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Umberto Eco: “Informação demais faz mal”

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O escritor italiano diz que a internet é perigosa para o ignorante e útil para o sábio – ela não filtra o conhecimento e congestiona a memória do usuário

Luis Antonio Giron na revista Epoca

PROFESSOR O pensador e romancista italiano Umberto Eco.  Ele desconfia  da internet (Foto: Eric Fougere/VIP Images/Corbis)

PROFESSOR
O pensador e romancista italiano Umberto Eco. Ele desconfia da internet (Foto: Eric Fougere/VIP Images/Corbis)

O escritor Umberto Eco vive com a mulher num apartamento duplo nos 2° e 3°andares de um prédio antigo, de frente para o Palácio Sforzesco, o mais vistoso ponto turístico de Milão. É como se Alice Munro morasse defronte à Canadian Tower em Toronto, Haruki Murakami instalasse sua casa no sopé do Monte Fuji ou então Paulo Coelho mantivesse uma mansão na Urca, à sombra do Pão de Açúcar. “Acordo todo dia com a Renascença”, diz Eco. A enorme fortificação diante de suas janelas foi inaugurada pelo duque Francisco Sforza no século XV e está sempre lotada de turistas. O castelo deve também abrir seus portões pela manhã com uma sensação parecida. Diante dele, vive o intelectual e romancista mais famoso da Itália.

Um dos andares da casa de Eco é dedicado ao escritório e à biblioteca. São quatro salas repletas de livros, divididas por temas e por autores em ordem alfabética. A sala em que trabalha é pequena. Abriga aquilo que ele chama de “ala das ciências banidas”, como ocultismo, sociedades secretas, mesmerismo, esoterismo e bruxaria. Ali estão as fontes principais dos romances de sucesso de Eco: O nome da rosa (1980), O pêndulo de Foucault (1988), A ilha do dia anterior (1994), Baudolino (2000), A misteriosa chama da rainha Loana (2004) e O cemitério de Praga. Publicado em 2010 e lançado com sucesso no Brasil em 2011, o livro provocou polêmica por tratar de forma humorística um assunto sério: o surgimento do antissemitismo na Europa. Por motivos diversos, protestaram a Igreja Católica e o rabino de Roma. A primeira porque Eco satirizava os jesuítas (“São maçons de saia”, diz o personagem principal, o odioso tabelião Simone Simonini). O segundo porque as teorias conspiratórias forjadas no século XIX – como a fraude que ficou conhecida como Os Protocolos dos Sábios do Sião – poderiam gerar uma onda de ódio aos judeus. Desde o início da carreira, em 1962, com o ensaio estético Obra aberta, Eco gosta de provocar esse tipo de reação. Parece não perder o gosto pelo barulho. De muito bom humor, ele conversou com ÉPOCA durante duas horas sobre a idade, o gênero que inventou – o suspense erudito –, a decadência europeia e seu assunto mais constante nos últimos anos: a morte do livro. É difícil de acreditar, mas aquele que era visto como o maior inimigo da leitura pelo computador está revendo suas posições. Ele diz agora que está até gostando de ler livros pelo iPad, que comprou durante sua última turnê pelos Estados Unidos, em dezembro.

ÉPOCA – Como o senhor se sentiu após completar 80 anos?
Umberto Eco –
 Bem mais velho! (risos) Vamos nos tornando importantes com a idade, mas não me sinto importante nem velho. Não posso reclamar de rotina. Minha vida é agitada. Ainda mantenho uma cátedra no Departamento de Semiótica e Comunicação da Universidade de Bolonha e continuo orientando doutorandos e pós-doutorandos. Dou muita palestra pelo mundo afora.

ÉPOCA – O senhor tem sido um dos mais ferrenhos defensores do livro em papel. Sua tese é que o livro não acabará. Mesmo assim, estamos assistindo à popularização dos leitores digitais e tablets. O livro em papel ainda tem sentido?
Eco – 
Sou colecionador de livros. Defendi a sobrevivência do livro ao lado de Jean-Claude Carrière no volume Não contem com o fim do livro. Fizemos isso por motivos estéticos e gnoseológicos (relativo ao conhecimento). O livro ainda é o meio ideal para aprender. Não precisa de eletricidade, e você pode riscar à vontade. Achávamos impossível ler textos no monitor do computador. Mas isso faz dois anos. Em minha viagem pelos Estados Unidos, precisava carregar 20 livros comigo, e meu braço não me ajudava. Por isso, resolvi comprar um iPad. Foi útil na questão do transporte dos volumes. Comecei a ler no aparelho e não achei tão mau. Aliás, achei ótimo. E passei a ler no iPad, você acredita? Pois é. Mesmo assim, acho que os tablets e e-books servem como auxiliares de leitura. São mais para entretenimento que para estudo. Gosto de riscar, anotar e interferir nas páginas de um livro. Isso ainda não é possível fazer num tablet.

ÉPOCA – Apesar da evolução, o senhor vê a internet como um perigo para o saber?
Eco – 
A internet não seleciona a informação. Há de tudo por lá. A Wikipédia presta um desserviço ao internauta. Outro dia publicaram fofocas a meu respeito, e tive de intervir e corrigir os erros e absurdos. A internet ainda é um mundo selvagem e perigoso. Tudo surge lá sem hierarquia. A imensa quantidade de coisas que circula é pior que a falta de informação. O excesso de informação provoca a amnésia. Informação demais faz mal. Quando não lembramos o que aprendemos, ficamos parecidos com animais. Conhecer é cortar, é selecionar. Vamos tomar como exemplo o ditador e líder romano Júlio César e como os historiadores antigos trataram dele. Todos dizem que foi importante porque alterou a história. Os cronistas romanos só citam sua mulher, Calpúrnia, porque esteve ao lado de César. Nada se sabe sobre a viuvez de Calpúrnia. Se costurou, dedicou-se à educação ou seja lá o que for. Hoje, na internet, Júlio César e Calpúrnia têm a mesma importância. Ora, isso não é conhecimento.

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Documento inédito revela ‘desgraça’ de Maquiavel

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Publicado por BBC Brasil

Ordem de prisão de Maquiavel levou a sua detenção, tortura e influenciou obra do autor, diz analista

Ordem de prisão de Maquiavel levou a sua detenção, tortura e influenciou obra do autor, diz analista

Um professor da Universidade de Manchester (Grã-Bretanha) anunciou ter descoberto a versão original de uma ordem de prisão do escritor e filósofo Nicolau Maquiavel (1469-1527), autor do famoso livro O Príncipe.

O professor Stephen Milner explicou à BBC ter encontrado o documento, datado de 1513, durante suas pesquisas para entender como as informações circulavam nas cidades da época.

E a ordem pela prisão de Maquiavel foi dada há exatos 500 anos na cidade de Florença, onde o pensador, então influente e ativo na diplomacia da época, foi acusado de fazer parte de uma suposta conspiração para derrubar a facção Medici do poder.

O aviso de “procurado” colocou-o como “inimigo público número 1”, marcou sua “desgraça” e acabou sendo muito importante para a obra de Maquiavel, segundo Milner. No mesmo dia, diz o professor, o pensador acabou sendo detido, torturado e mantido em prisão domiciliar.

“O documento marcou a desgraça de um dos escritores políticos mais influentes do mundo”, relata o professor. “O Príncipe foi escrito (no mesmo ano) na vã esperança de (Maquiavel) cair nas graças e obter emprego com os Medici – mas não há nenhuma prova de que eles sequer o tenham lido.”

Clássico

Maquiavel morreu 14 anos depois, na pobreza.

Mas O Príncipe se tornou um clássico e até hoje influencia líderes, “pregando o sacrifício da virtude e da moralidade pela manutenção do poder a todos os custos”, ressalta a Universidade de Manchester.

“(A obra) foi atualizada para ser aplicada em áreas como bancos, finanças, negócios e política.”
Daí vem o termo “maquiavélico”.

Para Milner, O Príncipe é um “manual atemporal de auto-apresentação e de gerenciamento de reputação pessoal”.

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