Contando e Cantando (Volume 2)

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Mensagens secretas no Cristo Redentor inspiram livro de irlandesa

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Uma descoberta surpreendente inspirou a escritora Lucinda Riley a escrever um livro sobre a história do Cristo Redentor: por trás das milhares de pastilhas de pedra-sabão que recobrem o famoso monumento, há orações e mensagens de amor escritas por mulheres que participaram da construção da estátua.

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Jefferson Puff, na BBC

Em entrevista à BBC Brasil, a autora do romance As Sete Irmãs (lançado no Brasil pela editora Novo Conceito) conta que durante dois anos pesquisou documentos, visitou arquivos, ouviu inúmeras histórias e conversou com parentes de Heitor da Silva Costa, engenheiro responsável pelo projeto e construção do Cristo Redentor, inaugurado no dia 12 de outubro de 1931.

Em três visitas ao Rio de Janeiro, numa das quais passou mais de um mês na cidade, Lucinda descobriu que muitas mulheres receberam a tarefa de colar cada pastilha de pedra sabão sobre redes de algodão que posteriormente seriam colocadas sobre a estrutura de concreto da estátua.

“O curioso é que antes de colar os azulejos de pedra, elas escreviam, à mão, mensagens para suas famílias e para seus amados, do lado de trás. Há orações e juras de amor. Então, na verdade, além de toda a beleza aparente, o Cristo contém centenas de mensagens de amor. É algo fascinante”, conta a escritora nascida na Irlanda e radicada na Grã-Bretanha.

“Paul Landowski, o artista francês responsável pela escultura, considerou cobri-la de bronze. Mas logo se deu conta de que o material ficaria verde com o tempo. Pouco depois percebeu que pastilhas de pedra seriam o ideal, e que colocadas numa rede de algodão, e com a distância entre elas preenchida pelo concreto, qualquer problema numa delas, ou rachadura, não colocaria em risco toda a estrutura”, acrescenta.

A descoberta serviu de inspiração para o início da história fictícia que ela conta no livro As Sete Irmãs. Trata-se do primeiro de uma série de sete romances que pretende escrever em que diferentes lugares do mundo e grandes obras como esculturas, sinfonias ou quadros serão mesclados às histórias de amor e ao enredo que no final reconta a saga de sete irmãs.

“Maia é uma moça que mora em Genebra, e recebe um azulejo de pedra sabão de seu pai no leito de morte. Ao rastrear a história do objeto e da mensagem escrita no verso, ela chega ao Rio em busca de sua história. E aí, juntamente com ela aterrissamos no Rio de Janeiro dos anos 30, da Belle Époque, e acompanhamos a construção do Cristo Redentor”, resume a escritora.

Amor pelo Rio e curiosidades

Lucinda se declara apaixonada pelo Brasil, sobretudo pelo Rio de Janeiro. “Acho que os cariocas têm uma noção sobre o tempo do trabalho e o tempo do lazer. O esporte, a praia, as paisagens magníficas. Tudo isso é um estilo de vida que me agrada muito. Morei um Ipanema por quase dois meses e posso dizer que já me sinto uma carioca”, conta.

O interesse da escritora pela cidade começou quando uma editora brasileira a convidou a vir ao país assinar um contrato.

“No caminho entre o aeroporto e o hotel, ao longe, vi o Cristo em cima de uma montanha. Na hora, me arrepiei. Senti que eu tinha que descobrir tudo sobre como ele tinha ido parar lá em cima. Eu acredito nessas coisas, foi um sinal. E nos dois anos seguintes, foi exatamente o que eu fiz”, relembra.

Na pesquisa, ela relembra uma série de fatos curiosos. Durante os dez anos entre o início do projeto e a inauguração, ninguém morreu em acidentes de trabalho. Toda a ideia foi financiada pela própria população carioca, embora muitos acreditem que a estátua tenha sido um presente.

“Me surpreende que muitos brasileiros achem que o Cristo tenha sido um presente da França. Na verdade todo o dinheiro foi arrecadado da própria população. É algo inteiramente do Brasil, projetado, construído e pago pelos brasileiros”, diz.

“Eu acho fascinante o fato de ser estrangeira e agora saber tantos detalhes sobre o Cristo, muito mais do que tantos brasileiros. Mas acho que é normal. Sou britânica e não sei nada sobre o Big Ben. Quando algo tão grandioso faz parte do nosso dia a dia, não prestamos tanta atenção.”

Professor reúne apelidos racistas e cria projeto contra preconceito

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Assustado com mais de 360 nomes ofensivos encontrados entre alunos de escola na Zona Norte do Rio, professor monta jardim que mistura História e cultivo de plantas

O professor de biologia Luiz Henrique Rosa em frente ao muro decorado por alunos da Escola Municipal Herbert Moses com cerca de 200 nomes de escravos Paula Giolito

O professor de biologia Luiz Henrique Rosa em frente ao muro decorado por alunos da Escola Municipal Herbert Moses com cerca de 200 nomes de escravos Paula Giolito

Leonardo Vieira em O Globo

RIO – Mais de 125 anos depois da Lei Áurea, o racismo entre alunos do ensino fundamental chamou a atenção de Luiz Henrique Rosa, professor de biologia da Escola Municipal Herbert Moses, no Jardim América, Zona Norte do Rio. Assustado com a agressividade das crianças, Rosa pediu que todos colassem no papel os apelidos já ouvidos na escola. O resultado? Das mais de 400 terminologias catalogadas, cerca de 360 continham conteúdo racista, como “macaco”, “galinha de macumba” e “asfalto”.

No mesmo período dessa pesquisa, Rosa, entusiasta da história dos negros no Brasil, ficou impressionado com a falta de curiosidade pelo aniversário da Revolta de Vassouras, rebelião escrava ocorrida em 1838. Pressionado pelo racismo em sala de aula, de um lado, e o desconhecimento da cultura negra, de outro, o professor resolveu agir. Assim nasceu, no fim de 2009, o projeto “Qual é a Graça?”.

No quintal então abandonado da escola, Rosa pediu para que seus alunos escrevessem e colassem no muro os quase 200 nomes de escravos que participaram da revolta. O objetivo era que cada um “apadrinhasse” um cativo, estimulando o sentido de responsabilidade. Cada estudante contribuiu com R$ 6 pelo pedaço de mármore. É possível encontrar nomes cristãos como “Concórdia”, “José” e “Cesário”, dados aos cativos assim que chegavam ao Brasil. Já as pedras com os dizeres “Deus Sabe seu Nome” representam os escravos não identificados, fazendo uma analogia com o “Soldado Desconhecido”, no monumento em homenagem aos combatentes da Segunda Guerra Mundial.

Da canela ao café, uma aula de história

Depois, no mesmo espaço, Rosa fez os alunos cultivarem plantas e espécies ligadas à História do Brasil. O cultivo das plantas começa por especiarias como canela e noz-moscada. Em uma viagem no tempo, passa-se pelo pau-brasil, cana-de-açúcar e café. Para incutir nos estudantes o tempo de viagem entre Moçambique e o Brasil a bordo de um navio negreiro, o professor Luiz Henrique Rosa pediu para que eles plantassem e acompanhassem o ciclo da couve e da alface por 90 dias — o período em que um escravo sofria nos porões da embarcação. Para a viagem entre Brasil e Angola, pepinos e mostardas, que têm ciclos de 60 dias.

— Meus alunos olham para a planta e perguntam: “Ele ainda tá amarrado, professor?”, referindo-se ao escravo. Desse jeito consigo trabalhar com eles a dureza da escravidão e o desenvolvimento dos vegetais — explicou Rosa.

Nascido para combater o racismo, o projeto “Qual é a Graça?” ganhou contornos pedagógicos e agora é transdisciplinar, afirmou. Para ele, é impossível separar os conteúdos no jardim:

— Por que eu planto essa berinjela? Na biologia, para mostrar como as plantas nascem e se reproduzem. Já o professor de português pode botar uma plaquinha com o nome dela e lembrar que “berinjela” se escreve com “j”, não com “g”. O aluno nunca mais vai errar.

Sem apoio financeiro

Os trabalhos no jardim de Rosa não contam para a nota final do aluno, mas todos são incentivados a participar. E dá resultados. Aos 12 anos, a estudante Aretha Barra Mansa Nascimento era chamada na escola de “petróleo”. Hoje, com 14, ela diz que a iniciativa do professor ajudou a amenizar o clima entre as crianças, e agora atender apenas por Aretha no colégio.

— No começo os alunos mais velhos vinham aqui no jardim e destruíam as plantas, mas agora todos participam. Fora que é muito melhor aprender as matérias da aula na prática do que em um livro, dentro de sala — contou ela.

Em seus dois anos e meio de existência, o projeto nunca recebeu incentivos financeiros da Secretaria municipal de Educação. Segundo o diretor da escola, Renato Borges Giagio, um grupo de professores chegou a levar uma coleção de fotos e um relatório ao órgão para convencer os gestores, sem sucesso. Rosa calcula que o “Qual é a Graça?” já consumiu mais de R$ 6 mil da comunidade, entre professores, pais e alunos.
— Estamos fazendo a nossa parte, mas cadê a deles? A educação vai além da sala de aula, e quando se coloca amor, o resultado é isso aí — disse Giagio.

Situada próxima às comunidades de Vigário Geral e Parada de Lucas, em 2011 a Herbert Moses teve nota 4.1 no Ideb, contra 4.7 da média nacional.

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