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Morador de rua explica por que escolheu Ipanema: ‘O lixo daqui é ótimo para livro’

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André Vieira lê deitado na Praça General Osório Foto: Gabriel de Paiva / Agência O Globo

André Vieira lê deitado na Praça General Osório Foto: Gabriel de Paiva / Agência O Globo

Bruno Alfano, no Extra

Entre os poucos pertences de André Vieira, de 38 anos, há um exemplar de “É fácil matar”, uma das histórias de Agatha Christie. Ele nunca havia falar da escritora, famosa pelos romances policiais, mas tem se entretido com a história. André lê em sua cama improvisada na Praça General Osório, em Ipanema, Zona Sul do Rio, e encontrou o exemplar no lixo. Ele é um dos moradores de rua que vivem no bairro e que, se depender de uma campanha no Facebook, não receberá mais ajuda de ninguém. Uma página na rede social estimula que moradores do bairro criem constrangimento a quem decida dar esmola a pessoas em situação de rua no bairro. O texto argumenta que essa população não nasceu no bairro e que só voltam para Ipanema porque há pessoas que dão esmola e comida.

“Pessoal, a Superintedência da Zona Sul e a Guarda Municipal do Rio de Janeiro têm retirado estas pessoas e encaminhado a abrigos, mas vocês percebem que eles sempre voltam? Não vão para Santa Cruz, nem para Nova Iguaçu, Campo Grande, eles vem para Ipanema. Por que será? Nascer aqui eles não nasceram. Vem porque tem algo de bom. Esse algo de bom são as pessoas que dão esmola e comida”, argumenta a página Alerta Ipanema.

A proposta do texto, portanto, é fazer com que quem estiver ajudando um morador de rua seja constrangido com a “gritaria” até que pare de ajudar.

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“Eu já faço, mas precido da ajuda de vocês. Quando virem alguém dando comida ou esmola, chamem atenção, façam gritaria, mostrem a todos que estiverem passando, que aquela pessoa tá contribuindo pra que tenhamos mais mendigos nas ruas do bairro. Só assim ficam constrangidos e param”, diz o texto.

Na imagem do post, um homem negro segura uma placa dizendo que o dinheiro de quem dá esmola o mantém na rua o dia inteiro.

— O lixo de Ipanema é ótimo para livros — comenta André, que não se assusta com a polêmica. — Eu entendo quem não quer dar dinheiro para morador de rua. É verdade que nem todo mundo usa bem o dinheiro. Mas dar comida, eu não vejo problema.

André trabalha montando barracas de praia. No verão, consegue R$ 40 por dia. No inverno, paga o almoço — o que já é uma vitória. Ele nasceu em Niterói e, há sete anos, foi viver sob marquises após se viciar em crack. Largou a droga quando percebeu que havia perdido casa, mãe e os cinco filhos, mas não volta para a família. Por orgulho, diz. Quer primeiro se estabilizar num emprego (está tirando os documentos e buscando oportunidade) para depois retornar.

Morador de rua dorme na Praça General Osório, em Ipanema Foto: Agência O Globo

Morador de rua dorme na Praça General Osório, em Ipanema Foto: Agência O Globo

— Aqui em Ipanema é menos perigoso do que em outras partes da cidade. Só às vezes que a gente sofre com preconceito e com covardia. O problema é quando os playboys bebem e querem bater na gente — conta.

Na rua, André construiu família. Tem mulher (que conheceu quando viveu pelas marquises do Centro do Rio) e agora cuida de um cachorro, filhote de pitbull que foi abandonado na General Osório. Um menino, também morador de rua, chama André de pai.

— Eu cuido dele às vezes e ele fala isso por aí — conta.

Depois da repercussão negativa do post, o moderador da página Alerta Ipanema decidiu apagar a postagem. A polêmica, no entanto, se espalhou por Ipanema.

— A gente fica numa situação complicada. Tem cada vez mais gente debaixo da marquise. Tem quem precise mesmo, dá para ver isso. Mas tem gente que não quer nada e fica pedindo — pondera o morador Marcos Vinícius dos Santos. — Quando eu vejo criança, não dá para não ajudar. Mesmo sabendo que, às vezes, são as mães que botam eles para trabalharem pedindo dinheiro.

Morador de rua passa em 2º lugar em Administração na UFRN

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(Foto: Reprodução/Inter TV Cabugi)

(Foto: Reprodução/Inter TV Cabugi)

 

Publicado na Galileu

Vendedor ambulante e morador de rua, Mário Batista da Cruz Júnior, de 34 anos, passou em segundo lugar no curso de Administração da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Determinado a voltar a estudar, ele conta que leu tudo o que podia para se preparar para a prova do Enem.

Mário dorme todos os dias no Centro de Referência Especializado para Pessoas em Situação de Rua (Centro Pop) de Panamirim, na região da Grande Natal. Ele conta que precisa chegar cedo para conseguir uma das 26 vagas, onde tem acesso, além do abrigo, a assistência social, jurídica e psicológica. Seu plano agora, porém, é conseguir uma vaga na residência universitária.

O mais novo calouro de administração sempre gostou de ler, e emprestava a maioria dos livros que lia de uma minibiblioteca do Coletivo For All, que fica no bairro Cohabinal da cidade. Ele acredita que o conhecimento, diferente de bens materiais, uma vez adquirido, nunca mais será perdido.

Mário começou a experimentar substâncias químicas desde muito cedo e por isso abandonou os estudos. Ele conta que começou a beber aos nove anos, e a partir daí experimentou muitas outras coisas. Agora, Mário pretende refazer seus laços familiares, se dedicar aos estudos e seguir para uma nova vida.

(Via G1)

Ciclistas doam livros para pessoas em situação de rua em São Paulo

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Robson Mendonça, do Movimento Estadual de População em Situação de Rua recebe doações de livros para a Bicicloteca Foto: Agência Brasil

Robson Mendonça, do Movimento Estadual de População em Situação de Rua recebe doações de livros para a Bicicloteca
Foto: Agência Brasil

Após a arrecadação na Praça do Ciclista, na Avenida Paulista, os ativistas pedalaram até a Praça do Patriarca, próximo à prefeitura, onde entregaram os livros ao projeto

Publicado no Diário do Litoral

Ciclistas fizeram ontem (7) uma doação de livros para o projeto Bicicloteca, que distribui livros para pessoas em situação de rua na capital paulista. Após a arrecadação na Praça do Ciclista, na Avenida Paulista, os ativistas pedalaram até a Praça do Patriarca, próximo à prefeitura, onde entregaram os livros ao projeto. Foram arrecadados cerca de 100 títulos.

Robson Mendonça, presidente e fundador do Movimento Estadual de População em Situação de Rua, é responsável pela Bicicloteca. Ele conta que a ideia surgiu da sua própria experiência como morador de rua, durante um período de seis anos. “A maior dificuldade que tinha era conseguir um livro para ler. Quando entrava na biblioteca, o pessoal se levantava e não queria ficar perto de um morador de rua. Eu não podia retirar o livro para ler porque precisava de um comprovante de residência. Eu criei uma biblioteca que não precisasse de burocracia para ter direito ao livro”, disse.

No projeto, Robson usa uma bicicleta comum baú para levar os livros aos diferentes pontos do centro de São Paulo, funcionando como uma biblioteca itinerante. O objetivo é proporcionar inclusão social por meio da leitura. Desde 2010, mais de 100 mil livros foram emprestados. Desse total, 99 mil foram devolvidos.

“O nosso intuito não é a devolução do livro, apesar de nós termos uma devolução muito maior que as bibliotecas convencionais. Queremos que o livro circule. Quando terminar de ler falamos que, se tiver outra pessoa interessada, você passa para outra pessoa”, conta Robson. “A população de rua diz para mim que não vai ficar com o livro porque vai chover, vai estragar, então devolve para outro poder ler”, diz ele.

Denis Meireles de Carvalho, 36 anos, deixou as ruas há 4 dias. Ele foi ajudado por Robson, após permanecer por 1 ano como morador de rua, embaixo do viaduto da Praça da Bandeira. “Foi por causa do álcool, festa e falta de responsabilidade. Eu perdi o emprego, não tive como pagar aluguel. Sou órfão, vim do Rio de Janeiro em busca de trabalho como pizzaiolo”, lembra ele.

Agora, Denis quer voltar ao mercado de trabalho e manter o novo hábito da leitura. “Através do seu Robson, estou começando a me interessar por leitura de teatro, estou lendo roteiros. Eu me interessei por teatro, porque sempre quis atuar”, disse.

O cicloativista Alex Gomes Peixoto, de 37 anos, professor de história da arte, fez uma doação hoje de sete livros e dois conjuntos de cartões postais. “Às vezes, isto fica encostado em casa. Aqui, coloco para circular, para as pessoas lerem, especialmente as pessoas em condições de rua, que não conseguem ter o acesso às bibliotecas. A gente sabe dos vários bloqueios que existem nesses locais”, disse.

A Bicicloteca está a cada dia da semana em um ponto do centro, onde doações são aceitas e os moradores de rua podem retirar os livros. A programação é: segunda-feira na Praça da Sé, terça-feira na Praça do Patriarca, quarta-feira na Rua Barão de Itapetininga, quinta-feira na Praça da República e sexta-feira em Santa Cecília. As doações podem ser entregues também na Rua José Bonifácio, número 395, loja 10, na Sé. Mais informações pelo telefone: (11) 94833-7093.

Baiano virou morador de rua em SP, mas nunca largou faculdade

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Alderico Ferreira da Silva, 57, estudante de enfermagem

Alderico Ferreira da Silva, 57, estudante de enfermagem

 

Paulo Gomes, na Folha de S.Paulo

RESUMO No ano passado, Alderico Ferreira da Silva, 57, largou o emprego num centro de assistência social e entregou a casa onde vivia sozinho de aluguel. Sem dinheiro, voltou para uma situação em que já esteve outras vezes –a de morador de rua. Convencido por colegas, só não largou a faculdade de enfermagem. Passando as noites em um abrigo, deve se formar no fim do ano e acaba de conseguir emprego em um hospital.

*

Desde criança em Salvador meu sonho era ser alguma coisa. Meu pai queria que eu fosse médico. Em casa eu era o caçula de cinco filhos. Mas o regime era muito rígido. Tempo da sola, da palmatória. Todo mundo se mandou.

Quando completei 13 anos eu disse “basta” e saí de casa. Comecei a trabalhar. Tudo o que aparecia na frente eu queria fazer. Em Salvador eu ficava em pensão. Em algumas das construções onde trabalhei tinha alojamento.

Não precisei pegar nada dos outros, nem fumar droga, nem vender porcaria. Meu pai me ensinou os valores. Sempre trabalhei, sempre procurei estudar. Mesmo nessa vida de rua, nunca pedi nada para ninguém. Se estiver sem emprego eu cato uma lata, quando não tem um bico eu pego papelão e vendo.

Em Salvador estava fraco de serviço, então vim para cá nos anos 80. No dia que cheguei em São Paulo já peguei um serviço, como auxiliar de manutenção em fábrica. Depois trabalhei como metalúrgico e morei em Santo André [ABC].

Aí comprei uma casinha em São Mateus [zona leste]. Um dia eu saí para trabalhar e quando voltei um pessoal [envolvido com tráfico de drogas] tinha tomado a casa.

Fui para Franca [no interior de SP], na época que tinha muita oferta de emprego lá. Fiz bicos carregando saca de café, trabalhando com papelão. Passei por várias outras cidades. Aí quando consegui um dinheirinho voltei para cá e fiquei no Arsenal da Esperança [abrigo na Mooca].

Não tinha mais casa, não tinha nada. Já estava com mais de 40 anos. Com essa idade ninguém conseguia nada. Então decidi fazer o ensino médio e terminei rapidinho.

Fui trabalhar no programa do Centro Social Nossa Senhora do Bom Parto [no Belenzinho]. Conversando com as profissionais deles, que falavam muito sobre os problemas das pessoas de rua, decidi fazer faculdade de enfermagem e consegui o Fies [financiamento estudantil] integral nos primeiros meses [para estudar na Uniesp].

Aluguei uma casa em São Mateus, bem distante daquele pessoal [que tomou a casa dele no passado]. Mas sabe como é, pessoa que faz faculdade, mora sozinha, paga aluguel e não tem ninguém…

Fui transferido pro Cratod [centro do governo estadual para tratar dependentes de álcool e drogas], fazia todo o trabalho de agente de saúde. Colocava o cara em pé e no outro dia ele estava drogado de novo. É desgastante.

Eu amava o que fazia. Mas quero ver o meu trabalho evoluir. Pedi para sair. Foi a maior loucura que fiz na vida. Minhas contas estavam se acumulando, eu tinha que estudar, o lugar era longe. Às vezes dormia só três horas por noite, estava esgotado.

Aí o aluguel atrasou e o dono me deu seis meses para acertar. Um dia um parente dele bateu na minha porta e entreguei a casa do jeito que estava, com mobília. Eu ia trancar a matrícula. Três colegas foram pra porta do albergue e disseram: “você tem que se formar este ano”. Não tenho nenhuma DP [reprovação em disciplinas].

Encontrei o padre Júlio [Lancellotti, da Pastoral do Povo da Rua] e falei que estava fazendo faculdade de enfermagem. Pedi um trabalho. Ele tirou uma foto e colocou no Facebook. Consegui um trabalho. Começo no dia 5 como auxiliar administrativo do centro cirúrgico do Igesp [hospital na Bela Vista]. O que eu precisava era o emprego, para voltar a uma vida estável.

Ainda não me formei, estou com 300 horas de estágio para cumprir. Em mais alguns meses eu consigo. O sonho de toda a pessoa que mora no abrigo, no equipamento social, é ter uma “chavinha”. Não tem problema de ser aluguel, ele só quer ter o seu lugar, a liberdade de ir e vir, um lugar só dele. E isso está nos meus planos.

Morador de rua passa dia em biblioteca lendo e anotando, para matar dor do tempo

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Carlos passa o dia lendo livros sobre o espiritismo e escrevendo frases que jura ouvir durante a noite. (Foto: Thailla Torres)

Carlos passa o dia lendo livros sobre o espiritismo e escrevendo frases que jura ouvir durante a noite. (Foto: Thailla Torres)

 

Thailla Torres, no Campo Grande News

Antes do sol aparecer, Carlos Augusto Durval dos Santos, de 56 anos, já está pronto para mais um dia na rua. Dobra o papelão junto com o cobertor que usa para dormir e esconde em um cantinho da cidade. Em busca de alguns trocados, pede dinheiro na rua, toma um café e segue para as escadas que dão acesso à Biblioteca Pública Estadual, na Avenida Fernando Corrêa da Costa.

O lugar parece improvável para quem não tem mais uma casa ou referência familiar, mas assim como Carlos, outros moradores de rua encontraram nos livros a fuga da solidão, do abandono e de outras válvulas de escape, como as drogas. Se para muito hoje em dia a biblioteca é algo obsoleto, para eles é o melhor jeito de ver o tempo passar.

Há 3 anos, Carlos descobriu nos livros um mundo diferente das recaídas que há tempos ele não dava conta de superar. “Tinha problema com a bebida sabe… Na rua, a gente começa andar com outras pessoas e acaba se afundando. Mas eu nunca usei droga, só a bebida mesmo, cai nessa perdição”, lamenta.

No caderno, Carlos anota alguns trechos dos livros e frases que diz que escuta durante a noite. (Foto: Thailla Torres)

No caderno, Carlos anota alguns trechos dos livros e frases que diz que escuta durante a noite. (Foto: Thailla Torres)

 

Mas logo ele abre um sorriso e faz questão de mostrar os cadernos que compra com os trocados da rua. Entre as linhas, estão as anotações de alguns livros e frases que surgem na cabeça durante a noite. Os blocos de anotações são feitos com volantes que ele pega na lotérica. Servem para guardar os trechos das leituras.

“Não gosto muito de ficção, prefiro os livros espiritas, deixo 4 aqui na minha mesa. Mas já li a biografia da Elis Regina e da cantora Maísa”, conta mostrando o amontado de livros na mesa que ele faz questão de sentar todos os dias na biblioteca.

Além das obras de Allan Kardec e as biografias, o dicionário é livro indispensável. O clássico Aurélio é como um acessório para Carlos. “Eu uso ele todo dia, tem algumas palavras nos livros que eu não entendo, aí eu devoro o dicionário. Aí, se tem alguma palavra que eu acho interessante, eu anoto aqui no caderno”, explica.

Ele passa cerca de 8 horas dentro da biblioteca todos os dias. Só para na hora do almoço. A comida ele ganha de uma marmitaria próxima, as vezes até o funcionário do prédio divide o alimento com ele. “Café da manhã para mim não pode faltar, eu sempre faço uns R$ 9 cuidando carro, de manhã eu tenho que comer 2 pães com mortadela”, comenta.

Sem mencionar o motivo, ele conta apenas que saiu de casa em 1990, depois de chegar do Rio de Janeiro. Em Mato Grosso do Sul, chegou a trabalhar em fazendas, mas depois de perder o emprego, foi a bebida que o consumiu totalmente.

“Hoje frequento o AA (Alcoólicos Anônimos) e fico na biblioteca, tenho a cabeça no lugar, carrego aqui essa vivências e tô muito melhor. Tenho educação, não tenho passagem pela polícia e por isso eu fico aqui, tô nem aí…”, reflete se referindo as pessoas que as pessoas ficam incomodadas com a presença deles por ali.

Na mesa, deixa tudo que ele precisa para passar o dia na biblioteca. (Foto: Thailla Torres)

Na mesa, deixa tudo que ele precisa para passar o dia na biblioteca. (Foto: Thailla Torres)

 

Até para quem admite não gostar de ler, o lugar é como um refúgio. Receoso com a proximidade, o morador de rua Thiago Ferreira Guimarães, de 36 anos, larga o mouse do computador e pede para não ser fotografado assim que percebe a nossa equipe. Após alguns minutos de conversa, finalmente ele topa dar entrevista.

Thiago é outro que pouco fala de onde veio. Não gosta de ser chamado de morador de rua, mas afirma que dorme pelas calçadas todos os dias. Longe de casa, não se reconhece mais em família. “Eu nunca tive família, sei que tive uma mulher velha que se diz minha tutora, mas eu sai de lá faz tempo e fiquei desempregado”, conta.

Na biblioteca, os livros não chamam atenção. Ele aproveita o dia para entrar na internet, assistir disputa de games pelo Youtube, ler o jornal e passar o tempo. Entre uma informação e outra, se confunde com a própria história. Cita os problemas na política e divaga sobre o que família viveu no tempo da guerra fria.

Por fim, admite que ali é onde encontra o apoio que ele não vê nas ruas há muito tempo. “Eu venho pra ficar sem dor, a dor do tempo sabe? É pra aliviar o tempo, eu tinha outro ritmo, usava drogas e hoje não uso nem bebida, é um jeito de não ficar vagando pela rua, sozinho…”, justifica.

Rejeição – Desde que eles começaram a frequentar a biblioteca, a permanência dos moradores de rua se tornou uma batalha diante da rejeição de outros frequentadores. Quem resiste firme é a bibiotecária Eleuzina Crisanto de Lima, de 41 anos. “As pessoas se incomodaram com a presença deles, pelo fato de não tomarem banho. Mas eu pensei que isso não podia ser motivo para impedir eles de estarem aqui e muito menos das pessoas se sentirem incomodadas”, conta.

Por isso a servidora arregaçou as mangas em busca de apoio para quem vivia na rua. “Pensei comigo: eu não posso perder os meninos, aí eu conversei com eles, expliquei que bastava tomar um banho e entrar limpinho que o problema seria resolvido. Conseguimos parceria com um centro de triagem que oferece assistência social, eles tomam banho, as vezes trocam de roupa quando ela já está bem suja, procuramos fazer documentos para alguns. Tudo para não perder eles, porque isso daqui é pra todo mundo”, justifica.

Eleuzina acredita no efeito positivo que os livros e o ambiente proporcionam. “Eles vivem em uma situação tão difícil e posso ver que isso aqui é um suporte de apoio. Por isso, enquanto a gente estiver aqui, vamos bater o pé para que eles continuem frequentando. Porque é uma biblioteca pública e ela deve ser para todos”, reforça.

Em Campo Grande há duas bibliotecas públicas que são abertas à população, também com empréstimo de livros. A Biblioteca Pública Estadual Dr. Isaías Paim fica na Avenida Fernando Correa da Costa, 559, Centro. A Biblioteca Pública Municipal Anna Luiza Prado Bastos fica no Horto Florestal. As duas funcionam de segunda à sexta, das 7h às 17h.

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