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Viagem inédita de Herman Melville ao Brasil inspira romance

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Alessandro Gianini, em O Globo

SÃO PAULO — Em agosto de 1843, Herman Melville, então com 24 anos, embarcou em Honolulu na fragata da Marinha americana USS United States rumo a Boston. Na viagem que se seguiu, com duração de 14 meses, até outubro de 1944, o marujo Melville passou, entre outras paragens, pela costa brasileira, onde a embarcação que tripulava se deteve próxima do Rio de Janeiro e até foi visitada pelo imperador Dom Pedro II. Todo o périplo do serviu como inspiração para o romance “Jaqueta Branca ou O mundo em um navio de guerra”, que a editora Carambaia publica pela primeira vez no Brasil.

O romance traz no título o apelido do personagem principal e narrador, um marujo identificado pela jaqueta branca que confeccionou para se proteger do frio e que também simboliza a relação ambígua de Melville com relação às condições de vida e trabalho dos marinheiros à época. O escritor, que lançaria “Moby Dick” alguns anos depois, escrevera o livro em apenas dois meses para tentar fazer algum dinheiro, motivado pela experiência em alto mar e também para denunciar o que considerava um ambiente desumano.

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— “Jaqueta Branca” foi um livro que teve pouca atenção quando lançado, e foi devidamente valorizado depois da morte de Melville. Pensei muito no que pode ter contribuído para o ineditismo da obra em língua portuguesa, dada a beleza literária com que Melville relata sua passagem pelo Rio e paragem na Guanabara, e o valor histórico e cultural do livro — diz o tradutor Rogério Bettoni, que assina também a nota introdutória da edição.

No capítulo 50, intitulado “A baía de todas as belezas” Melville faz uma ode às belezas naturais do Rio: “Eu disse que deveria passar pelo Rio sem maiores descrições, mas neste instante sou invadido por uma torrente de lembranças tão aromáticas que só posso ceder e me retratar enquanto inalo essa atmosfera almiscarada. Um cinturão de mais de 150 milhas de montanhas verdejantes cinge uma vastidão translúcida, tão cravejado de serras de relva que entre as tribos indígenas o lugar era conhecido como ‘A água oculta’”.

Um dos primeiros livros a ser escolhido pelos editores Graziella Beting e Fabiano Curi para ser traduzido e editado na origem da Carambaia, “Jaqueta branca” foi o que mais deu trabalho se comparado aos outros títulos do catálogo. Para além dos termos náuticos e gírias da marujada, Bettoni destaca uma dificuldade estilística:

— É nítido que se trata de um livro autobiográfico, que relata um episódio específico da vida de Melville: o momento em que entra no navio para iniciar o longo trajeto de volta para casa, a torna-viagem, como ele diz algumas vezes. E a gente nunca sabe quem ele foi, de onde veio, qual sua existência fora do navio. Então é autobiografia? É relato de viagem? É romance? É um diário sem entrada de datas? É tudo isso ao mesmo tempo. Não deixar a tradução com cara de uma coisa só é um desafio, bem como não escrever um texto que soe moderno demais, muito menos uma tradução que pareça escrita por algum escritor da época, tarefa impossível ou por demais anacrônica — completou.

Elizabeth Bishop, a poetisa americana de ‘Flores Raras’

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Meire Kusumoto, na Veja

Quando o nascimento da poetisa americana Elizabeth Bishop (1911-79) completou 100 anos, em fevereiro de 2011, as comemorações no Brasil foram tímidas, sem grandes eventos ou relançamentos. Uma injustiça com um dos maiores nomes da poesia americana do século XX, que viveu por cerca de 20 anos, entre idas e vindas, em terras brasileiras, de onde saiu boa parte de sua produção. Uma injustiça que o livro Conversas com Elizabeth Bishop (Autêntica Editora, 192 páginas, 39,90 reais), uma reunião de entrevistas com a escritora lançada agora, e o filme Flores Raras, do cineasta Bruno Barreto, que entra em cartaz nesta sexta-feira, ajudam a desfazer.

Foi no Brasil que Elizabeth viveu dois momentos cruciais, costumeiramente os mais lembrados quando se trata da biografia da poetisa: o anúncio de que ela tinha ganhado o Prêmio Pulitzer, em 1956, e o seu intenso relacionamento amoroso com a arquiteta carioca, embora nascida em Paris, Maria Carlota de Macedo Soares (1910-67), entre 1951 e 1967, quando Lota, como era chamada, cometeu suicídio. O romance deu origem ao livro Flores Raras e Banalíssimas (Rocco, 248 páginas, 34,50 reais), da escritora Carmen Oliveira, que acaba de ganhar nova edição de carona no filme de Barreto, ao qual serviu de base.

Biografia – Quando embarcou no navio SS Bowplate em Nova York rumo ao Brasil, em 1951, Elizabeth Bishop tinha 40 anos e planos de viajar pela América do Sul em busca de um sentido para a vida, até então marcada por perdas. Seu pai, William Thomas Bishop, morreu de insuficiência renal crônica quando ela tinha apenas oito meses e, a mãe, Gertrude, abalada, foi aos poucos perdendo o equilíbrio mental. Em 1915, mãe e filha se mudaram para Nova Escócia, no Canadá, onde residia a família de Gertrude e onde ela se internou no ano seguinte em uma clínica psiquiátrica. Elizabeth nunca mais veria a mãe, que em 18 anos morreria no mesmo hospital.

Sem os pais, a futura poetisa ficou sob os cuidados dos avós maternos até 1917, quando foi assumida pelos paternos e levada de volta para a sua cidade natal, Worcester, em Massachusetts. Ainda que tivesse conforto no lar dos abastados Bishop, Elizabeth se sentia só e abandonada, situação que piorou quando desenvolveu asma e uma série de alergias, que a impediram de frequentar a escola regular. A solidão era um mal que ela custou a superar: em 1948, escreveria para o amigo e poeta Robert Lowell, dizendo que era a pessoa mais solitária que já havia existido. Ao chegar ao Brasil, contudo, se sentiria em casa. Se não pelo próprio país, ao menos pela relação com Lota.

No ano seguinte, foi morar com uma tia e seu marido, Maude e George Shepherdson, que eram pagos para cuidar da menina, mas davam afeto e a deixavam visitar a família nas férias. Educada em casa, Elizabeth teve professores particulares e amplo acesso à biblioteca da tia, onde havia volumes de poetas como Robert Browning, Alfred Tennyson e Henry David Thoreau. Ela chegou a frequentar a escola por um ano, entre 1926 e 27, mas a sua educação formal só começou de fato em 1928, quando foi enviada para um internato na cidade de Natick. Em 1930, ela iniciou o ensino superior na Vassar College, em Poughkeepsie, estado de Nova York, onde se formou em Literatura Inglesa. Sem necessidade de trabalhar graças à herança que o pai, dono de uma construtora, havia deixado, após a formatura se dedicou a viajar e a escrever o primeiro livro, Norte e Sul, publicado em 1946, poucos anos antes de deixar os Estados Unidos.

Conheça as principais obras de Elizabeth Bishop

Norte & Sul / North & South (1946)

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Primeiro livro de poesia de Elizabeth Bishop, foi publicado enquanto a poetisa ainda estava nos Estados Unidos, em 1946. A obra reúne poemas escritos em diversos lugares dos EUA e em Paris, frutos das muitas viagens que a escritora fez durante a juventude, entre os anos 1930 e 40. No Brasil, algumas poesias de Norte & Sul foram publicadas no livro Poemas Escolhidos (tradução de Paulo Henriques Britto, Companhia das Letras, 416 páginas, 44,50 reais), um dos dois únicos volumes de versos (ambos coletâneas) de Elizabeth lançados no país pela Companhia das Letras. O outro é Poemas do Brasil, atualmente esgotado.

Chemin de Fer

Sozinha nos trilhos eu ia,
coração aos saltos no peito.
O espaço entre os dormentes
era excessivo, ou muito estreito.

Paisagem empobrecida:
carvalhos, pinheiros franzinos;
e além da folhagem cinzenta
vi luzir ao longe o laguinho

onde vive o eremita sujo,
como uma lágrima translúcida
a conter seus sofrimentos
ao longo dos anos, lúcida.

O eremita deu um tiro
e uma árvore balançou.
O laguinho estremeceu.
sua galinha cocoricou.

Bradou o velho eremita:
“Amor tem que ser posto em prática!”
Ao longe, um eco esboçou
sua adesão, não muito enfática.

(Tradução de Paulo Henriques Britto) (mais…)

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