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Como conversar com um escritor

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Os segredos da australiana Ramona Koval, que dominou a difícil arte da entrevista literária

Danilo Venticinque, na Época

DANILO VENTICINQUE é editor de livros de ÉPOCA. Conta com a revolução dos e-books para economizar espaço na estante e colocar as leituras em dia. Escreve às terças-feiras sobre os poucos lançamentos que consegue ler, entre os muitos que compra por impulso (Foto: Sidinei Lopes/ÉPOCA)

DANILO VENTICINQUE é editor de livros de ÉPOCA. Conta com a revolução dos e-books para economizar espaço na estante e colocar as leituras em dia. Escreve às terças-feiras sobre os poucos lançamentos que consegue ler, entre os muitos que compra por impulso (Foto: Sidinei Lopes/ÉPOCA)

Ter uma longa conversa com seu escritor favorito é o sonho de qualquer leitor. Alguns querem apenas agradecer pelo prazer da leitura. Outros tratam os autores como celebridades e se deliciariam com detalhes de sua intimidade. Há também os aspirantes à fama literária, que buscam dicas para conquistar o sucesso. E há o desejo mais comum: conhecer melhor os bastidores do universo criado na mente do escritor. Ao ler um bom livro, somos tomados pela curiosidade sobre o passado e as intenções secretas de cada personagem – dúvidas que só o criador pode tirar. Quando a última página é virada, até o mais quieto dos leitores tem vontade de bombardear o autor com perguntas.

A curiosidade é lisonjeira, mas poucos autores têm disposição para responder ao interrogatório. Numa profissão em que a maior parte do trabalho é feita em silêncio diante de uma tela em branco, os comunicativos são uma minoria. Reclusos, tímidos crônicos e pessoas quietas de todos os tipos estão em vantagem. É doloroso imaginar a quantidade de grandes talentos que se perderam porque preferiram o contato humano constante à solidão necessária para a criação literária. Para a decepção dos leitores em busca de respostas, e para a alegria dos leitores em busca de mais livros, a maioria dos escritores prefere o silêncio. Muitos só dão entrevistas por motivos comerciais. São pressionados pelas editoras para divulgar seus livros e acabam cedendo. As conversas costumam ser burocráticas, pouco reveladoras e, às vezes, até hostis. As mentes mais brilhantes da literatura, quando contrariadas, não medem palavras para escapar da intrusão de seus interlocutores.

A australiana Ramona Koval, autora de Conversas com escritores. O livro reúne entrevistas com 26 autores (Foto: Reprodução)

A australiana Ramona Koval, autora de Conversas com escritores. O livro reúne entrevistas com 26 autores (Foto: Reprodução)

A aversão de autores famosos às entrevistas já rendeu belas citações. Vladimir Nabokov criticava sua falsa informalidade. Uma de suas frases mais célebres expõe outro motivo para preferir a palavra escrita às conversas: “Eu penso como um gênio, escrevo como um autor renomado e falo como uma criança”. J. M. Coetzee definiu as entrevistas como “um intercâmbio com um completo estranho, todavia autorizado pelas convenções do gênero a transpor os limites do que é adequado numa conversa entre estranhos.” Rudyard Kipling, de O livro da selva, é o autor de uma das críticas mais duras às entrevistas literárias. “É um crime, uma ofensa, um ataque à minha pessoa, e da mesma forma merece punição. É vil e covarde. Nenhum indivíduo respeitável pediria e muito menos daria uma entrevista.”

Em sua longa carreira no rádio, a australiana Ramona Koval tornou-se especialista em vencer a resistência de escritores e convencê-los a ter conversas francas. Se o sonho de todo leitor é conversar com seu autor favorito, Ramona é uma leitora de sorte. Seu programa The book show (O show dos livros), veiculado entre 2006 e 2011 na Rádio Nacional da Austrália, apresentou dezenas de entrevistas com grandes escritores das últimas décadas. Entre os convidados, destacam-se Toni Morrison, Saul Bellow, Harold Pinter e Mario Vargas Llosa, laureados com o Nobel de Literatura. Suas melhores entrevistas estão reunidas no livro Conversas com escritores (Biblioteca Azul, 448 páginas, R$ 54,90, tradução de Denise Bottmann).

Ao contrário das entrevistas de publicações literárias renomadas como a Paris Review, exaustivamente revisadas e corrigidas pelos autores antes de sua publicação, as conversas de Ramona com escritores chamam atenção pelo tom leve e pela variedade de temas discutidos. Perguntas sobre os livros e seus personagens dividem espaço com divagações filosóficas: como avaliar a vida? Como adquirir sabedoria? Como enfrentar a morte? São, segundo Ramona, “grandes perguntas às quais estes grandes escritores dão as melhores respostas”.

Numa entrevista a ÉPOCA, Ramona revelou alguns de seus segredos para conduzir boas conversas com escritores. O primeiro é esmiuçar a vida e a obra de cada um deles. “Gosto de ler tudo o que o autor escreveu, tudo o que foi escrito sobre ele, e todas as resenhas de seus trabalhos. Sou como um soldado se preparando para uma batalha”, afirma. A preparação extensa é fundamental para seguir sua segunda dica: não se deixar intimidar, por mais brilhante e premiado que seja o interlocutor. “A maioria dos autores se sente honrada quando tem um leitor dedicado à sua frente.” Por fim, o entrevistador deve estar constantemente alerta, mesmo quando a entrevista parece fluir bem. “Você pode aproveitar o momento, mas nunca relaxe até que a conversa tenha acabado”.

A atenção e a pesquisa cuidadosa de Ramona a ajudaram a contornar situações difíceis. Ao encontrar a americana Toni Morrison, começou a conversa perguntando como a autora gostaria de ser apresentada. Escapou, assim, das respostas atravessadas que Morrison dava a jornalistas que a tratavam com informalidade ou deixavam de apresentá-la como “a primeira negra americana a ganhar o prêmio Nobel de Literatura”. Noutra entrevista publicada em Conversas com escritores, a romancista Joyce Carol Oates respondia a todas as perguntas de forma ríspida, até que Ramona mostrou ter lido dois de seus livros mais obscuros. “Puxa, vou lhe dar uma medalha. Ninguém leu esses livros, só o editor e eu”, disse Joyce. Foi o início de uma longa conversa sobre essas obras, com confissões de Joyce sobre a importância da dor para a escrita. “Muitos artistas são masoquistas. Não é que a gente goste de dor, mas aprende a lidar com ela.”

Algumas entrevistas são prazerosas do início ao fim, sem momentos de tensão. Uma delas foi com Joseph Heller, autor de Catch-22, descrito pela autora como “bonitão e charmoso”, mesmo aos 75 anos. Depois de uma discussão sobre a política americana e a importância de Heller na literatura do país, os dois engataram uma agradável conversa sobre amor, sabedoria e bondade. A entrevista também revelou que o autor, conhecido pelos textos bem-humorados, raramente ria enquanto escrevia. “Escrever é um trabalho difícil”, disse ele. O peruano Mario Vargas Llosa deu um depoimento sincero sobre seu desejo de ser escritor na infância, contrariando a vontade de seu pai: “Escrever era uma forma de me defender, de resistir a essa autoridade”. O romancista Saul Bellow chegou a se entusiasmar exageradamente com o conhecimento de Ramona sobre sua obra. Após uma longa conversa em seu escritório, Bellow disse que, se fosse mais jovem, a convidaria para sair. Ela mostrou estar bem preparada e disse que sabia que o autor era casado.

Ler entrevistas de grandes autores não é essencial para compreender e admirar sua obra. Os reclusos estão certos em sua crença de que os livros devem falar por si. As entrevistas cumprem outra função. Servem para que cada leitor, mesmo sem ter acesso a seu autor favorito, possa realizar parcialmente o sonho de conversar com ele. “Uma entrevista literária não vai lhe dizer como é um escritor. Muito mais interessante para alguns, ela vai lhe dizer como é entrevistar um escritor”, diz Martin Amis, um dos convidados de Ramona. Nem sempre funciona. “Alguns autores não tem nada de iluminador a dizer sobre suas criações. Outros escrevem livros lindos, mas não são pessoas calorosas. É melhor não encontrá-los, para preservar a ilusão romântica”, diz a autora. Mesmo assim, as tentativas bem-sucedidas conseguem revelar os bastidores de grandes obras da literatura e curiosidades sobre os escritores, como seus hábitos de trabalho e suas opiniões sobre temas variados. É em nome dessa modesta contribuição para o mundo da literatura que pessoas como Ramona se esforçam para interromper o silêncio produtivo dos escritores e garantir que as perguntas dos leitores não fiquem sem respostas.

 

Editora vende livros em triciclo em forma de carrinho de sorvete

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Venda de livros alternativos acontece nos ‘points’ da cidade, e roteiro é divulgado pelo Facebook

Mariana Filgueiras, em O Globo

"A Bolha Móvel", projeto itinerante d'A Bolha Editora Divulgação

“A Bolha Móvel”, projeto itinerante d’A Bolha Editora Divulgação

Desde que fundou no Rio uma editora alternativa com foco em “narrativas visuais”, a escritora Rachel Araújo sabia que não seria fácil formar seu público. Aos poucos, no entanto, foi ampliando os domínios d’A Bolha. Para atrair os leitores até a sede-livraria, no alto da antiga fábrica Bhering, no Santo Cristo, bolou eventos culturais de fim de tarde, com cinema e jazz, organizou feiras de arte impressa e montou até uma piscina de plástico no terraço para quem quisesse levar as crianças. A ideia agora é levar os produtos exclusivos da editora — que tem no catálogo títulos como “O Babaca”, primeira obra do quadrinista punk americano Gary Panter publicada no Brasil, ou “Gigantes do jazz”, biografias ilustradas de músicos do gênero, assinadas pelo historiador americano Studs Terkel — para toda parte. Para isso, as sócias Rachel e Stephanie Mauer compraram um carrinho de sorvete, batizaram a minilivraria de A Bolha Móvel e encheram a caçamba de livros.

A partir deste fim de semana, A Bolha Móvel estará em algum lugar da cidade às quarta-feira, aos sábado e aos domingo. Sempre com muito humor, como se vê pelos condutores de máscaras nas fotos acima. O local exato será divulgado na página da editora no Facebook, mas pode ser na Rua Joaquim Silva, na Lapa; nos jardins do MAM, no Aterro; na Praça Paris, na Glória; ou na orla de Copacabana…

— O importante é repensar estruturas tradicionais de distribuição. Se os leitores não chegam até o Santo Cristo, nós chegamos até eles — diz Rachel, que lançou a ideia há alguns dias, numa versão itinerante da livraria, montada na loja da estilista Isabela Capeto, em Ipanema. — Vamos usar as redes sociais para indicar nossa localização, como fazem aqueles food trucks americanos. Quem sabe não conseguimos levar essa ideia para Brasília e São Paulo? — aposta Rachel, que lança este mês “Shrimpy e Paul”, do cartunista canadense (e nonsense) Marc Bell, e acaba de produzir o lançamento de “Cartas de um sedutor”, da escritora Hilda Hilst, para lançamento nos Estados Unidos em coedição com a renomada Nighboat Books.

— É o projeto “Obá obá”, como a gente diz, para combater a inexistência da literatura brasileira na América do Norte.

dica do Ailsom F. Heringer

 

Literatura também é moda

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Tratar livros como os decotes da próxima estação é abrir mão da experiência profunda que a leitura pode dar

livro

Walcyr Carrasco, na Época

Atraído por um casaco fantástico na vitrine, entrei numa loja do Shopping Higienópolis, em São Paulo. O vendedor me explicou que era o único exemplar, por ser peça de desfile. Suspirei, sem esperanças, comparando mentalmente minha barriga com o provável tanquinho do modelo na passarela. Ele insistiu, tirou da vitrine. Não serviu, é claro.

Enquanto esperava, observei a decoração da loja. Aqui e ali, havia alguns livros encadernados, antigos. Um deles era Three loves (Três amores), do escocês A.J. Cronin, lançado em 1957. Levei um choque. Nos anos 1960, Cronin era popularíssimo no Brasil. Hoje, ninguém mais fala nele.

Três amores é um livro lindo. A protagonista, Lucy, vive seu primeiro amor com o marido, de cuja morte é indiretamente culpada. O segundo com o filho, a quem se dedica loucamente, para receber, em troca, ingratidão. Finalmente, vem a fé. Entra para um convento, para uma vida de adoração.

Nunca li uma descrição tão minuciosa da vida entre as freiras, em que os assuntos religiosos se mesclam com necessidades triviais, como economizar sabonetes. Mais uma vez, a heroína se frustra. É um livro profundo, intenso. Surpreso por vê-lo transformado em objeto de decoração, ainda disse ao vendedor:

– Este livro aqui é incrível. Você precisa ler.

– Ah, tá – respondeu o rapaz, sem interesse algum.

E botou o casaco de novo na vitrine.

Fiquei pensando: a gente fala muito nas lapelas dos paletós que ora são mais estreitas, ora mais largas, no caimento das saias, nos tecidos e nas cores que estão em moda. Mas hoje tudo se tornou fashion. Autores entram e saem de moda como os decotes femininos.

Fui procurar Cronin no site de uma grande livraria. Só encontrei um de seus livros em português: A cidadela. Autor da frase “Só o amor e a arte tornam a existência humana suportável”, Somerset Maugham (1874-1965) também saiu de moda. Seu romance Servidão humana (1915) tornou-se filme de sucesso. Em O fio da navalha, foi o primeiro a trazer o misticismo oriental para a literatura ocidental.

Minha adorada Doris Lessing, inglesa, Prêmio Nobel de 2007, influenciou toda uma geração nos anos 1960 e 1970 com O carnê dourado (1962). Falava abertamente do desejo feminino, das questões das mulheres. Quando veio ao Brasil, há cerca de três décadas, esperei horas na fila de autógrafos, simplesmente para dizer, num bilhetinho: “I love you”. Ela me respondeu: “Thank you!”. Tiete total! Ultimamente, se falo nela, ninguém tem ideia de quem é.

E o que dizer dos autores nacionais? Os grandes nomes da literatura brasileira foram salvos por constar da lista do vestibular. Ler Vidas secas (1938), de Graciliano Ramos, foi marcante na minha vida. Também senti o mesmo por Grande sertão: veredas (1956), de Guimarães Rosa, que se tornou até uma inesquecível série de TV.

Livros como esses não foram totalmente esquecidos, mas não fazem parte da vida das pessoas. Durante décadas, era importante lê-los, até para não ficar por fora. No Google, encontrei resumos desses livros e outros clássicos, para o estudante apressado. Como se um resumo substituísse o universo de um escritor. Autor virou truque para ter nota.

Eu poderia gastar o resto desta coluna citando autores maravilhosos, esgotados ou acumulando pó nas prateleiras. A literatura não morreu, longe disso. Pelo que ouço das editoras, nunca se vendeu tanto no país. Mas, hoje, os livros acontecem e são esquecidos rapidamente. Ninguém tem obrigação de ler só alta literatura. Quando dou palestras em escolas, sempre digo às professoras:

– Livro não é remédio. Não tem de ser engolido à força. A leitura também deve se transformar num ato de prazer.

O grande hit atual é Cinquenta tons de cinza (2011), de Erika Leonard James, que trouxe o sadomasoquismo para o universo até então dominado pelos romances açucarados. Confesso: nem com o livro o mundo dos chicotinhos me atraiu. Enfim, é moda.

Sinto falta do tempo em que o livro não era parte do modo fashion de viver. Grandes autores, e também os comerciais, como Cinquenta tons, proporcionam um novo olhar sobre a vida. Tratá-los como os decotes da próxima estação é abrir mão da possibilidade de passar pela experiência profunda que um livro pode dar. É um passo atrás, porque um livro pode marcar a vida toda. É só a gente permitir.

A farsa da Garota Legal

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Claudia Penteado no Mulher 7×7

 

O prazer pode apoiar-se sobre a ilusão, mas a felicidade repousa sobre a realidade. (Chamfort)

 

Dia desses me atraquei com um livro atordoante, indicado pela amiga Martha Mendonça. Envolvida de corpo e alma numa pós graduação em literatura, devo confessar que tenho me dedicado muito pouco a leituras fora do escopo do estudo – especialmente agora, na fase de redação da monografia. Parecia uma grande transgressão ler, no meio disso tudo,  Garota Exemplar, da jornalista americana Gilliam Flynn – o livro que desbancou em vendas, quem diria, os 50 Tons de Cinza. Martha me garantiu que valia à pena. Depois de um breve pit stop numa pequena livraria – pensando, claro, “eles não devem ter” – rumei para casa na sexta-feira à noite com a obra malocada na bolsa, como se tivesse cometido um crime. Iniciei a leitura discretamente, ainda questionando minha decisão, e olhando de soslaio para meus livros acumulados na cabeceira, traídos, aguardando sua vez.

Resumindo: me afastando momentaneamente de Humerto Eco, Pierre Levy, Roger Chartier e tantos outros, passei o fim de semana mergulhada numa história de suspense que grudou em mim feito chiclete. O livro é bem escrito, dinâmico, competentemente estruturado, tem tudo para ser um romance de sucesso dos nossos tempos. Gilliam é ótima, escreve como homem e como mulher com perfeição e, tirando alguns momentos de ironia  tipicamente americana ou de distraída previsibilidade, criou um belo produto, do início ao fim.

Gostei de vários aspectos do livro, mas o que mais me interessou foi seu recado insistente e escancarado: a inexistência da Garota Legal. Esta seria uma abstração dos homens, uma fantasia tosca que nós, mulheres, numa cumplicidade disfarçada, ajudamos a construir. O livro é quase um ato de protesto contra esse estereótipo que, de alguma forma, se perpetua – em uma espécie de conspiração perversa forjada tanto por eles quanto por…nós mesmas. Ao longo da narrativa, a personagem se dirige frequentemente às mulheres leitoras, chamando a atenção para essa invenção, insustentável e frágil, construída através de um acordo tácito, mundano e superficial de “sobrevivência” entre homens e mulheres.

Mas, afinal, quem é essa Garota Legal? É a mulher disposta a quase tudo, com um largo sorriso no rosto – ou no corpo inteiro. Malha, trabalha, tem uma vida repleta de novidades, gosta de sair à noite, conta piadas, ama sexo casual a qualquer hora, sempre carrega um livro ótimo na bolsa (e consegue terminá-lo), está sempre cheirosa e de bom humor. Como descrita no livro: brilhante, criativa, gentil, atenciosa, esperta e feliz. Eternamente jovem, leve, relaxada. Divertida. Não tem ciúmes de seu parceiro – ele pode sair a hora que quer, voltar do jeito que bem entender e, ainda assim, ela estará vestindo algo sexy e achando graça naquele comportamento permanentemente adolescente e tipicamente masculino. De fato, isso a atrai. A Garota Legal tem um humor inabalável: não faz cara amarrada, ainda que tenha ficado horas sendo transferida de atendente em atendente no teleatendimento do cartão de crédito, não consiga um táxi para uma reunião muito importante ou perca um avião. Ainda que esteja exausta, a Garota Legal tem sempre a energia necessária para fazer uma boa massagem nos pés do parceiro quando ele chega igualmente cansado – e tudo sempre pode evoluir para algo mais…

Homens fantasiam com Garotas Legais e acreditam que elas existem porque elas fingem que – de fato – existem. Usam a persona até onde for possível – até que um dia a máscara começa a cansar. Porque é verdadeiramente exaustivo ser a Garota Legal. Ao estranharem o humor alterado de sua Garota Legal, os homens pensam que a relação caiu na rotina – ou que a Garota começou a envelhecer. Ela que, na verdade, nunca passou de uma ficção. Ela tentou manter a farsa o quanto pode, para manter seu relacionamento – afinal, ficar sozinha é um horror. No mundo de hoje, as solteiras são aberrações da natureza, malucas que não conseguiram “se arranjar”. Só as sorridentes e amestradas Garotas Legais se casam, arrumam namorado, fazem maridos entediados traírem suas esposas – essas, por sua vez, ex-Garotas Legais.

(mais…)

 

Estudantes de colégio municipal carioca onde livros foram jogados da janela não têm kit escolar

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Fachada da Escola Municipal Renato Leite, na Taquara Foto: Thayná Rodrigues

Fachada da Escola Municipal Renato Leite, na Taquara Foto: Thayná Rodrigues

Luã Marinatto e Fernanda Pizzotti, no Extra

Os livros atirados pela janela da Escola Municipal Renato Leite, numa cena que gerou revolta nas redes sociais e deu início a uma sindicância interna da Secretaria de Educação, estão longe de ser o único problema enfrentado pelos alunos da colégio da Taquara, na Zona Oeste. Os estudantes ainda não receberam da prefeitura os uniformes nem o kit escolar, que inclui mochila, cadernos e lápis, entre outros itens.
Até agora, o único material entregue é uma apostila multidisciplinar de uso bimestral, chamada pela Secretaria de Educação de caderno pedagógico e elaborada por educadores da rede.

De acordo com o órgão, os livros didáticos do Ministério da Educação (MEC) estão disponíveis na escola, mas utilizá-los ou não fica a critério de cada professor.

– Eles só receberam as apostilas até agora. Não veio livro nenhum – protesta, mesmo assim, a dona de casa Joelza Oliveira, mãe de três alunas, do 3º, do 6º e do 8º anos do Ensino Fundamental.

Uma estudante do 7º ano faz crítica semelhante:

– Eles nem usam os livros. Na maioria das vezes, a gente tem que copiar a matéria inteira do quadro e fazer os exercícios da apostila.

Apesar das queixas, a secretaria não deu prazo para solucionar a falta de kit e uniforme. Por nota, o órgão afirma que o material está “em processo de entrega para todas as escolas da rede” e que a unidade da Taquara “também trabalha com a Educopédia, plataforma de aulas digitais online”.

As apostilas pedagógicas recebidas pelos alunos Foto: Thayná Rodrigues

As apostilas pedagógicas recebidas pelos alunos Foto: Thayná Rodrigues

Pais e adolescentes criticam descarte

Os internautas não foram os únicos que se revoltaram com o vídeo que mostra livros sendo jogados do quarto andar da Escola Renato Leite. Na porta da unidade, estudantes e responsáveis também criticaram a cena.

– É um absurdo! Tinha que dar um jeito de reaproveitá-los – reclamou uma aluna do 9° ano, que viu o flagrante no Facebook.

– Qualquer material didático jogado assim é desperdício. Eles deveriam ter um destino para livros antigos. Tem tanta criança precisando de livro por aí – opinou a mãe de dois alunos, um de 9 e outro de 11 anos.

Estudantes contaram ainda que uma funcionária da escola passou de sala em sala orientando os alunos a não falarem com a imprensa. A mesma pessoa teria dito que os livros eram de 15 anos atrás e seriam doados. O diretor Vitor Hugo Almeida, que assumiu o cargo há dois meses, chegou a dizer, em mensagens que foram apagadas da internet, que o destino do material seria a reciclagem. Confira o vídeo do descarte.

A íntegra da nota da Secretaria Municipal de Educação

“A Secretaria Municipal de Educação esclarece que não há falta de material didático na Escola Municipal Renato Leite. Assim como toda a rede municipal, a unidade escolar conta com os livros do MEC e os cadernos pedagógicos, preparados por professores da rede. A escola também trabalha com a Educopédia, plataforma de aulas digitais online de cada disciplina, com material de suporte aos professores, planos de aula, jogos pedagógicos e vídeos, entre outras ferramentas. A Secretaria esclarece ainda que os kits escolares, compostos de caderno, mochila, entre outros itens, estão em processo de entrega para todas as escolas da rede municipal. Eventualmente esta escola, pelo que pudemos verificar, ainda não recebeu as mochilas dos alunos.”

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