Canal Pavablog no Youtube

Posts tagged O Capital

Uma dúzia de livros que ninguém leu, mas mentem que sim

0

snobe-610x350

Ademir Luiz, na Revista Bula

Faz parte das regras de etiqueta da alta sociedade PIMBA (Pseudo-intelectuais metidos a besta) exaltar efusivamente ou criticar severamente livros que não leu, que leu apenas a orelha, leu trechos ou breves comentários na internet. O importante é posar de especialista, seja para elogiar ou criticar. Na condição de Mister M da comunidade PIMBA, revelo aqui uma dúzia de livros que, considerando a margem de erro, provavelmente aquele seu amigo descolado, reluzente em sua fina camada de verniz cultural, não leu, mas diz com todas as letras (menos as letras do livro) que sim.

1 — Finnegans Wake, de James Joyce

“Finnegans Wake” é o Clovis Bornay dessa lista. É “hors-concours”. Praticamente ninguém leu, mas todo mundo exalta seu magnífico experimentalismo linguístico. Se seu amigo PIMBA comentar com ares de inteligência que acha “Finnegans Wake” melhor que “Ulisses” é xeque-mate. Essa é a prova de que não leu mesmo.

2 — O Capital, de Karl Marx

Sabe aquele seu conhecido comunistinha de sandália de dedo? Sim, aquele com a tatuagem do Che, que bate ponto em passeatas em geral e na marcha das vadias em particular (para ver peitinhos com consciência social!). Não, ele não leu “O Capital”. Esse é um fato inapelável da teoria materialista dialética histórica.

3 — Em Busca do Tempo Perdido, de Marcel Proust

Quase todo mundo leu “O Caminho de Swann”. O problema é que os PIMBA de plantão costumam tomar a parte pelo todo e, convenientemente, se esquecem que existem mais seis volumes no romance catedral de Proust. O quê? Sete livros? Sete não é o número do infinito? Infinito é muita coisa para ler!

4 — A Nervura do Real, de Marilena Chauí

Só o Olavo de Carvalho leu, como estratégia de guerra.

5 — O Jogo da Amarelinha, de Julio Cortázar

Experimente pedir para um pretenso leitor de “O Jogo da Amarelinha” que explique o livro. Provavelmente vai se confundir, tropeçar, cair de uma casa para outra, ir para frente e para trás; mas sair do inferno para o céu, nada!

6 — A Origem das Espécies, de Charles Darwin

A seleção natural existente nos encontros sociais de gente inteligente e descolada exige a defesa do Evolucionismo como regra básica para garantir a preservação da espécie (ou pelo menos a transa no final da noite). Do contrário o indivíduo será rotulado como o “amigo crente” e motorista da rodada.

7 — Minha Luta, de Adolf Hitler

Tem mais de meio século que só malucos (e alguns poucos pesquisadores) leem “Minha Luta”. Por que então é tão importante socialmente afirmar (mentir) que leu? Dois motivos. Primeiro para poder dizer que “li, não gostei e reprovo veementemente”. Em segundo lugar para dar a si mesmo certo ar de “bad boy” misterioso e envolvido com leituras não ortodoxas. Infelizmente, para o antinazista de Facebook, alguns milhões de pessoas tiveram a mesma ideia.

8 — A Divina Comédia, de Dante Alighieri

Uma viagem que vai do Inferno, passa pelo Purgatório e chega ao Paraíso. Acredite, se bem explorada, essa sinopse dura uma festa inteira. E, com sorte, no final ainda rende uma Beatriz de óculos escuros e cabelos pintados de verde.

9 — Os Sertões, de Euclides da Cunha

O livro em seu conjunto é genial. Contudo, a primeira parte, a Terra, é meio monótona, mas as outras duas, o Homem e a Luta, são muito estimulantes. Quem nunca usou esse clichê atire a primeira pedra cabralina.

10 — Por que Ler os Clássicos, de Italo Calvino

Uma frase célebre dessa obra é “os clássicos são livros que sempre se costuma ouvir dizer ‘estou a reler’ e nunca ‘estou a ler’”, incluindo o “Porquê Ler os Clássicos”, de Italo Calvino.

11 — O Corão, de Deus

Todo PIMBA politicamente engajado tem a obrigação moral (ou social?) de afirmar categoricamente que leu todo “O Corão” e não encontrou nenhuma passagem sequer que incite a violência.

12 — A Bíblia, de Deus

Todo PIMBA é um leitor crítico da “Bíblia”. Falam que acima de tudo é alta literatura da antiguidade, que é um importante documento histórico, que o Evangelho de João é uma sublime peça gnóstica, que o “Cântico dos Cânticos” é uma obra-prima do erotismo e por aí vai. Como mentir é pecado, vamos dar um desconto e considerar que no Ocidente Cristão a leitura completa da “Bíblia” pode mesmo ser feita por osmose.

Papa abençoa a lista e Record sobe no altar

0

Papa coloca sete livros na lista e Record assume 1º lugar no ranking das editoras

Cassia Carrenho, no PublishNews

A semana foi de destaque para o Rio e o Papa, e aqui na lista de mais vendidos não seria diferente. O Rio, pelo excelente desempenho da carioca Record, que deixou para trás a também carioca Sextante e assumiu o 1º lugar no ranking das editoras. Vale lembrar que recentemente a editora fez uma promoção com 400 livros com 50% de desconto, então não é milagre do Papa…

Esse, por sinal, tá mais famoso que o galã da lista de mais vendidos, Mr Gray. Essa semana cinco livros de sua autoria, ainda como cardeal Jorge Mario Bergoglio, e outros dois, sobre sua vida, entraram na lista. Só a Benvirá colocou quatro livros: A oração, Razão e fé, A solidariedade e A dignidade. Por aqui, nada de lama no caminho do Papa.

Já a distância entre o céu e o inferno diminuiu quase mil livros. O livro de Dan Brown, Inferno (Arqueiro) vendeu 9.221 e Kairós, do Padre Marcelo (Principium), 6.477. Uma diferença de 2.744 – a diferença semana passada era de 3.612.

Outras novidades da semana foram: não ficção, O capital (Civilização Brasileira), Francisco: o Papa dos humildes (Universo dos Livros) e O ciclo da auto-sabotagem (BestSeller); autoajuda, Seja a pessoa certa no lugar certo (Gente); negócios, Administração de projetos (LTC).

Intelectuais brasileiros explicam por que ainda é importante ler Marx

0

marx1

Publicado na Folha de S.Paulo

Questionados pela Folha, quatro intelectuais brasileiros explicam as razões pelas quais os escritos do filósofo alemão Karl Marx são importantes até os dias de hoje e, por isso, ainda merecem leitura.

Confira:

*

ROBERTO SCHWARZ, crítico literário

“Como percepção da sociedade moderna, não há nada que se compare a ‘O Capital’, ao ‘Manifesto Comunista’ e aos escritos sobre a luta de classes na França. A potência da formulação e da análise até hoje deixa boquiaberto. Dito isso, os prognósticos de Marx sobre a revolução operária não se realizaram, o que obriga a uma leitura distanciada. Outros aspectos da teoria, entretanto, ficaram de pé, mais atuais do que nunca, tais como a mercantilização da existência, a crise geral sempre pendente e a exploração do trabalho. Nossa vida intelectual seria bem mais relevante se não fechássemos os olhos para esse lado das coisas.”

*

JOSÉ ARTHUR GIANNOTTI, filósofo:

“Os textos de Marx, notadamente ‘O Capital’, fazem parte do patrimônio da humanidade. Como todos os textos, estão sujeitos às modas, que, hoje em dia, se sucedem numa velocidade assombrosa. Depois da queda do Muro de Berlim, o marxismo saiu de moda, pois ficava provada de vez a inviabilidade de uma economia exclusivamente regida por um comitê central ‘obedecendo a regras racionais’, sem as informações advindas do mercado. Mas a crise por que estamos passando recoloca a questão da especificidade do modo de produção capitalista, em particular a maneira pela qual esse sistema integra o trabalho na economia. O desemprego é uma questão crucial. As novas tecnologias tendem a suprir empregos. Na outra ponta, o dinheiro como capital, isto é, riqueza que parece produzir lucros por si mesma, chega à aberração quando o capital financeiro se desloca do funcionamento da economia e opera como se a comandasse. A crise atual nos obriga a reler os pensadores da crise. Como cumprir essa tarefa? Alguns simplesmente voltam a Marx como se nesses 150 anos nada de novo tivesse acontecido. Outros alinhavam as modas em curso com os textos de Marx, apimentados com conceitos do idealismo alemão, da psicanálise, da fenomenologia heideggeriana. Creio que a melhor coisa a fazer é reler os textos com cuidado, procurando seus pressupostos e sempre lembrando que a obra de Marx ficou inacabada e sua concepção de história, adulterada, por ter sido colada, sem os cuidados necessários, a um darwinismo respingado de religiosidade.”

*

DELFIM NETTO, economista

“Porque Marx não é moda. É eterno!”

*

LEANDRO KONDER, filósofo:

“Os grandes pensadores são grandes porque abordam problemas vastíssimos e o fazem com muita originalidade. A perspectiva burguesa, conservadora, evita discuti-los. E é isso o que caracteriza seu conservadorismo. Marx é o autor mais incômodo que surgiu até hoje na filosofia. Conceitos como materialismo histórico, ideologia, alienação, comunismo e outros são imprescindíveis ao avanço do conhecimento crítico. Por isso, mais do que nunca é preciso frequentá-los.”

caricatura: Baptistão

A melhor notícia de Dilma

0

aluno na lousa

Gilberto Dimenstein, na Folha de S.Paulo

Para quem acha que o capital humano é essencial no desenvolvimento de uma nação, escolho aqui, neste final de 2012, o que não é a melhor notícia do ano, mas mas a melhor notícia de Dilma Rousseff.

A melhor notícia é a atuação do Supremo Tribunal Federal contra a corrupção, cujo maior mérito é mudar a mentalidade de conivência contra a corrupção e a sensação de impunidade.

A pior é o baixo crescimento econômico, colocando em xeque a eficiência do governo e, mais ainda, o efeito parasita dos governos.

A melhor notícia de Dilma foi sua declaração de que pretende batalhar para que o dinheiro do pré-sal seja destinado à educação. Não sei se ela consegue vencer bem a batalha. Nem se, caso consiga vencer, o dinheiro será aplicado corretamente, sem desperdício.

Sei que existe um risco de o pré-sal acomodar o país com a riqueza fácil e finita. Mas a maior riqueza de uma nação não é o que está debaixo da terra. Mas dentro da cabeça.

Aproveitar essa chance única para focar em melhoria do ensino e do desenvolvimento da pesquisa e da ciência é o caminho para sermos um país civilizado. É algo muito, mais muito mais relevante do que o Bolsa Família.

Não existe país decente com escola pública indecente.

Se Dilma conseguir vencer essa batalha, ela pode perder a próxima eleição – e perder feio. Mas terá assegurada uma forte candidatura a estadista.

Go to Top