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O ano do pornô doméstico

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Trilogia Cinquenta Tons de Cinza: um sucesso estrondoso, com mais de 30 milhões de exemplares vendidos somente em língua inglesa

E.L. James, Sylvia Day e outras pornógrafas ajudaram a desinibir as leitoras. E agora, como satisfazê-las?

Luís Antônio Giron, no site da Época

Fim de ano, tempo de balanço. No caso deste ano, vamos chegando ao fim no balanço do acasalamento. Em 2012, as mulheres parecem ter descoberto os prazeres das pequenas perversões sexuais; perversões controladas, domésticas e domesticadas.

Não tenho nada contra a liberação sexual feminina. Bem pelo contrário. Fantasia e sexo são saudáveis. O que não tolero é leitora ingênua, que pensa que ler livros semipornográficos pode desreprimi-las automaticamente, como quando ela compra sapatos e seu desejo é realizado. E é isso que está acontecendo agora mesmo: milhões de mulheres de 15 a 95 anos parecem ter descoberto o “sexo” ao ler a trilogia Cinquenta tons de cinza, o “pornô da mamãe”, como apelidou a imprensa americana, da escritora londrina E.L. James, e a pletora de imitações que se lhe seguiu, enxameando o mercado com banalidades eróticas jamais vistas. Por isso, a revista americana Publishers Weekly elegeu Erika Leonard James a personalidade literária do ano. Mereceu, pois vendeu centenas de milhões de exemplares e alterou o mercado livreiro, levando ao centro a literatura pornográfica. Este foi o ano do pornô doméstico, do “sexo” seguro com uma pontinha de crueldade e perversão.

Grafo “sexo” entre aspas porque esse tipo de livro apresenta uma versão do sexo, não o sexo em si. Se ele tem causado alguma coisa, foi desinibir as leitoras – não as mulheres que estão por trás das leitoras. Leitoras são mulheres de máscara. E elas agora devoram esses livros no metrô, achando que o fazem no maior descaramento. As capas dos romances ajudam na discrição, pois exalam respeitabilidade, com seu chicotes, gravatas e outras metonímias do sadomasoquismo em desenhos elegantes sobre fundo negro. Nada de capas “pulp” como no tempo de Cassandra Rios, a precursora brasileira do pornô que hoje se globalizou. Sim, Cassandra era uma mulher que escrevia para homens e mulheres.

Outra

Agora as mulheres dispõem de autoras que escrevem sacanagens só para elas. Homens são quase proibidos de entrar. Elas deram a discutir as técnicas de sadomasoquismo que Christian Grey ensina aos poucos a Anastasia Steele. Estão levando chicotinhos e algemas na bolsa! Meu amigo Paulo Coelho me disse que acha ótimo esse tipo de literatura porque ela é libertária. Mas ele ainda não leu E.L. James. Quando ler, irá descobrir que seu livro Onze minutos é muito mais ousado que as brincadeiras de um casal sem imaginação como Anastasia e Christian, Eva e Gideon, e assim por diante. Paulo Coelho defende no livro que as mulheres, no fundo, não querem ser penetradas; preferem a excitação clitorial. É o contrário do festival de penetrações promovido por Cinquenta tons de cinza. Quem está com a razão? Eu já li e não me engano: o pornô da mamãe preconiza a penetração com ou sem dor. É inofensivo. Não quer transgredir nenhuma regra, e sim reorganizar a ordem social.

Já escrevi que o soft porn mais reforça o culto a príapo do que ajuda as noviças a se iniciar sexualmente com liberdade. Parece difícil às mulheres entenderem que podem ser possuir sem ser possuídas. Ou que não precisam fingir que são escravas sexuais para conquistar o seu homem. O soft porn ilude as leitoras: ao apresentar alguns truques às mulheres, torna- as mais submissas.

Num encontro em Londres, Erika Leonard James, simpática e insinuante, disse-me que seus livros ajudaram a desencadear um processo em cadeia. As leitoras finalmente se deram conta de que desejavam participar de todas as atividades antes destinadas somente aos homens, inclusive as práticas de perversão, como o sadomasoquismo. Isso, segundo ela, salvou o casamento de milhares de pessoas entediadas com a “posição do pastor”, como dizem os americanos, ou “papai-mamãe”, na versão brasileira nós.

O pornô light desinibiu as leitoras. E agora, como satisfazê-las? Dar-lhes de presente outras trilogias eróticas? Ou reinventar a roda?

Erika me disse que seus livros não são destinados aos homens, embora eles possam lê-los para aprender algo sobre o funcionamento da alma e do corpo femininos. É verdade. Lendo-os, concluí que o objetivo final dos métodos descritos ali é a castração masculina. Depois dos rituais de veneração fálica, Anastasia corta Príapo para guardá-lo no cofre. E assim, controlar (este é o verbo central no novo erotismo feminino) seu parceiro até o fim dos tempos. Para satisfazer Anastasia, contou-me E.L. James, Christian “tem de aprender a pegar na vassoura e limpar a toda a casa”. Ao ler os três volumes de Cinquenta tons de cinza, tive vontade de me livrar da vassoura e das algemas, e sair correndo. Só posso concluir que, neste annus mirabilis que se acaba, a inveja do pênis voltou com potência total… pelo menos nos livros.

Publicação de livro incentiva ex-detento a mudar de vida e abandonar o crime

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Paulo Milhan lançou o livro da Bienal do Livro, em São Paulo e pode concorrer ao prêmio Biblioteca Nacional de Literatura

Maira Fernandes no Jornal O Cruzeiro

Seria clichê iniciar um texto dizendo que um ex-detento que escreveu um livro foi liberto pelas letras. E, nesse caso, também não seria de todo verdade. Paulo Henrique Milhan, que inúmeras vezes cumpriu pena em regime fechado – tráfico e formação de quadrilha – não começou a pensar em mudar de vida quando começou a escrever. O que ele queria quando concebeu o livro de mais de 400 páginas todo na cabeça antes de digitar, não tinha nada a ver com futuro, mas sim com reinventar o passado. A liberdade (e a libertação) foi consequência da maturidade, sustentada pelo amor de contar histórias.

 

“Tarde demais para acreditar no amor” é o nome do primeiro livro de Milhan, que foi lançado na Bienal do Livro esse ano, em São Paulo e também um dos livros habilitados para concorrer ao prêmio Biblioteca Nacional de Literatura. Nele, o ex-presidiário, natural de Andirá, no Paraná, e que há cerca de 10 anos mora em Sorocaba, não conta sobre sua vida de encarcerado, mas de um sentimento por Jaqueline, um amor que mantinha desde os tempos que morava no Paraná, mas que as idas e vindas de cidade e prisões, não permitiram acontecer. “Tinha em mente a história, queria escrever o livro sobre o sentimento por Jaqueline. O que não aconteceu, no livro ia acontecer”, explica. Na obra, Paulo é o narrador que observa a paixão de um rapaz, que está preso, por um moça. “No livro eu faço os dois se relacionarem, o que não aconteceu comigo, mas ele também está preso. Era o que eu queria, na verdade, que tivesse acontecido comigo”, conta ele, hoje com 39 anos e atuando na área de funileiro.

 

Hoje ele garante que a paixão não existe mais, só ficou uma amizade. Mas reconhece que foi por amor a ela que a escrita entrou definitivamente em sua vida. Foi em idos dos anos 2000, quando esteve preso em Andradina, que resolveu escrever uma poesia para participar de um concurso dentro do presídio. A musa, claro, era Jaqueline. “Eles (colegas de cela), leram minha poesia e gostaram muito, me pediam para eu emprestá-la para enviarem para suas mulheres, namoradas. Coisa de cadeia…”, recorda Milhan.

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Manoel de Barros comemora 96 anos hoje

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Imagem: Skoob

Publicado por Perfil Universitário

O poeta Manoel de Barros completa nesta quarta-feira, 19 de dezembro, 96 anos de idade. Ele é uma das grandes vozes da poesia brasileira. Seu universo não é nada urbano, o que resulta, a princípio, no efeito de estranheza para quem vive em grandes cidades.

O cenário da qual parte sua voz é o da floresta, do mato embrenhado, das extensões dos rios. A natureza é humanizada, a ponto de não a diferenciarmos do homem. O poeta se fixa nos bichos, nas plantas, nas águas e nas coisas “desimportantes”, banalidades do cotidiano, para criar uma atmosfera mágica que cativa a sensibilidade de quem lê.

Manoel Wenceslau Leite de Barros nasceu em 19 de dezembro de 1916, no Beco da Marinha, beira do rio Cuiabá. Com oito anos foi para o colégio interno em Campo Grande e depois para o Rio de Janeiro. Não gostava de estudar até descobrir os livros do padre Antônio Vieira. Em 1941 formou-se em Direito, mas desistiu da profissão talvez por timidez e nervosismo.

Filiou-se à Juventude Comunista. Preso durante uma pichação em pleno Estado Novo, livrou-se da cadeia quando a dona da pensão em que morava, pediu para qaue não levassem o menino que havia escrito um livro. O livro que não foi publicado, mas salvou-o da prisão foi “Nossa Senhora de Minha Escuridão”.

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dica da Luciana Leitão

Livro infantil se inspira em Baudelaire; leia crítica de Luiz Felipe Pondé

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Ilustração de ‘Charles na Escola de Dragões’

Luiz Felipe Pondé, na Folhinha

A literatura infantil sempre trabalhou a figura do patinho feio como o “diferente” que sofre na escola. Apesar de com frequência se falar das crianças como anjos, a verdade não é bem essa: a vida infantil, e a escola como seu palco central, é um drama intenso de insegurança, dor, alegria e medo, que exige da criança muita coragem e a sorte de encontrar amigos.

Charles na Escola de Dragões” não foge à regra de ser um livro sobre um patinho feio obrigado a descobrir “sua diferença” para sobreviver. Mas, ao contrário de um bicho bonitinho, o livro fala de dragões e, com isso, defende a diferença de forma clara: dragões também podem ser fofinhos e sofrer como patinhos.

Charles, o pequeno dragão, tem asas muito grandes e pés enormes e, por isso, quase desiste de ser um dragão “normal”.

Além do mais, é poeta e sofre com isso. O livro é inspirado em “Albatroz”, poema do francês Charles Baudelaire, considerado rebelde por chocar a sociedade do seu tempo (século 19) com textos que traziam sua melancolia e descrença no mundo moderno; vale lembrar que “Albatroz” faz parte da sua obra máxima, “Flores do Mal”… O nome já diz tudo…

Mas, diferentemente da ave de Baudelaire, que acaba por sobre o chão, imersa num mundo onde a poesia não vale nada, Charles terá final feliz. Baudelaire para crianças, claro, não pode ser Baudelaire até o fim.

Mãe vai rezar e filha chega atrasada a local de prova do Enem 2012 em Salvador

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Sivalda dos Santos, 32, que estava na igreja rezando, perdeu o horário de levá-la ao local de prova
Sivalda dos Santos, 32, que estava na igreja rezando, perdeu o horário de levá-la ao local de prova

Luiz Francisco, no UOL

O que seria uma prece para ajudar a filha a passar no Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) 2012 e cursar direito acabou se transformando em um pesadelo. A dona de casa Sivalda Santos deixou a periferia de Salvador na manhã desde domingo (4) para rezar em uma igreja. “Fiquei muito concentrada e, quando percebi, já era tarde”, afirmou a dona de casa, ao chegar com oito minutos de atraso ao Colégio Luís Viana.

Os portões do colégio, uma das maiores unidades da rede pública da Bahia, foram fechados pontualmente às 12h (a Bahia não aderiu ao horário de verão). “Não responsabilizo a minha mãe por nada. Ela sempre fez o melhor para mim”, disse Adriele Santos, filha da dona de casa.

Ao chegarem à escola, mãe e filha ainda tentaram uma última cartada: convencer dois seguranças que estavam do lado de dentro dos portões. “Temos ordens expressas para não deixar ninguém entrar. Não podemos abrir nenhuma exceção, mesmo entendendo a situação delas”, disse Fernando Soares.

O movimento no colégio foi tranquilo. Os primeiros estudantes chegaram ao Luís Viana por volta das 9h30. “Trouxe sanduíche de frango, suco e água”, afirmou Fernanda Albuquerque, 18, que sonha em cursar psicologia.

foto: João Alvarez/UOL

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