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Posts tagged mulher negra

Conheça Carolina Maria de Jesus, autora homenageada pelo Salgueiro

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Carro representando uma Pietá negra com o filho morto, com o texto de ‘Quarto de despejo’ – Alexandre Cassiano / Agência O Globo

Escritora foi lembrada com trechos do livro ‘Quarto de despejo’ em carro alegórico

Publicado em O Globo

RIO — Uma das alegorias mais comentadas dos desfiles do Grupo Especial do carnaval carioca, o carro da Pietá negra, que encerrou o desfile do Salgueiro na segunda-feira, levou à Sapucaí a obra de uma escritora pouco conhecida do grande público, mas que se tornou uma das maiores expressões negras das letras brasileiras. A escultura trazia partes do texto de “Quarto de despejo”, primeiro livro publicado em 1960 por Carolina Maria de Jesus (1914 — 1977), uma catadora de papéis que foi descoberta pelo jornalista Audálio Dantas na extinta favela do Canindé, Zona Norte de São Paulo.
Filha de pais analfabetos, Carolina de Jesus nasceu numa comunidade rural em Sacramento (MG) e se mudou aos 23 anos para São Paulo, onde teve seus três filhos. Em 1947, sem emprego e grávida aos 33 anos, foi obrigada a seguir para a comunidade do Canindé, onde começou a registrar o seu cotidiano e de seus vizinhos. Em 1958, Audálio Dantas a conhece durante uma reportagem sobre a favela para a “Folha da Manhã” e decide publicar um de seus cadernos, com o título de “Quarto de despejo”, que logo se tornou um sucesso editorial.

GG exclusiva Carolina Maria de Jesus (dir.) e Ruth de Souza, que a interpretou no cinema em 1961 – Arquivo

Após ter edição inicial de 10 mil exemplares rapidamente esgotada, o livro vendeu mais de um milhão de cópias e foi traduzido para 14 idiomas. Carolina de Jesus foi tema de reportagens de revistas “Time”, “Life”, “Paris Match” e do jornal “Le Monde”. O dinheiro dos direitos autorais a possibilitou deixar a casa improvisada na favela, embora sem mudar sua situação financeira.

Carolina de Jesus publicou depois “Casa de alvenaria” (1961), “Pedaços de fome” (1963) e “Provérbios” (1963), mas nenhum obteve o mesmo destaque de seu livro de estreia. Após a sua morte, foram publicados “Diário de Bitita” (1982), “Meu estranho diário” (1996), “Antologia pessoal” (1996) e “Onde estaes felicidade” (2014).

A homenagem à escritora foi realizada dentro do enredo “Senhoras do ventre do mundo”, um tributro à mulher negra, representando desde rainhas e guerreiras a figuras contemporâneas da força feminina. O Salgueiro venceu o Estandarte de Ouro e ficou com o terceiro lugar entre as escolas do Grupo Especial.

 

Um perfil de Diva Guimarães, a professora de 77 anos que roubou os holofotes na Flip

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Encontro de Diva Guimarães e Conceição Evaristo na Flip 2017 - Ana Branco / Agência O Globo

Encontro de Diva Guimarães e Conceição Evaristo na Flip 2017 – Ana Branco / Agência O Globo

 

Da plateia, paranaense falou sobre racismo em mesa com Lázaro Ramos e Joana Gorjão Henriques

Liv Brandão, em O Globo

PARATY – Diva Guimarães virou celebridade em Paraty, ofuscando até os escritores convidados da Flip. Após dar um emocionante depoimento sobre racismo na mesa que uniu o ator Lázaro Ramos e a jornalista Joana Gorjão Henriques para discutir o tema, a paranaense não consegue dar mais que dez passos pelas ruas do Centro Histórico sem ser abordada. Pessoas pedem fotos, abraços e até autógrafos. Na internet, o vídeo com o registro de sua participação foi visto mais de cinco milhões de vezes. E isso porque ela diz que coisa boa não dá ibope.

— Estou assustada! — confessa ela, admitindo estar também empolgada com a repercussão de sua fala. — Não me preparei para isso, se tivesse pensado, não teria levantado da cadeira, sou muito tímida. Naquela hora quis representar quem não pôde estar aqui. Falei ali pela minha mãe, pelos meus antepassados. Foi um renascimento, uma libertação.

A história que a fez vencer a timidez para narrar “com a alma” um episódio de racismo sofrido num internato católico de São Paulo (e que a levou para o espiritismo, por “pavor” do catolicismo), poderia ter sido tristemente substituída por outra, que viveu dias antes, em Paraty.

— Eu estava passeando pela rua, quando uma mulher me chamou de forma agressiva e disse: “aposto que esse cachorro que vem aqui e faz cocô em tudo é seu!”. Por que aquele cachorro tinha que ser meu? Ele poderia ser de qualquer outra pessoa. Eu apenas disse: “eu sei porque você está dizendo que esse cachorro é meu”. É racismo. Às vezes eu ignoro, às vezes eu respondo de forma cínica, dessa vez falei no mesmo tom — explica. — Isso aconteceu aqui, na Flip, quando estão homenageando quem? Lima Barreto, que é negro. Nem todo mundo tem essa capacidade de compreensão — completa ela, dona de uma ironia fina, no melhor estilo do homenageado da festa.

Alfabetizadora e professora de educação física aposentada após 40 anos de trabalho, ex-velocista e ex-jogadora de basquete, esporte que ainda acompanha com paixão, Diva é neta de escrava com português, filha de uma lavadeira, que trabalhava em troca de material escolar para que a filha pudesse estudar. Adora ir ao cinema e ao teatro (“quando o preço do ingresso permite”) em Curitiba, onde mora, mas principalmente gosta de ler. Também se diverte contando suas histórias. Diva é muitas, mas não é vítima. E nem “dona” Diva. Só Diva. “Sou também uma sobrevivente”, enfatiza.

— Eu descontava a raiva pelo que acontecia comigo no esporte. Acho a melhor coisa para educar. O esporte disciplina, e ensina até mesmo a lidar com as frustrações e as injustiças. Educação física não é festinha – conta ela, que foi treinada por Almir Nelson de Almeida, “basquetebolista” que representou o Brasil nas olimpíadas de 1952, e considera Pelé o maior atleta de todos os tempos – Mas como pessoa influente, que poderia ter nos ajudado, ele falhou. Ele diz que não existe preconceito, é uma decepção.

Fã de Jorge Amado, escritor que “as pessoas leem como historinha, mas não captam as denúncias que ele faz”, veio para ver as participações de Lázaro Ramos e de Edimilson Pereira de Almeida, negros como ela (“me reconheço em todos”). Sempre quis vir à Flip e não reclama do chão de pedras “que contam seu passado”. Ela, que ajuda familiares, só conseguiu juntar dinheiro para participar da festa este ano, por insistência da sobrinha, Maitê, que veio na edição passada. Ao lado de Maitê e das amigas Elizabete e Maria Alice, a quem chama de “irmã”, pegou um avião que fez escala em São Paulo, parou no Rio e encarou as 5 horas de estrada feliz e contente.

Diva queria também conhecer Conceição Evaristo, escritora carioca que, no ano passado, levantou a voz contra a falta de negros na programação oficial da Flip. Avessa à tecnologia (“Google é nada, meu negócio é dicionário”), não acompanhou a polêmica que originou mudanças profundas no evento, que pela primeira vez em 15 edições traz mais convidadas que convidados e aumentou a participação de negros em 30%. Chorou copiosamente ao abraçar a nova amiga (“são lágrimas de resistência”, disse Conceição).

Conta en passant que passou frio e passou fome, mas hoje vive bem e já não se deixa abater pelo racismo. Quando percebe que está sendo seguida por um vendedor em uma loja, gosta de “dar nele uma canseira”, andando de um lado para o outro. Levanta a voz contra a hipersexualização da mulher negra e, com segurança, conta que não quis ter filhos para que eles não passassem pelo sofrimento que ela passou. Fica ofendida quando perguntam se ela tem uma cuidadora (“a cuidadora de mim sou eu mesma”). Diz que, se ganhasse R$ 1 a cada visualização de seu vídeo, construiria casas populares. No fim das contas, apesar do susto, admite se divertir com o carinho recebido dos novos fãs.

— As pessoas estão falando que eu virei verbo! Eu divei, tu divaste, ele divou. Mas eu divei mesmo — ri, envergonhada.

* Colaborou Jan Niklas

‘Preta, pobre e periférica, não imaginei estar numa galeria de arte’, diz artista

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artista

Publicado em Folha de S.Paulo

Jennifer Borges, 28, ou simplesmente J. Lo, nasceu e cresceu em Irajá, zona norte do Rio de Janeiro, querendo ser “artista de galeria”, mas achava que essa realidade estava longe de ser a sua.

Inspirada pela mãe, psicopedagoga, que abriu caminhos e foi a primeira da família a ter ensino superior, Jennifer seguiu caminhos paralelos à arte até os 27 anos: se graduou em história pela UERJ (Universidade Estadual do Rio de Janeiro), onde hoje cursa letras.

A jovem resolveu se aventurar no grafite há um ano, após um empurrão de uma amiga. Acabou virando professora, mas de grafite em escolas municipais cariocas.

Foi quando Jennifer conheceu a Rede Nami, associação feminista de grafiteiras e militantes que usam artes urbanas para promover os direitos das mulheres, fundada pela artista plástica Panmela Castro, 34, finalista do Prêmio Empreendedor Social 2015. Por meio da organização, J.Lo e sua arte chegaram à Galeria Scenarium, no centro do Rio, em setembro de 2015.

“Foi surreal. Nunca imaginei que uma menina preta, pobre, periférica e sapatão conseguiria um dia estar em uma galeria de arte”, conta.

A carioca participou do projeto Afrografiteiras, um programa de formação em arte urbana voltado para mulheres afrobrasileiras.

Leia a seguir o depoimento de Jennifer Borges à Folha.

Meu nome é Jennifer Borges, mas sou conhecida como J. Lo.

Comecei a grafitar há um ano. Uma amiga de São Paulo estava aprendendo as técnicas e fez um desenho na parede da minha sala, fiquei observando e resolvi que iria aprender.

Eu já tinha noção de desenho e arte, sou tatuadora, mas não de grafite.

Comecei a dar oficinas de grafite em uma escola municipal do Rio para crianças e jovens do ensino fundamental 1 e 2. Lá, eu não só ensinei, mas aprendi, foi onde fiz meu primeiro grafite, retratei Nelson Mandela. A paixão pelo grafite foi instantânea.

Virei arte educadora e hoje dou aula de grafite em três escolas municipais por meio do Programa Mais Educação, do governo federal.

Primeiro, ensino dentro da sala de aula aos meus alunos, que têm em média de 7 a 14 anos, técnicas e estilos de desenho de grafite. Depois, eles começam a trabalhar o desenho e quando já está maduro, passo as técnicas de ampliação e finalmente vamos para a prática na parede.

Depois das aulas de grafite, as professoras dos meus alunos falam que as notas deles subiram, que aprenderam a ter disciplina.

O grafite me traz paz, me sinto muito livre, mais do que poderia ser. A arte é uma terapia e é o que me faz feliz e me dá orgulho de mim mesma.

No final de 2014, saiu uma convocatória que selecionaria 30 meninas afrobrasileiras para fazer um curso de formação em arte urbana, empreendedorismo social, gestões de gênero e de negritude voltado ao grafite. Me inscrevi e fui selecionada.

Estava esperando por um curso no qual eu fosse aprender o beabá do grafite. No entanto, as aulas foram muito além do que imaginava.

As meninas grafiteiras, que orientaram a formação, eram muito preocupadas com o nosso aprendizado e que nós expressássemos nossa política, negritude e outras questões pessoais na arte.

A intenção da formação também era que nós soubéssemos multiplicar esse conhecimento para passar para outras pessoas.

NA GALERIA

Recebemos a notícia de que as meninas que concluíssem o curso teriam suas artes expostas em uma galeria. Eu enlouqueci. Larguei o emprego e tranquei a faculdade por um período para poder me dedicar mais.

Eu sou historiadora, com foco de pesquisa em mulheres na inquisição. Fiz um estudo sobre bruxaria. Então, quis levar esses conceitos para dentro da galeria.

Elaborei uma obra que representa as bruxas, que foram mortas pela igreja por causa de uma hiperssexualização. A arte que criei é uma vagina, feita com madeira, massa modeladora e instalações elétricas.

Essa composição é para representar a mulher que dá a vida e o único órgão que existe no corpo feminino para proporcionar prazer.

A outra obra é uma aplicação em stencil e retrata uma mulher negra espelhada com a língua para fora, que simboliza o antiamor e a lesbiandade.

Foi a coisa mais maravilhosa do mundo poder estar na galeria ao lado das outras afrografiteiras. É surreal.

Eu sempre quis ser artista desde pequena, mas nunca imaginei que uma menina preta, pobre, periférica e sapatão conseguiria um dia estar em uma galeria de arte.

Quando estreou a exposição, chorei muito. Foi uma emoção gigante. Não tenho como agradecer a Rede Nami e a Panmela Castro por causa disso.

O que eu aprendi nas aulas melhorou minha arte em tudo, no grafite, na tatuagem e na ilustração.

REPRESENTATIVIDADE NEGRA

Depois disso, tive uma oportunidade de fazer um grafite para a Anistia Internacional e retratei minha avó.

Ela foi uma mulher negra que sofreu muito, antes de morrer, em 2008. Minha avó era muito pobre e se casou com um homem branco na tentativa de embranquecer as filhas, para que elas não sofressem tanto racismo.

Para mim, minha avó é uma fênix, símbolo da ressurreição e da força. Representá-la de forma artística e em lugares onde passam pessoas é muito importante.

A figura de uma mulher negra é subversiva pela representatividade. Temos uma mídia que é sempre branca. As mulheres que aparecem são sempre brancas, seguem um padrão estético, higienizado e europeu.

Quando você passa na rua e se reconhece em uma imagem, se sente mais forte e encorajada para ser quem é. Não só se assumir sua negritude, seu cabelo, mas enfrentar o racismo e se empoderar.

A simbologia de ter diversas mulheres negras em uma galeria pode ser um estímulo para outras mulheres negras.

Agora, tento não projetar muita expectativa no grafite, porque tenho medo de me decepcionar.

Quero passar uma mensagem positiva de empoderamento negro, lésbico e feminino pelas ruas e ensinar as pessoas, que não têm a oportunidade de pagar um curso, a se expressar.

O que vier é lucro, eu não esperava chegar até aqui.

Quarto de despejo – Diário de uma favelada: a escrita como válvula de escape

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Carolina Maria de Jesus, moradora da antiga favela do Canindé, em São Paulo, relatou em seu diário o cotidiano miserável de uma mulher negra, pobre, mãe, escritora e favelada.

Carolina Maria de Jesus

Carolina Maria de Jesus

Estela Santos, no Homo Literatus

Introdução

Alguns escritores já escreveram sobre o cotidiano miserável das favelas, mas a grande maioria o fez de uma perspectiva de fora, isto é, sem viver, de fato em uma favela. Em Quarto de despejo temos uma perspectiva diferente: quem escreve é alguém que viveu na favela: a perspectiva é de Carolina Maria de Jesus, moradora da, agora, antiga favela do Canindé de São Paulo¹, uma catadora de papel e de outras sucatas, uma mulher negra, pobre, mãe, escritora e favelada.

O diário foi escrito na década de 1950 e conta a dura realidade dos favelados de Canindé e dos seus costumes. Trata-se de um diário relata e denuncia a violência, miséria e fome – bem como a dificuldade para se ter o que comer.

E como Carolina foi descoberta? O jornalista Audálio Dantas foi encarregado de escrever uma matéria sobre uma favela que vinha se expandindo próxima a beira do Rio Tietê, no bairro do Canindé. Em meio a todo rebuliço da favela, Dantas conheceu Carolina e percebeu que ela tinha muito a dizer, e logo desistiu de escrever a matéria.

A negra Carolina escreveu a (sua) história da favela em 20 cadernos encardidos, cadernos que ela encontrou em meio às suas andanças em busca de sustento para seus três filhos: João José, José Carlos e Vera Eunice. Como o próprio jornalista declara: “repórter nenhum, escritor nenhum poderia escrever melhor aquela história – a visão de dentro da favela”.

O livro conserva a escrita de Carolina, sua sintaxe, seu discurso. Audálio Dantas apenas alterou algumas vírgulas e palavras que seriam incompreensíveis aos leitores, também cortou excesso de repetições de certas situações, assim a leitura do diário não se torna exaustiva.

Quarto de despejo é atemporal. Os anos se passaram, mas a situação de quem ainda vive nas favelas e na miséria ainda é muito semelhante à situação de Carolina décadas atrás. Além disso, o livro foi traduzido para 13 línguas, sendo referência para os estudos sociais e culturais brasileiros.

O diário de uma favelada

Primeiramente, pensemos no diário, ou melhor, no que é um diário. Carolina escreveu um diário íntimo, que não é qualquer diário: é o diário de uma favelada, o diário de quem morou em uma das favelas assoladas pela miséria e violência na década de 1950, a Canindé.

O diário íntimo tem como característica central a escrita do eu. Essa escrita marca uma identidade, o que nos remete a pensar em: Quem é a pessoa se escreve? Quem é a pessoa que fala de si? A identidade da narradora, que é Carolina, é basicamente esta: mulher, negra, mãe – que cria seus filhos sozinha nos anos 1950 e 1960 –, escritora, pobre e favelada.

Este diário tem como característica forte a autobiografia “real”. Por que este real entre aspas? Porque não existe uma autobiografia sem elementos ficcionais. Nós não conseguimos representar o real pela escrita sem ficção, uma vez que nem mesmo temos acesso a todo real, de fato (um exemplo de autobiografia “real” é o romance São Bernardo, de Graciliano Ramos, a diferença está em não ser exatamente Paulo Honório, o personagem principal, o autor da história, sua história ganha vida pelas mãos do escritor Graciliano Ramos).

De forma resumida, o diário de Carolina é uma espécie de literatura-verdade, que relata a cruel e triste vida na favela. Sua linguagem é ao mesmo tempo simples e rebuscada: simples pela forma que escreveu algumas palavras, aproximando-se da linguagem oral (como “iducada”) e rebuscada pelas palavras altamente cultas que utiliza (como “funestas”). Seu diário comove leitores devido a sensibilidade como conta os acontecimentos durante os anos que morou em Canindé. Percebemos que tudo que é narrado, Carolina sentiu, viu, vivenciou.

Carolina Maria de Jesus escreveu o diário entre 15 de julho de 1955 à 01 de janeiro de 1960. Não escreveu todos os dias, às vezes passava cerca de três a dez dias sem escrever. Percebemos, porém, que na maioria das vezes era porque estava doente e sentia-se fraca.

A formação educacional e escolar de Carolina

Carolina se mostra uma mulher educada e que se preocupa com a educação de seus filhos; embora não tenha tido estudado muito, relata que se preocupou em formar seu caráter, ser uma pessoa de bem. Através do diário, que possui inúmeras reflexões, fica evidente que ela tem uma imensa preocupação com a sociedade e a política.

Uma autodidata: aprendeu a ler e escrever com os cadernos, revistas e jornais que encontrava pelas ruas. Conforme conta: “Tenho apenas dois anos de grupo escolar” (JESUS, 2007, p.16). Sua mãe sonhava em vê-la professora, mas o destino e a vida de miséria não permitiram.

A escritora dava muito valor à formação escolar e preocupava-se, sobretudo com a formação de seus filhos. Mesmo tendo imenso medo da violência da favela, mandava-os à escola, fazia questão de que eles estudassem.

Carolina e seu Diário

Carolina e seu Diário

A fome e a cor da fome

Como citado anteriormente, Carolina coletava papelão e sucatas nas ruas de São Paulo. Esta era a forma como sustentava seus filhos. No entanto, o dinheiro nem sempre era suficiente, muitas vezes não havia nada para comer e ela e os filhos iam dormir com fome.

A fome permeia todo o diário. Carolina mostra a preocupação que tem em alimentar bem seus filhos, todo dinheiro é utilizado para comprar alimentos (ou sapatos para as crianças, pois se preocupava muito com os filhos e sentia pena ao vê-los descalços). O diário nos mostra a escritora contando dinheiro quase todos os dias no intuído de comprar alimentos: quando conseguia comprar arroz, feijão e carne, conforme conta, era um dia de festa, via a felicidade estampada no rosto de cada filho.

Também pegava verduras e legumes, que eram descartados nas feiras, fábricas e mercados. E quando ela e os filhos não tinham nada pra comer e estavam passando fome, comiam alimentos que encontravam no lixo. Às vezes Carolina também pegava ossos em um frigorífico e com eles fazia uma sopa para as crianças.

Carolina trabalhava demais e mesmo assim ainda não dava conta de comprar comida; muitas vezes passava mal, tinha tonturas por causa da fome. Declara que a tontura da fome é pior que a do álcool: “A tontura do álcool nos impede de cantar. Mas a da fome nos faz tremer. Percebi que é horrível ter só ar dentro do estômago” (JESUS, 2007, p. 45).

Depois de pegar tudo que encontrou pelas ruas para vender, Carolina ganhou algum dinheiro e resolveu “tomar uma media e comprar um pão”, em seguida fala sobre a cor amarela da fome:

“Que efeito surpreendente faz a comida no nosso organismo! Eu que antes de comer via o céu, as árvores, as aves, tudo amarelo, depois que comi, tudo normalizou-se aos meus olhos.

… A comida no estômago é como o combustível nas maquinas. Passei a trabalhar mais depressa. O meu corpo deixou de pesar. Comecei a andar mais depressa. Eu tinha impressão que eu deslisava no espaço. Comecei a sorrir como se estivesse presenciando um lindo espetáculo. E haverá espetáculo mais lindo do que ter o que comer? Parece que eu estava comendo pela primeira vez na minha vida” (JESUS, 2007, p.45-46).

A pobre Carolina demonstra nervosismo em vários dias narrados no diário. O(s) motivo(s) era(m) o fato de não ter dinheiro para comprar um pouco de arroz sequer: o medo da fome, o medo da enfermidade e o medo de morrer. Ficava ainda mais nervosa quando o fim de semana chegava e ficaria com os filhos em casa sem ter o que comer o dia inteiro: “Deixei o leito furiosa. Com vontade de quebrar e destruir tudo. Porque eu tinha só feijão e sal. E amanhã é domingo” (JESUS, 2007, p 108).

A favela: violência e alcoolismo

A favela do Canindé, como a própria Carolina relata, é extremamente violenta: homens batem em suas mulheres que, às vezes, saem correndo nuas de seus barracos, o que, para os favelados, é um espetáculo e não um absurdo; mulheres brigam por inúmeros motivos, inclusive por coisas banais; homens brigam com vizinhos também por inúmeros motivos; homens desafiam crianças. Tudo é motivo de briga.

A violência é muitas vezes causada pelo álcool. Carolina não bebe, diz que beber é um gasto desnecessário, que o vício no álcool gera violência e que prefere gastar seu dinheiro, conseguido com tanto esforço, comprando alimentos para seus filhos. Pais e mães bebiam na favela, o que acabava por causar mal aos seus filhos diretamente e indiretamente. Veja este relato:

“Assustei quando ouvi meus filhos gritar. Conheci a voz de Vera. Vim ver o que havia. Era Joãozinho, filho da Deolinda, que estava com um chicote na mão e atirando pedra nas crianças. Corri e arrebatei-lhe o chicote das mãos. Senti o cheiro de alcool. Pensei: ele está bêbado porque ele nunca fez isto. Um menino de nove anos. O padrasto bebe, a mãe bebe e a avó bebe. E ele é quem vai comprar pinga. E vem bebendo pelo caminho.

Quando chega, a mãe pergunta admirada:

— Só isto? Como os negociantes são ladrões!” (JESUS, 2007, p.109)

Como podemos observar no trecho acima, um menino de 9 anos, já é influenciado pelo costume de seus familiares, isto é, desde cedo bebe pinga e já pratica atos de violência, algo extremamente recorrente na favela, e ninguém se dá conta (ou não se importa), a não ser ela, Carolina. Esta costumava sempre separar brigas na favela ou chamar a polícia, e por essa razão era chamada de intrometida pelos vizinhos. Ela detestava violência e não queria aquelas cenas violentas na favela, cenas que as crianças viam e aplaudiam. Contudo, a violência em Canindé era pública, uma espécie de espetáculo ao ar livre que todos paravam pra assistir.

Relacionamentos amorosos

A moradora do Canindé dizia que não queria se casar, que preferia criar seus filhos sozinha, que não precisava de homem para criá-los. Além disso, fazia uma comparação com as mulheres da favela que apanhavam de seus homens/maridos: do quê adiantava não ser sozinha e apanhar de um homem (principalmente quando bebem)?

Durante o período do diário, passam pela vida da escritora dois homens: Manoel e Raimundo. Manoel um homem distinto, trabalhador e que insiste em casar com ela. Raimundo, um cigano, belo e sedutor. Mas Carolina não fica com nenhum dos dois, tem alguns envolvimentos, nada além. Sempre quis ficar sozinha, não queria um homem na casa em que vivia com seus filhos.

Questões políticas e sociais

A escritora sempre lia revistas e jornais, procurava sempre estar a par das questões políticas e sociais do país. Lembrando que em 1950 vivia-se no governo Juscelino Kubitschek (1955-1960), época do progresso, da expansão do país, período do “50 anos em 5”. Nesta época, Brasília era construída, o símbolo do desenvolvimento do Brasil, que representava a ideologia da época. E realmente foi um período de desenvolvimento no que fiz respeito a infraestrutura do país: grandes obras foram construídas; avenidas foram alargadas; pontes foram construídas; túneis foram feitos – tudo isto aumentou ainda mais a circulação de automóveis.

Em sua narrativa, Carolina dá um tom de sensibilidade ética no que diz respeito à política. Falava das condições de vida das pessoas pobres, falava da miséria, da fome, da falta de educação e instrução, da divisão de classes, exclusão social e ideologia da época. Carolina comparava a cidade como uma espécie de sala de visitas e favela, por sua vez, era o quarto de despejo:

“… As oito e meia da noite eu ja estava na favela respirando o odor dos excrementos que mescla com o barro podre. Quando estou na cidade tenho a impressão que estou na sala de visita com seus lustres de cristais, seus tapetes de viludos, almofadas de sitim. E quando estou na favela tenha a impressão que sou um objeto fora do uso, digno de estar num quarto de despejo” (JESUS, 2007, p.38).

Se de um lado o país crescia, sobretudo a cidade de São Paulo, por outro mais pessoas iam para os quartos de despejo, repletos de miséria e violência. O motivo é: o governo e as grandes empresas, visando o progresso e o lucro, tomavam conta das terras onde havia as favelas, o que gerava ainda mais despejos, ainda mais exclusão social.

Breve conclusão (ou: por que Carolina escrevia todos quase todos os dias, afinal?)

1Como consta no título deste modesto ensaio, em Quarto de despejo a escrita é uma “válvula de escape”. Uma forma de fuga da realidade. E qual seria esta realidade? A realidade vivida por Carolina é permeada pela miséria, pela fome, pela violência, pela tristeza e por poucos momentos de felicidade.

Em entrevista, a escritora Carolina Maria de Jesus conta o que a motivava escrever:

“Quando eu não tinha nada o que comer, em vez de xingar, eu escrevia. Tem pessoas que, quando estão nervosas, xingam ou pensam na morte como solução. Eu escrevia o meu diário” (JESUS, 2007, p. 195).

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¹ Em 1960, Canindé foi extinta para a construção da Marginal do Tietê.

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Dicas musicais:

Uma música dos anos 50, época em que se passa parte do Diário: Saudosa Maloca, de Adoniram Barbosa.

Ainda sobre a fome: Ronco da Cuíca, de João Bosco.

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Referências

BENEVENUTO, Silvana José. Quarto de despejo: A escrita como arma e conforto à fome. Revista online do Grupo de Pesquisa e Estudos em Cinema e Literatura. Disponível em: <http://www2.marilia.unesp.br/revistas/index.php/baleianarede/article/viewFile/1359/1184> Acesso em: 29 de set. 2014.

JESUS, Carolina Maria de. Quarto de despejo: Diário de uma favelada. 9ª ed. São Paulo: Editora Ática, 2007, (Sinal Aberto).

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