selos infantis e juvenis da Companhia das Letras. — Mas acho que existe uma diferenciação. Há livros muito bons, como o do John Green, que trata de sofrimento, mas tem uma história de superação. Só que alguns vieram na esteira, tentando se aproveitar do sucesso dos outros, e abordam a temática de forma mais gratuita. O segmento juvenil cresceu muito nos últimos anos, e vários autores tentam seguir a onda.

O debate sobre o efeito dessa sick-lit ecoou com mais força no mês passado, quando o jornal britânico “Daily Mail” publicou uma reportagem sobre o que chamou de “fenômeno perturbador”. “Enquanto a série ‘Crepúsculo’ e seus seguidores são claramente fantasia, esses livros de sick-lit não poupam detalhes ásperos sobre a realidade de doenças terminais, depressão e morte”, dizia o texto.

Na sequência da reportagem do “Daily Mail”, a editora de infanto-juvenis do jornal “Guardian”, Michelle Pauli, escreveu um artigo intitulado: “Evidentemente a ficção jovem é muito complexa para o ‘Daily Mail’”.
— Não acredito que um livro paute as escolhas de um leitor. As pessoas já têm as tendências delas, independentemente da história que vão ler. E, além do mais, sick-lit é um termo muito ruim. Parece uma piada — diz Danielle Machado, editora da Intrínseca.

Essa discussão sobre o efeito dos livros nos leitores tem um rastro na História. No fim do século XVIII, Goethe teve seu primeiro grande sucesso literário com “Os sofrimentos do jovem Werther”, romance epistolar narrado por um artista, num tom melancólico e depressivo. As autoridades da época ficaram preocupadas com o livro, por conta de sua abordagem do suicídio.

Recentemente, outra trama de suicídio gerou debate, desta vez nos EUA, por conta do premiado “Os 13 porquês” (2007, lançado no Brasil pela editora Ática), de Jay Asher. Nele, uma menina deixa fitas cassete para os amigos explicando como cada um deles ajudou em sua decisão de se matar. A polêmica era inevitável.
— O que um livro pode fazer é antecipar um sentimento que já está dentro da pessoa. Mas o livro não é a causa de uma depressão — avalia o psicanalista Luiz Fernando Gallego. — A postura do “Daily Mail” nessa história é higienista. É a coisa de quem busca uma causa única para todos os males e tenta expurgá-la.
Gallego pondera, ainda, se a aceitação dessas tramas tem mais a ver com qualidade do que com estratégias comerciais de autores e editoras.

— Uma questão para se debater é se esses livros são boa ou má literatura. A boa literatura pode abordar o tema que for. Mas, quando se faz proselitismo acerca de um assunto, seja nazismo, homofobia ou suicídio de jovens, aí não se está fazendo boa literatura. A culpa não é do tema, e sim do autor que faz uma literatura ruim — diz. — Minha grande dúvida é se esses livros fazem sucesso porque são bons ou se é do interesse do mercado que eles sejam feitos. Esse público é suscetível a seguir tendências e pode estar sendo levado por uma novidade.

O que está em jogo, assim, é o rumo de um mercado que, pelo menos nos últimos 15 anos, foi dominado por histórias fantásticas, de “Harry Potter” a “Crepúsculo”. Se essa sick-lit — com esse nome terrível mesmo — pegar, haverá espaço para muitas polêmicas nos próximos anos.

— Eu acredito em bons livros. E os bons livros serão lidos, seja de qual gênero forem — afirma Eduardo Spohr, sucesso junto ao público infanto-juvenil com obras como “A batalha do Apocalipse” (Verus Editora). — Já sobre a influência de um livro num jovem, eu me lembro que “Christiane F.” não formou uma geração de viciados. Quem leu costuma dizer que aprendeu muito e nunca tocou numa droga.

Médicos da Inglaterra vão receitar livros de autoajuda

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Publicado no Boa Informação

Médicos da Inglaterra vão prescrever livros, além de medicamentos, para pacientes com ansiedade e depressão.

Numa iniciativa endossada pelo governo e que tem o apoio de associações médicas, médicos vão encaminhar pacientes a bibliotecas em busca de uma série de títulos de autoajuda voltados a pessoas com problemas de saúde mental entre leves e moderados.

Os pacientes também estão sendo encorajados a buscar o que a revista “The Bookseller” descreve como “romances e livros de poesia edificantes ou inspiradores”.

Destacando a capacidade terapêutica da literatura, a organização Reading Agency (que promove a leitura no Reino Unido) citou pesquisas indicando que ler reduz os níveis de estresse em 67%.

A entidade –que é parceira do programa “Livros sob Receita”, anunciado no início deste mês– disse que, de acordo com o “New England Journal of Medicine”, a leitura reduz o risco de demência em mais de um terço.

PRESCRIÇÃO MÉDICA

A lista dos 30 títulos de autoajuda que estarão disponíveis sob receita a partir de maio inclui obras como “The Feeling Good Handbook” (manual para se sentir bem), “How to Stop Worrying” (como deixar de se preocupar) e “Overcoming Anger and Irritability” (superando a raiva e a irritabilidade).

“Há evidências crescentes de que obras de autoajuda podem beneficiar quem tem problemas de saúde mental”, disse Miranda McKearney, diretora da Reading Agency.

Os doentes frequentemente recorrem à internet para buscar orientações às vezes pouco confiáveis sobre sintomas e curas. Agora os médicos poderão emitir uma receita com a qual os pacientes ganharão inscrição imediata em sua biblioteca local e acesso a títulos recomendados.

É a primeira iniciativa de biblioterapia a ganhar apoio oficial de autoridades de saúde e bibliotecas.

Os responsáveis por campanhas de promoção de bibliotecas públicas aplaudiram o programa, mas acham que não está sendo feito o suficiente para proteger as próprias bibliotecas. Duzentas instituições foram fechadas no ano passado, e outras 300 correm o risco de fechar ou de ser entregues aos cuidados de voluntários neste ano.

(mais…)

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