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A “autobiografia” que criou o mito Donald Trump

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Lançado em 1987, A Arte da Negociação ficou 48 semanas na lista de mais vendidos do New York Times

Helio Gurovitz, na Revista Época

Em 1985, o jornalista americano Tony Schwartz publicou na revista New York uma reportagem crítica sobre um empresário da construção civil nova-iorquino que, com menos de 40 anos, se tornara foco de um sem-número de controvérsias. Na última delas, comprara um prédio numa área nobre de Nova York e, para reformá-lo, precisava despejar os inquilinos, cujo aluguel a lei mantinha em níveis irrisórios. O despejo se arrastava na Justiça e, impaciente, ele decidiu usar uma técnica inusitada para afugentá-los: declarou que ofereceria a moradores de rua os apartamentos vazios no prédio. As celebridades que moravam ali saíram em protesto. O relato na New York não era a primeira reportagem negativa na vida do empresário. Ele já fora acusado de não aceitar negros como inquilinos e de se beneficiar da generosidade do Estado para o sucesso de seus empreendimentos mais grandiosos. Depois que a reportagem saiu, Schwartz ficou surpreso ao receber uma nota de agradecimento. Ficou ainda mais surpreso ao ser convidado para escrever a “autobiografia” desse nada discreto empreendedor imobiliário, ninguém menos que Donald Trump.

Schwartz conviveu com Trump ao longo de 18 meses para fazer o livro. Lançado em 1987, A arte da negociação ficou 48 semanas na lista de mais vendidos do New York Times, 13 delas em primeiro lugar. Vendeu mais de 1 milhão de cópias, transformou Trump em figura mítica e abriu-lhe o caminho para três décadas de negócios ainda mais controversos, seguidos da carreira na televisão e na política que culminou, na semana passada, com sua indicação para disputar a Presidência dos Estados Unidos pelo Partido Republicano. Donald Trump não seria Donald Trump sem Tony Schwartz. O livro criou o mito de Trump como Midas dos negócios. “Precisamos de um líder como o que escreveu A arte da negociação”, afirmou o próprio Trump num de seus comícios, como se tivesse mesmo escrito o livro. Desde que ele foi publicado, outros jornalistas, como Mark Singer, Wayne Barrett ou Timothy O’Brien, expuseram as contradições de Trump e o desmascaram de modo eloquente. Mas, pago para criar uma fantasia, Schwartz foi quem o conheceu mais de perto. Depois do livro, largou o jornalismo e manteve o silêncio. Até a semana passada, quando a revista New Yorker publicou suas declarações à jornalista Jane Meyer. “Pus batom num porco”, afirmou Schwartz. “Tenho remorso profundo por ter contribuído para apresentar Trump de um modo que chamou a atenção para ele e o tornou mais atraente do que é.”

Quem lê A arte da negociação vê um padrão que se repete não apenas nos demais livros assinados por Trump, mas em todos os seus negócios e em sua campanha. A leitura é prazerosa. O texto é excelente e sedutor. Do Hotel Hyatt aos cassinos de Atlantic City, da Trump Tower ao ringue de patinação do Central Park, os casos relatados revelam lições preciosas a qualquer empreendedor. Mostram um prodígio em ação, capaz de extrair concessões improváveis nas mesas de negociação com seu estilo direto, de conduzir estratégias sofisticadas para lograr seus desejos e de exibir as qualidades que esperamos de um CEO ou mesmo do líder da nação mais poderosa da Terra. Só há um porém: o Trump do livro é um personagem de ficção. O real mente como respira. “Mentir é a segunda natureza dele”, diz Schwartz. “Mais do que qualquer um que conheci, Trump tem a capacidade de se convencer de que aquilo que diz num dado momento é verdade, ou quase verdade, ou pelo menos deveria ser verdade.” A fraude não se resume a discursos inofensivos, como o proferido pela mulher de Trump na Convenção Republicana. Uma checagem de 182 declarações dele na campanha, feita pelo site PolitiFact, verificou que apenas 12% eram verdadeiras (ou quase). Na escala Pinóquio, do jornal Washington Post, quase 85% das 52 afirmações de Trump checadas se revelaram falsas.

Mentir na campanha, mentir para embelezar a biografia ou mentir sobre os próprios cabelos não são exclusividades de Trump – como sabe qualquer um que acompanhe a política brasileira. Mas ele levanta uma questão adicional, já sublinhada por Singer na New Yorker em 1997: que pensamentos íntimos haverá abaixo daqueles cabelos? Na busca das angústias de Trump, Singer chegou à conclusão de que, para além de aviões, cassinos, torres, campos de golfe e das belas mulheres, de nomes Ivana, Marla e Melania, Trump alcançou o maior de todos os luxos. Não tem vida interior, leva “uma existência sem ser molestado pelo ronco de uma alma”. O tipo de presidente que poderá ser não é, claro, o empreendedor genial de A arte da negociação. Mas também está nas palavras de Schwartz, o verdadeiro autor do livro: “Acredito genuinamente que, se Trump vencer e tiver os códigos nucleares, há uma possibilidade excepcional de que isso leve ao fim da civilização”.

Editora usa gibi literário para atrair leitor jovem

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Roberto Ito, na Folha de S.Paulo

Quando os alunos de uma escola no Brooklyn leram “Theseus and the Minotaur”, o mito grego recontado pelo cartunista francês Yvan Pommaux, gostaram da história de imediato, segundo seu professor, Daniel Tandarich.

E por que não? O livro, o primeiro gibi da Toon Graphics, é repleto de assassinatos tenebrosamente criativos, proezas de força sobre-humana, deuses malcomportados e feras sedentas de sangue.

De acordo com Tandarich, uma cena em que um touro enfurecido escorna um jovem cretense foi favorita especial dos alunos.

Mas o que “Theseus and the Minotaur” tem de melhor, pelo menos para esse público, é o fato de ser um gibi. “Não é preciso explicar a uma criança como ler um gibi”, disse Françoise Mouly, fundadora da Toon Graphics.

As crianças, segundo ela, “prestam atenção aos detalhes e estão acostumadas a processar informações para extrair o significado delas. É assim que elas encontram sentido no mundo. E os gibis são bons diagramas de como extrair significado da palavra impressa.”

A Toon Graphics é um selo da editora independente Raw Junior, fundada por Mouly em 1998. Ela abriu a Toon Graphics, que produz gibis para crianças de a partir de três anos de idade, em 2008.

Mouly disse que espera ampliar esse aprendizado para crianças mais velhas. Mas admite que a luta pela aceitação às vezes é árdua.

“Para se desenvolver como leitoras, as crianças precisam de muita experiência no processamento de palavras”, explicou Timothy Shanahan, professor emérito de educação urbana na Universidade do Illinois em Chicago.

“Se um jovem passa uma hora lendo um gibi e uma hora lendo um livro, provavelmente processa mais palavras quando lê um livro. Não é que os gibis sejam ruins —é o que eles podem substituir.”

Com tantas mídias competindo pela atenção de crianças, porém, professores e bibliotecários estão mais interessados em usar histórias em quadrinhos nas escolas.

“Antigamente os bibliotecários se enxergavam como guardiões a quem cabia selecionar os livros e levá-los às crianças”, comentou o crítico Leonard S. Marcus.

“Mas hoje o que se procura é simplesmente encontrar alguma coisa que a criança queira ler, na esperança de que, com o tempo, isso lhe abra o mundo da leitura”.

Este mês a Toon Graphics vai lançar “Casta Away on the Letter A”, a história de um adolescente que cai num poço e emerge num mundo fantástico. A história faz referências a “Robinson Crusoé” e à pintura “A Balsa da Medusa” (1918-19), de Théodore Géricault.

“Hansel & Gretel”, uma nova versão do conto dos irmãos Grimm “João e Maria” criada por Neil Gaiman e o ilustrador Lorenzo Mattotti, sairá em outubro.

Gaiman é aclamado por suas narrativas imaginativas baseadas em personagens fictícios clássicos que vão de Batman a Beowulf, passando por Sandman.

Para o escritor, não existe livro inapropriado para uma criança. “De tempos em tempos as pessoas dizem que as crianças não deveriam ler livros como ‘Capitão Cueca’ e ‘Goosebumps’. É bobagem.”

Os livros publicados por Mouly estão longe de ser pesos leves literários. Seus autores receberam alguns dos maiores prêmios, como o Eisner, do setor de HQs, os Newbery’s, da Associação Americana de Bibliotecas, e o Pulitzer.

Mouly aconselha pais e professores de potenciais leitores. “Não desconfiem de algo apenas porque eles adoram e não chamem os gibis de graphic novels”.

“Precisamos deixar esse eufemismo de lado”, ela opinou. “Falamos de um livro de 32 páginas, com 300 palavras. Não é preciso fingir que é um romance. É uma história em quadrinhos. Um gibi.”

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