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Posts tagged novo romance

5 livros incríveis para ler em julho

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Isabela Moreira, na Galileu

Julho é o mês perfeito para conhecer novos universos e retornar a alguns muito queridos. Na lista abaixo, separo algumas das obras que li e pretendo ler nas próximas semanas. Confira:

1 – Meu Livro Violeta, Ian McEwan (Cia das Letras, R$ 44,90, 128 páginas)

Autor de um dos meus livros favoritos da vida, Reparação, Ian McEwan leva um baita jeito para envolver os leitores em tramas sufocantes e, por vezes, com poucos personagens. É o caso de Meu Livro Violeta, no qual reúne um conto (que leva o nome do livro) sobre um amigo que rouba o romance de outro, e uma peça chamada “Por Você”, que trata de um maestro cuja vida é toda construída por traições.

2 – Mulherzinhas, Louisa May Alcott (L&PM, a partir de R$ 22, 332 páginas)
A obra é considerada um clássico da literatura juvenil norte-americana. Já tinha ouvido falar sobre ela, mas fiquei ainda mais interessada ao descobrir que será adaptada para os cinemas por Greta Gerwig (diretora de Lady Bird) com Emma Stone, Saiorse Ronan e Meryl Streep no elenco. Trata-se de um romance de formação que acompanha um grupo de irmãs e sua mãe crescendo e apoiando umas às outras.

Livros ideais para julho (Foto: Reprodução/Instagram/Emma Roberts)

3 – De Espaços Abandonados, Luisa Geisler (Alfaguara, R$ 59,90, 416 páginas)
Luisa Geisler é gaúcha e uma das escritoras mais promissoras da literatura nacional. Em seu novo romance, ela usa cartas, e-mails e outros tipos de registros para contar a história de Maria Alice, uma jovem que vai para Irlanda em busca da mãe. Por lá, acaba conhecendo vários brasileiros que deixaram seus lares na procura de coisas novas e acabaram se perdendo no meio do caminho.

4 – A Teus Pés, Ana Cristina Cesar (Cia das Letras, R$ 24,90, 144 páginas)
Há tempos queria ler algo da Ana Cristina Cesar e receber esse livro de presente foi um dos indícios de que já passou da hora de começar. Essa foi a única coletânea poética lançada pela escritora em vida e mistura outras obras lançadas por ela de forma independente, como Cenas de Abril, Correspondência Completa e Luvas de Pelica. Imperdível.

5 – Jane Eyre – Edição Comentada e Ilustrada, Charlotte Brontë (Zahar, R$ 79,90, 536 páginas)

Jane Eyre é um desses clássicos que temos que reler de tempos em tempos: a primeira e única vez que o li foi há cinco anos, o que torna o lançamento da edição ilustrada e comentada uma oportunidade perfeita de voltar ao universo criado por Charlotte Brontë. A obra acompanha Jane, uma órfã que, após uma infância difícil, se torna tutora de uma menina em uma casa cheia de mistérios — incluindo seu proprietário, senhor Rochester.

Com personagens bobinhos, novo romance de John Green é ingênuo demais

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Rodrigo Casarin, no Página Cinco

A clostridium difficile, chamada também de C. diff, é uma bactéria que pode atacar a parte central do intestino grosso, provocando diarreia, dor de barriga e febre. Em casos extremos, cirurgias são necessárias para sanar o problema; em casos mais extremos ainda, pode matar. Como diversas outras bactérias, a C. diff é contraída via contato com superfícies infectadas ou pela troca de secreções com uma pessoa que já a porta. Aza Holmes, uma garota de 16 anos, tem um medo perturbador de adquirir a C. diff.

Aza é a protagonista de “Tartarugas Até Lá Embaixo”, livro de John Green que acaba de sair no Brasil pela Intrínseca. Consagrado graças ao romance “A Culpa é das Estrelas”, que virou um sucesso também no cinema, o escritor norte-americano é conhecido por colocar personagens que sofrem de problemas de saúde em suas narrativas. Dessa vez, o que temos é uma adolescente que, ainda na escola, precisa tentar lidar com o Transtorno Obsessivo-Compulsivo, mais conhecido como TOC, doença mental que aflige quase 5 milhões de brasileiros – e também o próprio autor.

Junto de sua melhor amiga, Aza resolve investigar o desaparecimento de um bilionário que apostava na corrupção junto ao governo para ganhar licitações públicas e tocar obras superfaturadas – não, a narrativa não se passa no Brasil, mas em Indianápolis, capital da Indiana, no meio dos Estados Unidos. Logo que começa a apuração para descobrir onde o endinheirado foi parar, a protagonista reencontra Davis, filho do sumido e um antigo colega de escola. Quem conhece minimamente o estilo de Green, saca logo de cara que ali haverá um romance – e aviso, daqui pra frente o texto trará spoilers.

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“Prazer, tuatara”.

 

História tola e ingênua

Davis é órfão de mãe – Aza, por sua vez, é órfã de pai – e leva uma vida de extremo luxo e conforto graças ao dinheiro sujo conquistado pelo empresário desaparecido. Digo empresário porque, para o garoto, o homem está longe de desempenhar o papel de pai. Em um extremo caricatural, o homem inclusive ordena que, quando morrer, toda a sua imensa fortuna seja doada para uma tuatara, réptil cuja aparência lembra uma iguana, não para seus rebentos (Davis tem um irmão mais novo).

O garoto, então, passa a encarar o dinheiro como uma maldição, desconfia que as pessoas só se aproximam dele por causa da grana e, em uma cena de verossimilhança questionável, pega um pacote de comida do armário, tira 100 mil dólares de dentro dele e entrega a bolada a Aza. Aquilo era um teste: se ela aceitasse a bufunfa e ainda assim voltasse a lhe procurar, saberia que a menina estava interessada em algo além das verdinhas.

A cena dá uma ideia da ingenuidade que dita o tom de “Tartarugas Até Lá Embaixo”. Os personagens da obra são bobinhos, construídos seguindo uma mesma cartilha e sem grandes sutilezas: todos representam o estereótipo de alguém com determinado problema, mas também possuem alguma virtude exacerbada e profundo conhecimento em algo. Davis, por exemplo, que já é um chato normalmente, torna-se ainda mais insuportável quando desembesta a confabular sobre astronomia. Já Aza exige páginas e páginas para falar das paranoias que possui com as bactérias, seu corpo e a própria existência.

“Eu estou no refeitório e começo a pensar que tem um monte de organismos morando dentro de mim e comendo a minha comida por mim, e que eu meio que sou esses organismos, de certa forma… Então eu sou um ser humano tanto quanto sou esse aglomerado nojento de bactérias, e na verdade não tem nada que possa me deixar totalmente limpa, sabe? Porque a sujeira está impregnada no meu corpo inteiro. Não consigo encontrar em mim nenhuma parte, nem a mais profunda, que seja pura, ou intacta, a parte onde supostamente está minha alma. O que significa que as chances de eu ter uma alma são as mesmas que as de uma bactéria”, diz Aza para sua analista.

A preocupação da garota com os microrganismos que vivem dentro dela fazem com que entre em parafuso quando beija Davis. Em sua cabeça, o contato com a língua do menino poderia ser a porta de entrada para uma infinidade de problemas. Em crise, chega a fazer bochecho e a tomar álcool em gel para tentar matar qualquer bactéria. No entanto, já no final da obra, aceita o convite de sua amiga para visitar uma exposição de arte que se passa no esgoto da cidade. Como assim alguém que sequer beija o garoto que pensa amar por ter medo de bactérias se enfia em galerias repletas de fezes, urina, ratos e baratas sem demonstrar nenhuma repulsa?

Essa grande inconsistência é um dos problemas de “Tartarugas até lá Embaixo”. Trata-se de um livro absolutamente ruim? Claro que não. Alguns momentos têm lá sua graça e acho digno o autor tratar de um assunto como o TOC junto aos jovens, mas é uma história bem tola e ingênua. De um escritor tão lido e adorado – Green já vendeu mais de 4,5 milhões de exemplares no Brasil e seu novo livro sai por aqui com tiragem de 200 mil unidades –, deveríamos esperar muito mais.

Há pelo menos dois anos que vinha postergando convidar o quadrinista André Dahmer para conceder uma entrevista ao blog. Motivos não faltavam para o papo, mas a impressão que sempre tive de André é que seu trabalho é tão relevante que qualquer hora é uma boa hora para ouvir o que ele tem a dizer. No entanto, nas últimas semanas ele começou uma nova série de tirinhas: “Brasil Medieval”, a melhor crítica artística (na minha opinião, óbvio) para o momento tenebroso pelo qual o país vem passando. Definitivamente, levando em conta sua série sobre o avanço do fascismo por essas bandas, era a hora de falar com André.

“Não se trata mais do conservadorismo clássico da elite brasileira, que sempre existiu. O buraco é muito mais profundo. Se antes você identificava ideais fascistas apenas em pequenos grupos de lunáticos, como supremacistas brancos, agora você constata que milhões de pessoas simpatizam com ideologias de extrema-direita, como a possibilidade de uma intervenção militar. O mais triste é que a maioria desses simpatizantes estão localizados na ponta mais frágil do sistema: são pessoas pobres e de classe média. Gente que não será contemplada com nenhum benefício, econômico ou social, caso esta e outras barbaridades venham a ser implantadas de fato”, diz o artista sobre os motivos que o levaram a criar a nova série.

Vencedor de quatro HQMix, um dos prêmios mais importantes dos quadrinhos no Brasil, André publica suas tirinhas nos jornais “O Globo” e “Folha de São Paulo” e em sua conta no Twitter. Seu livro “Quadrinhos dos Anos 10”, lançado pela Companhia das Letras, é um dos finalistas do Prêmio Jabuti deste ano. Dentre os sucessos do autor, estão a série “Malvados” e os personagens Emir Saad e Terêncio Horto. O trabalho do artista é focado essencialmente em críticas políticas, sociais e comportamentais.

“Temos um país de 200 milhões de habitantes, mas apenas 75.000 pessoas detém quase 1/4 de toda riqueza do país. Não é preciso ser um gênio para saber que isso não pode dar certo, nem do ponto de vista social, nem do econômico. É um modelo de concentração de renda muito violento, e que gera aberrações enormes no sistema”, diz sobre um dos alvos de seus desenhos. Já sobre nosso momento político e social, observa um povo perplexo diante de “uma quadrilha de bandidos que não importa com a opinião pública”.

Como surgiu a ideia de fazer a série com os cavaleiros medievais que tratam de temas contemporâneos como personagens?

“Brasil Medieval” é uma série que retrata o avanço do novo fascismo no Brasil. Não se trata mais do conservadorismo clássico da elite brasileira, que sempre existiu. O buraco é muito mais profundo. Se antes você identificava ideais fascistas apenas em pequenos grupos de lunáticos, como supremacistas brancos, agora você constata que milhões de pessoas simpatizam com ideologias de extrema-direita, como a possibilidade de uma intervenção militar. O mais triste é que a maioria desses simpatizantes estão localizados na ponta mais frágil do sistema: são pessoas pobres e de classe média. Gente que não será contemplada com nenhum benefício, econômico ou social, caso esta e outras barbaridades venham a ser implantadas de fato, muito pelo contrário. Tanto radicalismo é fruto de um processo de despolitização e demonização da política, além de descrença generalizada nas instituições públicas, como a Justiça e a polícia, por exemplo.

Como você encara esse momento político e principalmente social que estamos vivendo?

Vejo um povo perplexo diante de uma quadrilha de bandidos. Bandidos que não se importam com a opinião pública, porque fazem parte de um governo ilegítimo e, por consequência, sem qualquer compromisso com representatividade. Ora, se sabemos agora que não houve crime de responsabilidade no governo que foi derrubado; se a perícia do Senado e o Ministério Público constataram que Dilma não cometeu tal crime, este é um governo ilegítimo, sim. Agora, além de tudo, descobrimos através de depoimentos de pessoas presas e ligações telefônicas interceptadas, que o impeachment foi construído por corruptos que queriam acabar com a Lava a Jato. Pior: sabemos agora que muitos deles receberam propina para votar pelo impeachment.

A elite econômica também costuma estar no foco de suas críticas. Acha que essa elite é um dos problemas do Brasil?

Há gente rica em todos os lugares do mundo, inclusive em países desenvolvidos. Este não é o ponto. A questão é a histórica e absurda concentração de renda no Brasil, uma das piores do planeta. Temos um país de 200 milhões de habitantes, mas apenas 75.000 pessoas detém quase 1/4 de toda riqueza do país. Não é preciso ser um gênio para saber que isso não pode dar certo, nem do ponto de vista social, nem do econômico. É um modelo de concentração de renda muito violento, e que gera aberrações enormes no sistema. Por exemplo, já temos a segunda maior população carcerária do mundo. São quase 700.000 brasileiros, a maioria negros e pobres, encarcerados. Porém, mesmo com este forte controle social do Estado sobre os mais fracos, a violência só tem aumentado. Como é possível fazer que uma nação prospere dentro de um sistema tão desigual e perverso? É simplesmente impossível.

De que maneira o público costuma reagir às suas tiras? Percebeu alguma mudança no perfil dessas reações nos últimos tempos?

Bem, tenho recebido mensagens de lunáticos em maior quantidade do que de costume. Gente que acredita realmente que há possibilidade do comunismo ser implantado no país, o que é um pensamento totalmente fantasioso e tacanho. Veja, mesmo com uma década e meia com o PT no poder, nada disso aconteceu. Muito pelo contrário: apesar do forte e necessário investimento na área social, os anos Lula também foram marcados pela prosperidade sem precedentes do sistema financeiro e dos bancos, por exemplo. Então, sentir medo da tal ameaça comunista, e através do PT, é de uma ignorância histórica muito grande. Essa obsessão doentia foi construída ao longo dos anos para que agendas extremamente conservadoras avancem, como estamos vendo agora.

No dia das crianças você postou uma mensagem com algum otimismo. O que vislumbra para um futuro? E um futuro próximo?

Como disse, acredito que tempos obscuros formam gerações mais conscientes e libertárias. As próximas gerações saberão muito bem das atrocidades que estão sendo levadas a cabo agora, e os setores responsáveis por elas. Porém, para um futuro próximo, não vejo uma situação de melhora. Assim como as instituições, o povo brasileiro também está muito adoecido e perdido nesse processo todo. O ódio e a descrença, motores do novo fascismo, estão muito entranhados na população.

Em uma época de ataque a museus, por exemplo, vejo que você é um dos artistas que se preocupa e se posiciona de maneira combativa. Na sua avaliação, a classe artística tem feito o mesmo ou tem se omitido? E especificamente os quadrinistas?

É uma questão que também está ligada ao novo fascismo brasileiro, e é claro que precisa ser combatida por todos os artistas. Porém, a onda moralista contra as artes, na minha opinião, não passa de uma cortina de fumaça para tirar o foco de questões fundamentais do atual momento brasileiro: o risco que corre o nosso sistema democrático, a impunidade arquitetada entre os Poderes para livrar corruptos e os direitos que estão sendo roubados das classes trabalhadoras todos os dias.

Consciência coletiva substituirá Deus, diz autor de ‘Código Da Vinci’

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O escritor Dan Brown ('O código Da Vinci') em imagem de arquivo (Foto: Claudio Giovannini/AFP)

O escritor Dan Brown (‘O código Da Vinci’) em imagem de arquivo (Foto: Claudio Giovannini/AFP)

Escritor fez a afirmação provocadora na Feira do Livro de Frankfurt, onde divulga seu novo romance ‘Origem’.

Publicado no G1

A humanidade não precisa mais de Deus, mas pode desenvolver uma nova forma de consciência coletiva, com a ajuda da inteligência artificial, que cumpra a função da religião, disse o escritor norte-americano Dan Brown nesta quinta-feira (12).

Brown fez a afirmação provocadora na Feira do Livro de Frankfurt, onde está divulgando seu novo romance, “Origem”, o quinto do personagem Robert Langdon, professor de simbologia de Harvard que também protagonizou “O Código Da Vinci”, livro que questionou a história da cristandade.

“Origem” foi inspirado pela pergunta “Será que Deus sobreviverá à ciência?”, disse Brown, acrescentando que isso jamais aconteceu na história da humanidade.

“Será que somos ingênuos hoje por acreditar que o Deus do presente sobreviverá e estará aqui em cem anos?”, indagou Brown, de 53 anos, em uma coletiva de imprensa lotada.

‘Origem’

Transcorrido na Espanha, “Origem” começa com a chegada de Langdon ao Museu Guggenheim de Bilbao para acompanhar o anúncio de um bilionário futurista recluso que promete “mudar a face da ciência para sempre”.

Os acontecimentos logo tomam um rumo inesperado, dando ensejo a um enredo que permite ao autor visitar os sítios históricos do país -– inclusive Barcelona, capital da Catalunha, região do nordeste espanhol atualmente em crise devido a uma iniciativa separatista.

Brown, que estudou história da arte em Sevilha, expressou sua preocupação e sua simpatia pelos dois lados do impasse político.

“Amo a Catalunha. Amo a Espanha. Espero que eles resolvam isso. É uma situação de partir o coração, mas também é um sinal dos tempos”, disse Brown, acrescentando que a crise também reflete a tensão entre o antigo e o moderno na sociedade.

O escritor, que vendeu 200 milhões de livros em 56 línguas, admitiu que não lê um romance há cinco anos, mas que investigou profundamente e passou muito tempo conversando com futuristas para criar a trama de “Origem”.

Ele reconheceu que suas opiniões não serão bem acolhidas pelos clérigos, mas pediu uma harmonia maior entre as grandes religiões e aqueles que não professam nenhuma fé.

“O cristianismo, o judaísmo e o islamismo compartilham um evangelho, liberalmente, e é importante que todos nós o percebamos”, afirmou. “Nossas religiões são muito mais parecidas do que diferentes”.

Voltando-se para o futuro, Brown opinou que a mudança tecnológica e o desenvolvimento da inteligência artificial transformarão o conceito do divino.

Em novo romance, escritora usa plágio como recurso literário

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Cristiane Costa discute conceitos como autenticidade e a morte do autor em livro escrito a partir de colagem de obras alheias

Em “Sujeito oculto”, escritora também incorpora elementos visuais à sua narrativa: “Trabalho com o conceito de literatura expandida”, diz ela - Ivo Gonzalez

Em “Sujeito oculto”, escritora também incorpora elementos visuais à sua narrativa: “Trabalho com o conceito de literatura expandida”, diz ela – Ivo Gonzalez

Maurício Meireles em O Globo

RIO – O livro “Sujeito oculto” é literatura de segunda mão. Quer dizer, segunda mão no bom sentido. É que o primeiro romance da jornalista Cristiane Costa, que acaba se ser lançado pelas editoras Aeroplano e E-Galáxia, é todo escrito a partir de “plágio” de outros escritores. Assim, Machado de Assis, Borges, Flaubert — e até o astrólogo Quiroga —, entre outros autores, têm suas obras apropriadas pela escritora para compor uma história… original?

A interrogação está aí porque são exatamente conceitos como autoria e autenticidade que “Sujeito oculto” bota em questão. Até que ponto toda literatura é feita de uma reescritura? Assim, o romance relaciona forma e conteúdo: o “plágio” do texto serve para contar a história de um outro plágio, este na ficção. O livro recebeu, em 2010, a Bolsa Petrobras de Criação Literária.

— Até que ponto você consegue ser autor sem falar coisas originais? Fiquei interessada na autoria com coisas que não sou suas, mas pela seleção. Vejo a autoria como uma curadoria — diz Cristiane. — A pintura e a música já fazem isso há tempos, mas a literatura é uma das artes mais conservadoras. A fronteira entre o que é literário e o que não é está sempre aí.

Não dá para entrar em detalhes sobre a história do romance sem estragar suas surpresas. Ele começa com um viúvo de uma escritora com bloqueio criativo, que começa a ler as anotações deixadas pela mulher em cadernos e livros. Ele parece o verdadeiro autor da história, mas não é — e o livro começa jogo de exposição e ocultamento, no qual o leitor fica sempre em dúvida sobre o verdadeiro criador. É um livro dentro de um livro sobre um livro — para resumir a grosso modo. Um ensaio fictício, no fim da obra, depois de um capítulo todo rasurado, explica a história do plágio.

A história se constrói, assim, em um “jogo de espelhos”, no qual narrativas e a própria estrutura do romance refletem-se, multiplicam-se e fragmentam-se ao infinito. Apesar de ser experimental, ele reúne elementos de narrativas clássicas: amor, ódio, traição e até uma morte misteriosa.

“Sujeito oculto”, lembra Cristiane, radicaliza o famoso conceito de “morte do autor”, desenvolvido pelo pensador francês Roland Barthes. Outra influência é o texto “O que é um autor?”, de Michel Foucault. Doutora em Comunicação e Cultura pela Escola de Comunicação da UFRJ, onde hoje dá aulas, a autora destaca que só veio a conhecer teorias que se relacionavam ao seu livro depois de já o estar escrevendo.

— Trabalho com o conceito também de literatura expandida. Em vez de ficar questionando o que é literário ou não, original ou não, é possível expandir a linguagem. E a narrativa digital, hoje, permite explorar isso. Nela, o leitor tem o poder de definir as direções — afirma Cristiane.

COLAGENS LITERÁRIAS

Até a ideia de colagens é colada de outros, brinca Cristiane. Entre suas inspirações, está o livro-objeto “Tree of codes”, no qual Jonathan Safran Foer cria uma história ao recortar — literalmente — as páginas de “Rua dos crocodilos”, de Bruno Schulz, umas das lendas da ficção polonesa. No mesmo caminho do livro de Safran Foer, “Sujeito oculto” também incorpora elementos visuais à sua narrativa: trechos grifados de livros e páginas de anotações aparecem aqui e ali ao longo dele.

— É experimental, mas acho que qualquer leitor entende. Embora seja construído com colagens, tem muita coisa minha nesse romance. É uma história que queria muito ser contada — diz a autora.

Em novo romance, Ian McEwan explora mundo jurídico e religioso

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Juíza precisa decidir sobre caso de jovem com leucemia cujos pais religiosos recusam transfusão de sangue

Premiado escritor britânico leu várias sentenças judiciais para escrever novo livro e diz que descobriu nelas um “subgênero literário” - André Teixeira / Agência O Globo

Premiado escritor britânico leu várias sentenças judiciais para escrever novo livro e diz que descobriu nelas um “subgênero literário” – André Teixeira / Agência O Globo

Maurício Meireles em O Globo

RIO – É bem possível que Ian McEwan, em 66 anos de vida, tenha entrado mais vezes na lista final do Man Booker Prize do que em uma igreja. Embora seja ateu, ele, que é um dos maiores romancistas britânicos em atividade, botou as testemunhas de Jeová no centro do conflito legal — e moral — atravessado pela protagonista de seu novo livro: “A balada de Adam Henry”, lançado no Brasil pela Companhia das Letras, com tradução de Jorio Dauster. Enquanto escrevia o romance, McEwan se lembrava de algumas vezes ter feito a seguinte pergunta a membros dessa religião, que batiam à sua porta para convertê-lo: você deixaria seu filho de 8 anos morrer, se para salvá-lo fosse preciso uma transfusão de sangue?

Todos diziam sim, que era a lei de Deus. O romancista rebatia dizendo que muita gente acharia tal resposta estarrecedora: tudo bem um adulto morrer por suas crenças, mas fazer o mesmo com uma criança não é correto, argumentava.

— Para eles, eu só pensava assim porque não entendia a morte. Diziam que a morte não é o fim, mas o começo. O começo da vida no Paraíso — lembra McEwan. — Eles estão convencidos não só de que Deus existe, mas de que conhecem os desejos d’Ele. O que na verdade é só uma versão dos seus próprios desejos.

Testemunhas de Jeová se opõem, por dogma religioso, a transfusões de sangue. E é com isso que Fiona, personagem principal do livro, precisa lidar. Juíza de uma Vara de Família com uma crise no casamento — o marido sai de casa para viver um romance —, ela precisa julgar o caso de Adam Henry. Com 17 anos, sofrendo de leucemia, o rapaz precisa de uma transfusão, mas os pais se recusam a permiti-la. O hospital recorre ao Judiciário para fazer o procedimento de forma compulsória. Assim, em “A balada de Adam Henry” vai buscar a dimensão literária do mundo da lei.

— Há poucos juízes na literatura. Normalmente, quando a ficção encontra a lei é para tratar de criminosos, detetives, espiões, advogados e vítimas. Mas o juiz é uma figura central nesse mundo — afirma Ian McEwan.

‘Às vezes, a lei é muito estúpida. Mas, quando bem aplicada, ela traz uma prosa límpida e precisa.’

– Ian McEwansobre o efeito da lei na literatura

Reconhecido como um mestre da engenharia e da arquitetura do romance, o autor britânico pesquisou muito para escrever o livro — algo comum em seu processo de criação. Ian McEwan conversou com amigos juízes. Leu sentenças judiciais. Foi quando impressionou-se com a qualidade filosófica, histórica e legal dos argumentos dos homens de toga.

— Às vezes, a lei é muito estúpida. Mas, quando bem aplicada, ela traz uma prosa límpida e precisa. Descobri (nas sentenças) um subgênero literário — diz o escritor. — A lei aplicada tem uma dose de racionalidade e compaixão. O direito da família me interessou porque é o mais próximo dos problemas cotidianos, em oposição ao direito penal. Há muito em comum entre a boa literatura e as sentenças judiciais. E, na Vara de Família, os julgamentos envolvem crianças, divórcios, o fim do amor.

Assim, Fiona é um personagem que usa sua racionalidade para organizar a vida alheia — mas que não consegue resolver seus próprios conflitos. Ela escreve muito bem, mas em casa não encontra as palavras para discutir sua vida sexual com o marido. Numa virada da trama, a juíza vai a um quarto de hospital encontrar Adam Henry a fim de clarear seu julgamento sobre o caso. Nesse encontro, ela recita um poema de W. B. Yeats para o jovem, que a partir daquilo começa a questionar suas crenças e depois compõe uma balada — daí o título do romance. O final da história é dúbio.

— Não é uma reflexão sobre a leitura como um todo, mas sobre minha própria experiência ao ler Yeats pela primeira primeira vez, aos 16 anos. Foi o poema que abriu a porta de toda a poesia para mim. Yeats tem esse efeito em adolescentes. Por isso, a balada que Adam compõe é influenciada por ele e tem a mesma métrica do poema — diz Ian McEwan.

CONDIÇÃO HUMANA

Além de ateu, Ian McEwan foi amigo próximo do escritor e jornalista Christopher Hitchens — um crítico sempre virulento da religião. Por isso, poderia surpreender o tratamento humano que o autor britânico dá às testemunhas de Jeová. Mas isso é o resultado de seu amadurecimento. Mais jovem, Ian McEwan escreveu livros conhecidos pela dimensão sombria. Agora, diz ele, sua escrita mudou para uma exploração mais profunda da condição humana.

— Acho que aprendi a perdoar, fiquei mais generoso e tolerante. Por isso, quis tratar as testemunhas de Jeová de modo mais terno. Se eu fosse mais jovem, talvez tivesse agido de forma mais agressiva contra eles, em vez de tentar entendê-los. Seria fácil fazer piada sobre a crença em relação ao sangue, mas não quis desenvolver uma tese ateísta — afirma o escritor. — Sim, meu trabalho mudou, até porque comecei muito jovem. Mas ainda estou interessado em conflitos, dilemas morais e em tentar entender quem nós somos.

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