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Fliporto está de volta a Porto de Galinhas. Confira a programação!

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Literatura, música, debates sociais, programação geek e infantil. Festa literária traz várias atividades gratuitas entre os dias 10 e 12 deste mês

Publicado na Op9

Após dois anos de pausa forçada pela falta de patrocínios, a Festa Literária Internacional de Pernambuco (Fliporto) acontece este ano com uma volta às origens. As últimas edições foram em Olinda, mas a deste ano será novamente em Porto de Galinhas, em Ipojuca, berço do evento. A programação começa já nesta sexta-feira (10) e segue até o domingo (12), sob o tema “Os diálogos do contemporâneo”.

Com o tema, a produção da Fliporto 2018 promete atividades plurais, que conversam com assuntos bem debatidos atualmente, como o meio ambiente, empoderamento feminino e questões raciais e ancestralidade negra.

O braço principal da Fliporto, o Congresso Literário, vai acontecer no auditório do Espaço Muru-Muru, no Restaurante Itaoca, na Praça das Piscinas Naturais. Entre os convidados, estão o escritor, letrista e produtor musical Nelson Motta, referência em assuntos ligados à história da música popular, e a ilustradora argentina Anabella López, vencedora do Prêmio jabuti. O homenageado desta edição é o escritor Marcus Accioly, poeta e membro da Academia Pernambucana de Letras que faleceu no final de 2017.

Como novidade, este ano a Fliporto também terá uma programação voltada à cultura pop. A Fliporto Geek, trará o universo geek e nerd para Porto de Galinhas, com as histórias em quadrinhos, oficinas, desfile e concurso de cosplays para o evento. Também nos dias do evento será realizada a ação Chuva de Livros, na qual mais de 50 livros serão deixados em locais públicos para que as pessoas leiam e deixem em outros espaços para que mais pessoas possam ter acesso.

E focando nas crianças e adolescentes, a festa traz também a Fliporto Galerinha, com programação que levará para a criançada bate-papos com autores infanto-juvenis, lançamento de livro de escritores infantis, contação de histórias e brincadeiras nos dias 10 e 11 de agosto.
Confira a programação completa:

Data: 10 a 12 de agosto 2018
Local: Espaço Muru-Muru / Itaoca
Tema: Diálogos do Contemporâneo
Homenageado: Marcus Accioly

Atrações fixas:

Projeto do “Livro de Coração” – (FUNDAJ) Distribuição de 1000 Livros.
Chuva de Livros: Distribuição de livros nas praças e polos do evento.
Performance itinerante “O Sonho de Quinzinho” – Francis de Souza (FUNDAJ).

Dia 10 de agosto, sexta-feira

10h – A força dos Quadrinhos na literatura de hoje.
Com Felipe Folgosi (Ator, escritor, roteirista e apresentador)

11h – Tereza Costa Rego – A biografia de uma mulher em três tempos.
Palestra de Bruno Albertim.

14h – Bate papo Ilustrado (Fliporto Geek)
Com os ilustradores Sandro Marcelo e Helton Azevêdo, com mediação de Patrícia Guedes (Coordenadora do Polo Fliporto Geek).

15h – A saga literária ao longo da história.
Com Cássio Cavalcante e Maria de Lourdes Hortas.

16h – Literatura e internet
Bate papo com Natanael Lima, Ney Anderson e Frederico Spencer.

17h30 – Abertura oficial com a prefeita Célia Sales

18h – Meu Ipojuca querido
Romero Sales, Arnaud Mattoso e Rui Ferreira;

19h – Empoderamento feminino: O papel da mulher no mundo de hoje
Com Jô Mazzarolo, Maria de Lourdes Hortas e Célia Sales.

20h – Diálogos sobre o turismo em Pernambuco.
Com Mário Pilar, Otaviano Maroja, Alberto Feitosa e Bráulio Moura.

Dia 11 de agosto, sábado

9h30 – Imprensa e mulheres pernambucanas
Com Luzilá Gonçalves e Nelly Carvalho.

10h30 -O mundo contemporâneo recomeça no Recife
Palestra de Luciano Porto, debatedor Cássio Cavalcante.

11h30 – Influências Africanas na Literatura Brasileira
Com Paulo Roberto Corino e Carlos Santos.

14h – Palestra sobre o filme Recife Assombrado (Fliporto Geek)
Com Bruno Antônio e Gustavo Correia.

15h Bate papo com ilustradora vencedora do prêmio Jabuti.
Com Anabella López (Argentina).

16h – Brasil e Portugal na poesia contemporânea
Com a poeta Maria João Cantinho (Portuguesa), Maria de Lourdes Hortas e Cássio Cavalcante como moderador.

17h – Um olhar sobre o contemporâneo
Palestra de Antônio Campos.

18h – Literatura, teatro e cinema.
Com Maria Zilda, Claudia Alencar e Katia Mesel como moderadora.

19h – Literatura e música
Nelson Motta, provocações do jornalista AD Luna (JC)

20h – Ficção em Pernambuco
Bate papo com Raimundo Carrero e Luzilá Gonçalves.

Dia 12 de agosto, domingo

10h – Vida e obra de Marcus Accioly
Palestra de Alvacir Raposo.

11h – Talk show musical
Nando Cordel entrevistado por José Teles (JC)

Marina Colasanti: “Não perco tempo com leituras insignificantes”

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Escritora ítalo-brasileira ganhou na FIL de Guadalajara o Prêmio SM de Literatura Infantil e Juvenil

Publicado no El País

Os livros ajudaram a pequena Marina Colasanti (Asmara, Eritreia, 1937) a esquecer que vivia sob o cerco da Segunda Guerra Mundial. Desde então, publicou mais de 60 obras para crianças e adultos. Antes, estudou Belas Artes no Rio de Janeiro. Foi jornalista do Jornal do Brasil. Traduziu Roland Barthes e Yasunari Kawabata para o português. Agora, acaba de receber na Feira Internacional do Livro de Guadalajara (México) o Prêmio Ibero-americano SM de Literatura Infantil e juvenil.

 A escritora Marina Colasanti setanta

A escritora Marina Colasanti setanta

Como teria sido a guerra para você sem os livros? Totalmente sem graça. E sem exemplos de sobrevivências significativos. A literatura é construída em torno de conflitos ou perigos que ameaçam os personagens e que precisam ser superados. É o que acontece com Ulisses ou nos contos de fadas, com Peter Pan e os Três Mosqueteiros. É a mesma coisa para quem vive uma guerra. Como teria sido pobre e monótono crescer sob a Segunda Guerra Mundial alimentada apenas pelos slogans e as imposições do regime fascista.

Considerando os seus diversos interesses, como faz para organizar suas leituras?
É bastante caótico. Adoro ler em aeroportos e nos voos. Posso ler de pé em uma livraria apenas para ter uma ideia do que o autor está falando ou abandonar um livro depois de poucas páginas. Fiz 80 anos de idade este ano, e o tempo se tornou algo extremamente valioso. Não posso perdê-lo com leituras insignificantes.

Existe poesia na literatura infantil? Apenas quando ela é excelente.

E literatura infantil na poesia? Se não for poesias para crianças, não. Até mesmo quando o poeta fala sobre sua infância, não estamos no campo da literatura infantil. A poesia é mais vertical e mais codificada.

Continua a acreditar em fadas? Nunca acreditei em fadas, tampouco trabalho com elas. Acredito em símbolos.

Walt Disney está para a literatura infantil assim como uma marcha militar está para a música? Boa frase! Mas uma marcha militar pode se aproximar da música e existem muitos toques militares na grande música clássica, bem como na ópera. Disney, ao contrário, troca o simbólico pelo óbvio, transforma contos milenares em musicais esvaziando-os de seu conteúdo. Sua única finalidade é de caráter mercantilista.

Quais livros infantis atuais serão os clássicos de amanhã?
Gostaria de dizer: os melhores. Mas sabemos que, além da qualidade, também as circunstâncias desempenham um papel importante na construção de um clássico.

O que você gostaria de ser se não fosse aquilo que é? Teria sido artista plástica. Foi para isso que estudei.

O que acha que está sendo socialmente supervalorizado hoje em dia? O desejo individual e o ego.

Que tipo de tarefa você jamais aceitaria fazer?

Qualquer uma que implicasse maltratar seres vivos. Ou em que eu tivesse de mentir.

Escrever bem é escrever como música: o conselho viral que circula há 30 anos

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Escritor americano dá dicas de como escrever bem e e um de seus conselhos virou um viral na internet

Jaime Rubio Hancock, no El País

“Esta frase tem cinco palavras.” Assim começava o texto que o jornalista argentino Axel Marazzi compartilhou no Twitter nesta segunda-feira. Marazzi dizia que nada na sua vida havia lhe ensinado tanto sobre a escrita quanto esses três parágrafos. Dois dias depois, a mensagem havia sido replicada mais de 5.000 vezes.

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Trata-se dos três parágrafos muito curtos abaixo, que há anos vêm sendo compartilhados nas redes sociais. Além de pipocar no Twitter, os vemos também no Imgur, Pinterest, Flickr e Tumblr, por exemplo. E alguns blogs e sites sobre escrita, como o Antorquía, o traduziram ao espanhol.

Esta frase tem cinco palavras. Aqui há mais cinco palavras. Usar cinco palavras é legal. Mas várias juntas ficam monótonas. Escute o que está acontecendo. A leitura se torna tediosa. O som começa a zumbir. É como um disco riscado. O ouvido pede mais variedade.

Agora ouça. Vario o comprimento de cada frase, e crio música. Música. A escrita canta. Tem um ritmo agradável, uma cadência, uma harmonia. Uso frases curtas. E uso frases de comprimento intermediário. E às vezes, quando estou certo de que o leitor está descansado, o envolvo com uma frase de comprimento considerável, uma frase que arde com energia e que sobe com todo o ímpeto de um crescendo, do rufar de tambores, do choque dos címbalos – sons que dizem: ouça isto, é importante.


Portanto, escreva com uma combinação de frases curtas, médias e longas. Crie um som que agrade ao ouvido do leitor. Não escreva apenas palavras. Escreva música.

O texto é assinado por Gary Provost, um escritor norte-americano que viveu entre 1944 e 1995. Escreveu livros para jovens, três deles com sua esposa, Gail. Também é autor de livros sobre crimes reais: um dos quais serviu de base para o telefilme Fatal Judgement (1988).

Mas o fragmento de que estamos falamos foi extraído de 100 Ways To Improve Your Writing (“100 maneiras de melhorar sua escrita”), publicado em 1985. É um das seis manuais de escrita que Provost publicou em vida.

Os 100 conselhos de escrita são distribuídos em 10 capítulos. Neles se fala sobre erros gramaticais e de pontuação. Também se ensinam alguns métodos para evitar que o leitor nos odeie, e são dadas recomendações para que os leitores sejam fisgados pelo texto desde o começo. Aliás, a primeira frase do livro é um bom exemplo de início poderoso: “Este livro vai ensinar você a escrever bilhetes de sequestro melhores”. Em seguida esclarece que também serve para escrever livros, artigos, sermões, canções, trabalhos escolares e até listas de compra.

O fragmento que é compartilhado há anos na Internet tem como título “Varie o comprimento das frases”. É a quarta recomendação do quinto capítulo, no qual Provost explica 10 formas de desenvolver seu estilo.

No texto original são só dois parágrafos em vez de três (o primeiro vai até “é importante”). Mas isso provavelmente não importaria a Provost, porque o livro também recomenda o uso de parágrafos curtos – é o terceiro conselho do quarto capítulo (“Como poupar tempo e energia”).

Nem todos os conselhos são escritos de forma tão engenhosa, claro: são na maioria propostas mais ortodoxas, num estilo muito claro e direto. Mas há um ou outro trecho semelhante. Por exemplo, o segundo conselho do décimo capítulo, “evite os clichês”:

Clichés are a dime a dozen. If you’ve seen one, you’ve seen them all. They’ve been used once too often. They’ve outlived their usefulness. Their familiarity breeds contempt. They make the writer look as dumb as a doornail, and they cause the reader to sleep like a log. So be sly as a fox. Avoid clichés like the plague. If you start to use one, drop it like a hot potato. Instead, be smart as a whip. Write something that is fresh as a daisy, cute as a button, and sharp as a tack. Better safe than sorry.

Naturalmente, tudo aqui é um tremendo lugar-comum. Tento traduzir:

Clichês são carne de vaca. Se viu um, viu todos. Já foram usados demais da conta. O prazo de validade deles venceu. Eles são um arroz de festa. Por causa deles o escritor parece burro feito uma porta, e o leitor dorme a sono solto. Então, seja astuto feito uma raposa. Fuja dos clichês como da peste. Se você sentir que vai usar um, caia fora; é uma batata quente. Fique esperto! Escreva algo que seja fresco como a rosa, lindo de morrer, e ardido feito pimenta. É melhor prevenir do que remediar.

Esta recomendação recorda a lista de conselhos irônicos que, em diferentes versões, circula pelo menos desde os anos 1970. Ela recomenda “ser mais ou menos específico” e evitar os exageros, porque “exagerar é um milhão de vezes pior do que minimizar”. A versão de William Safire diz, com relação aos lugares comuns: “Finalmente, mas não menos importante, fuja dos clichês como da peste. Eles são mais velhos que Matusalém. Procure alternativas viáveis”.

Provost também recomenda o uso ocasional de citações, num texto que começa assim:

As citações conhecidas – escreveu Carroll Wilson no prefácio a um livro de citações – são mais que conhecidas, são parte de nós.

Um último conselho de Provost que também vale a pena ler é o que fecha o livro: “Use o bom senso”. Ele recorda que “escrever é uma arte, não uma ciência, e quando termino um texto não reviso cada um de meus conselhos. Eu me pergunto se comuniquei bem o que queria dizer, se os meus leitores gostaram, se lhes dei algo agradável de ler. Eu os diverti, informei, persuadi ou deixei claras as minhas ideias? Dei a eles o que queriam? E estas são as perguntas que você deveria se fazer sobre tudo o que escrever”.

Engenheiros do Hawaii: livro conta a história da banda que fez sucesso nos anos 1980

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A primeira formação dos Engenheiros do Hawaii: Marcelo Pitz, Humberto Gessinger e Carlos Maltz Foto: Eurico Salis / Divulgação

A primeira formação dos Engenheiros do Hawaii: Marcelo Pitz, Humberto Gessinger e Carlos Maltz Foto: Eurico Salis / Divulgação

 

Jornalista de ZH Alexandre Lucchese narra a trajetória do grupo que consagrou o rock gaúcho no Brasil no livro “Infinita Highway — Uma carona com os Engenheiros do Hawaii”

Gustavo Brigatti, no Zero Hora

Não era para nevar em Porto Alegre. Não era para uma atriz do quilate de Catherine Deneuve visitar a capital gaúcha. E não era mesmo para uma banda chamada Engenheiros do Hawaii, influenciada por Pink Floyd e Albert Camus, alcançar algum êxito fora daqui. Contrariando todas as expectativas, tudo isso aconteceu e está em Infinita Highway – que ao invés de Uma carona com os Engenheiros do Hawaii, poderia ter como subtítulo Uma biografia do improvável.

Previsto para ser lançado pela editora Belas Letras em outubro, o próprio livro não deveria existir. Seu autor, Alexandre Lucchese, era apenas um calouro na faculdade de Jornalismo quando começou a pensar que a história do grupo gaúcho era digna de ser contada. Uma ideia até meio óbvia, uma vez que os Engenheiros do Hawaii são a banda mais bem-sucedida da história do Rio Grande do Sul em qualquer quesito ou gênero. Não seria surpresa, portanto, que alguém já estivesse debruçado sobre o tema – e o lançamento de uma biografia era questão de tempo.

Mas surpresa mesmo ele teve no final de 2014, trabalhando em um especial sobre os 30 anos da banda para o Segundo Caderno. Durante a fase de apuração, Lucchese notou que ninguém havia escrito nada de substancial sobre os Engenheiros do Hawaii. Era uma janela de oportunidade boa demais para ser desperdiçada.

– Sempre pensei que os Engenheiros dariam uma grande história, especialmente por conta dos seus personagens – explica Lucchese. – E não apenas por causa de quem eles eram, mas o que se tornaram depois. O Augustinho Licks é um guitarrista que hoje não toca mais e evita falar sobre o assunto, o Humberto Gessinger é um poeta com jeitão meio de Peter Pan e o Carlos Maltz virou astrólogo.

O recorte escolhido por Lucchese vai de meados dos anos 1980 até a segunda metade dos anos 1990, período em que a formação clássica dos Engenheiros (Gessinger no baixo, Licks na guitarra e Maltz na bateria) cruzou o Mampituba para ganhar não apenas o Brasil, mas o mundo – incluindo partes dele em que ninguém ousava pisar, como a então União Soviética. Com o fim do trio original e o rompimento musical definitivo de Gessinger e Maltz, é inaugurada uma nova fase na banda que Lucchese preferiu não abordar.

– Cheguei a conversar com gente de outras formações, mas é outra história, que renderia outras 300 páginas – aponta.

E o que não faltam nas mais de 300 páginas de Infinita Highway são histórias. Histórias de como um trio de músicos praticamente amador, de uma capital do extremo sul do país, sem qualquer apadrinhamento de gravadora ou amigos na mídia do centro do país, conseguiu se tornar um dos principais nomes da música pop do Brasil. Com meros dois anos de vida, os Engenheiros saíram de um show na faculdade de Arquitetura da UFRGS para ganhar Disco de Ouro pelas 100 mil cópias vendidas de Longe demais das capitais (1986), seu disco de estreia, e a partir dali frequentar os maiores palcos do país.

Claro que o período de vacas gordas ajudou – e Lucchese contextualiza muito bem o quanto as gravadoras, na época, tinham muito mais dinheiro e vontade para investir do que hoje (incluindo em bandas com nomes bizarros do Rio Grande do Sul). O texto também deixa claro que ser um Engenheiro do Hawaii não era moleza – a banda colecionava desafetos dentro e fora da cena musical, em parte por conta de uma postura excessivamente defensiva, em parte por não fazer questão de se encaixar. Diz Maltz logo no início do livro: “Nós não éramos brothers de ninguém, nem de nós mesmos. Éramos completamente outsiders”.

Internamente as coisas também era complicadas, como atestam as saídas até hoje polêmicas de Marcelo Pitz, o baixista original, e Licks, o guitarrista da fase áurea. Tão complicadas que o primeiro se recusou a falar e o segundo, pouco acrescentou ao que já se sabia.

Além dos integrantes dos Engenheiros, dezenas de profissionais e familiares que cercaram os músicos foram entrevistados. Mas uma das grandes sacadas da obra foi dar voz a quem realmente sustentou toda essa história: os fãs. São quatro relatos que comprovam a narrativa do improvável construída por Lucchese. Um deles, o operador de circuito interno de televisão Edvalci Nascimento, descobriu a banda ouvindo o rádio à pilha do pai quando morava na Zona da Mata de Pernambuco. Ficou tão fascinado que, anos depois, decidiu batizar o filho como Licks. Por um erro do cartório, o garoto foi registrado como Links – hoje, um fã de carteirinha dos Engenheiros. Não era para acontecer. Mas aconteceu. E está em Infinita Highway, a biografia do improvável.

Professora usa rap e funk para ensinar História: ‘Não estudei para domesticar aluno’

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Ane Sarinara tem 27 anos e é professora há oito; é militante do movimento negro e feminista e, lésbica assumida, também combate o preconceito contra a comunidade LGBT

Ane Sarinara tem 27 anos e é professora há oito; é militante do movimento negro e feminista e, lésbica assumida, também combate o preconceito contra a comunidade LGBT

 

Renata Mendonça, na BBC Brasil

Um aluno entra na sala e coloca não o caderno, mas uma arma sobre a mesa. Outro salta pela janela do segundo andar, no meio da aula, para fugir de um traficante. Uma garota entra correndo e chorando após ter conseguido se livrar de dois colegas que tentavam abusar dela no banheiro.

O estresse causado por situações como essas já fizeram a professora Ane Sarinara, que ensina História na periferia de São Paulo, se afastar do trabalho e até pensar em desistir. Mas recentemente ela criou uma estratégia para envolver os alunos nas aulas: usar funk e rap para trazer um pouco do cotidiano difícil deles para a sala.

“A escola está completamente fora da realidade deles, e a educação, sem significado, não tem sentido nenhum. É aquela ideia: você finge que explica, eles fingem que entendem. São cidadãos que não gritam, que não berram, omissos, obedientes. Costumo dizer que não estudei para domesticar aluno. Querem que eu faça isso, mas eu não consigo”, conta ela à BBC Brasil.

Para quem questiona a opção por esses ritmos musicais, a professora de 27 anos, há oito na profissão, tem a resposta na ponta da língua: “os alunos gostam disso, é o que eles escutam e é a linguagem que eles sabem”.

Funk escrito por alunos de Ane do 1º ano do Ensino Médio na Fundação Casa

Funk escrito por alunos de Ane do 1º ano do Ensino Médio na Fundação Casa

 

Tudo começou com um estudante muito problemático, mas que era muito bom em algo: cantar funk.

“Outros professores tratavam isso como indisciplina. Só que eu sou da periferia, escuto funk desde que me conheço por gente”, lembra. “Sugeri que ele escrevesse um funk sobre a matéria – foi a forma que encontrei para ele fazer parte da aula.”

Quando o garoto apresentou o trabalho, ela percebeu que a tarefa havia “conquistado” não só a atenção dele, mas de toda a sala.

“Um dos meninos se ofereceu para fazer o beatbox (reprodução de sons com a boca e o nariz), outro pegou a lata de lixo, outros batucavam na mesa, batiam palmas”, recorda.

“Nisso, a diretora entrou para perguntar o que estava acontecendo. Para ela, parecia uma zona. Mas não era: a gente estava tendo aula.”

Resistência

Ane expandiu a experiência para além da música.

Uma vez, por exemplo, dividiu os alunos em dois grupos e criou um tribunal: o primeiro representaria a polícia e o outro, o tráfico.

“Na periferia, a polícia é muito mal vista porque chega sempre com violência. Mas a ideia era mostrar para eles que o tráfico, que é quem acaba fazendo as melhorias que eles precisam na região em que o Estado é ausente, não tem só coisas positivas.”

Mas fugir do “padrão” também trouxe problemas: diretores e outros professores reclamavam de que Ane era “liberal demais”, e que seus alunos saíam achando que “podiam fazer tudo” nas outras aulas.

Ocupação de alunos nas escolas de São Paulo no ano passado chamou a atenção de Ane: "Esses alunos estão gritando. Elas estão dizendo que não está dando mais. Que a escola nao está comportando o que eles precisam. E a gente está demorando demais para ouvir:"

Ocupação de alunos nas escolas de São Paulo no ano passado chamou a atenção de Ane: “Esses alunos estão gritando. Elas estão dizendo que não está dando mais. Que a escola nao está comportando o que eles precisam. E a gente está demorando demais para ouvir:”

 

“Eles diziam: ‘alguns pais estão reclamando, se eles forem na Diretoria de Ensino você vai ter que se retirar da escola’. E eu respondia: ‘não vou mudar, não estou fazendo nada de errado’.”

Além de não ter desistido, ela hoje aplica seu método também na Fundação Casa (instituição que abriga menores de idade infratores em São Paulo). Onde, aliás, enfrenta os mesmos problemas causados pelo modelo convencional.

“Quando entro na Fundação Casa, lembro das grades da minha escola. É igual. Não vejo diferença. A escola é uma prisão, a única diferença é que ela não tem seguranças. O resto é tudo igual. A mesma rotina, as mesmas grades, aquela lousa lá na frente, professor estressado.”

‘Cara de prisão’

Nascida e criada na periferia de São Paulo, Ane sentiu na pele os desafios que seus alunos têm no dia a dia.

Ela morava com a família em Jandira, na região metropolitana, mas aos quatro anos teve de ir morar em um orfanato na vizinha Carapicuíba. Viciado, seu tio passara a enfrentar problemas com traficantes, que ameaçaram a família toda.

No orfanato, conheceu o racismo, apanhou sem saber o porquê e enfrentou as amarras da escola, que para ela sempre teve “cara” de prisão.

“A escola era uma prisão, é uma grande jaula. Você joga as pessoas lá, transforma todas elas em máquinas de obedecer sem questionar, mostra um mundo fora da realidade delas. Era como eu me sentia dentro da escola: presa.”

Ane foi morar em Osasco – onde vive até hoje – e logo decidiu que queria ensinar. Mas com um objetivo: que seus alunos não sentissem o que ela sentia na escola.

“Pensava: como eu gostaria que tivessem me dado essa aula? Foi por isso que comecei a tentar essas coisas diferentes.”

E decidiu permanecer na periferia para “devolver algo” algo ao lugar que a criou.

“As pessoas costumam estudar e trabalhar para poder sair daqui. Mas eu não penso assim. Não tenho que sair desse lugar, eu quero transformar esse lugar.”

Cansaço

Mesmo com o discurso repleto de esperanças, Ane admite o cansaço – ela acredita que “não vai durar muito tempo” na profissão.

“Não tem nada de legal nessa profissão. Parece exagero, mas é isso. Você é humilhado todos os dias, não tem nenhum reconhecimento. O que motiva o professor nesse país é o ideal dele.”

Ela conta que, no decorrer dos anos, conseguiu bancar sua escolha de “mandar o currículo para o saco e fazer o que eu acho que tem que ser feito”. Mas reclama do peso da missão.

“Jogam toda a carga em cima do professor. Tenho que educar, dentro e fora da escola, socorrer aluno, salvar aluno, salvar a sociedade… eu tenho que ser perfeita. Mas enquanto isso, o sistema está me arrochando dos dois lados, e você fica sem saber para onde correr. Geralmente a gente corre para o banheiro para chorar.”

Ela diz cogitar abandonar a sala de aula por medo de sair de lá “de camisa de força”. E, após citar números de professores que cometem suicídio, conclui:

“Muitos colegas meus já tomam tarja preta pra conseguir dar aula. Não quero ficar desse jeito. Aí é que está a questão: eu não consigo me adaptar ao sistema. Mas aí todo mundo me diz: vai chegar uma hora que você vai ter que escolher entre ficar e se adequar ou sair. E está chegando essa hora já.”

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