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Posts tagged neurociência

O que a neurociência tem a dizer sobre ‘Alice no País das Maravilhas’

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(Foto: FLICKR/ CREATIVE COMMONS)

Publicado na Galileu

Os segredos da mente humana são um dos tópicos mais interessantes da ciência, inclusive na ficção: o perfil dos personagens de Alice no País das Maravilhas também já renderam vários estudos sobre transtornos neurológicos e psicológicos.

A candidata ao doutorado em neurociência clínica na King’s College de Londres, Holly Barker, propôs mais dois diagnósticos que ela pensa serem evidentes nas histórias de Lewis Carroll, autor dos clássicos de Alice. Confira:

Despersonalização
Em texto publicada na Neuroscience News, Barker identifica que, “em diversos pontos da história, Alice questiona sua própria identidade e se sente de alguma forma ‘diferente’ de quando ela despertou”.

De acordo com a pesquisadora, isso pode caracterizar o transtorno de despersonalização, um distúrbio que faz com que a pessoa sinta que não pertence ao próprio corpo, pense que não está vivendo aquele exato momento e apresente uma falta de memórias e pensamentos.

Esse transtorno pode estar relacionado ao abuso ou trauma infantil, agindo como um mecanismo de defesa para que a pessoa se desconecte de evento adversos.

Prosopagnosia
Outro transtorno diagnosticado por Barker é a prosopagnosia do personagem Humpty-Dumpty. A doença, que pode ser tanto hereditária quanto causada por traumas, impede que a pessoa reconheça rostos.

Diagnósticos anteriores
Alguns pesquisadores não só tentaram diagnosticar as doenças retratadas nas histórias de Carroll, como também nomearam uma síndrome com o nome do clássico.

Em 1955, o psiquiatra britânico John Todd caracterizou a Síndrome de Alice no País das Maravilhas, identificada quando o tamanho do próprio corpo e o tamanho dos objetos ao seu redor são percebidos de forma errada. Além disso, quem sofre dessa condição também pode ter enxaquecas, algo que o próprio Lewis Carroll dizia sofrer.

Há também alguns sinais de que o autor teria se inspirado em diagnósticos e transtornos comuns a trabalhadores do século 19, em plena Revolução Industrial. O tio de Carroll, por exemplo, fazia parte da Lunacy Commission, uma comissão que supervisionava instituições que tratavam transtornos mentais, e teria sido uma fonte de informações para o escritor.

Os livros preferidos dos CEOs de 7 startups brasileiras

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É fundamental ler para qualquer empreendedor, para aprender sobre novos assuntos ou para se aprofundar em temas que já sabe

Publicado no InfoMoney

SÃO PAULO – Empreender é o sonho de muitos profissionais, mas está longe de ser uma tarefa fácil. Não existe uma receita do sucesso, mas há certos hábitos, como a leitura de bons livros, que podem ajudar.

Se você pretende começar a ler, mas não sabe por onde começar, a recomendação de pessoas que já chegaram lá pode facilitar sua vida.  Diego Gomes, CEO da startup 12 minutos, conversou com outros 7 CEOs de startups do Brasil, que recomendaram os livros que mais gostam. Confira:

João Pedro Resende, CEO e cofundador da Hotmart, startup de distribuição e venda de conteúdo digital.

1. Blink, de Malcom Gladwell: entenda como funciona a intuição humana sob a luz da psicologia e neurociência para tomar decisões melhores.
2. Como Fazer Amigos e Influenciar Pessoas, de Dale Carnagie: para aumentar seu desenvolvimento pessoal aprendendo a se relacionar melhor com as pessoas.
3. Atravessando o Abismo, de Geoffrey Moore: aprenda a lidar com mercados diferentes e fomentar a sua inovação.

Tallis Gomes, criador da Easy Taxi, mas hoje em dia se dedica à startup Singu, um app que funciona como um salão de beleza, como CEO e fundador

1. How to Castrate a Bull, de Dave Hitz: entenda como Dave se tornou bilionário do Vale do Silício sem exatamente desejar isso.
2. Os 7 hábitos das pessoas altamente eficazes, de Stephen R. Covey: trabalhe seu desenvolvimento pessoal para crescer na carreira e na vida.
3. Como o Google funciona, de Eric Shmidt e Jonathan Rosenberg: lições da maior companhia de tecnologia do mundo, vindas de dentro.

Guilherme Junqueira, CEO da Gama Academy, startup que conecta talentos nas áreas de design, marketing, programação e vendas a oportunidades no mercado de trabalho

1. The Hard Thing about Hard Things, de Ben Horowitz: conselhos essenciais de quem empreendeu com tecnologia quando isso ainda não era comum.
2.Manual do CEO – Um Verdadeiro MBA Para o Gestor do Século XXI, de Josh Kaufman: manual para quem quer aprender com os erros dos outros e não cometer os mesmos.
3. High Output Management, de Andy Grove: aprenda a tornar seus colaboradores parte da equipe e a trabalhar junto deles para gerar resultados.

Gustavo Caetano, CEO da Samba Tech, startup de soluções para vídeos online

1. Inteligência Emocional, de Daniel Goleman: aprenda a ter jogo de cintura e enfrentar o que for preciso para executar um bom trabalho.
2. Drive, de Daniel Pink: descubra quais são as raízes do que nos move na vida e saiba como lidar melhor com isso para ser mais produtivo.
3. Pense como um freak, de Steven D. Levitt & Stephen J. Dubner: manual subversivo sobre como resolver problemas dos mesmos autores de Freaknomics.

Edmar Ferreira, CEO da Rock Content, startup de conteúdo no Brasil

1. Sales Acceleration Formula, de Mark Roberge: saiba como a Hubspot foi de zero a 100 milhões de dólares de faturamento.
2. Leaders Eat Last, de Simon Sinek: o autor explora o papel dos líderes na história do mundo e mostra como aprender a ser um.
3. Hipercrescimento, de Aaron Ross & Jason M. Lemkin: saiba como chegar ao hipercrescimento com fórmulas aplicáveis.

Tomás Duarte, CEO e fundador da Tracksale, startup que oferece serviços de informações sobre satisfação de clientes

1. A Pergunta Definitiva 2.0, de Fred Reichheld: tudo o que você precisa saber sobre o Net Promoter Score.
2. Satisfação Garantida, de Tony Hsieh: como cuidar da satisfação dos seus colaboradores e consequentemente dos clientes.
3. Experiência Inesquecível Para o Cliente, de Ken Blanchard e Kathy Cuff: aprenda com uma história fictícia uma lição real sobre atendimento lendário.

Rodrigo Moreira, CEO da Smartalk, startup especialista na criação de apresentações, vídeos e construção de discurso

1. Paixão por Vencer, de Jack Welch: tudo sobre o trabalho histórico que Jack desenvolveu na GE, aumentando o faturamento de 12 para 400 bilhões de dólares.
2. Ideias que colam, de Chip Heath e Dan Heath: entenda porque algumas ideias são inesquecíveis e outras apenas não colam.
3. Pitch Anything, de Oren Klaff: aprenda o método inovador criado pelo autor para apresentar ideias de forma sucinta e encantadora.

Aprendendo a aprender: como reprogramar seu cérebro

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(Foto: Pexels)

Veja quatro técnicas baseadas na neurociência que vão  te ajudar a adquirir maior conhecimento em qualquer assunto

Publicado na Época Negócios

O estúdio de um dos mais bem-sucedidos cursos online do mundo fica no porão de Barbara e Phil Oakley. É lá que eles gravam o “Learning How to Learn” (Aprendendo a aprender), assistido por mais de 1,8 milhão de estudantes em 200 países – tornando-se, assim, o mais visto da plataforma Coursera. Os vídeos dão dicas práticas para aprender assuntos difíceis, além de indicações para acabar com a procrastinação. As aulas misturam neurociência e senso comum. O curso foi criado pela Dra. Barbara Oakley, professora de engenharia da Universidade de Oakland, em parceria com Terrence Sejnowski, neurocientista do Salk Institute.

Universidades prestigiadas em todo o mundo investiram milhões e contrataram profissionais com experiência em audiovisual, editores e produtores para criar cursos online. Mas o “Learning How to Learn” é filmado em um estúdio que custou apenas US$ 5 mil. Seus idealizadores descobriram como montá-lo simplesmente buscaram no Google “como montar um estúdio de fundo verde” e “como montar iluminação para um estúdio”. Phil Oakley opera a câmera e o telepronter. Barbara Oakley faz a maior parte da edição. O curso é gratuito (mas, assim como outros do Coursera, há uma taxa de US$ 49 para a emissão do certificado).

É tudo caseiro, mas tem funcionado de forma espetacular, segundo avalia o jornal The New York Times. Os Oakley nunca imaginavam o sucesso que teriam. Barbara não é a única pessoa a ensinar como usar ferramentas da neurociência para melhorar o aprendizado, mas sua popularidade é reflexo de da habilidade em apresentar o “conteúdo com uma mensagem de esperança”. Muitos de seus alunos têm entre 25 a 44 anos e estão enfrentando mudanças em suas carreiras, procurando novas formas de aprender para conseguir melhores posições.

As aulas são cheias de metáforas – que ela bem sabe que ajudam a explicar ideias complexas. A prática tem como base a teoria da reutilização neural, que diz que as metáforas usam os circuitos neurais que já existem no cérebro, o que ajuda o aluno a entender novos conceitos de forma mais rápida. Barbara diz acreditar que qualquer um pode se treinar para aprender. “Os estudantes podem olhar para a matemática, por exemplo, e dizer ‘não consigo entender isso, então eu devo ser muito estúpido’, mas dizem isso porque não sabem como o cérebro funciona”, disse ao The New York Times.

A Dra. Barbara Oakley ministra um dos cursos mais bem-sucedidos da plataforma Coursera, chamado "Learning How to Learn" (Foto: Reprodução/Youtube)

A Dra. Barbara Oakley ministra um dos cursos mais bem-sucedidos da plataforma Coursera, chamado “Learning How to Learn” (Foto: Reprodução/Youtube)

 

Na entrevista, ela apresentou quatro técnicas para te ajudar a aprender qualquer coisa.

Focado/difuso
O cérebro tem dois modos de pensar, que a Dra. Oakley define como “focado”, no qual os estudantes conseguem se concentrar na aula, e “difuso”, um estado de descanso mental em que a consolidação do conhecimento ocorre, ou seja, quando as novas informações se acomodam no cérebro. No modo difuso, as conexões entre informações diferentes e insights inesperados podem acontecer. Por isso, é útil fazer pequenas pausas após um período de foco.

Descanse
Para conseguir esses períodos de mente focada e difusa, Barbara recomenda a chamada técnica Pomodoro, desenvolvida por Francesco Cirillo. Aplicar a estratégia é fácil. Coloque um cronômetro de 25 minutos e durante esse tempo foque no trabalho que você precisa realizar. Passado esse tempo, faça uma pausa para a reflexão difusa e se dê algo de presente. A recompensa pode ser ouvir uma música, fazer uma caminhada rápida ou qualquer coisa que te faça pensar em algo que não a tarefa que você precisa completar. Exatamente porque você não está fazendo absolutamente nada relacionado àquele trabalho, o cérebro consegue consolidar o novo conhecimento.

Além disso, o ritual de programar o cronômetro também pode te ajudar a lidar com a procrastinação. Barbara diz que mesmo pensar em fazer algo que não gostamos ativa os centros de dor no cérebro. A técnica Pomodoro, diz ela, “ajuda a mente a focar e começar a trabalhar sem pensar no trabalho em si”. “Qualquer um consegue manter o foco por 25 minutos, e quanto mais você treinar, mais fácil isso fica”.

Pratique
O cérebro tem um processo de criar padrões neurais que podem ser reativados quando necessário. Pode ser uma equação, uma frase em francês ou um acorde no violão. As pesquisas mostram que ter uma “biblioteca” de padrões neurais bem praticados é necessário para se tornar especialista em algo.

A prática traz a fluência, diz Barbara, que compara o processo ao de estacionar um carro. “Na primeira vez em que você aprende a estacionar um carro, sua memória está cheia de novas informações”. Depois de um tempo “você nem precisa pensar mais do que simplesmente ‘vou estacionar o carro’ ”, e sua mente fica livre para pensar em outras coisas.

Além disso, os padrões neurais são construídos em cima de outros, então essa rede vai aumentando junto com seu conhecimento. “Com o tempo, você vai conseguir se lembrar de partes maiores de uma música, ou de frases mais complexas em francês”. Dominar conceitos básicos de matemática pode te ajudar a fazer cálculos mais complexos. “Você consegue facilmente se lembrar do básico mesmo quando sua mente está ativamente focada tentando entender informações novas e mais difíceis”.

Conheça você mesmo

Barbara sempre pede que seus alunos entendam que as pessoas aprendem de formas diferentes. Há quem consiga aprender novas informações rapidamente, enquanto outros precisam de mais tempo para assimilar um conhecimento novo – mas que vão conseguir perceber mais detalhes durante o processo. Reconhecer as vantagens e desvantagens do seu processo de aprendizado, diz ela, é o primeiro passo para aprender a se aprofundar em temas desconhecidos.

Francisco Mora: “É preciso acabar com o formato das aulas de 50 minutos”

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Francisco Mora em seu escritório na Faculdade de Medicina da Universidade Complutense. JAIME VILLANUEVA EL PAÍS

Francisco Mora em seu escritório na Faculdade de Medicina da Universidade Complutense. JAIME VILLANUEVA EL PAÍS

 

Especialista em Neuroeducação aposta na mudança de metodologias, mas pede cautela na aplicação da neurociência na educação

Ana Torres Menarqguez, no El País

A neuroeducação, disciplina que estuda como o cérebro aprende, está dinamitando as metodologias tradicionais de ensino. Sua principal contribuição é que o cérebro precisa se emocionar para aprender e, de alguns anos para cá, não existe ideia inovadora considerada válida que não contenha esse princípio. No entanto, uma das maiores referências na Espanha nesse campo, o doutor em Medicina Francisco Mora, recomenda cautela e adverte que na neuroeducação ainda há mais perguntas do que respostas.

Mora, autor do livro Neuroeducación. Solo se puede aprender aquello que se ama (Neuroeducação. Só se pode aprender aquilo que se ama), que já atingiu a marca de onze edições desde 2013, também é doutor em neurociência pela Universidade de Oxford. Começou a se interessar pelo assunto em 2010, quando participou do primeiro Congresso Mundial de Neuroeducação realizado no Peru.

Mora argumenta que a educação pode ser transformada para tornar a aprendizagem mais eficaz, por exemplo, reduzindo o tempo das aulas para menos de 50 minutos para que os alunos sejam capazes de manter a atenção. O professor de Fisiologia Humana da Universidade Complutense alerta que na educação ainda são consideradas válidas concepções equivocadas sobre o cérebro, o que ele chama de neuromitos. Além disso, Mora está ligado ao Departamento de Fisiologia Molecular e Biofísica da Universidade de Iowa, nos Estados Unidos.

Pergunta. Por que é importante levar em conta as descobertas da neuroeducação para transformar a forma de aprender?

Resposta. No contexto internacional há muita fome para ancorar em algo sólido o que até agora são apenas opiniões, e esse interesse se dá especialmente entre os professores. O que a neuroeducação faz é transferir a informação de como o cérebro funciona com a melhoria dos processos de aprendizagem. Por exemplo, saber quais estímulos despertam a atenção, que em seguida dá lugar à emoção, pois sem esses dois fatores nenhuma aprendizagem ocorre. O cérebro humano não mudou nos últimos 15.000 anos; poderíamos ter uma criança do paleolítico inferior numa escola e o professor não perceber. A educação tampouco mudou nos últimos 200 anos e já temos algumas evidências de que é urgente fazer essa transformação. Devemos redesenhar a forma de ensinar.

P. Quais são as certezas que já podem ser aplicadas?

R. Uma delas é a idade em que se deve aprender a ler. Hoje sabemos que os circuitos neurais que codificam para transformar de grafema a fonema, o que você lê e o que você diz, não fazem conexões sinápticas antes dos seis anos. Se os circuitos que permitirão aprender a ler não estão formados, se poderá ensinar com um chicote, com sacrifício, sofrimento, mas não de forma natural. Se você começa com seis, em pouquíssimo tempo aprenderá, enquanto que se começar com quatro talvez consiga, mas com enorme sofrimento. Tudo o que é doloroso tendemos a rejeitar, não queremos, enquanto aquilo que é prazeroso tentamos repetir.

P. Qual é a principal mudança que o sistema de ensino atual deve sofrer?

R. Hoje estamos começando a saber que ninguém pode aprender qualquer coisa se não estiver motivado. É necessário despertar a curiosidade, que é o mecanismo cerebral capaz de detectar a diferença na monotonia diária. Presta-se atenção àquilo que se destaca. Estudos recentes mostram que a aquisição de conhecimentos compartilha substratos neuronais com a busca de água, alimentos e sexo. O prazeroso. Por isso é preciso acender uma emoção no aluno, que é a base mais importante sobre a qual se apoiam os processos de aprendizagem e memória. As emoções servem para armazenar e recordar de uma forma mais eficaz.

P. Quais estratégias o professor pode usar para despertar essa curiosidade?

R. Ele deve começar a aula com algum elemento provocador, uma frase ou uma imagem que seja chocante. Romper o esquema e sair da monotonia. Sabemos que para um aluno prestar atenção na aula não basta exigir que ele o faça. A atenção deve ser evocada com mecanismos que a psicologia e a neurociência estão começando a desvendar. Métodos associados à recompensa, e não à punição. Desde que somos mamíferos, há mais de 200 milhões de anos, a emoção é o que nos move. Os elementos desconhecidos, que nos surpreendem, são aqueles que abrem a janela da atenção, imprescindível para a aprendizagem.

P. O senhor alertou em várias ocasiões para a necessidade de ser cauteloso em relação às evidências da neuroeducação. Em que ponto o senhor está?

R. A neuroeducação não é como o método Montessori, não existe um decálogo que possa ser aplicado. Ainda não é uma disciplina acadêmica com um corpo ordenado de conhecimentos. Precisamos de tempo para continuar pesquisando porque o que conhecemos hoje em profundidade sobre o cérebro não é totalmente aplicável ao dia a dia em sala de aula. Muitos cientistas dizem que é muito cedo para levar a neurociência às escolas, primeiro porque os professores não entendem do que você está lhes falando e segundo porque não há literatura científica suficiente para afirmar em quais idades é melhor aprender quais conteúdos e como. Há flashes de luz.

P. O senhor poderia contar alguns dos mais recentes?

R. Estamos percebendo, por exemplo, que a atenção não pode ser mantida durante 50 minutos, por isso é preciso romper o formato atual das aulas. Mais vale assistir 50 aulas de 10 minutos do que 10 aulas de 50 minutos. Na prática, uma vez que esses formatos não serão alterados em breve, os professores devem quebrar a cada 15 minutos com um elemento disruptor: uma anedota sobre um pesquisador, uma pergunta, um vídeo que levante um assunto diferente… Há algumas semanas, a Universidade de Harvard me encarregou de criar um MOOC (curso online aberto e massivo, na sigla em inglês) sobre Neurociência. Tenho de concentrar tudo em 10 minutos para que os alunos absorvam 100% do conteúdo. Nessa linha irão as coisas no futuro.

P. Em seu livro Neuroeducação: Só se pode aprender aquilo que se ama, o senhor adverte sobre o perigo dos chamados neuromitos. Quais são os mais difundidos?

R. Há muita confusão e erros de interpretação dos fatos científicos, o que chamamos de neuromitos. Um dos mais generalizados é que utilizamos apenas 10% da capacidade do cérebro. Ainda se vendem programas de computador baseados nisso e as pessoas acreditam que poderão aumentar suas capacidades e inteligência para além de suas próprias limitações. Nada pode substituir o lento e difícil processo do trabalho e da disciplina quando se trata de aumentar as capacidades intelectuais. Além disso, o cérebro utiliza todos os seus recursos a cada vez que se depara com a resolução de problemas, com processos de aprendizagem ou de memória.

Outro neuromito é o que fala do cérebro direito e esquerdo e que as crianças deveriam ser classificadas em função de qual dos dois cérebros é mais desenvolvido nelas. Ao analisar as funções de ambos os hemisférios em laboratório, constatou-se que o hemisfério direito é o criador e o esquerdo é o analítico – o da linguagem e da matemática. Extrapolou-se a ideia de que há crianças com predominância de cérebros direitos ou esquerdos e criou-se o equívoco, o mito, de que há dois cérebros que trabalham de forma independente, e que se tal separação não for feita na hora de ensinar as crianças, isso as prejudica. Essa dicotomia não existe, a transferência de informações entre os dois hemisférios é constante. Se temos talentos mais próximos da matemática ou do desenho, isso não se refere aos hemisférios, mas à produção conjunta de ambos.

P. A neuroeducação está influindo em outros aspectos do ensino?

R. Há um movimento muito interessante que é o da neuroarquitetura, que visa à criação de escolas com formas inovadoras que gerem bem-estar enquanto se aprende. A Academia de Neurociências para o Estudo da Arquitetura, nos Estados Unidos, reuniu arquitetos e neurocientistas para conceber novos modos de construir. Novos edifícios nos quais, embora seja importante seu desenho arquitetônico, a luz seja contemplada, assim como a temperatura e o ruído, que tanto afetam o rendimento mental.

Cérebro bom exige cama e comida, afirma professora do MIT

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A neurocientista e especialista em liderança Tara Swart

A neurocientista e especialista em liderança Tara Swart

Bruno Benevides, na Folha de S. Paulo

O futuro da formação em negócios passa por cursos que ofereçam ioga, meditação, ginástica e comida saudável, segundo a neurocientista britânica Tara Swart, que não revela a idade.

Formada em medicina na Universidade de Oxford, com especialização em neurociência pelo King’s College, em Londres, Swart trocou o hospital pela escola. Ela ensina executivos a usarem melhor seus cérebros.

Um profissional no comando precisa treinar a mente da mesma forma que um atleta treina o corpo —aprender a tocar um instrumento musical ou uma nova língua são formas de melhorar o rendimento, aconselha ela, que chefia cursos sobre liderança e neurociência no MIT (Massachusetts Institute of Technology), nos EUA.

A especialista atua também como coach de executivos por meio de sua consultoria, “The Unlimited Mind”, na qual tenta usar as descobertas mais recentes da neurociência para ajudar seus clientes.

Folha – Como a neurociência pode ser útil na vida profissional?
Tara Swart – Quando você atua como líder, se entender algumas pequenas questões-chave sobre o funcionamento do cérebro conseguirá tomar as melhores decisões e também extrair mais do cérebro das outras pessoas.

Como seria a escola de negócios perfeita, do ponto de vista da neurociência?
Quando você ensina neurociência, precisa sentar com os alunos para mostrar como aprender da melhor forma possível. Neurociência tem muito a ver com mudar o comportamento e conhecer coisas novas.

Fazer exercício pela manhã, antes do início das aulas, deve ser incluído no programa porque assim os alunos vão fazê-lo. Em dias que você se exercita, há uma chance maior de você ser produtivo, porque o cérebro fica mais oxigenado, lembra mais coisas, aprende melhor e pensa de forma mais criativa. Também há outros aspectos: a comida que consome, a água que bebe, se toma café ou álcool à noite. Tudo isso afeta o cérebro. Então, é preciso dar os melhores conselhos, mas também ajudar os alunos a terem acesso a isso. Precisa disponibilizar, ter comida saudável e muita água na sala de aula, por exemplo.

Um outro nicho no qual a neurociência atua hoje é nos modos de acalmar a mente e ajudar a focar no que importa. Então, no fim do dia, no curso do MIT temos um guia que dá uma aula para acalmar a mente. Temos também esteiras, para que o aluno faça exercícios. Isso ajuda no que chamamos de aprendizado espacial. É uma técnica na qual você aprende alguma coisa, para e vai aprender outra completamente diferente, como correr. Pequenas coisas, como isso, estimulam seu cérebro a aprender mais do que se você só ficar sentado ouvindo o professor falar.

Como o estudante deve escolher um curso desse tipo?
É importante saber quanto de ciência o curso ensina. Há muito curso baseado em psicologia por aí e as pessoas estão procurando algo mais específico. Então, busque algo que não seja só psicológico, mas que traga as descobertas recentes da neurociência.

Há muitos cursos sobre o assunto, mas, infelizmente, muitos têm pessoas sem um conhecimento científico rigoroso, que falam coisas muito simplificadas ou que não são verdade. É preciso tomar cuidado sobre isso.

A neurociência vai substituir a psicologia na educação de executivos?
A neurociência e a psicologia estão no mesmo espectro. Ambas são ciências cognitivas. A neurociência é mais sobre a fisiologia de seu cérebro. Não diria que ela vai substituir a psicologia, mas sua participação nessa educação de liderança e gestão vai aumentar. Há 20 anos, pessoas achavam que pensar de forma estratégica era um sinal de liderança, em comparação com uma atitude mais prática. Nos próximos 20 anos, entender o comportamento cognitivo vai ser o que dará uma vantagem para quem quiser ser um líder.

No Brasil, cresce o número de cursos que unem neurociência com diferentes áreas, como economia, marketing. Como a neurociência pode ajudar a entender esses assuntos?
De duas formas, na realidade. Uma é que agora podemos usar instrumentos como tomografia e exame de sangue para obter mais evidências sobre coisas que sempre achávamos que estavam certas. E também temos alguns conceitos que não tínhamos antes e que, atualmente, a neurociência mostra que é como devemos pensar. Um exemplo disso na área econômica é que cada uma das decisões que tomamos são influenciadas por emoção. Nós não poderíamos confirmar isso até podermos ver a tomografia de um cérebro no momento de tomar uma decisão.

É possível ensinar um cérebro a liderar?
Pessoas têm habilidades naturais, mas há duas opções. Ou focar nessas habilidades que já possui ou aprender novos hábitos e comportamentos. Sabemos hoje que os cérebros têm plasticidade, a habilidade de mudar. Não podemos exagerar, dizer que todo mundo vai virar um líder, mas a maioria das pessoas pode atuar no comando, fazer coisas que acham que não podem fazer. Um caminho é aprender novas línguas ou um instrumento musical depois que você já é adulto, porque isso ajuda seu cérebro a ficar flexível, o que permite pensar melhor, solucionar problemas de maneiras diferentes, ser mais criativo.

Como perceber que estamos ampliando a flexibilidade do cérebro?
Qualquer coisa que exija atenção e intensidade muda o cérebro. Para saber se o que você está fazendo é intenso o suficiente, se você sentir fome ou cansaço durante aquela atividade, é provável que seu cérebro esteja trabalhando muito. É como levantar peso na academia: você pode ver seu músculo aumentando. Se faz exercícios mentais, vai notar seu cérebro mudando e evoluindo também. Alguém que nunca cozinhou, pode começar a fazer uma comida, ou praticar um esporte que nunca fez, ou viajar e conhecer gente. É preciso expor o cérebro a novas experiências.

Como melhorar o rendimento do cérebro?
É preciso começar com a parte física dele. Primeiro, ele precisa descansar, com sete a nove horas de sono de qualidade por noite. Se não fizer isso, vai ter um QI menor no dia seguinte. Também é preciso dar mais nutrientes para o cérebro, o que significa consumir uma comida mais saudável, mais alimentos como abacate, salmão, ovos, óleo de castanha e de coco, chá verde. E beber mais água. Mantenha o corpo hidratado e o cérebro oxigenado através de exercício. Não precisa ser nada pesado, só não pode ficar sentado o dia todo, é preciso ser ativo. Se você não tiver tempo, apenas meditar e respirar melhor já ajuda a oxigenar o cérebro. Por último, é preciso levar um pouco de simplicidade para a rotina. Ser um líder exige muito do tempo. Então, se não se organizar, o cérebro vai perder tempo com questões menos importantes, como escolher qual roupa vestir pela manhã.

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