O escritor inglês Misha Glenny - Barbara Lopes / O Globo

O escritor inglês Misha Glenny – Barbara Lopes / O Globo

 

Inglês Misha Glenny está lançando ‘O Dono do Morro’ na Flip

Lucas Altino, em O Globo

PARATY — O inglês Misha Glenny não se intimidou, na manhã desta quinta-feira, com a quantidade de jornalistas brasileiros presentes para fazer perguntas sobre o livro “O Dono do Morro”, que narra a história de Antonio Francisco Bonfim Lopes, mais conhecido como Nem, o chefe do tráfico da Rocinha preso em 2011. Falando quase o tempo todo em português, Glenny garantiu que o desafio era pequeno para alguém que morou por três meses na Rocinha, em 2014, a fim de entender o personagem principal de sua obra.

Lançado nesta Flip, o livro conta a história de Nem, chefe do tráfico na favela entre 2005 e 2011 e responsável, segundo o escritor, por investir num sistema de bem estar social na comunidade, permitindo a segurança do seu negócio e o aumento do lucro com o comércio de cocaína. O inglês de 58 anos, correspondente do “Guardian” e da BBC, se especializou em investigações criminais. Depois de presenciar in loco a detenção de Nem, decidiu que escreveria sobre a sua vida.

— Eu estava no Rio em novembro de 2011, quando ele foi preso. Foi um acontecimento público, fiquei impressionado com a cobertura intensa. Na ocasião, metade do Rio o demonizava e a outra o tratava como herói. Me impus duas condições: aprender português e morar por pelo menos dois meses na Rocinha — explica Glenny.

Muito além de uma biografia, o livro contextualiza os problemas sociais das favelas brasileiras, e o impacto do tráfico de cocaína na sociedade.

— Não é somente sobre o Nem, mas sobre a Rocinha, a guerra às drogas e a desigualdade social no brasil. A estatística mais importante do livro, na minha opinião, é que em 1982 o Rio teve a mesma taxa de homicídios que Nova Iorque; em 1989, os números de Nova Iorque se mantiveram e os do Rio já eram três vezes maiores. Isso ocorreu porque o Brasil se tornou a principal rota do pó para a Europa, o que desenvolveu hábito local também.

Crítico da política de guerra às drogas, Glenny, por outro lado, constatou o impacto do comércio de cocaína na Rocinha, durante o período em que Nem controlava o morro. Impressionado com a força da atividade econômica no local, o escritor acredita que o bem-estar vivido pelos moradores naquela época foi resultado da visão de mercado do traficante.

— É uma relação complexa, mas o tráfico teve um impacto positivo na favela. Em 2005, quando o Nem assumiu, a taxa de violência na Rocinha caiu. Foi a primeira favela a receber bancos, e até a primeira a receber uma sex shop. Acho que isso tudo tem a ver com a política do Nem. Ele percebeu que se a violência caísse, o lucro subiria. Apesar de negar que fez conscientemente, o fato é que grande parte dos lucros foram direcionados para um sistema de bem estar social. Naquele período era uma favela muito segura, muitos políticos e jogadores de futebol frequentavam o local. E muitos cantores, como Ja Rule, Ivete Sangalo e Claudia Leite, também fizeram show nos espaços de lá.

Depois da prisão de Nem, a Rocinha sofreu um choque de realidade com a entrada da UPP, que Glenny classifica como um trabalho corajoso e bem feito. O grande problema, para o escritor, foi o “fracasso absoluto da UPP social”.

— Entrevistei o secretário de Segurança José Mariano Beltrame. Ele me disse que o que mais chocou ele, ao entrar no governo, foi a percepção de que o estado estava ausente das favelas por 50 anos. A UPP foi uma ação corajosa, proporcionada pela união das esferas municipal, estadual e federal. As taxas de homicídio caíram, mas as de outros crimes como furto e estupro subiram. O caso Amarildo expôs como o projeto, sem a UPP social, era frágil. Agora, com o impacto da crise, acho que a situação da violência irá piorar muito depois das Olimpíadas.

Glenny descreve Nem como um homem que só entrou para o tráfico aos 24 anos, idade considerada tardia, e uniu sua inteligência com a experiência de gerência de equipes, adquirida quando comandava a entrega de revistas na Zona Sul. Para ele, a história do traficante ainda não foi compreendida por policiais, advogados e mídia. Crescido sob a marca da violência doméstica, Bem mudou de vida quando sua filha de apenas sete meses desenvolveu uma doença rara. O escritor lembra pesquisas que mostram como a violência doméstica, endêmica nas favelas brasileiras, causa consequências na vida adulta da vítima.

Minha primeira pergunta ao Nem (em entrevista feita na penitenciária de Mato Grosso do Sul) foi sobre sua família. Ninguém nunca o havia perguntado sobre isso. Pesquisando, descobri que sua filha ficou doente ainda bebê. Foi quando ele entrou para o tráfico. Seus pais eram alcóolatras, e ele sofreu muito com isso, mas mesmo assim era bastante apegado ao pai, de quem teve que tomar conta após ser baleado numa tentativa de assalto. Na ausência da mãe, que precisava trabalhar o dia inteiro, Nem acompanhou de perto o fim da vida do pai. Depois disso, ele prometeu que seria um bom pai e teve sete filhos.

Os donos do morro não são necessariamente visto como heróis em suas favelas, diz Glenny. Ele citou, por exemplo, o caso da Maré, onde “há medo real dos moradores”. Em sua pesquisa, o autor constatou que os chefes do tráfico exercem sua influência política através de três instrumentos: o monopólio da violência, o apoio da comunidade e a corrupção policial.

— Nem, que era chamado de mestre ou presidente pelos moradores, diria que o mais importante era o apoio da comunidade. Investigadores dirão que é a corrupção policial, prática mais usada por ele, que preferia corromper a usar da violência — disse Glenny, para quem a legalização da maconha seria um avanço, mas insuficiente para melhorar os índices criminais — Alguns traficantes brincam dizendo que a maconha é um problema, porque é mais pesado, fede e não dá tanto dinheiro. A cocaína é muito mais rentável.