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Como Haruki Murakami conquistou leitores que preferiam a internet à literatura

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ANTENADO
O escritor Haruki Murakami no Havaí, em 2011. Suas histórias misturam fantasia e cultura pop (Foto: Marco Garcia/The Guardian)

Felipe Pontes, com Marcelo OsaKabe na Revista Época

Em 11 de outubro, um grupo de japoneses se reuniu num bar em Tóquio para assistir a uma transmissão ao vivo de Estocolmo. Não era uma partida de futebol entre a seleção japonesa e a sueca. Tampouco era o show de algum ídolo pop. Em vez de carregar bandeiras ou vestir a camiseta de algum ídolo teen, seguravam livros e porta-retratos de Haruki Murakami, o escritor japonês mais famoso no mundo. Os “haruquistas” torciam para que ele ganhasse o Prêmio Nobel de Literatura. Murakami já concorrera ao prêmio outras vezes. Era o favorito deste ano nas casas britânicas de aposta. As esperanças de que ele receberia o Nobel (frustradas pela premiação do escritor chinês Mo Yan) foram alimentadas pelo sucesso de vendas e pela aclamação crítica a seu último livro, 1Q84 (Alfaguara, 432 páginas, R$ 49,90, tradução de Lica Hashimoto), lançado no Brasil nesta semana. Publicado em 2009 no Japão, 1Q84 vendeu 1,5 milhão de cópias no primeiro mês. Lá, a obra saiu como um folhetim, dividida em seis partes. No Brasil, serão três volumes. O segundo sairá em março; e o terceiro, até o fim de 2013. Nos Estados Unidos, o romance atingiu o segundo lugar na lista de mais vendidos do jornal The New York Times.

O culto a Murakami explica que 1Q84 já tenha vendido 5 milhões de cópias, 4 milhões apenas no Japão. “Não sei nem se ele é o maior autor japonês, mas não me importo”, disse a ÉPOCA a artista japonesa Satoko Imai, de 30 anos. “Ele sempre será meu favorito.” Satoko começou a ler Murakami aos 12 anos. Diz que suas histórias foram importantes em sua adolescência. “Saboreava cada frase porque me mostrava uma perspectiva de mundo que não conhecia”, diz. “Não sabia onde procurar respostas sobre o mundo, até ler seus livros.” No mundo todo, grande parte do público de Murakami é formada por jovens globalizados como Satoko. Em geral, eles preferem ler a internet a comprar livros. Qual seria sua fórmula para cativar um público tão arisco? “Ele consegue misturar referências pop, filosofia e pitadas de fantasia”, diz Steven Poole, crítico do jornal britânico The Guardian.

1Q84 se passa em 1984 (a enigmática letra Q do título tem a mesma pronúncia de kiu, nove na tradução do japonês). Na trama, os dois protagonistas, Tengo, ghost-writer, e Aomame, assassina profissional, caem presos numa realidade paralela, em que enfrentam um misterioso culto religioso. Enquanto isso, procuram um pelo outro. Narrar universos paralelos e seres fantásticos (como o Povo Pequenino, gnomos que assombram o casal protagonista) não é o trunfo de Murakami. “Suas histórias carregam um sentimento de perplexidade em relação ao mundo, comum entre os jovens”, afirma Poole. É por isso que Carla Stoffel, curitibana de 25 anos, segue sua obra. “Os personagens buscam respostas dentro de si mesmos, com metáforas e jogos de pensamentos”, diz Carla. “É filosófico sem ser maçante.” Guilherme Donadio, paulista de 24 anos, também identificou-se com os personagens. “A solidão deles me atrai”, diz.

Além de provocar identificação com os jovens por causa de suas tramas e de seus personagens – quase todos na casa dos 20 anos –, Murakami tem uma linguagem clara e fluente, que cativa os leitores e facilita o trabalho dos tradutores. “É fácil de ler e instrutivo, vem salpicado de um humor”, diz a tradutora Lica Hashimoto. “A descrição que ele faz do cotidiano e a maestria com que desenvolve o fluxo de pensamento dos personagens criam laços entre leitor e narrador. Entre os escritores japoneses, poucos atingiram um grau tão intenso de aproximação.” Com seu estilo, Murakami consegue ao mesmo tempo ser admirado por jovens e arrancar elogios dos críticos. “Mais importante que esses traços superficiais, o que conta em suas histórias é um sentimento quase cósmico de falta de abrigo”, diz Poole. “Isso supera as fronteiras culturais.”

Murakami caiu no gosto do mundo porque seus 12 romances – embora ambientados no Japão e com personagens japoneses – são repletos de referências ocidentais, como música clássica e jazz. Antes de virar escritor, ele era dono de um bar de jazz, o Peter Cat, em Tóquio. Filho de um monge budista e uma professora de literatura, Murakami é casado desde os anos 1960 e não tem filhos. Vive entre Tóquio e Kauai, a quarta maior ilha do arquipélago do Havaí. Ali, tenta se esconder dos paparazzi, que detesta, e dos jornalistas japoneses, com quem pouco fala. Diz odiar a cultura das celebridades. Aos 33 anos, começou a correr maratonas e nunca mais parou. Hoje, tem 63. Quando perguntaram a ele como entra na mente jovem, ele disse: “Quando escrevo sobre alguém de 15 anos, volto aos dias em que tinha aquela idade. É como uma máquina do tempo. Lembro de tudo. Sinto o vento. Sinto o cheiro do ar”. Sua popularidade entre os jovens começou em 1987, com Norwegian wood, seu quinto romance, até hoje o mais vendido, com 12 milhões de exemplares. O enredo acompanha um universitário apaixonado pela namorada do melhor amigo que se suicidou. O livro, ambientado na década de 1960, catapultou sua carreira e, desde então, ele escreveu sete outros romances – todos best-sellers, todos capazes, de alguma forma, de cativar o espírito dos jovens no mundo inteiro.



ADMIRADORES

1. Guilherme Donadio, de 24 anos. Ele diz se identificar com os personagens solitários
2. Carla Stoffel, de 25. Ela afirma que começou a ler Murakami no fim do ano passado
3. Satoko Imai, de 30 anos. Ela diz ter lido toda a ficção de Murakami
(Fotos: Camila Fontana/ÉPOCA, Guilherme Pupo/ÉPOCA e arq. pessoal)

(Fotos: Erich Auerbach/Getty Images, Shutterstock (4), divulgação (2))

Novo livro de prêmio Nobel é sucesso de vendas na China

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Publicado originalmente na Veja.com

Após a vitória do chinês Mo Yan no Nobel de Literatura, a editora do escritor antecipou o lançamento de sua nova obra no país e o livro foi um sucesso de vendas, o que já está sendo chamado de “Mo mania”.

“Depois que Mo ganhou o Nobel, vendemos mais de mil livros seus a cada dia”, disse a companhia Beijing Genuine and Profound Culture Development, encarregada tanto da distribuição do livro como da possível adaptação de suas obras para o cinema.

O Nobel fez a editora de Mo antecipar o lançamento de livro e possibilitar sua compra pela internet. Na capa da obra há o logotipo da condecoração e a frase: “Escrito pelo primeiro ganhador chinês de um Nobel de Literatura, Mo Yan”. Em 2000, porém, o escritor nascido no país asiático mas naturalizado francês Gao Xingjian venceu o prêmio, mas a China não o reconhece como cidadão do país.

O novo livro de Mo é dividido em três obras, Farewell to My Concubine, Wife of Boiler Worker e To Write With a Focus on People. As duas primeiras são contos de amor com contexto histórico e a terceira fala sobre jovens urbanos enviados ao campo durante a Revolução Cultural, experiência pela qual Mo passou em sua própria vida.

Apesar do furor causado pelos seus livros entre os chineses, que não conheciam muito o escritor antes do prêmio, o vencedor do Nobel continua isolado e sem falar com jornalistas. Mo Yan, de 57 anos, conserva a atitude austera que o levou a dizer, minutos após levar o prêmio, que “ganhar não significa nada”.

Jornais chineses informaram ainda que Mo rejeitou presentes valiosos, entre eles uma Ferrari.

Novo Nobel já foi desprezado em Frankfurt

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Livro de Mo Yan vira centro das atenções de fotógrafos na Feira de Frankfurt
Johannes Eisele/AFP


Raquel Cozer, na Folha de S. Paulo

Em 2009, por ocasião da homenagem à China na Feira de Frankfurt, a tradutora alemã Karin Betz sugeriu livros de Mo Yan a várias editoras. Todas recusaram.

A razão foi justamente a participação de Mo Yan na feira, onde justificou seu posicionamento político afirmando que um escritor deveria ser julgado apenas por seus trabalhos.

“Ele foi visto como um escritor pró-Estado; os editores não quiseram. Não convenci ninguém, mas isso vai mudar agora”, disse Karin à Folha, na quinta (11), no estande da Suhrkamp, onde dois exemplares da tradução de “Taixiang Xing” foram estrategicamente expostos após o anúncio do Nobel.

Antes da feira de 2009, a respeitada editora alemã tinha comprado o direito do romance, sobre o declínio da dinastia Chin.

Karin prefere não definir o autor como pró-governo. “Ele não corre o risco de ser banido, mas trata de questões políticas amplas, de tortura e injustiça”, diz.

Olivier Bétourné, editor de Mo Yan na França –o chinês tem 12 livros pela Seuil–, concorda. “Ele é um escritor poderoso, divertido. E muito crítico, mas é uma crítica que se lê nas entrelinhas.”

E é também um autor com algum potencial comercial, diz ele : seus livros têm sempre as tiragens, de 5.000 a 6.000 cópias, esgotadas.

Na terra natal ele faz muito mais sucesso. Wang Weisong, da editora de Mo Yan na China, a Shanghai Century, conta que o livro mais recente, “Wa” (2009), teve 100 mil exemplares vendidos no país.

Na quinta, na Feira de Frankfurt, Weisong era só sorrisos. Desde o começo do evento, como a casa de apostas inglesa Ladbrokes colocava Mo Yan entre os mais cotados ao Nobel, muitos editores fizeram ofertas pelo livro.

Nenhum negócio foi fechado antes do anúncio. “Agora o passe dele vale mais”, disse Weisong, que providenciou um cartaz para divulgar o Nobel e “Wa”, seu único livro disponível no estande.

Ficará mais caro também para o editor que resolver publicar Mo Yan no Brasil, país onde nunca atraiu interesse.

Assim como o chinês, vários vencedores do Nobel eram inéditos no Brasil por ocasião da premiação –caso, entre outros, de Elfriede Jelinek em 2004 e de Tomas Tranströmer no ano passado.

Para o editor Samuel Titan Jr., do Instituto Moreira Salles, isso reflete a “falta de uma cultura de tradução no Brasil que vá além do óbvio”.

“Em países como a França, o tradutor sugere títulos, aqui ele funciona a reboque do que a editora oferece.”

Luiz Schwarcz, da Companhia das Letras, diz que é difícil achar avaliadores para obras de idiomas como o chinês. “É impossível dar conta de toda boa literatura que há no mundo”, resume.

Para dissidente chinês, ganhador do Nobel de Literatura é “poeta de Estado”

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Getty Images
O escritor chinês Liao Yiwu em Berlim, 2011

Publicado originalmente no Último Segundo

O escritor dissidente chinês Liao Yiwu, refugiado na Alemanha, criticou severamente a atribuição do prêmio Nobel de Literatura ao seu compatriota, Mo Yan , a quem considera um “poeta de Estado”.

Mo Yan é “um poeta de Estado” que “se retira ao seu mundo habilitado quando é necessário”, disse Liao Yiwu em uma entrevista ao semanário Der Spiegel.

Segundo Liao, seus amigos na China lhe perguntaram, após a atribuição do Nobel na última quinta (11), se o “Ocidente se vê como a prolongação do sistema chinês”.

Mo Yan, de 57 anos, conquistou o Nobel de literatura de 2012 com uma obra que descreve com “realismo alucinatório” a agitada história do seu país e seu apego às paisagens da China oriental de sua infância, segundo o comitê Nobel.

O escritor foi criticado por outros colegas chineses por não apoiar os autores dissidentes.

Em 2011, Liao Yiwu recebeu o Prêmio da Paz das livrarias alemãs, uma das recompensas literárias mais importantes do país.

Escritor chinês Mo Yan vence o Nobel de Literatura 2012

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Escritor chinês Mo Yan vence o Nobel de Literatura 2012 (19/7/2010)

Publicado originalmente no UOL.com

A Academia Sueca anunciou o escritor chinês Mo Yan como o vencedor do prêmio Nobel de Literatura 2012, na manhã desta quinta-feira (11). O anúncio foi feito em Estocolmo, na Suécia, às 8h no horário de Brasília, pelo porta-voz do Comitê Nobel que disse: “com realismo alucinatório, ele funde contos populares, história e os contemporâneos”.

Segundo o Twitter oficial do Nobel, ao saber do prêmio, Mo Yan estava em casa e disse estar “muito feliz e com medo”.

Aos 57 anos, o autor do romance “The Garlic Ballads” (publicado em inglês em 1995 e ainda sem tradução para o português) concorria com nomes como o japonês Haruki Murakami, o húngaro Péter Nádas, e o holandês Cees Nooteboom. Mo Yan também é conhecido por ser o autor dos dois livros que deram origem ao filme “Sorgo Vermelho” (1987), de Zhang Yimou, vencedor do Urso de Ouro no Festival de Berlim.

O escritor receberá a honraria pelo retrato da conturbada história de seu país, em uma descrição em que se mesclam as tradições e os ritos do mundo rural e em uma linguagem de realismo e magia, assim como a ironia e a sensibilidade, segundo a descrição da Academia.

O prêmio Nobel de Literatura é oferecido anualmente, desde 1901, ao escritor de qualquer nacionalidade que, de acordo com as palavras do próprio Alfred Nobel, criador da honraria, “tenha produzido, no campo literário, a obra mais notável em uma direção ideal”.

Segundo a Academia Sueca, 210 escritores disputavam o prêmio neste ano, sendo que 46 deles não haviam sido candidatos em edições anteriores.

O comitê do Nobel envia cartas-convite aos autores qualificados para receber uma indicação ao prêmio. Candidatos qualificados mas que não receberam convite também podem se inscrever. Os nomes dos indicados só podem ser revelados 50 anos depois da premiação.

O Nobel de Literatura 2012, no valor de 8.000.000 de coroas suecas (aproximadamente R$ 2,434 milhões), 20% menos que o ano passado. Em 2011, o vencedor foi o poeta sueco Tomas Tranströmer, 81, cuja obra é inédita no Brasil. Em 2010, o romancista peruano Mario Vargas Llosa foi o escolhido pela Academia Sueca.

A semana do Nobel começou na segunda-feira com a concessão do prêmio de Medicina ao britânico John B. Gurdon e ao japonês Shinya Yamanaka e continuou na terça-feira com o anúncio do de Física, ao francês Serge Haroche e ao americano David J. Wineland.

A rodada dos prêmios Nobel do âmbito científico terminou ontem com o de Química, para os americanos Robert J. Lefkowitz e Brian K. Kobilka.

Depois que o de Literatura foi revelado, a expectativa agora cerca o da Paz, que será divulgado amanhã, enquanto na segunda-feira será conhecido o de Economia.

A entrega dos Nobel será feita, de acordo com a tradição, em duas cerimônias paralelas, em Oslo para o da Paz e em Estocolmo os restantes, o dia 10 de dezembro, coincidindo com o aniversário da morte de Alfred Nobel.

Livros do escritor chinês Mo Yan são expostos na Feira de Frankfurt nesta quinta (11)

História

Oferecido pela primeira vez em 1901, o Prêmio Nobel de Literatura não foi entregue em apenas sete ocasiões: durante a Primeira Guerra Mundial, em 1914 e 1918; em 1935; e durante a Segunda Guerra, em 1940, 1941, 1942 e 1943.

Até hoje, 108 autores foram agraciados com a homenagem, sendo apenas 12 mulheres – a última delas foi a escritora alemã de origem romena Herta Müller, em 2009.

Em quatro edições, o Nobel foi dividido por dois escritores: Frédéric Mistral e José Echegaray, em 1904; Karl Gjellerup e Henrik Pontoppidan, em 1917; Shmuel Agnon e Nelly Sachs, em 1966; e Eyvind Johnson e Harry Martinson, em 1974.

A idade média dos ganhadores do Nobel de Literatura é de 64 anos, sendo que o mais jovem a receber o prêmio foi o inglês Rudyard Kipling, aos 42 anos, em 1907. A inglesa Doris Lessing é a escritora mais velha a receber a homenagem: aos 88 anos, em 2007.

Apenas dois autores recusaram a premiação: o russo Boris Pasternak, em 1958, obrigado pelas autoridades soviéticas a recusar o prêmio; e o existencialista francês Jean Paul Sartre, em 1964, que se recusava a receber honrarias oficiais.

O único autor de língua portuguesa a receber um Nobel foi o português José Saramago, em 1998.

*Com informações da EFE

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