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As bicicletas na literatura e na (por vezes trágica) vida real

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Publicado em O Globo

O jornal espanhol El País publicou nesta segunda-feira um texto do escritor Antonio Muñoz Molina, membro da Real Academia Española, sobre ciclistas. Molina começa falando sobre a presença das bicicletas nas artes, na literatura, no cinema (pra música não ficar de fora, coloquei um vídeo bacaninha de “Bike”, do Pink Floyd, ali embaixo). Depois, passa a relatar um triste caso de atropelamento recentemente ocorrido em Madrid. Acho que os comentários dele sobre o trânsito e o sistema judiciário espanhol vão ressoar nos corações dos leitores brasileiros.

“A bicicleta é uma máquina tão literária que recém-inventada já começou a circular pelos livros. Relendo “Misericórdia”, descobri algo que não lembrava desse romance assombroso, publicado em 1897: um dos personagens aluga uma bicicleta para ir de Madrid ao Pardo. Na Madrid de subúrbios macabros e personagens desgarrados de Valle-Inclán, essa bicicleta insuspeita é um sobressalto ágil da vida moderna em meio ao atraso, obscurantismo, injustiça crua e pobreza. Quem quiser saber mais sobre ela, pode imaginá-la elevada e veloz, democrática, futurista, circulando entre carroças lentas e carruagens arrogantes da aristocracia.

Marcel Proust via fraqueza em todas as formas de transporte moderno, em particular os automóveis e os aviões, mas quando quis retratar a primeira visão das “jovens em flor” que deslumbram um adolescente durante um passeio marítimo as descreveu montadas em bicicletas, avançando em bandos com os vestidos desportivos livres de adornos barrocos e espartilhos que permitiram que as mulheres adotassem o hábito do ciclismo na virada do século.

H. G. Wells observou que cada vez que via um adulto em cima de uma bicicleta crescia sua confiança na possibilidade de um mundo melhor.

Há relatos de que Henry James tentou aprender a pedalar, mas com consequências desastrosas. Se lançou por uma estrada rural e perdeu o controle da bicicleta, atropelando, sem gravidade, uma menina que brincava na porteira de uma fazenda. Que essa menina tenha se tornado Agatha Christie é dessas coincidências que assombram os aficcionados da literatura e do ciclismo.

Ramón Casas gostava de sugerir um erotismo moderno nas mulheres ciclistas, mulheres em automóveis, mulheres fumantes. Em um de seus melhores contos escritos em espanhol, e também um dos mais tristes, “La cara de la desgracia”, Juan Carlos Onetti toma de Proust o tema do verão e da mulher na bicicleta. Mas quem a vê passar de um balcão é um homem desolado que graças a ela revive, desfazendo-se em desejo e ternura.

Uma figura numa bicicleta é passageira, mas não tão rápida que seja também fugaz. A verticalidade necessária favorece o perfil. O ritmo da pedalada ressalta a beleza das pernas.

O ápice da arte inspirada em torno das bicicletas talvez seja um curta de François Truffaut de 1957, “Les mistons”, um poema visual de 17 minutos feito de longos planos sinuosos de uma mulher muito jovem, a atriz Bernadette Lafont, pedalando descalça, as pernas nuas, o vestido branco agitado pela brisa da velocidade.

A bicicleta é uma máquina silenciosa e perfeita, como um veleiro, tão prática que causa assombro também ser poética.

As bicicletas são para o verão, disse um pai ao filho adolescente na comédia triste na qual Fernando Fernán-Gómez pôs o melhor de seu talento e a verdade de sua memória e imaginação. Sobre o infortúnio de se crescer numa cidade em guerra e a saudade de um pai que era maior e mais nobre por, no caso de Fernando, ser um pai inventado.

O verão pode ser um modesto paraíso para os fãs das bicicletas, sobretudo para os ciclistas urbanos que lidam com o tráfego nos dias de trabalho, mas nas cidades espanholas, que com duas ou três exceções são hostis para quem se atreve a pedalar, assim como com qualquer um que tente exercer o direito soberano de caminhar de um ponto a outro. E também, desde cedo, para os lentos, os distraídos, os idosos.

Quando se volta de países com o tráfego mais civilizado, é difícil se adaptar à agressividade dos motoristas na Espanha. Nova York não é exatamente Amasterdã ou Copenhagen nas facilidades que oferece aos ciclistas, mas quando venho de lá para Madrid e saio na rua, me imponho uma mudança instintiva de atitude.

É preciso estar muito mais alerta, na defensiva, atento sempre a acelerações bruscas. É preciso acostumar-se ao fato de que a visível fragilidade raramente gera maior cuidado – alguns motoristas se tornam ainda mais agressivos contra os mais frágeis, como se despertasse neles uma impaciência que leva a acelerar sobre a faixa de pedestres, ou deixa passar quem vai mais lento contendo o impulso do motor como quem trinca os dentes. Como se caminhar lentamente fosse uma ofensa que merece o desprezo e punições ocasionais.

Às 7h, hora do frescor da manhã, no silêncio das ruas amplas e vazias nas quais alguém pode pedalar com mais velocidade, também pode acontecer o choque. As bicicletas são para o verão, para o exercício saudável e a mobilidade sem emissões tóxicas, mas não têm defesa contra a barbárie.

As bicicletas são para o passeio despreocupado, mas também para a ida diária ao trabalho.

Óscar Fernández Pérez, um garçom de 37 anos, ia para o sul de Madrid na quarta-feira, 6 de agosto, quando foi atropelado por um motorista que fugiu e o deixou agonizando na rua. Óscar Fernández Pérez está morto e o infeliz que o matou não tem motivos para preocupação.

Em 2012 foi preso por dirigir bêbado, de forma “negligente e temerária”, e lhe tomaram a carteira. Mas em fevereiro desse ano já havia voltado a conduzir. Com esse histórico, e tendo fugido depois de matar um ciclista, era de se esperar que a justiça o tratasse com algum rigor. Mas em nosso país as leis e o sistema judicial quase sempre protegem os poderosos contra os mais frágeis, os corruptos contra os honrados, os bárbaros contra as pessoas afáveis, os motoristas contra os ciclistas ou pedestres.

O golpe que matou Óscar Fernández Pérez foi tão forte que sua bicicleta despedaçada voou a 15 metros do seu corpo. Mas o juiz considerou que o motorista sem carteira que o atropelou e não teve sequer a compaixão de parar para ajudá-lo merece se defender em liberdade. Ele foi denunciado por homicídio culposo, por imprudência. A pena por acabar com uma vida é de um a quatro anos.

José Javier Fernández Pérez, irmão de Óscar, resumou o caso melhor que ninguém, com poucas palavras, muito verdadeiras: “A justiça é uma merda. Matar sai muito barato nesse país”.”

Livro sobre o tuiteiro Rene Silva esgota em cinco horas no Alemão

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Marcelo Sperandio, na Época

Rene Silva (Foto: Wagner Meier/Agência O Globo)

Rene Silva (Foto: Wagner Meier/Agência O Globo)

Depois de interpretar a si mesmo na novela Salve Jorge, no horário nobre da TV Globo, Rene Silva é o protagonista de “A Voz do Alemão”, livro que conta a sua trajetória. Em 2010, o jovem ficou conhecido em todo o Brasil por ter narrado pelo Twitter a ocupação policial do Complexo do Alemão, na capital fluminense.

Escrito pela jornalista Sabrina Abreu (editora nVersos), o livro foi lançado na semana passada no Rio de Janeiro. Houve um segundo lançamento no sábado, no Complexo do Alemão, onde Rene vive. Ele comemora o resultado: “Os 30 livros que colocamos para vender no Alemão esgotaram em cinco horas.

A procura é maior do que esperávamos”, diz. Na semana que vem, Rene vai colocar mais 200 livros para vender no complexo de favelas. “Vamos colocar 100 exemplares na barraca de souvenir da estação Palmeiras do teleférico e outros 100 no Bistrô de cervejas importadas da Nova Brasília”. Aos 19 anos, Rene publica notícias sobre favelas cariocas no site Voz das Comunidades.

Universitária em cadeira de rodas perde aula por falta de acesso

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Estudante de Arquitetura da Unifor, em Fortaleza, fica impedida de chegar à sala porque rampa do prédio é íngreme demais
Relato de aluna no Facebook ganha apoio de milhares de internautas

William Helal Filho em O Globo

Lorena diante da rampa de acesso ao prédio Reprodução do Facebook

Lorena diante da rampa de acesso ao prédio Reprodução do Facebook

RIO – A estudante Lorena Melo Martins, de 22 anos, faz faculdade de Arquitetura e Urbanismo na Universidade de Fortaleza (Unifor), mas está enfrentando dificuldades para frequentar o curso devido aos problemas de acessibilidade do prédio, na capital do Ceará. Ela passou por uma operação no joelho e, obrigada a usar uma cadeira de rodas, não consegue chegar à sala de aula porque a rampa até o segundo andar é íngreme demais. Depois de perder várias aulas, a aluna fez um relato sobre seu drama no Facebook. O post já tem mais de 6,2 mil compartilhamentos e 170 comentários.

“Todos os dias venho pra aula e não consigo chegar nas salas de aulas por causa da péssima acessibilidade da universidade”, conta ela, antes de descrever com detalhes os diversos apelos feitos à Unifor e os constragimentos que sofreu. “Já me humilhei, chorei e perturbei as pessoas aqui na universidade por uma coisa que é minha de DIREITO! Não só minha, mas de TODOS!”.

De acordo com seu texto na rede social, Lorena pediu à coordenadoria do curso para passar sua turma a uma sala no térreo. Mas, em vez disso, a direção deixou à disposição três pessoas para ajudá-la a subir a rampa todos os dias. No começo, deu certo, ainda que de mal jeito, mas, nesta segunda-feira (12), a aluna chegou ao local no horário certo e não havia ninguém para ajudar. Depois de um telefonema, veio um funcionário.

“O segurança demorou 20 minutos pra chegar. Mesmo assim, ele não conseguiu me levar, pois tenho 1,80m e sou gorda. Impossível subir a rampa do bloco C”, critica a estudante, que perdeu a aula nesse dia. “Já é a terceira semana de aula que começo perdendo”.

O direito de ir e vir é de todo brasileiro, previsto no Artigo 5 da Constituição Federal. A Lei de Acessibilidade, criada em 2004, exige que toda construção de uso coletivo ofereça facilidades a cadeirantes. De acordo com o arquiteto Arthur Fortaleza, da Unifor, a faculdade tem cerca de 20 blocos. Nove deles foram construídos em 1972. Nestes, as rampas de ligação com os andares superiores são mais íngremes do que as demais. Os alunos sentem a diferença mesmo caminhando. Para pessoas em cadeira de rodas, ele reconhece, é bem complicado.

– Até o momento, todos os problemas que aconteceram por causa das rampas haviam sido contornados, com mudanças de salas. Mas isso não foi possível neste caso. Estamos para apresentar à diretoria um plano que prevê melhorias na acessibilidade do campus – diz Artur.

Já a estudante termina seu relato com um desabafo.

“Enfim, a Unifor é uma das maiores universidades particulares do Nordeste, é um local de uso coletivo, ou seja, tem OBRIGAÇÃO de ser acessível. Amigos arquitetos e estudantes da Unifor, gostaria de pedir a ajuda de vocês para, juntos, termos uma universidade acessível para todos. Isso é NOSSO direito!”

‘Psicose’, o livro que fisgou Hitchcock, é relançado no Brasil

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Nova edição da obra de Robert Bloch, que inspirou filme clássico do mestre do suspense, chega ao país depois de meio século esgotada

Norman Bates (Anthony Perkins) e Marion Crane (Janet Leigh): diretor tirou o livro de circulação Divulgação

Norman Bates (Anthony Perkins) e Marion Crane (Janet Leigh): diretor tirou o livro de circulação Divulgação

Liv Brandão em O Globo

RIO – Mary Crane tomava banho em seu quarto do Bates Motel quando foi surpreendida por uma “velha louca”, cujas mãos abrem a cortina da banheira e, com uma faca de açougueiro, decepam sua cabeça. A descrição só não bate exatamente com a célebre cena do chuveiro de “Psicose” porque Alfred Hitchcock decidiu que a Marion de Janet Leigh deveria morrer esfaqueada. Mas foi justamente essa passagem do livro homônimo de Robert Bloch que inspirou o cineasta inglês a comprar aquela história. Depois de uma elogiosa resenha no “New York Times”, Hitchcock correu para adquirir seus direitos para o cinema e não só isso: fez sua assistente tirar de circulação todos os exemplares existentes do livro, para evitar que o final vazasse. Pois parece que a ordem do diretor acabou ecoando no Brasil, onde o livro foi editado unicamente na década de 1960 e figurou entre os mais vendidos da época, para depois desaparecer por completo das prateleiras – um exemplar usado, em mau estado, é encontrado por até R$ 150. Pois agora “Psicose” de Robert Bloch finalmente ganha uma reedição brasileira, pelas mãos da novata Darkside, depois de muita luta.

— Sempre quisemos lançar este livro. Fomos atrás dos principais agentes literários para descobrir quem representava a obra de Robert Bloch e foi muito difícil encontrar o responsável. Um passava para o outro e ninguém nunca sabia ao certo, ninguém tinha o contato. Levamos cerca de oito meses até descobrirmos que o livro era representado pelo advogado dos herdeiros do escritor (morto em 1994, aos 77 anos) — conta Christiano Menezes, diretor editorial da Darkside. A novíssima edição vem em duas versões: capa dura, que preserva o inconfundível logotipo criado por Tony Palladino, e brochura, com tradução de Anabela Paiva.

Apesar de Bloch ter sido criticado por François Truffaut em sua série de entrevistas com o mestre do suspense, o escritor era aclamado por colegas mais famosos, como Stephen King, que afirmou que algumas de suas obras (foram 30 livros e centenas de contos) tiveram grande influência na literatura americana. Estudiosos da obra de Hitchcock também ressaltam o valor da escrita de Bloch, que criou seu Norman Bates — atualmente retratado na elogiada série “Bates Motel” — inspirado pelo famoso assassino americano Ed Gein (sua primeira vítima conhecida, aliás, também se chamava Mary, como a mocinha do filme).

— Robert Bloch é frequentemente citado com desdém, mas o que a gente tem que lembrar é que ele chegou lá primeiro, foi ele quem criou o personagem chamado Norman Bates. Ele criou a Mary Crane do livro, que virou a Marion Crane do filme. Ele criou o enredo sobre um homem dominado pela mãe que recorre a diabólicos e assustadores atos de violência. Essencialmente, tudo o que acontece no filme em termos de história vem de Robert Bloch. Acho que há uma tendência a negligenciar o poder dessa criação — defende Stephen Rebello, autor de “Alfred Hitchcock e os bastidores de ‘Psicose’” (Intrínseca), considerado um dos maiores estudiosos da obra do cineasta.

Roteiro ‘impossível’

Para apostar na força do thriller, Hitchcock precisou comprar várias brigas. No fim dos anos 1950, o cineasta tentava se recuperar do baque de ter dois projetos abortados, que renderam prejuízos significativos, e enfrentava a concorrência de nomes como Otto Preminger e Henri-Georges Clouzot. Antes mesmo de se interessar pela trama de Bloch, “Psicose” já havia sido submetido aos analistas da Paramount, que consideraram o argumento “impossível para o cinema”, por ser chocante demais para uma época em que os filmes não retratavam tanta violência.

— Ele basicamente arriscou sua reputação e sua vida criativa para conseguir rodar esse filme — conta Rebello, que diz entender os motivos para o cineasta ousar tanto. — Com influência do (mestre da ficção científica e terror) H. P. Lovecraft, de quem era discípulo, Bloch vem de uma linha menos pretensiosa em termos de aspirações literárias, mas faz uma arte que tenta pegar pelas tripas em vez de investir na boa educação. Isso o interessou bastante.

Rebello, que assume que os diálogos da tela são uma versão melhorada do que está nas páginas, ressalta outra prova da importância da obra que inspirou o filme: a despeito da cena do chuveiro e ao contrário do que costumava fazer, Hitchcock foi bastante fiel ao que foi narrado por Bloch, que ainda lançou duas continuações de sua mais importante criação, cujo primeiro rascunho ficou pronto em seis semanas.

— No livro, Norman Bates é um cara de meia idade, careca, de óculos, rechonchudo, beberrão. Provavelmente mais parecido com o que Norman Bates poderia ser na vida real — contextualiza Rebello. — Só que Hitchcock tinha um ótimo instinto para escalar seus atores e foi muito sofisticado ao perceber que o público ficaria encantado por um belo rosto. Especialmente, um jovem e bonito. Para viver Norman Bates em “Psicose”, o filme, ele chamou Anthony Perkins. Graças a ele, as pessoas poderiam até não gostar do personagem, mas o achariam atraente. Isso foi brilhante.

Outra grande mudança acontece logo no início das duas versões da história. Se o filme apresenta de cara os dramas de Marion com seu amante Sam Loomis e seu inesperado golpe ao roubar US$ 40 mil do patrão para fugir e tentar uma vida melhor, o livro é aberto com descrições detalhadas sobre a interação entre Norman e sua castradora mãe, Norma.

— Isso obviamente não poderia acontecer no filme, afinal, descobrimos no fim de tudo que ela está morta. Há sim, mudanças, mas elas são bem espertas e acuradas — explica Rebello. — Acredito que o roteirista tenha decidido desenvolver primeiro o personagem de Marion para fazer com que os espectadores criassem empatia por uma mulher que está presa a um emprego nada interessante, lidando com colegas nada interessantes e vivendo uma situação desesperadora com o namorado que não quer casar com ela. Dessa forma, os espectadores se apegaram bem mais a esse personagem do que se o filme começasse como o livro.

Para Rebello, o fato de ler ter lido o livro depois de assistir ao filme e saber a verdadeira origem dos assassinatos no Bates Motel não estraga sua fruição. Se Hitchcock fez de tudo para preservar o desfecho da história — além de tirar todo o estoque do livro de circulação, o cineasta proibiu que as pessoas entrassem na sala depois de a exibição começar — o livro acaba completando a experiência.

— Há algo de realmente sombrio nesse livro, você consegue sentir que está lendo sobre uma vida muito difícil, uma existência muito solitária. O livro dá mais noção de como são as noites de Norman Bates, que tipo de música ele gosta de ouvir, o que ele lê, quão realmente horripilantes são os efeitos da violência emocional e psicológica de sua mãe. O filme não se atém a esse tipo de detalhe.

O lugar que guardava livros

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Importante pensador do futuro das bibliotecas, Matthew Battles defende ‘curadoria’ da informação digital e participação do cidadão nos acervos

Visitantes na biblioteca pública de New York New York Times

Visitantes na biblioteca pública de New York New York Times

Maurício Meireles em O Globo

RIO – Matthew Battles era um homem que tomava conta dos livros. De responsável pelas obras raras da biblioteca da Universidade de Harvard ele passou a um dos principais pensadores do futuro das bibliotecas diante dos avanços tecnológicos. Hoje, dirige o MetaLab, centro de pesquisas de Harvard sobre a influência da tecnologia nas artes e ciências humanas. No laboratório, é um dos colaboradores da Digital Public Library of America, biblioteca digital que une vários acervos dos Estados Unidos. Ele conversou com O GLOBO, por telefone, antes de vir ao Rio para a série “Múltiplos e contemporâneos: a literatura .com”, que começa nesta quarta-feira com sua palestra “Biblioteca do futuro”, às 18h30m, no Centro Cultural Banco do Brasil — e terá uma mesa por mês, até dezembro.

O senhor já escreveu um livro sobre a história cultural das bibliotecas (“A história conturbada das bibliotecas”, editora Planeta, 2008). Como elas vão mudar daqui em diante?

A biblioteca já existia antes de haver o livro como o conhecemos, um produto comercial. Ao longo do tempo, as bibliotecas foram reconhecidas mais pela sua forma do que pelos livros guardados nelas. Portanto, são um conceito aberto, com espaço para mudança. Elas terão um papel importante no futuro, mas o que fazemos dentro delas e os objetos com os quais interagimos vão mudar.

Que novos materiais a biblioteca passará a guardar?

Conforme os livros passem a ocupar o reino digital, a biblioteca vai virar um local para interagir com tais objetos, criando novas experiências de significado a partir deles. Os e-books são maravilhosos, mas seu modelo de consumo é baseado sobretudo no iPod e no download de músicas — que ouvimos em fones de ouvido, de forma privada. A leitura já é um ato bastante privado, então precisamos de formas de dividir essa experiência uns com os outros. Caso contrário, ela vira uma província em que só há interação do consumidor com um varejista da internet. As bibliotecas podem ajudar nisso ao dar acesso a outras fontes de informação, como ferramentas de visualização, mecanismos de edição, salas interativas — e outras mídias caras demais para o leitor ou estudante médio. Além disso, a biblioteca vai ajudar o leitor a se ver como criador de cultura. E auxiliá-lo a preservar peças do seu passado que tenham a ver com nossa história comum.

As bibliotecas costumam guardar os chamados efêmeros, como jornais e documentos oficiais. Elas vão continuar a guardá-los? Como fazer com a informação das redes sociais?

Um amigo meu tem uma coleção enorme de fanzines, que ele acaba de doar para a biblioteca de obras raras da Universidade de Iowa. Esse tipo de acervo é precioso, e as bibliotecas vão continuar a organizá-lo. Mas mais interessante é a informação digital — desde mensagens de e-mail e das redes sociais até dados da vida urbana e de saúde pública. Hoje, muito da nossa interação com o mundo produz informação. As bibliotecas precisam entender as vastas fontes de informação da sociedade moderna como um fenômeno que precisa de curadoria.

Para preservar o acervo, é comum que o acesso a ele seja dificultado. Como encontrar o equilíbrio entre preservação e necessidade de interação?

As ferramentas digitais ajudam. Já faz um tempo que digitalizamos livros e material iconográfico. O próximo passo é permitir que os usuários da biblioteca tenham acesso a dados que conectem esses livros e outras fontes uns aos outros. Como encontrar todos os livros que mencionam o Rio de Janeiro? Como descobrir quantas vezes uma obra foi traduzida ao longo da História, com um mapa de sua leitura no mundo?

O senhor pode dar algum exemplo de iniciativas que fazem isso?

Várias cidades americanas já divulgam dados civis que documentam tudo, desde a origem dos alimentos até dados de trânsito. Muitas bibliotecas já digitalizaram seus acervos, mas essas fontes de informação são meio esotéricas, difíceis de encontrar e usar. É preciso criar programas para ajudar o cidadão a interagir com eles. Um grande exemplo é a Digital Public Library (projeto do historiador Robert Darnton de digitalização e acesso aos acervos das bibliotecas americanas) e a Europeana (biblioteca digital da União Europeia). Essas iniciativas permitem que programadores independentes interajam diretamente com ele, criando programas para lidar com a informação.

Qual a sua colaboração com a Digital Public Library?

A Digital Public Library vai reunir acervos de várias bibliotecas. Depois, será feito um catálogo de catálogos. A ideia é que os arquivos conversem entre si. Estamos criando ferramentas para interagir com esse acervo de acervos. Mais à frente, a ideia é ajudar as pessoas a incluir seu próprio material.

Um dos obstáculos para digitalizar acervos diz respeito aos direitos autorais. O Google Books tentou e não conseguiu. Como resolver isso?

As pessoas têm mais consciência da importância de compartilhar a informação cultural. Com o tempo, as leis também devem mudar. O próximo passo da digitalização deve ser pessoas comuns contribuírem para arquivos históricos e culturais. Perdemos muito da Antiguidade clássica porque autores como Cícero e Horácio, por exemplo, não escreviam sobre o cidadão comum. Seus manuscritos só refletem parte da vida naquele tempo. Já nas ruínas das casas, há registros de recibos, poemas, cartas de amor.

No Brasil, há muitas bibliotecas vazias por conta da dificuldade de atrair o público. Como mudar isso?

Todo mundo está virando bibliotecário. A biblioteca precisa apelar para a sensação de alegria das pessoas de descobrir algo novo e dividir com os outros. É o que já fazemos nas redes sociais. O desafio é fazer essa lógica funcionar no espaço físico, por meio da tecnologia, que nos permita interagir não só com os livros, mas uns com os outros.

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