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Ensino bilíngue na prática

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Corolina Ropero, em Estadão

O domínio da língua inglesa é cada vez mais indispensável a qualquer pessoa. Nesse contexto, a criança que recebe o ensino bilíngue na escola consegue assimilar a nova língua com mais naturalidade e rapidez. “Quanto antes ela frequentar um ambiente que estimule o segundo idioma, mais fácil será seu aprendizado sem precisar de tradução”, afirma a coordenadora Érica Cardoso, responsável pelo PEC (Programa Educacional Complementar).

O ensino e a prática do inglês precisam ir além da sala de aula. A introdução do idioma nas atividades do cotidiano é uma maneira natural e eficaz de expandir o vocabulário da criança. “A cognição depende fundamentalmente de experiências concretas e de percepção direta, proporcionadas pelo uso natural de uma segunda língua. Por isso, reproduzir as ações diárias dos alunos usando o vocabulário em inglês, ajuda a concretizar essa experiência”, explica a educadora.

DSC_0272-300x199Na hora de escovar os dentes, por exemplo, os alunos do Ábaco utilizam a expressão “brushing teeth”. Essa ampliação do vocabulário ocorre também no momento da refeição, ao repetir o nome dos alimentos em inglês. Diariamente, a equipe pedagógica escolhe um ingrediente nutritivo, entre vegetais, legumes e grãos, para ensinar a nova língua e incentivar a alimentação saudável.

Aqueles que participam da atividade recebem um adesivo para colar em uma tabela e, quando conseguem completá-la, são considerados Super Healthy! A brincadeira estimula a aprendizagem e torna o momento mais divertido.

Amazon lança biblioteca digital sem cinco maiores editoras americanas

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Alexandra Alter, na Folha de S.Paulo [ via The New York Times]

Depois de meses de especulação, na sexta-feira (18) a Amazon lançou um serviço digital de assinaturas que oferece acesso ilimitado a livros eletrônicos e audiobooks digitais por US$ 9,99 ao mês.

O serviço, Kindle Unlimited, oferece uma abordagem em estilo Netflix que permite acesso a mais de 600 mil livros eletrônicos, entre os quais séries de sucesso como “Jogos Vorazes” e “Diário de um Banana”, obras de não ficção como “Flash Boys”, do jornalista Michael Lewis, clássicos e ficção literária.

Até o momento, nenhuma das cinco grandes editoras dos Estados Unidos está oferecendo seus livros.

A HarperCollins, a Hachette e a Simon & Schuster, por exemplo, estão fora.

A Penguin Random House e a Macmillan se recusaram a comentar, mas uma busca na Amazon sugere que os livros dessas editoras tampouco estão disponíveis.

Como resultado, alguns títulos populares eram notáveis pela ausência quando o serviço começou a operar.

E como muitos escritores oferecem livros por mais de uma editora, os assinantes podem descobrir que têm acesso a certos livros de Michael Chabon e Margaret Atwood, mas não a outros.

A introdução do serviço surge em um momento de crescente tensão no relacionamento entre a Amazon e as grandes editoras.

O grupo de varejo on-line está sofrendo escrutínio cada vez mais intenso por seu domínio do mercado de livros eletrônicos e pelas táticas duras que usa nas negociações com as editoras.

A Amazon e a Hachette estão envolvidas em um duradouro e público impasse sobre os termos de venda de livros eletrônicos da editora, e a situação não parece próxima de uma solução.

Entre as editoras que estão oferecendo títulos pela assinatura estão a Scholastic, da série “Jogos Vorazes”, e a Houghton Mifflin Harcourt.

As notícias sobre o Kindle Unlimited começaram a surgir semanas antes de seu lançamento, quando a Amazon postou acidentalmente um vídeo promocional sobre o modelo de assinatura. O vídeo foi retirado do site, mas não antes que blogs de tecnologia comentassem sobre ele.

Ao oferecer o serviço, a Amazon está ingressando em um mercado cada vez mais lotado. Concorrerá com empresas iniciantes de distribuição digital de livros que oferecem serviços semelhantes, como a Scribd e a Oyster.

A Scribd conta com cerca de 400 mil títulos, e cobra US$ 8,99 ao mês. A Oyster tem mais de 500 mil títulos e oferece acesso ilimitado aos leitores por US$ 9,95 ao mês.

Com modelos de preço semelhante, a concorrência entre os serviços de livros eletrônicos por assinatura pode ser decidida com base no conteúdo e autores disponíveis.

O serviço da Scribd inclui livros de mais de 900 editoras, entre as quais Simon & Schuster e HarperCollins.

A Oyster oferece títulos de seis das dez maiores editoras norte-americanas.

Ainda assim, a Amazon ingressa no segmento com uma imensa vantagem: seu predomínio na publicação de livros eletrônicos e sua vasta biblioteca de audiobooks, que ela está integrando ao seu serviço por assinatura.

Tradução de PAULO MIGLIACCI

A armadilha do realismo fantástico de Murilo Rubião

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Matheus Mans, no Literatortura

Murilo Rubião é um daqueles autores que merece ser investigado e analisado em cada um de seus textos, buscando significados em cada vírgula que o autor mineiro empregava em seus contos. Pertencente ao realismo fantástico, movimento que se utiliza do absurdo e do inimaginável para seus desfechos e complicações, porém, com um fundo de realidade muito perturbador e contínuo.

Seus contos, apesar do absurdo de muitas situações, são alegorias incríveis sobre problemas da realidade que atormentavam o Brasil e que, assustadoramente, continuam com a crítica válida e aplicável na sociedade atual. São provocações das mais diversas e inusitadas e que só são compreendidas quando bem analisadas, buscando significados e intenções nas mais intrincadas palavras e atitudes.

No conto aqui selecionado, A Armadilha, Rubião se apresenta de uma das formas mais enigmáticas possíveis. As coisas se sucedem, desde a primeira atitude do protagonista, de maneira misteriosa e sem sentido. Abaixo, o texto na íntegra. Retorno, em seguida, para comentários interpretativos.

A Armadilha

Alexandre Saldanha Ribeiro. Desprezou o elevador e seguiu pela escada, apesar da volumosa mala que carregava e do número de andares a serem vencidos. Dez.

Não demonstrava pressa, porém o seu rosto denunciava a segurança de uma resolução irrevogável. Já no décimo pavimento, meteu-se por um longo corredor, onde a poeira e detritos emprestavam desagradável aspecto aos ladrilhos. Todas as salas encontravam-se fechadas e delas não escapava qualquer ruído que indicasse presença humana.

Parou diante do último escritório e perdeu algum tempo lendo uma frase, escrita a lápis, na parede. Em seguida passou a mala para a mão esquerda e com a direita experimentou a maçaneta, que custou a girar, como se há muito não fosse utilizada. Mesmo assim não conseguiu franquear a porta, cujo madeiramento empenara. Teve que usar o ombro para forçá-la. E o fez com tamanha violência que ela veio abaixo ruidosamente. Não se impressionou. Estava muito seguro de si para dar importância ao barulho que antecedera a sua entrada numa saleta escura, recendendo a mofo. Percorreu com os olhos os móveis, as paredes. Contrariado, deixou escapar uma praga. Quis voltar ao corredor, a fim de recomeçar a busca, quando deu com um biombo. Afastou-o para o lado e encontrou uma porta semicerrada. Empurrou-a. Ia colocar a mala no chão, mas um terror súbito imobilizou-o: sentado diante de uma mesa empoeirada, um homem de cabelos grisalhos, semblante sereno, apontava-lhe um revólver. Conservando a arma na direção do intruso, ordenou-lhe que não se afastasse.

Também a Alexandre não interessava fugir, porque jamais perderia a oportunidade daquele encontro. A sensação de medo fora passageira e logo substituída por outra mais intensa, ao fitar os olhos do velho. Deles emergia uma penosa tonalidade azul.

Naquela sala tudo respirava bolor, denotava extremo desmazelo, inclusive as esgarçadas roupas do seu solitário ocupante:

— Estava à sua espera — disse, com uma voz macia. Alexandre não deu mostras de ter ouvido, fascinado com o olhar do seu interlocutor. Lembrava-lhe a viagem que fizera pelo mar, algumas palavras duras, num vão de escada.

O outro teve que insistir:

— Afinal, você veio.

Subtraído bruscamente às recordações, ele fez um esforço violento para não demonstrar espanto:

— Ah, esperava-me? — Não aguardou resposta e prosseguiu exaltado, como se de repente viesse à tona uma irritação antiga: — Impossível! Nunca você poderia calcular que eu chegaria hoje, se acabo de desembarcar e ninguém está informado da minha presença na cidade! Você é um farsante, mau farsante. Certamente aplicou sua velha técnica e pôs espias no meu encalço. De outro modo seria difícil descobrir, pois vivo viajando, mudando de lugar e nome.

— Não sabia das suas viagens nem dos seus disfarces.

— Então, como fez para adivinhar a data da minha chegada?

— Nada adivinhei. Apenas esperava a sua vinda. Há dois anos, nesta cadeira, na mesma posição em que me encontro, aguardava-o certo de que você viria.

Por instantes, calaram-se. Preparavam-se para golpes mais fundos ou para desvendar o jogo em que se empenhavam.

Alexandre pensou em tomar a iniciativa do ataque, convencido de que somente assim poderia desfazer a placidez do adversário. Este, entretanto, percebeu-lhe a intenção e antecipou-se:

— Antes que me dirija outras perguntas — e sei que têm muitas a fazer-me — quero saber o que aconteceu com Ema.

— Nada — respondeu, procurando dar à voz um tom despreocupado.

— Nada?

Alexandre percebeu a ironia e seus olhos encheram-se de ódio e humilhação. Tentou revidar com um palavrão. Todavia, a firmeza e a tranqüilidade que iam no rosto do outro venceram-no.

— Abandonou-me — deixou escapar, constrangido pela vergonha. E numa tentativa inútil de demonstrar um resto de altivez, acrescentou: — Disso você não sabia!

Um leve clarão passou pelo olhar do homem idoso:

— Calculava, porém desejava ter certeza.

Começava a escurecer. Um silêncio pesado separava-os e ambos volveram para certas reminiscências que, mesmo contra a vontade deles, sempre os ligariam.

O velho guardou a arma. Dos seus lábios desaparecera o sorriso irônico que conservara durante todo o diálogo. Acendeu um cigarro e pensou em formular uma pergunta que, depois, ele julgaria, desnecessária. Alexandre impediu que a fizesse.

Gesticulando, nervoso, aproximara-se da mesa:

— Seu caduco, não tem medo que eu aproveite a ocasião para matá-lo. Quero ver sua coragem, agora, sem o revólver.

— Não, além de desarmado, você não veio aqui para matar-me.

— O que está esperando, então?! — gritou Alexandre. — Mate-me logo!

— Não posso.

— Não pode ou não quer?

— Estou impedido de fazê-lo. Para evitar essa tentação, após tão longa espera, descarreguei toda a carga da arma no teto da sala.

Alexandre olhou para cima e viu o forro crivado de balas. Ficou confuso. Aos poucos, refazendo-se da surpresa, abandonou-se ao desespero. Correu para uma das janelas e tentou atirar-se através dela. Não a atravessou. Bateu com a cabeça numa fina malha metálica e caiu desmaiado no chão.

Ao levantar-se, viu que o velho acabara de fechar a porta e, por baixo dela, iria jogar a chave.

Lançou-se na direção dele, disposto a impedi-lo. Era tarde. O outro já concluíra seu intento e divertia-se com o pânico que se apossara do adversário:

— Eu esperava que você tentaria o suicídio e tomei precaução de colocar telas de aço nas janelas.

A fúria de Alexandre chegara ao auge:

— Arrombarei a porta. Jamais me prenderão aqui!

— Inútil. Se tivesse reparado nela, saberia que também é de aço. Troquei a antiga por esta.

— Gritarei, berrarei!

— Não lhe acudirão. Ninguém mais vem a este prédio. Despedi os empregados, despejei os inquilinos.

E concluiu, a voz baixa, como se falasse apenas para si mesmo:

— Aqui ficaremos: um ano, dez, cem ou mil anos.

É um conto simples, preciso e direto. Em uma primeira análise, não esconde nada de crítica ou significado oculto por trás. É apenas um homem que acaba por se encontrar numa sala com um homem velho e segurando um revólver. Porém, se melhor observado, vemos que a primeira atitude do protagonista já é sem sentido algum. Quem, em sã consciência, subiria dez andares com uma mala pesada?

O fator fantástico é visto posteriormente também. O desenrolar do momento de tentativa de suicídio é totalmente aleatório, em um primeiro momento. Além disso, alguns aspectos ficam obscurecidos: não conseguimos entender quem é Ema, o velho ou o protagonista. São personagens, aparentemente, aleatórios e que não possuem profundidade psicológica. Porém, tudo muda numa interpretação mais profunda.

Uma das significações dada ao conto, a mais fraca, a meu ver, é que Rubião pretendia criticar a sociedade, que acaba se tornando refém de si própria. É uma sociedade retrógada, que tem a solidão e a incomunicabilidade como características. É uma consequência da existência humana.

Porém, a segunda interpretação é a mais crível e incrível. Existe uma técnica literária chamada Anel de Möbius. Raramente empregada, por sua complexidade, é quando um texto acaba por tomar um caráter infinito e cíclico. É uma história sem fim. Os outros, conto de Neil Gaiman já analisado aqui no Canto do Conto, é um exemplo.

No texto de Rubião, o personagem, na verdade, é colocado no lugar do velho. Por ver vários furos de bala no teto, provavelmente bem mais dos dez ditos pelo velho, Alexandre tem um devaneio e percebe, finalmente, que será preso e entrará num ciclo. Ele sentará no banco e esperará, por anos, a chegada de outra pessoa para tomar seu lugar. Ele, agora, é o velho, que esperou, por apenas dois anos, a chegada de outra pessoa para tomar seu lugar.

Quanto à questão da Ema, é um pouco mais complexo. A maioria das opiniões alega que Ema seria uma pessoa que seduz as pessoas para, um dia, entrar no tal apartamento e, finalmente, tomar o lugar de quem está lá sentado. Devido ao ciclo infinito que a história toma, a Ema, então, não seria apenas uma pessoa. Ela pode ser trocada também, assim como o velho na cadeira.

Agora, muitos podem se preocupar: e onde está o elemento fantástico característica da escrita de Rubião? Bem, além do início, como já dito, o fato de Alexandre ir para o apartamento é um enigma. Ninguém sabe o porquê. Teria sido indicado por alguém? Foi levado? É um enigma. Afinal, é Rubião.

Castro Alves, um poeta para os escravos

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A incrível facilidade de se expressar por meio de hipérboles, antíteses, metáforas e diversas figuras de linguagens fez com que a obra de Castro Alves se tornasse grandiosa.

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Julia Tezza, no Homo Literatus

O Romantismo no Brasil foi uma das épocas mais ricas quanto à produção literária, especialmente por se tratar de temas que expressavam muito bem o contexto social do momento e revelando grandes autores. Entre as gerações românticas temos a Condoeira, que recebeu esse nome em referência à ave Condor, simbolizando a liberdade tanto dos negros que foram escravizados como dos autores em se expressarem sobre este tema. Um dos grandes nomes desta fase é o autor Antônio Frederico de Castro Alves (1847 – 1871), nascido em Curralinho na Bahia, cidade que posteriormente receberia seu nome em homenagem, começou a escrever aos dezessete anos de idade e já possuía algumas peças encenadas e declamadas. Era filho do médico e professor da faculdade de Medicina de Salvador, Antônio José Alves, e de Clélia Brasília da Silva.

No ano de 1853 se muda para Salvador juntamente com sua família, estudando no mesmo colégio de Rui Barbosa. Desde esta época ficou evidente sua paixão pela poesia. No ano seguinte publica seu primeiro poema contra a escravidão, intitulado A Primavera.

Em 1854 ingressa na Faculdade de Direito do Recife, participando ativamente do meio acadêmico e literário, mas acaba retornando a Bahia no mesmo ano e volta à Recife em 1855 juntamente com seu amigo Fagundes Varela.

Em 1866 Alves inicia um intenso caso de amor com Eugênia Câmara, partindo juntos para a Bahia onde ela iria apresentar um de seus dramas, O Gonzaga ou a Revolução de Minas. Depois disso ele parte ao Rio de Janeiro onde conhece Machado de Assis, quem o ajuda a se inserir no meio literário.

Em 1868 de férias e durante uma caçada nos bosques da Lapa acaba ferindo o pé com um tiro de espingarda, a ferida acaba infeccionando e causando a amputação do pé.

Em 1870 volta a Salvador onde publica Espumas Flutuantes.

Praça Castro Alves. Salvador, Bahia.

Praça Castro Alves. Salvador, Bahia.

A incrível facilidade de se expressar por meio de hipérboles, antíteses, metáforas e diversas figuras de linguagens fez com que a obra de Alves se tornasse grandiosa. Não eram apenas assuntos isolados que eram tratados por ele, mas a realidade vivida da sociedade em cada momento quando ele escrevia, como por exemplo, a Independência da Bahia e a Inconfidência Mineira. Isto era um aspecto diferente que Alves possuía em comparação aos poetas da primeira geração, ele se voltava para as angústias e injustiças sociais, enquanto os outros apenas estavam preocupados com o próprio ego, com os próprios sentimentos. Podemos perceber tais aspectos em dois de seus poemas; Boa Noite, que é o momento em que o autor estava envolvido amorosamente com Eugência Câmara, deixava transparecer a poesia lírico-amorosa, onde a idealização da mulher cede lugar para uma mulher real e sensualizada. Os poemas desta sua fase estão presentes na publicação de Espumas Flutuantes, que reúnem 53 poemas cujo tema se estende entre a passagem da vida e da morte até o amor sensual ao sentimental.

O segundo momento é quando o poeta se volta para os problemas sociais, denunciando as desigualdades, os abusos sofridos pelos negros durante a imposição que os obrigavam a deixarem suas terras para serem mantidos escravos, nem com o mínimo de condições básicas para a sobrevivência. Alves pedia a natureza e as entidades divinas para que pudessem ver todo aquele horror que estava se passando bem diante de seus olhos, todo esse clamor ficou imortalizado no poema Navio Negreiro. Por toda sua preocupação com os negros ficou conhecido como o poeta dos escravos. Castro Alves morreu em Salvador, Bahia, no ano de 1871 vítima de tuberculose.

Trecho de Navio Negreiro:

Canto VI

Existe um povo que a bandeira empresta
P’ra cobrir tanta infâmia e cobardia!…
E deixa-a transformar-se nessa festa
Em manto impuro de bacante fria!…
Meu Deus! meu Deus! mas que bandeira é esta,
Que impudente na gávea tripudia?
Silêncio. Musa… chora, e chora tanto
Que o pavilhão se lave no teu pranto! …

Auriverde pendão de minha terra,
Que a brisa do Brasil beija e balança,
Estandarte que a luz do sol encerra
E as promessas divinas da esperança…
Tu que, da liberdade após a guerra,
Foste hasteado dos heróis na lança
Antes te houvessem roto na batalha,
Que servires a um povo de mortalha!…

Fatalidade atroz que a mente esmaga!
Extingue nesta hora o brigue imundo
O trilho que Colombo abriu nas vagas,
Como um íris no pélago profundo!
Mas é infâmia demais! … Da etérea plaga
Levantai-vos, heróis do Novo Mundo!
Andrada! arranca esse pendão dos ares!
Colombo! fecha a porta dos teus mares!

42 palavras quase impossíveis de traduzir para outra língua

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Duda Delmas Campos, no Literatortura

“A Pátria não é a raça, não é o meio, não é o conjunto dos aparelhos econômicos e políticos: – é o idioma criado ou herdado pelo povo. Um povo só começa a perder a sua independência, a sua existência autônoma, quando começa a perder o amor do idioma natal. A morte de uma nação começa pelo apodrecimento da língua.”

(Olavo Bilac)

A linda e impactante frase acima, do poeta Olavo Bilac, nos serve muito bem de mote para essa matéria, afinal, falar sobre palavras “intraduzíveis” é falar sobre as idiossincrasias e nuances de um povo; é falar sobre traços socioculturais que estão além da capacidade homogeneizante da globalização e, sobretudo, é falar de vocábulos muito poéticos (ou muito, muito engraçados).

Antes de iniciarmos a lista, no entanto, é interessante acrescentar que essas diferenças linguísticas e lexicais, além de refletirem realidades culturais muito distintas, também estabelecem com seus falantes uma fantástica relação de causalidade. Isso porque a língua que usamos para nos comunicar afeta a maneira como pensamos e, consequentemente, como agimos, o que já foi demonstrado por pesquisadores como o Professor Keith Chen (cuja palestra vale muito a pena ver no TED Talks). Resumindo, ao mesmo tempo em que criamos e moldamos a língua que falamos, ela também nos molda, em uma extraordinária simbiose que nunca poderemos perfeitamente mensurar.

Dito isso, então, o que estamos esperando? Que comecem as bizarrices!

1) Kummerspeck – Alemão: é o peso que se adquire por comer devido a problemas emocionais. Segundo o site Mental Floss, é tão simplesmente “sofrimento de bacon”.

2) Pochemuchka – Russo: é aquela pessoa que faz muitas perguntas, mas vai além do simples curioso que temos por aqui.

3) Gattara – Italiano: é aquela mulher, geralmente idosa e solitária, que se devota a cuidar de gatos de rua. Pois é, já nos deparamos com ela tantas vezes por aí, e nuca tivemos a consideração de perguntar seu nome.

4) Jayus – Indonésio: sabe aquela piada ruim, mas tão ruim, que você não consegue evitar rir? Voilà, ela tem nome, então da próxima vez que for você a contá-la, já pode explicar para todos os que te encherem que na Indonésia você seria compreendido.

5) Pana Poo – Havaiano: é o ato de coçar a cabeça num esforço para tentar lembrar-se de algo

6) Litost – Tcheco: essa é trágica – é aquele sentimento de imaginar o estado de sua miséria no futuro e ficar agoniado com as possibilidades.

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7) Waldeinsamkeit – Alemão: eu não sei com que frequência alemães passam por isso, mas é a sensação de estar sozinho na floresta.

8) Pelinti – Buli, Gana: é literalmente mover coisas muito quentes na boca. Ou seja, mordemos algo que esteja pelando e instintivamente abrimos a boca e mexemos a cabeça enquanto balbuciamos alguma coisa ininteligível, algo como um “aaaargh” de boca cheia.

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9) Gigil – Filipino: sabe quando uma coisa é tão irresistivelmente fofa que precisamos apertá-la e beliscá-la? Então, gigil.

10)Yuputka – Ulwa: a sensação fantasmagórica de que algo está rastejando na sua pele. Deve dar arrepios.

11)Zeg – Georgiano: o dia depois de amanhã. Simplesmente isso: zeg. Devíamos incorporar essa, porque parece muito útil.

12)Packesel – Alemão: é a pessoa que, em uma viagem, acaba carregando tudo. Podem começar a apontar: todo grupo tem o seu.

13)Luftmensch – Ídiche: são aqueles sonhadores sem qualquer senso de praticidade e negócio.

14)Hygge – Dinamarquês: não muito comum no Brasil, é aquela sensação de prazer e intimidade sentida quando se está ao redor do fogo, de uma lareira, com os amigos, embora possa receber a conotação de algo caloroso e amigável.

15)Boketto – Japonês: é o ato de olhar fixamente para o nada sem qualquer pensamento na cabeça, ou seja, aquele exato instante, em que estamos absortos no nada, sem ouvir as sete vezes que tentaram sem sucesso nos chamar.

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16)Culaccino – Italiano: é a marquinha do copo na mesa depois que o colocamos úmido sobre ela.

17)Plimpplamppletteren – Holandês: essa, além de gigantesca e aparentemente impronunciável, significa a capacidade de jogar uma pedra em uma superfície líquida e fazer com que ela ricocheteie o maior número de vezes possível.

18)Ya’arburnee – Árabe: do literal “você me enterrará”, significa a esperança de morrer antes da pessoa amada para que não precise viver sem ela. Dramático.

19)Umjayanipxitütuwa – Aimará, Bolívia e Peru: essa é muito boa. É a desculpa do “a culpa não é minha”, ou seja, “eles me fizeram beber”, “eles não me contaram”. Ai, ai, esses eles…

20)Kertek – Malaio: som produzido quando pisamos em folhas e galhos secos.

21)Dui niu tanqin – Chinês: falar sobre algo que o interlocutor não entenda ou para o público errado. O sensacional aqui é o sentido literal da expressão: “Tocar alaúde para uma vaca”.

22)Gumusservi – Turco: a luz do luar brilhando nas águas. Muito poético, mas nem tanto quanto a próxima.

23)Komorebi – Japonês: é aquela luz do sol que passa por entre as folhagens e cria sombras, padrões, jogos de luminosidade…

24) Razbliuto – Russo: sentimento de afeição, ao mesmo tempo dolorido e carinhoso, que nutrimos por uma pessoa que já não amamos.

25)Nedovtipa – Tcheco: pessoa incapaz de compreender uma indireta. Muito atual, muito atual. Tão atual que parece ter alcançado dimensões inimagináveis com o surto das hashtags.

26)Bakkushan – Japonês: jovem que aparenta ser bonita quando vista de trás, mas de frente… Basicamente, “de longe, são todas boas”.

27)Backpfeifengesicht – Alemão: é aquela cara, provavelmente conhecida por todos, de alguém que está pedindo para levar um soco.

28)Tartle – Escocês: aquele momento constrangedor em que você vai apresentar alguém e esquece o nome da pessoa.

29)Shlimaze – Ídiche: uma pessoa natural e cronicamente azarada.

30)Sobremesa – Espanhol: diferente de sua falsa cognata em português, a palavra refere-se àquele momento de conversa e descontração que passamos na mesa após a refeição.

31)Dépaysement – Francês: com todas as polêmicas que a França enfrenta quanto ao trato de seus imigrantes, a existência dessa palavra faz bastante sentido; é aquele sentimento de deslocamento, de não pertencimento a um país ou cultura.

32)Tsundoku – Japonês: muito conhecido dos apaixonados pela palavra escrita, é o ato de comprar livros e não os ler, juntando pilhas e pilhas de obras não lidas.

33)Tokka – Finlandês: essa não é muito útil aqui nos trópicos, mas é bastante simpática – refere-se a um rebanho de renas.

34)Schadenfreude – Alemão: é nosso “pimenta nos olhos dos outros é refresco”, ou seja, sentir prazer no sofrimento dos outros.

35)Istoriesmearkoudes – Grego: literalmente “histórias com ursos”, mas usada para referir-se à narração eventos tão loucos que não podem possivelmente ser verdadeiros. Basicamente, historinhas pra boi dormir.

36)Wabi-Sabi – Japonês: bem fatalista, é a aceitação do ciclo natural de decaimento e morte. Passa uma certa tensão pensar nas coisas desse jeito.

37)Iktsuarpok – Inuíte: é a frustração de esperar e esperar alguém aparecer, e ficar checando a todo momento o aguardado aparecimento. Se a palavra vem dos tempos remotos deste povo, realmente, essa espera devia ser meio deprê em meio à vastidão gelada do Ártico canadense.

38)Tingo – Pascuense: essa é fantástica. É o ato de roubar da casa de seus amigos todos os objetos que deseja ao gradualmente pegá-los emprestados. Talvez em não tão larga escala, muitos de nós já devem ter passado por isso.

39)Mamihlapinatapei – Yaga (Língua da Terra do Fogo): antes de mais nada, fico imaginando como deve ser a pronúncia disso. Talvez até por essa dificuldade é que seu significado seja tão difícil de ser praticado (e compreendido) nos atribulados dias atuais: é aquele olhar sem palavras, mas cheio de significação, compartilhado por duas pessoas que, embora queiram iniciar algo juntas, estão relutantes em começá-la.

40)Faamiti – Samoano: é aquele som chiado que emitimos passando o ar pelos lábios a fim de chamar a atenção de um cachorro. Ou uma criança, quando confundimos os dois.

41)Toska – Russo: para o autor de Lolita, Vladimir Nabokov, nenhuma outra palavra possui as riquezas e tons desta. Segundo ele “Em seu auge de profundidade e sofrimento, é a sensação de grande angústia espiritual, muitas vezes sem causa específica. A níveis menos mórbidos, é uma aborrecida dor da alma, um desejo sem nada a desejar, uma inquietação vaga, espasmos mentais, saudades. Em alguns casos, pode ser o desejo por alguém ou algo específico, uma nostalgia, saudade. Em seus nível mais baixo, tende ao enfado, ao tédio.”. Haja fôlego para entender e usar algo tão complexo.

42)Clixby: Só para aproveitar a deixa do número 42, significado da vida, do universo e tudo mais, uma palavra inventada por Douglas Adams e que apenas existe na língua de sua vasta imaginação – Significa algo “educadamente rude. Vivamente vago. Firmemente desinformativo”. (Confira mais AQUI !)

** Bônus! As palavras em português que figuram entre listas como esta, mas estrangeiras, são a corriqueira “saudade” e a brasileiríssima “cafuné”. Essa última é descrita como “o ato de passar os dedos carinhosamente pelos cabelos de alguém”. Interessante pensar que seja preciso explicar algo que conhecemos desde a infância, não?

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