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Crítica: Vítima de armadilha alegórica, livro de Mia Couto resulta em vazio

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O escritor Mia Couto está lançando seu 12º livro pela editora Companhia das Letras

Adriano Schwartz, na Folha de S.Paulo

Há algum tempo não lia um livro de Mia Couto. Na minha memória precária, o escritor moçambicano encaixava-se naquela longa, longa lista de autores profundamente influenciados pela obra de Guimarães Rosa.

Ao ler agora “A Confissão da Leoa”, curiosamente, surgia-me a todo instante outro nome.

Não se tratava mais da tentativa, malsucedida, de reconfigurar a linguagem de invenção do criador de Diadorim, mas sim de uma “vontade de estranheza” que ecoava, descaracterizada, trechos isolados de textos de Clarice Lispector (se, aqui, alguém se lembrar das infinitas citações da autora presentes no Facebook, está na pista certa).

Trata-se de passagens de tom edificante que povoam todo o romance, como: “De novo nos regíamos por essas leis que nem Deus ensina nem o Homem explica”; ou “naquele noturno esconderijo aprendi a rir para dentro, a gritar sem voz, a sonhar sem sonho”.

Ou ainda “não sou do dia, não sou da noite. O poente era a hora em que eu retornava a casa, exausto das minhas brincadeiras, nesses pátios que se abriam como uma extensa savana onde me imaginava caçando”.

ATAQUE DE LEÕES

“A Confissão da Leoa” conta a história de uma vila atemorizada por ataques de leões que já haviam matado inúmeras pessoas e na qual coexistiam antigas tradições tribais e uma administração modernizante e corrupta.

Alternam-se, na narrativa, dois diários, o de uma moça intimamente vinculada a uma série de desgraças ocorridas no local, e o de um caçador contratado para eliminar os animais, que, devido ao seu passado conturbado, seria incapaz de resolver a situação.

Essa mistura de conhecimentos ancestrais, tradições místicas, particularidades do universo feminino, manifestações violentas da natureza e relações complexas entre o campo e a cidade conduz a uma armadilha alegórica hiperpotencializada de que é difícil escapar e da qual, ao final, sobra muito pouco.

Para retomar essa hipotética ligação com Clarice Lispector, a despeito de ser sempre um pouco cruel fazer esse tipo de coisa, o que nela resulta, ao término de quase qualquer texto, em assombro e perturbação, aqui, neste novo romance de Mia Couto, resulta em vazio.

Ou, como um personagem de “A Confissão da Leoa” diz a certo momento: “Se eu leio, sabe o que sucede? Deixo de ver o mundo”.

ADRIANO SCHWARTZ é professor de literatura da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da USP.

foto: Bel Pedrosa/Companhia das Letras

Câncer, literatura e amizade verdadeira

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Vicente Carvalho, no Razões para acreditar

Esta é umas das histórias mais bonitas de amizade que vi em tempos.

Nachu tem câncer terminal, e pode morrer até junho (calma, não é uma história triste). E o autor preferido de Nachu chama-se Harry Turtledove, famoso por suas séries de livros de história modificada.

Perguntado sobre o que gostaria de fazer antes de morrer, uma das respostas de Nachu foi “terminar de ler a série The War That Came Early (“A Guerra que Chegou Mais Cedo”)”, de Turtledove, uma visão alterada da Segunda Guerra Mundial. O problema é que os dois últimos livros da série ainda estavam na primeira versão do autor, direto do manuscrito, e só seriam todas lançadas em um ano, no mínimo.

Um amigo de Nachu resolveu agir e fez uma pergunta no site Reedit, sobre como seria possível conseguir as cópias antes, para que o amigo pudesse lê-las. O pedido continha uma carta com o apelo ao autor. Tudo em inglês.

Abaixo, o resultado da campanha, na forma de um presente de aniversário. O vídeo está em inglês, mas algumas coisas na vida nem precisam de palavras.

Resultado visto acima: Com a permissão de Harry Turtledove, a editora do autor, Del Rey Books, enviou uma cópia de avaliação da próxima história da série, a ser lançada em julho apenas, e em apenas um dia. Amigo, autor, editora, turma do Reedit… eis uma lição de vida coletiva.

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dica do Rodrigo Cavalcantis

Sem saber escrever próprio nome, aluno será aprovado em escola do AM

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Publicado no G1

Preocupado com o futuro do neto, o comerciante Antônio Marques, de 55 anos, tenta reforçar os estudos do neto em casa. Aos nove anos, o garoto não sabe escrever o próprio nome e tem dificuldades de fazer operações básicas de Matemática. Segundo o comerciante, o aluno será aprovado em uma escola pública de Manaus para o terceiro ano do Ensino Fundamental.

Sob o olhar atento do avô, o garoto procura aprender em casa os ensinamentos repassados na escola. No boletim, ele apresenta boas notas, mas na prática o resultado é diferente: contas de somar e subtrair ainda são desafios para o menino. A situação gera preocupação no avô.

Menino não consegue escrever o próprio nome, segundo avô (Foto: Reprodução/TV Amazonas)

“Um prédio não pode começar a ser construído do quinto andar, tem que ter a base. Esse menino não tem base alguma. Ele não sabe nem assinar o nome. Não dá para ser ninguém assim”, disse.

Em 2010, o Ministério da Educação (MEC) decidiu que o processo de alfabetização seria contínuo. Nos três primeiros anos, nenhum aluno pode ser reprovado. Para o neto de Antônio Marques e muitas outras crianças, o resultado disso é ‘prejuízo na certa’. É o pensa a psicopedagoga Ivone dos Reis, que há 30 anos lida com crianças que possuem déficit de atenção.

Segundo a profissional, há males irreparáveis se a criança não conseguir aprender o assunto da escola. “Muitos professores em sala de aula, pouca estrutura para se trabalhar. Os pais deveriam exigir a reprovação se constatassem que as crianças não estão aptas a seguir na escola”, explicou.

Esse é o medo de Antônio Marques. O sonho de ver o neto, órfão de pai, se tornar um adulto bem sucedido, não pode parar. Ele contou que a família não teve muitas oportunidades. “Eu sonho em vê-lo concluir o Ensino Médio e entrar na faculdade”, afirmou.

Por meio de nota, a Secretaria Municipal de Educação (Semed) informou que conforme estabelece a resolução do MEC, por meio do Conselho Nacional de Educação Básica, nº 7, de 14 de dezembro de 2010, o processo de alfabetização é contínuo e que deve ser concluído ao final dos três anos iniciais do Ensino Fundamental.

‘Fui corneado por meu fígado’, diz cartunista Jaguar

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O cartunista Jaguar, 80, em sua casa, no Leblon, no Rio de Janeiro

Marco Aurélio Canônico, na Folha de S.Paulo

Pouco depois de completar 80 anos, em fevereiro desse ano, Sérgio Jaguaribe, o popular Jaguar, recebeu a notícia: ao fim de seis décadas tendo bebido o equivalente a “uma piscina olímpica” de álcool, seu fígado sucumbira à uma cirrose avançada, acompanhada de câncer.

Ou operava e parava de beber para sempre ou morreria.

“Eu tinha tanto orgulho do meu fígado, me senti hepaticamente corneado”, diz o cartunista, tão célebre pelo humor implacável quanto por sua paixão por um boteco e um trago –não por acaso, um de seus livros chama-se “Confesso que Bebi – Memórias de um Amnésico Alcoólico” (Record, R$ 29,90, 160 págs.).

Jaguar recebeu a Folha no apartamento em que vive com sua mulher, a médica Célia Pierantoni, no Leblon, sentado ao redor de uma mesa que comprou para o boteco que nunca abriu. Nas paredes, desenhos feitos por ele e por vários colegas famosos.

Recusando-se a ser chamado de “senhor”, falou sobre sua nova rotina sem o álcool, seus planos e suas histórias, sempre com a verve afiada que usa tanto para falar de si mesmo quanto dos outros.

Lembrou ainda de episódios marcantes deste ano, como as mortes de dois companheiros de “O Pasquim” (Millôr Fernandes e Ivan Lessa) e o aniversário de 80 anos de outro (Ziraldo).

Ao fim das mais de duas horas de conversa abaixo resumidas, fez apenas um pedido: ser fotografado com um copo de cerveja –sem álcool– na mão. “Senão o pessoal não me reconhece.”

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Folha – Como está sua saúde?
Jaguar – Em vez de morrer até o fim do mês, talvez eu tenha mais uns seis meses (risos). Eu estou com cirrose e mais uns três ou quatro tumores foram extirpados. Fiz um exame na semana passada que mostrou que eu estou como o Brasil: parado. Não melhorou nem piorou.

A notícia pegou todo mundo de surpresa, não?
Inclusive eu. Andei fraco, me sentindo pesado, e meu médico me mandou ir a São Paulo fazer exames. Tudo apoiado por minha mulher, que é médica. Foi a maior burrice que já fiz. Eu não saberia até hoje que estava doente, estaria tomando minha birita.

Eu fui ao Sírio Libanês, me enfiaram naquele canudo que faz uns barulhos estranhíssimos, você tem de ficar imóvel. Esse exame exige nervos de aço, depois dele você pode ouvir o relator do mensalão por 12 horas seguidas sem mostrar sinais de tédio.

E o mensalão tem rendido muito tema para charge?
Isso aí é até covardia, né, rapaz? Os humoristas não podem se queixar. Se tivesse de fazer, faria três por dia, as ideias vão aparecendo sem o menor esforço. Profissionalmente, vou te contar, sou muito bom nisso. Sou metódico, acordo e leio todos os jornais. E, desde que comecei nessa profissão, nunca parei.

Nem pretende?
Não. Vou fazer o quê com as piadas que eu bolo? Acho ótimo, é uma maneira de eu sacanear os caras, né?

Tem vítimas preferenciais?
O poder. “Hay gobierno [soy contra]…” Isso é batata. Conheci o Lula quando o Henfil o levou para o “Pasquim”, eu era amigo dele, mas depois que virou poder…

Como vai a vida sem álcool?
Estou fazendo experiências, drinques para abstêmios. Faço um Bloody Mary com o suco de tomate temperado com tabasco, limão, pimenta em pó. E cerveja sem álcool. Porque, ao contrário de muita gente, eu gosto da cerveja pelo sabor. Para ficar de porre, eu tomava coisas mais expressivas.

Foi uma adaptação difícil?
Como dizia Dostoiévski, e o Zé Keti também, o homem se acostuma com tudo. Eu bebia porque gostava de ficar bêbado. O grande problema é que eu posso beber o quanto quiser que não fico bêbado.

Fiz uns cálculos: a quantidade de cerveja que bebi nos últimos 50 anos dá para encher um carro-pipa. Bebi quase uma piscina olímpica. Entre cinco e dez cervejas por dia. Fora Steinhäger, cachaça, tudo que você pode imaginar.

Eu me sinto corneado pelo meu fígado. Eu tinha um orgulho dele, rapaz. Eu não tenho sinais de cirrose, mas a redundância magnética [risos] me entregou. Eu sou o pé na cova com o aspecto mais saudável que eu conheço. (mais…)

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