poema machado

Obra foi encontrada em uma edição do jornal Correio Mercantil na internet.
Escrita possui quase 160 anos e passou despercebida por pesquisadores.

Publicado no G1

Um professor da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) encontrou um poema desconhecido do escritor Machado de Assis publicado no jornal Correio Mercantil quando o autor tinha 17 anos. A obra passou quase 160 anos despercebida pelos pesquisadores e surgiu por meio de uma pesquisa feita pela internet sobre as influências de Machado de Assis.

A assinatura revela o nome que o autor usava na época: Joaquim Maria Machado de Assis. ‘O Grito do Ipiranga’ foi publicado na edição de 9 de setembro de 1956, mas ficou esquecido. Este é o primeiro texto publicado pelo autor em um grande jornal. O achado é do professor de literatura brasileira da UFSCar Wilton Marques que teve uma surpresa enquanto acessava o acervo da biblioteca nacional na internet.

“Fui conferir os poemas associados ao Correio Mercantil, que segundo a crítica Machado só teria publicado algo a partir de 1858. Na pesquisa com o jornal eu ampliei a abrangência para os anos 50 e apareceu”, explicou o professor.

O texto não chama atenção pela qualidade literária, mas por mostrar um Machado adolescente e em fase de amadurecimento intelectual. Os 76 versos são uma forma de homenagem ao dia da independência, uma forma nacionalista que o escritor logo abandonou.

Texto foi encontrado por professor da UFSCar em jornal antigo (Foto: Reprodução/EPTV)

Texto foi encontrado por professor da UFSCar em
jornal antigo (Foto: Reprodução/EPTV)

O texto se espalhou e trouxe agitação para os bastidores literários. O professor de teorias literárias da Universidade Estadual Paulista (Unesp) explica a importância da descoberta. “Tem que ser comemorado o seu achado, porque acima de tudo temos que conhecer todo o texto do Machado de Assis, assim como qualquer escritor que queiramos ter uma ideia acerca do trabalho”, comentou.

A nova descoberta, ao invés de trazer explicações, levanta ainda mais dúvidas sobre uma época pouco conhecida: a adolescência de Machado de Assis. “A grande questão para os machadianos é que não se sabe bem como um jovem intelectual negro, em uma sociedade escravocrata como a brasileira, conseguiu se inserir na intelectualidade brasileira”, apontou Wilton Marques.

Outra questão levantada pelo poema é de se haveriam, no arquivo digital com mais de cinco milhões de textos, outras obras perdidas do autor. “É possível que apareça outras coisas, como dizem os futebolistas, o Machado é uma caixinha de surpresas, ele sempre acaba surpreendendo. Como ele produziu grande parte da obra dele para jornal, então é muito provável que algum outro texto tenha escapado”, explicou Marques.