Canal Pavablog no Youtube

Posts tagged narrativas

As seis tramas que são a base de (quase) todas as histórias já contadas

0

Keira Knightley e Matthew Macfadyen em cena do filme ‘Orgulho e preconceito’, de 2005 (Foto: Divulgação)

 

Pesquisadores analisaram mais de 1,7 mil romances e chegaram a seis formas de narrativas. Mas será que elas podem ser aplicadas às nossas histórias mais populares?

Publicado no G1[via BBC Brasil]

Minha contribuição mais bonita à cultura”. Assim foi como o romancista Kurt Vonnegut descreveu sua antiga tese de mestrado em antropologia, “que foi rejeitada porque era simples e divertida demais”. A tese sumiu sem deixar rastro, mas Vonnegut continuou a promover a grande ideia por trás dela: “As histórias têm formas que podem ser desenhadas em papel gráfico”.

Em uma palestra em 1995, Vonnegut esboçou vários arcos narrativos – os desdobramentos de ações dramáticas de uma história – em um quadro negro, traçando como a sorte do protagonista muda ao longo de um eixo que se estende de “boa” a “má”. Esses arcos incluem: “homem no buraco”, no qual o personagem principal entra em apuros, e em seguida sai dele (“as pessoas adoram essa história, elas nunca se cansam!”); e “o menino fica com a menina”, no qual o protagonista encontra uma pessoa maravilhosa, perde-a, e depois a reencontra.

“Não há razão por que as formas simples de histórias não possam ser inseridas em computadores”, ele ressaltou. “São formas lindas”.

Graças a novas técnicas de mineração de texto, isto foi feito. O professor Matthew Jockers, da Universidade de Nebraska, e, posteriormente, pesquisadores do Laboratório de História Computacional da Universidade de Vermont, ambos dos EUA, analisaram dados de milhares romances. Com isso, eles chegaram a seis tipos básicos de histórias – também chamados de arquétipos – que formam os blocos de construção para narrativas mais complexas. São eles:

Ascensão – Da pobreza à fortuna, ou de má a boa sorte
Declínio – Declínio de bom a mau, uma tragédia
Icarus – ascensão e depois declínio da sorte
Oedipus – declínio, ascensão e declínio de novo
Cinderela – ascensão, queda, ascensão
Homem no buraco – queda, ascensão

Os pesquisadores se basearam na chamada análise de sentimento. Essa é uma técnica estatística comumente usada por marqueteiros para analisar posts de mídia social. Com base em dados públicos, a cada palavra é alocada uma “pontuação de sentimento”. Dessa forma, uma palavra pode ser categorizada como positiva (feliz) ou negativa (triste), ou pode ser associada a até oito emoções mais sutis, como medo, alegria, surpresa e anseio. Por exemplo, a palavra “abolir” é negativa e associada à raiva.

Ao fazer a análise de sentimento em todas as palavras de um romance, poema ou peça e traçar os resultados em relação ao tempo, é possível perceber as mudanças de humor ao longo do texto, revelando um tipo de narrativa emocional. Embora não seja um sistema perfeito – já que foca em palavras isoladas, ignorando o contexto -, ele é surpreendentemente perspicaz quando aplicado a trechos maiores de texto.

As ferramentas para fazer análises de sentimento estão livremente disponíveis, e boa parte da literatura de domínio público pode ser baixada de bancos de dados online como o Projeto Gutenberg. A BBC Culture pesquisou algumas das histórias britânicas mais populares para tentar aplicar as seis formas narrativas.

A Divina Comédia (Dante Alighieri, 1308-1320)

Tipo de narrativa: Ascensão

O poema épico de Dante conta sua jornada imaginária ao inferno, acompanhado do poeta Virgílio. Obviamente, as coisas começam mal na Divina Comédia, com uma pontuação baixa de sentimento que se afunda ainda mais à medida que a dupla desce aos círculos do inferno. Há traços de “um homem no buraco” na história, que acaba sendo literal em um texto tão alegórico como esse.

Tendo sobrevivido milagrosamente ao inferno, eles então escalam a Montanha do Purgatório onde as almas dos excomungados, preguiçosos e luxuriosos residem. E Beatriz – a mulher ideal de Dante – acaba substituindo Virgílio como companhia. A ascensão do casal ao paraíso é marcada pelo aumento da alegria à medida que o poeta compreende a verdadeira natureza da virtude, e sua alma se torna plena “do amor que move o sol e outras estrelas”.

Madame Bovary (Gustave Flaubert, 1856)

Tipo de narrativa: Declínio

Em dado momento da história de Flaubert, a dona de casa entediada e desleal – a protagonista, Emma Bovary – reflete que, se sua vida até então foi tão ruim, a parte a ser vivida será com certeza melhor.

Não é bem assim. Emma embarca em relações amorosas falidas e desesperadas, que oferecem apenas um breve respiro a um tédio angustiante. Bovary é uma mulher criativa casada com o homem mais sem graça do mundo, acumula dívidas exorbitantes e acaba se suicidando com arsênico.

Seu marido de luto, após descobrir suas várias infidelidades, também morre, e a então filha órfã do casal vai viver com uma tia pobre, que a manda trabalhar em uma fábrica de algodão. É uma clássica tragédia, conduzida implacavelmente rumo ao total declínio.

Romeu e Julieta (William Shakespeare, 1597)

Tipo de narrativa: Icarus

Romeu e Julieta é comumente considerada uma tragédia por conta da descrição do próprio Shakespeare, mas, quando a analisamos, a história se alinha mais à forma de Icarus: ascensão e declínio. Afinal, o menino precisa encontrar a garota e se apaixonar antes que ambos se percam. O pico romântico acontece quando se passa cerca de um quarto da peça, na famosa cena da varanda, na qual eles declaram amor eterno um ao outro.

É uma descida morro abaixo a partir daí. Romeu mata Tybalt e foge. Logo, o plano de Friar de forjar a morte de Julieta traz um pequeno salto de esperança à trama, mas, depois que a jovem bebe a poção, nada consegue evitar o final trágico.

Orgulho e Preconceito (Jane Austen, 1813)

Tipo de narrativa: Homem no buraco ou Cinderela

A primeira metade do romance de Austen traz um animado baile (embora comedido), gracejos e propostas de casamento cômicas. como a do vigário Mr Collins. As coisas ficam mais sombrias quando Bingley parte, e Elizabeth começa a se estranhar com Darcy (mas por um mal-entendido, obviamente).

O sentimento do romance entra em um território decisivamente negativo depois da proposta desastrosa de Darcy, alcançando seu ponto mais baixo quando Lydia foge com o desonesto Wickham. Isso, claro, serve de oportunidade para Darcy provar a que veio, o que ele faz com dignidade e segurança. Assim, ele ganha o coração de Elizabeth e assegura um comedido final feliz, em que todos estão ligeiramente mais sábios do que antes.

Frankenstein (Mary Shelley, 1818)

Tipo de narrativa: Oedipus

O influente romance de Shelley narra a lamentável vida de Victor Frankenstein e sua Criatura. O primeiro narrador é o capitão Robert Walton, que, em cartas à sua irmã, conta o enredo de Victor – que aparece em primeira pessoa no texto. Num certo ponto, a Criatura assume a narrativa, transformando o romance em uma história dentro de uma história dentro de uma história. Esse é o momento de respiro da trama, que em geral segue uma trajetória descendente desde o início, com a descrição de Victor sobre sua vida feliz, até o surpreendente final.

Em um momento crucial, a dois terços do romance, a Criatura oferece a Victor uma saída – fazer para ele uma companheira feminina. Mas Victor recusa. Desse ponto em diante, seu destino está selado. “Lembre-se, eu estarei contigo na noite de seu casamento”, ameaça a Criatura. E assim o faz.

O Patinho Feio (Hans Christian Andersen, 1843)

Tipo de narrativa: Complexa

Embora seja curta, a famosa fábula de Hans Christian Andersen tem estrutura complexa. Ela incorpora tipos narrativos de “dois homens no buraco” (ou melhor, um pato no buraco) dentro de uma narrativa de “ascensão”. Ou seja, as coisas melhoram ao longo da história para o patinho, mas há flashes de luz e escuridão no caminho.

Ele sai do ovo (oba!), mas sofre bullying por ser diferente (ahhh). Ele descobre que pode nadar melhor que os outros patos e sente um indício de afinidade com o grupo de cisnes em sobrevoo (oba!). Em seguida, quase morre no inverno gelado (ahhh). E finalmente torna-se um cisne, de uma forma completamente prevista desde o início. A ideia é essa, claro: “Nascer num ninho de pato não tem importância se ele vem do ovo de um cisne”. A história termina com a pontuação mais alta, aquele que sempre foi um cisne exclama que “nunca sonhou com tamanha felicidade”.

Os 13 melhores livros de 2016

0

5-livros-desenvolvimento-pessoal

Felipe Pena, no Extra

Todo escritor que elabora uma lista precisa fazer ressalvas. A mais óbvia é que todas as listas são injustas. Não importa o critério utilizado, o simples fato de enumerar títulos atribuindo-lhe valor é em si um oximoro. Além disso, como há limite nos espaço do jornal, é impossível não deixar de fora livros importantes.

A maior das ressalvas, no entanto, é fazer ressalvas para se proteger.

Dito isto, vamos à lista, que seguiu três critérios básicos: todos os livros foram publicados em 2016, refletem as idiossincrasias do curador e mereceram minha resenha no jornal ou meu comentário na TV durante o ano.

As obras não estão classificadas em ordem hierárquica.

1 – O marechal de costas (José Luiz Passos) – O livro apresenta duas histórias paralelas. A primeira é a “biografia” do marechal Floriano Peixoto, nosso segundo presidente da república, que retrata o nascimento da suposta democracia brasileira. A segunda história acompanha as manifestações de 2013 até o golpe de 2016, sob o olhar de uma cozinheira que é descendente do marechal. No cruzamento das narrativas, encontramos uma síntese da miséria da classe média brasileira.

2 – O Tribunal da Quinta-feira (Michel Laub) – O livro é um espelho do mundo contemporâneo. Michel Laub manipula a linguagem com destreza e fundamento para narrar uma trama sobre nós mesmos. Sobre como temos a obrigação de nos indignar diante um escândalo que logo dará lugar a outro. Sobre como protestamos contra a corrupção e sonegamos impostos. Sobre como defendemos a ecologia e jogamos o papel de bala no chão. Sobre como somos detestáveis, mesquinhos e hipócritas.

3 – Adolf Hitler, os anos de ascensão (Volker Ullrich) – A primeira parte da biografia escrita pelo historiador alemão mostra detalhes íntimos do ditador. Publicado pela editora Amarilys, o livro narra a história do maior tirano do século XX desde o nascimento até a invasão da Polônia, em 1939. Mas o foco principal é o homem por trás da persona pública, revelando suas mágoas, preconceitos e, principalmente, sua capacidade de manipulação. O ineditismo da obra está justamente na abordagem psíquica, bem diferente das demais biografias sobre Hitler.

4 – A radiografia do golpe (Jessé Souza) – Professor titular da UFF, Jessé apresenta um estudo jurídico e sociológico sobre os fatos que possibilitaram o golpe parlamentar contra a presidente Dilma Roussef. Com exemplos claros, fugindo da linguagem acadêmica, Jessé defende a tese de que a capacidade crítica dos brasileiros foi colonizada pela manipulação exercida por jornais e emissoras de TV.

5 – Grito (Godofredo de Oliveira Neto) – Dois personagens bem construídos carregam a força dramática da narrativa de Godofredo. Eugênia, uma atriz octogenária aposentada, e Fausto, um menino pobre e negro, cujo grito da irmã gêmea que morreu no parto é onipresente em sua vida. O romance é um palco, a história é dividida em atos e as cenas perturbam a percepção do leitor, ao mesmo tempo em que problematizam questões fundamentais sobre a linguagem.

6 – Rio – Paris – Rio (Luciana Hidalgo) – O romance se passa em 1968, entre as barricadas de Paris e a repressão militar nas ruas do Rio de Janeiro. O título sugere uma ponte aérea semântica entre as cidades e os personagens. Trata-se de uma história de amor, como são quase todas as boas histórias, mas o pano de fundo são as inquietações de uma geração atordoada com os acontecimentos políticos da época. Autora premiada com dois Jabutis, Luciana Hidalgo é uma narradora talentosa, capaz de nos envolver na história e no cenário com a mesma maestria. O leitor termina o livro com a sensação de que a cidade-luz é a sua própria cidade e com a certeza de que as angústias do casal poderiam ser as suas.

7 – A Bíblia do Che (Miguel Santos Neto) – O autor promove o retorno do personagem principal do romance “A primeira mulher”, o professor Carlos Eduardo, para uma missão especial: encontrar uma bíblia com anotações que o guerrilheiro Ernesto Che Guevara teria feito durante sua passagem por Porto Alegre. Miguel apresenta uma narrativa limpa, sem invencionices ou pretensões metalinguísticas. O livro nos prende do começo ao fim com uma trama de mistério e suspense, além de provocar uma boa reflexão sobre o significado da solidão.

8 – Clarice Lispector (todos os contos) – A editora Rocco publicou a coletânea da década. Pela primeira vez, em um único volume, estão reunidos, na íntegra, todos os contos da autora. A edição, em capa dura, também é um primor.

9 – À sombra do poder (Rodrigo de Almeida) – Ex-secretário de imprensa de Dilma Rousseff, o autor narra com detalhes os bastidores da crise que derrubou a presidente. Rodrigo tem o olhar privilegiado de quem está dentro da história. Ou seja, não precisa recorrer a fontes, já que é ele mesmo testemunha do que aconteceu no Palácio do Planalto entre setembro de 2015 e maio de 2016, quando Dilma foi afastada pelo golpe.

10 – Antropofagia, palimpsesto selvagem (Beatriz Azevedo) – O professor Eduardo Viveiros de Castro classifica a obra como a primeira leitura realmente microscópica do Manifesto Antropofágico. O livro de Beatriz já é referência fundamental para qualquer análise sobre Oswald de Andrade e seus pares. É o chamado “close reading”, um estudo destinado a ser clássico.

11 – Sigmund Freud, na sua época e em seu tempo (Elizabeth Roudinesco) – Em um ano em que me dediquei muito a leituras psicanalíticas, acabo destacando não uma obra teórica, mas sim uma nova biografia do pai da psicanálise. O motivo está nas opções escolhidas por Roudinesco para contar a história de Freud, muito mais focada nas relações interpessoais, nos preconceitos de sua época e nas equivocadas interpretações de nosso tempo. A autora rebate acusações e calúnias contra Freud a partir de uma investigação sólida baseada em milhares de documentos e em uma vasta erudição.

12 – Dartana (André Vianco) – O mais importante autor de fantasia do Brasil apresenta um livro de 784 páginas sobre um novo deus que nasce para libertar seu povo da ignorância. O universo criado por Vianco é fascinante, a narrativa flui como cinema e o final é surpreendente. Poucos autores podem se dar ao luxo de escrever 784 páginas e manter a fidelidade dos leitores. Além disso, a temática é atual. Nada mais fantasioso do que a realidade brasileira.

13 – O romance inacabado de Sofia Stern (Ronaldo Wrobel) – Um romance histórico que mantém a temática do autor, focado em sua ascendência judaica. Ronaldo nos leva de volta à Alemanha nazista para contar a história da avó, Sofia, que recebe uma herança e precisa reviver o passado, parcialmente descrito em um diário encontrado pelo neto. O suspense de folhetim, com capítulos curtos e ganchos fortes, mantém o leitor preso à narrativa.

* Felipe Pena é jornalista, psicanalista e professor da UFF. Doutor em literatura pela PUC-Rio, é autor de 15 livros, entre eles o romance “O Verso do cartã de embarque”.

 

Os contos infantis de um jeito que você não imaginava

0

contos

Anna Rachel, em Nova Escola

Contos de fadas, populares e fábulas. Todas aquelas histórias que ouvimos quando crianças e vimos eternizadas em adaptações cinematográficas ficam escondidas no fundo de nossas mentes quando nos tornamos adultos. Parece que só podem ser úteis para os pequenos. Sua fofura e lições morais seriam mais adequadas a essa faixa etária. Então, só as retomamos para contá-las a outros pequerruchos.  Isso é um triste engano.

Digo isso porque elas podem ser muito mais instigantes do que eu me lembrava. Cheguei a essa conclusão porque, no ano passado, redescobri os clássicos infantis com Contos Maravilhosos Infantis e Domésticos, dos irmãos Jacob e Wilhelm Grimm (672 págs., ed. Cosac Naify, tel.: 11/3218-1497, 99 reais). Eu comecei a pesquisar o tema e me lembrei de ter ouvido falar sobre as versões desses irmãos alemães que, no século XIX, contavam as famosas histórias de um jeito muito diferente do que costumamos ouvir. Uma das narrativas que mais me chamou a atenção foi a da Branca de Neve. Fiquei surpresa quando descobri que a rainha má que tenta assassinar Branca é ninguém menos que sua mãe — que é a madrasta da princesa na versão mais conhecida— e que a princesa se torna vingativa ao final dessa jornada e condena a monarca a caminhar com pantufas de ferro em brasa até a morte. Além desse há outros momentos tensos nos escritos dos Grimm, como quando as filhas da madrasta de Cinderela cortam um pedaço grande do dedão para tentar calçar o sapatinho ou quando a mãe de João e Maria quer deixá-los na floresta para não dividir a pouca comida. Ler essa coletânea é rever a literatura da nossa infância e ressignificá-la.

No último mês, conheci o livro Contos da Mamãe Gansa, do francês Charles Perrault (176 págs., ed. Cosac Naify, tel.: 11/3218-1497, 59 reais), que contava clássicos como Chapeuzinho Vermelho e Cinderela no século XVII de modo diferente das versões famosas, porém mais leves do que as apresentadas pelos Grimms. No texto de Perrault, a menina, que foi levar bolinhos e um pote de manteiga para a vovó, não é salva das garras do lobo mau por um caçador. A edição também traz, ao final de cada história, a explicação da moral contida em cada narrativa, o que nos faz refletir mais atentamente sobre ela. Esta é a da Chapeuzinho:

“Aqui se vê que os inocentes,
Sobretudo se são mocinhas
Bonitas, atraentes, meiguinhas
Fazem mal em ouvir todo tipo de gente.
E não é coisa tão estranha
Que o lobo coma as que ele apanha.
Digo o lobo porque nem todos
São da mesma variedade;
Há uns de grande urbanidade,
Sem grita ou raiva, e de bons modos,
Que, complacentes e domados,
Seguem as jovens senhorinhas
Até nas suas casas e até nas ruinhas;
Mas todos sabem que esses lobos tão bondosos
De todos eles são os mais perigosos.”

O livro também traz alguns contos que eu desconhecia como Riquet, o Topetudo que narra a história de Riquet, um príncipe muito feio, porém inteligente e com a capacidade de tornar também sabida a pessoa por quem se apaixonar. Já adulto, ele se encontrará com uma princesa belíssima, porém muito tola e que desconhece o seu poder de dar beleza a quem desejar.

Fui investigar esses títulos e descobri que a editora Cosac Naify os reuniu a mais duas publicações sobre fábulas, Esopo – Fábulas Completas (Esopo, 564 págs., ed. Cosac Naify, tel.: 11/3218-1497, 69,90 reais) e Fábulas selecionadas de La Fontaine (Jean de La Fontaine, 160 págs., tel.: 11/3218-1497, 39 reais)em um kit para a venda.  Você pode comprá-los junto ou separados. Todos valem muito a pena!

   

Espero que tenham gostado da dica. Vocês já leram algum desses livros e se surpreenderam com as versões apresentadas? Conte a sua experiência aqui nos comentários.

A leitura e a infidelidade

0

1

Cláudia De Villar, no Homo Literatus

A leitura provoca muitos sentimentos, mas percebe-se, já há algum tempo, que esse hábito está levando alguns leitores à infidelidade. Você que pensou que essa infidelidade ocorre quando um deles não lê e é deixado de lado pelo parceiro leitor, engana-se. Ambos traem. Não é uma traição levada pelas narrativas de amor e sexo, mas uma traição literária.

O leitor apaixona-se por uma obra, a narrativa não lhe sai da cabeça. Os sonhos são repletos de lugares e cenários do livro e essa paixão cega os olhos, provoca suores, calafrios. Esse leitor, doente de amor por seu livro, passa somente a falar dele. Não tem mais assunto. O assunto é o livro. A todos que ele encontra é feita uma ‘propaganda’ da obra. As qualidades daquela trama são descritas minimamente. Passa a achar ilógico alguém não se apaixonar por sua obra. Sim, sua, pois nesse momento a obra não é mais do autor, mas sua. Apodera-se do enredo, dos diálogos, dos pensamentos da personagem. Decide vestir-se igualmente ao mocinho da trama. Revolta-se com a proximidade do fim dos capítulos. Porém, a criatura vai a uma livraria e… É amor à primeira vista. Apaixona-se, perdidamente, por outra obra!

Então, o leitor, antes apaixonado pelo livro 1, vai até a prateleira, toca no novo livro, acaricia-o, vagarosamente, sente o seu cheiro, abre o livro, com ar de cientista, toca, novamente, em suas folhas, como se estivesse tocando em uma joia rara, aproxima os olhos, como se fosse míope, e olha com olhos arregalados o prefácio, lê o que há nas orelhas… Ah, as orelhas, são locais fantásticos para o leitor faminto por papel novo e, dessa forma, se vê perdidamente apaixonado pela nova obra. É infiel.

Sim, o leitor, mas o leitor com o terrível fetiche por leitura não consegue controlar os seus instintos literários e é infiel. Trai o livro que ainda está lendo. Muitas vezes, leva a nova obra para casa e a lê escondido, para que não seja descoberto! Vê o livro antigo na cabeceira de sua cama. Deixa-o ali mesmo e passa a levar o novo livro para o serviço. Lê nas horas vagas, lê na hora do almoço, lê nos intervalos, lê no ônibus e, quando chega em casa, age como um leitor honesto. Faz tudo igual, como sempre fez nos tempos remotos, toma banho, janta, assiste à novela e vai deitar ao lado de seu velho livro, de seu amor antigo. Primeiramente, ele olha para a obra e dá um longo suspiro e toca-o, meio a contragosto, abre-o. Nem o olha mais com aquele mesmo olhar apaixonado. Nem aspira mais o seu perfume. Lembra-se do livro que está em seu trabalho. O perfume do novo livro está em sua memória olfativa. Balança a cabeça a fim de espantar aquele cheiro inebriante! Esforça para se concentrar no livro antigo. Não lembra em qual página parou. Procura o marcador de páginas. Encontra-o. Volta a ler e dorme no meio da leitura. Sonha com o livro do serviço e suas páginas tentadoras com os seus belos parágrafos e sua língua, ops, sua linguagem envolvente. É infiel.

Como esse triângulo amoroso termina? Diga você, leitor, o que faz um leitor voraz?

Go to Top