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Literatura experimental aponta infinitas possibilidades na escrita

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Rômulo Neves, no Metropoles

Uma das vertentes da literatura contemporânea é a chamada literatura experimental. Trata-se de inovações, especialmente no formato e no suporte das peças literárias, para a elaboração de novas obras de arte. Seja na poesia ou na prosa, os autores buscam novas formas de produção, até onde a criatividade alcança.

Na poesia, por exemplo, há a poesia visual, que trabalha a imagem como parte do significado do poema, com fotos e ilustrações. Ainda um pouco mais ousada é a poesia eletrônica, que não apenas usa o meio eletrônico como suporte substituto do papel, mas como parte da própria experiência poética.

Nesse sentido, certamente o autor brasileiro mais produtivo é Alckmar Luiz dos Santos, professor da Universidade Federal de Santa Catarina.

Alckmar é engenheiro, mas acabou desembocando na literatura, onde fez mestrado e doutorado. Conseguiu juntar os dois mundos e, hoje, além de dar aulas de literatura brasileira, coordena o Núcleo de Pesquisa em Informática, Literatura e Linguística da UFSC. Ganhou alguns concursos literários, entre eles o Prêmio Redescoberta da Literatura Brasileira, da Revista Cult, ainda em 2001.

Inovações na prosa
Se, no caso da poesia, a experimentação atual está no uso de um novo suporte/material, no caso da prosa, a inovação está na limitação de formatos, na imposição de critérios prévios ou na construção de jogos de linguagem, significado ou mesmo de seleções randômicas.

Nesse aspecto, a iniciativa mais conhecida e produtiva foi a do grupo francês Oulipo (ulipô) — acrônimo, em francês, para Oficina de Literatura Potencial. Criado em 1960, o grupo reuniu escritores do quilate de Ítalo Calvino, Georges Perec e Raymond Queneau, mas foram mais de 35 autores que participaram das oficinas de criação.

Georges Perec levou a experimentação do Oulipo á condição de obra-prima

Georges Perec levou a experimentação do Oulipo á condição de obra-prima

 

Nelas, eram utilizadas regras matemáticas ou jogos de linguagem como estímulos para a produção de suas obras. A exemplo da escrita de versos ou frases com todas as palavras iniciando com a mesma letra, a escrita de poemas com versos de uma única palavra, cada uma com uma letra a mais do que a anterior, entre outros desafios.

Obra-prima experimental
Um dos mais conhecidos expoentes do grupo foi Ítalo Calvino, mas ele tinha uma produção para além do Oulipo. Aliás, seus livros mais famosos, “Os Amores Difíceis”, “As Cidades Invisíveis” e “Por Que Ler os Clássicos”, estão fora das experimentações do Oulipo, até porque, sendo italiano, participava esporadicamente dos coletivos criativos do grupo, que se reunia em Paris.

Foi mesmo Georges Perec que levou a experimentação do Oulipo á condição de obra-prima. Seu primeiro romance utilizando o método de definição prévia de restrição voluntária na escrita foi “La Disparition”, de 1969, apenas dois anos depois de ter entrado para o grupo.

Somente em 2016, porém, em razão da dificuldade da empreitada, o livro foi traduzido para o português e lançado pela Editora Autêntica, com o título “O Sumiço”. Trata-se de um romance escrito inteiramente sem o uso da vogal “e”, a letra mais comum na língua francesa — como o “a” é na língua portuguesa. O livro, aliás, foi dedicado à “e”.

Um romance feito de diversos romances
Em 1972, Perec lançou uma espécie de revanche, o livro “Les Revenentes” (em tradução livre, “As Retornadas” ou “As Fantasmas”), em que o “e” é única vogal utilizada ao longo de todo o novo romance. Esforço de peso, você há de concordar. Foi em 1978, entretanto, que Perec lançou sua obra-prima: “A Vida — Modo de Usar”.

A obra narra, seguindo regras da lógica matemática, sem que o leitor perceba, a vida dos moradores de um edifício parisiense, de 1875 a 1975, e apresenta vários níveis de significação, com uma descrição espacial específica para ajudar o leitor a caminhar pelos corredores do prédio.

Contos de tamanho definido
Atualmente, a experimentação mais em voga é o microconto. Contos com tamanho definido, seja em número de caracteres, seja em número de palavras. Apesar de o microconto ter-se popularizado na década de 1990, e, no Brasil, contar com uma obra inteira de Dalton Trevisan dedicada ao formato, já em 1994, intitulada “Ah, É”, a iniciativa mais conhecida foi o concurso de microcontos lançado pela Academia Brasileira de Letras, em 2010, para aproveitar a onda do aparecimento do twitter.

O tamanho máximo era, exatamente, a quantidade de caracteres permitidos nas mensagens da nova plataforma: 140. O concurso recebeu cerca de 2.300 inscrições. Ironicamente, os prêmios para os segundo e terceiro lugares eram minidicionários.

Os microcontos de Zezeu
Em Brasília, também temos uma iniciativa de experimentação nessa área. Trata-se do livro “Microcontos”, de Deusdedith Rocha Jr., o Zezeu. O livro, lançado de maneira independente neste ano, conta com 100 contos, com exatas 100 palavras cada.

Escritos entre 2014 e 2015, os contos de Zezeu se inserem perfeitamente no contexto das experimentações do Oulipo: rigidez formal e ampla abertura temática. O próprio autor reconhece a dificuldade de se manter preso ao formato e avisa, na introdução da obra, que vai navegar outros mares dali pra frente, mas desafia alguém a pegar o bastão.

O resultado é primoroso e, tanto pela necessidade de síntese, como pelo histórico de poeta do autor, tem passagens e desfechos típicos da linguagem poética. O maior desafio do microconto, como na poesia, é conter a maior quantidade de significados com o mínimo de material escrito, porém, sem deixar o leitor perdido, sem o fio da meada.

O fim pode não ser o fim
No microconto, é possível que o fim não seja o fim, mas o começo de outro novelo, de outra história, de outro drama. Exatamente como na história “Humildade”, um dos contos do livro:: “Ainda me pergunto se essa conclusão de fato encerra o assunto ou principia um distanciamento novo para a questão”. O repórter que fazia a entrevista ficou atônito, certamente. O livro, obviamente curto, vale a pena. Diverte, ao mesmo tempo em que sugere muita reflexão.

De todo modo, o microconto não está definido como um formato muito específico, como o soneto, e tudo ainda é discricionário, felizmente. Zezeu, por exemplo, escolheu como métrica as 100 palavras, a ABL, 140 caracteres.

Já o jornalista Carlos Willian Leite selecionou uma antologia primorosa para a revista eletrônica Bula, com 30 microcontos, de até 100 caracteres cada um. Como podemos ver, ainda está tudo no contexto da experimentação.

Conheça o romance francês com mais de 220 páginas que não utiliza a letra E

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Perec

Rodrigo Casarin, no Página Cinco

Você já pensou em escrever – tá, ler já serve também – um romance inteiro sem a letra E? Pois foi justamente isso que o francês Georges Perec (1936 – 1982) realizou em “O Sumiço”, livro publicado originalmente em 1969 e recentemente traduzido pela primeira vez para o português por José Roberto Féres, o Zéfere, mestre em literatura comparada pela Sorbonne, em tradução literária pela Paris 8, doutor em literatura e cultura pela UFBA, professor e também poeta.

o-sumico-210x300A narrativa, lançada aqui pela Autêntica, conta a história do sumiço de Anton Voyl, um entusiasta de jogos de palavras. Não por acaso, evidentemente, a vogal mais utilizada na língua francesa também desaparece das páginas da obra. “A ambição do ‘Scriptor’, o propósito, digamos, o alvo, sua visada contínua, foi, acima de tudo, criar um produto final tão original quanto instrutivo, um produto apto a propulsionar ou, quiçá, a vir a proporcionar um impulso instigador à construção, à narração, à fabulação, à ação, ou, digamos, numa palavra, ao padrão da narrativa longa atual”, escreve Perec, também autor de “Prix Médicis: A Vida Modo de Usar”, dentre outros, no posfácio – que, como é possível perceber, também abre mão do E.

o sumicoE quem imagina que o escritor optou por algo breve, o que poderia facilitar as coisas, engana-se: a história traduzida ocupa mais de 220 páginas. Com uma empreitada tão grande e desafiadora quanto a de Perec pela frente, Zéfere começou a verter “O Sumiço” para o português em 2008, enquanto fazia seu mestrado, e só foi conclui-lo em 2015.
“Antes de mais nada, antes de estudar as minúcias do livro e investigá-las ainda mais nas dissertações de mestrado e tese de doutorado que escrevi em torno de Perec e sua obra, senti a necessidade de experimentar essa restrição com a língua portuguesa, fazer exercícios textuais sem o E. Meu primeiro teste foi, então, reescrever lipogramaticamente, sem a letra E, alguns versos de Manuel Bandeira, o que resultou em ‘Caio fora pra Pasárgada’’”, conta o tradutor.

O resultado é uma prosa com uma estética um tanto estranha para o leitor. Veja esse trecho como exemplo: “Na ponta, surgiu um sacristão com uma túnica da cor limão agitando um turíbulo do ouro mais maciço, aí uma padraria (um trio) brandindo um crucifixo sob um baldaquim um pouco baranga, com babados a frufrulhar, aí cinco funcionários da casa mortuária Borniol, içando um caixão acaju com alças cromadas. Um dos funcionários tropicou: o oblongo caixão balançou, caiu, abriu: danação! Hassan Ibn Abbou havia sumido!”

O próprio tradutor assume que foi obrigado a buscar “estratégias e estruturas que implicam a construção de um outro português, ou, ao menos, a sua reconstrução, a sua reciclagem, reativando potencialidades latentes ou adormecidas, colocando em relação termos que jamais ou raramente se encontrariam no nosso falar cotidiano, reformulando grande parte dos pensamentos e falas que nos saem, em geral, tão naturalmente, que sequer nos damos conta do que estamos realmente dizendo”.

Os desafios da tradução

Para Zéfere, a maior dificuldade do trabalho esteve principalmente na necessidade de se criarem jogos de linguagem que apontem constantemente para a ausência da letra. “Foi essa a jogada de mestre do autor, a sua grande sacada: escrever um livro sem o E, mas que fala, exatamente, do sumiço do E. Quanto à fidelidade da tradução, precisei refletir a cada momento sobre aquilo a que eu deveria ser fiel, e sempre optei por oferecer ao leitor lusófono jogos que não se prendiam, necessariamente, àquilo que estava explícito, mas mais ao implícito, isto é: não me deixei limitar pelo dito, busquei explorar igualmente o não-dito, ou melhor, o interdito entredito, o proibido exibido nas entrelinhas”, conta.

Como exemplo cita o jogo que existe em uma das passagens. “O protagonista, Anton Voyl, antes de sumir e, consequente, colocar todos seus amigos aflitos em busca de uma solução para o mistério do seu sumiço, instala no seu carro um dispositivo antirroubo, ‘anti-vol’; só que esse ‘vol’ de ‘anti-vol’, em francês, pode ser pronunciado como Voyl, o sobrenome do personagem, sob o qual, nas entreletras, lê-se a palavra ‘voyelle’, vogal, ou seja: o dispositivo era não somente antirroubo mas, igualmente, anti-vogal, duplo sentido que não se produz num simples ‘antirroubo’ em língua portuguesa”, diz, expondo um dos problemas que encarou.

A solução encontrada para tal foi também trabalhar com uma dupla interpretação. Rebatizou Anton Voyl para Antoin Vagol – um nome relativamente conhecido dos brasileiros, Antoine, mas sem o E, acompanhado de um sobrenome que é um anagrama da palavra ‘vogal’ – e no lugar do dispositivo antirroubo, colocou na tradução “uma invocada ignição ativada por discriminação vocal”. “É algo um tanto quanto futurístico, sim, anacrônico, talvez, mas que garante, implicitamente, que se diga o indizível, que se apresente a ausência da vogal, graças à polissemia de ‘discriminação vocal’, que pode significar reconhecimento por voz e, quem sabe, atitude discriminatória em relação a uma certa vogal”, argumenta.

E, ao cabo, o que Zéfere achou da experiência? “Uma coisa é certa: ninguém sai ileso de um trabalho como esse, e muito menos a língua! Foi engraçado me ver tão profundamente habitado por esse sumiço, que me peguei escrevendo até mesmo artigos acadêmicos em que eu evitava certas palavras, sem perceber, porque elas continham E”. Sorte que a vogal já voltou ao vocabulário do tradutor.

Concurso Cultural Literário (147)

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O sumiço

Georges Perec (autoria), Zéfere (tradução)

Este romance do francês Georges Perec é todo escrito sem a letra “e”, a mais frequente da língua francesa. A inovação da obra não está, porém, apenas na falta da vogal, mas principalmente em fazer do desaparecimento da letra o próprio tema do livro e a lei maior à qual se deve toda a história. O autor cria um mundo de letras, povoado por seres de letras, cujo destino depende também das letras, e, principalmente, do sumiço de uma delas. Esta mirabolante história de investigação policial, cheia de mistério, bom-humor, romances e reviravoltas, vai além de um enredo intrigante, voltando-se para o ato da escrita e os jogos de linguagem que apontam para a própria língua, o francês – mutilado, porém.

Para publicar uma versão em português, exigiu-se do tradutor uma constante tarefa de recriação desses jogos numa outra língua, também amputada de uma vogal que muitos julgariam imprescindível. O criativo trabalho realizado por José Roberto Andrade Féres, ou Zéfere – como prefere ser chamado –, nesta obra foi precedido do estudo de diversos artigos, dissertações e teses de estudiosos de Perec, assim como de tradutores da obra em outras línguas.

A leitura d’O sumiço levará o leitor a querer jogar com Perec, desvendar suas pistas e encaixar as peças dos seus inúmeros quebra-cabeças. Enfim, um livro que é um verdadeiro (e divertido!) desafio para quem escreve, quem traduz e, claro, para quem lê.

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Em parceria com a Editora Autêntica, vamos sortear 2 exemplares de “O Sumiço”, livro de Georges Perec.

Para concorrer, formule na área de comentários uma frase sobre livros (ou leitura) sem usar a letra “e”.

Se participar via Facebook, por favor deixe seu e-mail de contato.

Para ficar sempre por dentro das novidades e promoções, sugerimos que curta as páginas dos envolvidos neste concurso cultural:

O resultado será divulgado dia 22/3 neste post.

Participe e divulgue!

ATENÇÃO PARA OS GANHADORES!

Edith Giovanna Cardoso e Francieli Valeze. Parabéns! Entraremos em contato.

 

 

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