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‘Talento é fundamental, mas não é suficiente’, diz poeta

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Publicado por: Valor

O poeta Ferreira Gullar mora desde 1979 em um prédio de esquina da rua Duvivier, em Copacabana, onde embaixo já funcionou uma boate. Avô de oito netos e bisavô de seis, casado com a poeta Cláudia Ahimsa (nascida em 1963), o escritor de 82 anos tem uma vida tão intensa quanto a do bairro onde mora.

Neste fim de ano, a editora José Olympio leva às livrarias a primeira edição avulsa da peça “O Homem como Invenção de Si Mesmo – Monólogo em um Ato” (2006), que só fora publicado no conjunto de “Poesia Completa, Teatro e Prosa” (2008, ed. Nova Aguilar). Como se recusa a viajar de avião, o poeta enfrentou na semana passada seis horas de estrada para ir a São Paulo receber o Prêmio Jabuti de ilustração por “Bananas Podres” (Casa da Palavra), com colagens que ilustram poemas seus de outras obras.

“Meu hobby é a pintura, a colagem”, diz o crítico de arte, que no início de 2013 publicará pela José Olympio outro livro com ilustrações, “A Menina Cláudia e o Rinoceronte”, para crianças. E se os leitores não devem esperar para breve novas coletâneas de poemas inéditos, provavelmente em março próximo já será possível encontrar outra novidade nas livrarias. Toda a obra de Gullar foi revista neste ano e a editora Maria Amélia Mello, da José Olympio, promete a reedição de um título por mês do poeta, com novo projeto gráfico. O primeiro será “Poema Sujo” (1976). “A importância da sua obra cresce a cada dia”, diz a editora. Leia a seguir trechos da entrevista que Gullar concedeu ao Valor.

Valor: O senhor costuma dizer que sua poesia nasce do espanto. O teatro surge de ideias racionais?

Ferreira Gullar: Eu nunca tinha escrito uma peça com o objetivo prioritário de expor uma teoria. Fui refletindo sobre a ideia do homem como invenção de si mesmo e me convencendo de que essa teoria tinha fundamento e que valeria a pena expô-la. Mas como não sou filósofo, não ia escrever um tratado. Me ocorreu fazer esse monólogo. Mas há peças que nascem por outra razão, com outras intenções. Algumas têm a questão social, outras são mais poéticas, outras mais teatrais, como “Romance Nordestino”, em que me inspirei no cordel.

Valor: Há um limite de tempo para o ser humano se inventar e se reinventar?

Gullar: A pessoa não se inventa gratuitamente. Ninguém se inventa craque de futebol sem talento, ninguém vai se inventar cozinheiro ou poeta sem talento. A pessoa nasce com determinadas qualidades e as desenvolve. Como disse o Noel Rosa, samba não se aprende no colégio. Tenho de trabalhar o meu samba, a minha música, mas antes preciso ter vocação. A minha teoria não fala de se reinventar, mas de inventar mesmo. Se a pessoa ficar sentada na beira da calçada e não fizer nada, ela não vai ser nada na vida. Mesmo que tenha nascido com talento de romancista, se não tentar escrever, se não se dedicar e se entregar, não vai conseguir fazer um bom romance. Uma coisa é a qualidade com a qual você nasce e outra é a capacidade de transformar aquilo em realidade. Porque talento é fundamental, mas não é suficiente.

Valor: O senhor já viu muita gente se desperdiçar?

Gullar: Quando a pessoa nasce com uma qualidade e não a desenvolve é porque não sente necessidade. A vida é acaso e necessidade. Acaso nada mais é do que probabilidade, aquilo que é possível acontecer. Você de repente pode conhecer uma pessoa que vai mudar a sua vida, mas para isso aquela pessoa precisa necessitar de você e você dela. Se você não transforma o acaso em necessidade, não vai realizar as coisas. “A Divina Comédia” podia não ter sido escrita. Ela se tornou necessária porque foi escrita e inventou coisas que se tornaram necessárias. É nesse sentido que falo que a vida é inventada.

Valor: Buscar a lucidez parece fundamental para o senhor, não?

Gullar: As pessoas em geral dizem que sou lúcido. O meu saudoso amigo Dias Gomes [1922- 1999] sempre me telefonava quando enfrentava um problema pessoal complicado. “Tenho de ouvir você, porque, em matéria de lucidez, confio em você”, falava. Algumas pessoas acham que tenho essa qualidade. Quem lê minhas crônicas também. Não gosto de confusão, não gosto de fazer de conta de que sou complexo. Pelo contrário, minha preocupação é ser claro, mesmo quando as coisas são complexas.

Valor: Isso dá ao leitor um certo reconforto…

Gullar: Acho que sim, porque não há coisa mais chata do que não entender o que se lê, ou se sentir burro porque você não está entendendo. Às vezes não é complexidade, mas confusão…

Valor: Nesta sociedade pragmática, há receio em relação à subjetividade, não?

Gullar: A coisa pior é achar que tudo é muito simples. É um equívoco, o ser humano é complexo. Em sua riqueza de personalidade, o ser humano não é só razão ou só irracionalidade e loucura. Mesmo quem é doente mental têm momentos de racionalidade. Existe um dado realmente complicado da sociedade hoje que, cada vez mais pragmática, não leva em conta a complexidade do indivíduo. Muitas pessoas mais sensíveis se sentem marginalizadas nessa sociedade que não leva em conta essa face do ser humano, a subjetividade, os sonhos, o delírio, as inseguranças. Uma sociedade que se torna cada vez mais pragmática e objetiva tende a ignorar isso, trata-se de fonte de neurose para as pessoas, de marginalização.

Valor: O poeta faz as pessoas terem contato com esse mundo…

Gullar: Uma das coisas que o artista e o poeta fazem é oferecer às pessoas esse outro lado da vida. Um dos fatores mais presentes na atualidade é a mídia, que transforma tudo em notícia. Isso se sobrepõe aos demais valores. Tem muita gente com prestígio na sociedade só em função da sua presença na mídia, sem de fato nenhuma contribuição efetiva. Isso é muito grave e, em muitos casos, provoca uma inversão de valores. Pode levar a muitos equívocos e a muita injustiça.

Valor: Hoje ainda existe brecha para o espanto?

Gullar: O espanto está presente porque o mundo não é explicado. De vez em quando você se defronta com uma coisa que parecia explicada e não está. Isso é o espanto: a experiência inesperada. O mundo está aparentemente explicado. De repente você vê que não.

Valor: O senhor ainda se espanta quando lê?

Gullar: Claro, uma das coisas que a leitura possibilidade é isso. Não como na vida, mas o livro, especialmente o de poesia, contém esse espanto. Mas hoje leio menos do que no passado. Não tenho tanto tempo para ler e estou mais preocupado em refletir, pensar e escrever.

Ao som de “Peixe Vivo”, Décio Pignatari é enterrado em São Paulo

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O poeta Décio Pignatari

Publicado na Folha de S.Paulo

O corpo do poeta, ensaísta e tradutor Décio Pignatari foi enterrado ao meio-dia desta segunda-feira (3) no cemitério do Morumbi, em São Paulo, após velório que começou por volta das 8h.

“No Brasil, foge-se como o diabo da cruz dos juízos de valor”, disse Pignatari
Análise: Pignatari esteve na proa das vanguardas em mais de 50 anos de publicações

Pignatari morreu na manhã deste domingo (2), aos 85 anos, em São Paulo. Internado no Hospital Universitário da USP desde a sexta (30), ele teve insuficiência respiratória e pneumonia aspirativa (infecção pulmonar).

Durante o enterro, Serena Pignatari, filha do poeta, contou aos mais de cem presentes que seu pai não queria “nenhum sacerdote, nenhum padre” na cerimônia.

“A única coisa que ele gostaria de escutar neste momento é uma música que ele gostava muito, ‘Peixe Vivo'”, afirmou Serena. Em seguida, começou a cantar e logo foi acompanhada pelos presentes.

“A memória recente dele estava completamente comprometida, mas da memória antiga ele lembrava tudo: de artistas, dos filmes, do Humphrey Bogart e de coisas importantes da literatura que não se apagaram”, disse à Folha Lilla Pignatari, 80, viúva do poeta. Além de Serena, Pignatari deixa outros dois filhos e dois netos.

Décio Pignatari foi um dos principais nomes da poesia concreta, ao lado dos irmãos Haroldo (1929-2003) e Augusto de Campos, 81 –com quem editou a revista “Noigandres”, no anos 1950. Também com os irmãos Campos publicou “Teoria da Poesia Concreta”, em 1965, “Mallarmagem”, em 1971, e “Ezra Pound – Poesia”, em 1983, entre outros.

O maestro Júlio Medaglia, que foi se despedir do amigo, afirmou que “era filho intelectual dele”. “Ele era brilhante porque tinha domínio de todo o tipo de assunto e conversava comigo sobre música com muita autoridade e conhecimento.”

Para o compositor Lívio Tratenberg, “é preciso tomar cuidado para não folclorizar essa coisa da personalidade forte do Décio”. “Por trás dessa personalidade havia muitas ideias. Ele possuía muita crença no que dizia, por isso era tão convicto e não fazia o jogo social de agradar. Quando não concordava com algo, ele era muito claro. Por isso, para mim, se tornou uma referencia ética.”

“O Décio foi, sobretudo, um descobridor de novos caminhos. Ele chegava com ideias que, de início, pareciam estranhas, mas depois comprovavam que ele estava na vanguarda”, avaliou o escritor, tradutor e ensaísta Boris Schnaiderman. “Ele antecipou muita coisa que depois foi vista como normal, mas que não era quando ele propôs.”

“[O livro] ‘Informação, Linguagem, Comunicação’ me abriu perspectivas novas, quando estudante, e desde então sempre acompanhei suas pontadas de lança de múltiplo alcance. Gosto muito de poemas como ‘O Jogral e a Prostituta Negra’ e ‘Femme'”, disse José Miguel Wisnik, escritor, compositor e professor de literatura brasileira da USP. “Conheci a sua generosa solidariedade em momentos pessoais difíceis, mesmo não sendo próximo dele. Tenho saudades de quando havia debate literário no Brasil”, completou.

O cantor e compositor Tom Zé conta que houve uma época em que se encontrava duas ou três vezes por semana com Décio Pignatari, Augusto e Haroldo de Campos para tomar um chope. “Nessa época, o Décio teve a ideia da capa do meu disco ‘Todos os Olhos’, que reverbera até hoje, com aquele c*, que é um olho…”, lembra. “Os próprios poetas concretistas se diziam influenciados pela poesia provençal, que eu também trato no meu disco recente, ‘Tropicália Lixo Lógico’. A influência deles é a mesma dos poetas populares de Irará [cidade natal de Tom Zé, na Bahia].”

Foto: Mastrangelo Reino/Folhapress

Aconteceu: Festa Literária das UPPs agitou o Morro dos Prazeres (RJ)

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O Morro dos Prazeres, em Santa Teresa, Centro do Rio: pacificado há cerca de dois anos, o local recebe a primeira edição da Flupp (Foto: Lorice Araújo/Governo do Estado)

Em 2010, o jornalista e escritor pernambucano Julio Ludemir completou 50 anos. Autor de um livro que conta a história do crime no Complexo do Alemão, o flamenguista fanático recebeu a notícia que sua obra estava encalhada na editora e os exemplares seriam incinerados.

Fã da Flip (Festa Literária Internacional de Paraty), Julio recolheu mil exemplares e foi para Paraty na expectativa de vender vários exemplares. A experiência foi malsucedida e traumática. No entanto, como acontece com a musa-canção de Milton Nascimento, escritores possuem “a estranha mania de ter fé na vida”.

Ao voltar de Paraty, compartilhou com o amigo Ecio Salles a ideia de criar uma festa literária, nos moldes da FLIP, numa favela carioca. Nascia a Festa Literária das UPPs, a Flupp. Heloísa Buarque de Hollanda e Luiz Eduardo Soares entraram no grupo e a profecia-poema de Pessoa se cumpriu: “Quando Deus quer e o homem sonha, a obra nasce”.

Durante cinco dias (7 a 11 de novembro), livros, leituras, escritores do Brasil e do mundo inteiro, oficinas, teatro, exposições, ações cultturais diversas ocuparam criativamente o Morro dos Prazeres, em Santa Teresa,  zona central do Rio de Janeiro.

Cerca de 7 mil pessoas passaram pelas três tendas (Policarpo Quaresma), Bruzundangas e Pontocom) para ouvir gente ilustre como Ariano Suassuna, Ferreira Gullar, João Ubaldo Ribeiro e Ana Maria Machado. Entre os convidados estrangeiros, o alemão Thomas Brussig, o palestino Najwan Darwish e o quadrinista francês Étienne Lécroart.

Para 2013, o autor homenageado já foi escolhido: será o poeta Waly Salomão, morto em 2003. A Flupp também deve ter casa nova, na Vila Cruzeiro, no Complexo do Alemão.

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