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ABL frustra expectativas de campanha por Conceição Evaristo e elege Cacá Diegues como novo imortal

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A escritora Conceição Evaristo. Joyce Fonseca Divulgação

Escritora de Belo Horizonte recebeu apenas um voto, apesar da campanha feita por movimentos negros e feministas. Cineasta vai ocupar a cadeira de número 7, vaga desde abril deste ano

Felipe Betim, no El País

A Academia Brasileira de Letras (ABL) escolheu na tarde desta quinta-feira o cineasta Cacá Diegues, de 78 anos, para ocupar a cadeira de número 7 da instituição, vaga desde abril deste ano com a morte do também cineasta Nelson Pereira dos Santos. A entidade literária, fundada em 1897 no Rio de Janeiro com o objetivo de cultivar a língua portuguesa e a literatura brasileira, frustrou a expectativa daqueles que esperavam que a escolhida fosse a escritora Conceição Evaristo. Negra e nascida em uma comunidade de Belo Horizonte há 71 anos, sua candidatura foi impulsionada por movimentos negros e feministas que buscam uma maior representatividade dentro da ABL, composta por 40 membros efetivos e perpétuos que são, em sua maioria, homens e brancos.

A mobilização em torno de Evaristo começou quando a jornalista Flávia Oliveira lançou a ideia na coluna de Anselmo Gois, no jornal O Globo. “Eu voto em Nei Lopes ou Martinho da Vila. Sem falar na Conceição Evaristo. ‘Tá’ faltando preto na Casa de Machado de Assis”, disse em abril. Uma petição na Internet chegou a reunir mais de 25.000 assinaturas e a hashtag #ConceiçãoEvaristoNaABL foi criada, fazendo com que a escritora finalmente formalizasse a sua candidatura, no dia 18 de junho. “Assinalo o meu desejo e minha disposição de diálogo e espero por essa oportunidade”, dizia um trecho do documento entregue. Apesar de toda essa campanha, ela recebeu apenas um dos 35 votos. Diegues recebeu 22, enquanto que o editor e colecionador carioca Pedro Aranha Corrêa do Lago, de 60 anos, ficou com 11. A eleição é secreta. Ao todo, havia 11 candidatos.

Diegues é um cineasta reconhecido internacionalmente e um dos fundadores, junto com Glauber Rocha, do Cinema Novo, movimento que nasceu nos anos 60 com o objetivo de discutir as questões brasileiras consideradas urgentes, como a desigualdade social.

Já Evaristo tem dois romances publicados, sendo o principal deles Ponciá Vicêncio (2003), um livro de poema e três de contos, além de ter tido sua obra publicada em dezenas de antologias. Olhos D’Água” recebeu o Prêmio Jabuti em 2015 como melhor obra de contos. A autora é conhecida por abordar sobretudo temas relacionados ao racismo, gênero e classe. Ela é também mestra em literatura brasileira pela PUC-Rio e doutora em Literatura Comparada pela Universidade Federal Fluminense (UFF).

Sua eleição, ainda que improvável (Diegues e Corrêa do Lago sempre foram considerados os favoritos), despertava expectativas, segundo disse nesta quinta Cristina Warth, diretora da Pallas Editora, que publica as obras de Evaristo. “Sem dúvida ela é o melhor nome entre os que estão concorrendo. Com uma obra literária consistente, é reconhecida nacional e internacionalmente como uma grande escritora da literatura contemporânea”, explicou ao EL PAÍS. “Está mais do que na hora de uma autora negra e mulher fazer parte do grupo de acadêmicos da ABL, especialmente para ocupar a cadeira que tem como patrono Castro Alves, autor de fundamentais textos sobre a condição do negro escravizado no Brasil. Este é o momento de se reconhecer Conceição Evaristo como um dos cânones da literatura de língua portuguesa, para além da sua condição de autora negra”, completou. A escritora ainda não se manifestou.

Livro inédito de J.R.R. Tolkien inicia projeto de sua nova editora no Brasil

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‘A Queda de Gondolin’, organizado e editado pelo filho Christopher Tolkien, tem lançamento simultâneo nos EUA, Reino Unido e Alemanha, e no Brasil, em português, pela HarperCollins Brasil

Guilherme Sobota, no TERRA

Uma nova geração de edições e livros de J.R.R. Tolkien (1892-1973) começa a chegar nesta quinta-feira, 30, às livrarias brasileiras: A Queda de Gondolin, livro inédito do autor, organizado e editado pelo filho Christopher Tolkien, é lançado hoje simultaneamente no Brasil, EUA, Reino Unido e Alemanha – uma iniciativa também inédita alcançada pela nova editora de Tolkien no País, a HarperCollins Brasil.

Nove cidades brasileiras recebem eventos para celebrar o lançamento daquele que provavelmente é o último livro inédito com escritos de Tolkien (Christopher, o responsável pela obra do pai, está com 93 anos e afirma no prefácio que esse é seu último trabalho). Em São Paulo, o evento está marcado para as 20h na Saraiva do Shopping Pátio Paulista (Rua Treze de Maio, 1.947), em parceria com os fãs-clubes Tolkien Talk e O Bolseiro. Haverá concurso de cosplay, leituras do livro e debates sobre a história da obra.

O livro marca também o primeiro trabalho assinado por Tolkien no novo projeto da HarperCollins Brasil para a obra do autor de O Senhor dos Anéis: dois livros biográficos já estão nas livrarias (inclusive a biografia de Humphrey Carpenter, considerada a história mais completa da vida do escritor), mas a proposta da editora é lançar tudo que leva o nome dele na capa. Ainda em 2018, sai Beren e Lúthien (inédito no Brasil); no primeiro de semestre de 2019 estão programados O Silmarillion, Contos Inacabados e As Cartas de J.R.R. Tolkien; e no segundo, O Hobbit e O Senhor dos Anéis – todos com novas traduções.

Para a empreitada, a editora organizou um conselho de tradutores, num trabalho parecido com o aplicado à Bíblia. O conselho é formado pelos pesquisadores Ronald Kyrmse e Reinaldo José Lopes, pelo tradutor Gabriel Brum e pelo gerente editorial da HarperCollins Brasil, Samuel Coto, o responsável pelas obras de Tolkien na casa.

Para o editor, a ideia é levar a literatura de Tolkien a outros alcances, e não deixá-la restrita aos fãs de literatura fantástica. “Tolkien pavimentou o caminho para o que chamamos de literatura fantástica, mas mais do que isso ele queria criar uma mitologia para a Inglaterra, dar uma raiz literária para o seu país”, explica. “Nosso plano não é esquecer o que já foi feito no Brasil, mas repensar o projeto. Tem um trabalho de reposicionamento. Temos usado como analogia as portas dentro de uma casa: oTolkien tem uma complexidade e uma profundidade muito grandes, e algumas portas de acesso a essas profundezas. A única porta que sentimos que está escancarada no Brasil é a porta do universo geek. Mas há outras portas importantes: de literatura infantojuvenil, que tem aplicação na formação educacional, mas também de pesquisas acadêmicas, a porta religiosa e teológica, a linguística, até a botânica.”

O tradutor de A Queda de Gondolin é Reinaldo José Lopes, jornalista, mestre e doutor pela USP em tradução e Tolkien. Para ele, o grau de trabalho formal que Tolkien aplicou em suas obras é comparável ao de grandes escritores contemporâneos seus, como James Joyce e Guimarães Rosa. “Embora a abordagem seja diferente desses autores modernistas, não dá para subestimar o trabalho formal. Além disso, na temática, Tolkien também traz questões muito profundas e importantes para o momento atual, como por exemplo a questão ambiental, da ação do homem sobre a natureza, e principalmente a questão do poder de maneira geral”, explica.

“A mensagem é: em quem você pode confiar ao jogar o poder na mão de alguém? A resposta é: ninguém. Existe ali também um aspecto teológico, da decadência do homem em relação a Deus. Esse ceticismo saudável em relação a qualquer forma de poder é importante”, conclui.

O novo livro é um material inédito editado por Christopher Tolkien, e é um dos “três grandes contos” referentes à Primeira Era da mitologia deTolkien – o que seria a Antiguidade para os personagens de O Senhor dos Anéis, da Terceira Era.

Uma parte do material já era conhecida dos fãs, mas o novo livro traz um nível de detalhamento inédito sobre a história da cidade élfica construída para ficar escondida do vilão Melkor – que em última instância a descobre e a leva à queda.

“O livro traz elementos de várias fases da carreira literária de Tolkien, desde os anos 1910 até os 1950, é um corte transversal no qual o leitor vai conseguir ter uma visão de conjunto da mitologia que o autor construiu”, explica Lopes. “Nessa versão original do texto, dragões e monstros têm um aspecto quase robótico. O pessoal costuma fazer relação entre isso e a participação do Tolkien na 1.ª Guerra, quando ele testemunhou a ação de aviões e tanques”, explica.

Como organizar livros na estante

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Deixe os queridinhos por perto – e saiba como acomodar aqueles volumes que você está sem coragem de jogar fora.

Marcelo Testoni, na Superinteressante

1. NA PRATELEIRA MAIS ALTA

Coloque as obras que você já leu e não quer se desfazer na parte mais alta da estante. Elas não ocupam as áreas mais nobres, mas continuam acessíveis e organizadas para quando for preciso consultá-las.

2. NA ALTURA DOS OLHOS

Vão aqui os queridinhos: livros preferidos, edições caprichadas e aqueles com dedicatórias ou autógrafos especiais. Por serem tão precioso, devem ficar longe do alcance de crianças, animais de estimação etc.

3. NA TERCEIRA PRATELEIRA

Abaixo, reúna tudo o que ainda não leu e que faz questão de ler, para visualizar o tamanho da responsabilidade. O ideal é que os livros que você mais consulta fiquem entre a altura dos olhos e essa região intermediária.

4. PERTO DO CHÃO

No térreo da estante, acomode aqueles cujo destino é indefinido. Entram nessa lista os livros que ganhou, mas não vai ler e não criou coragem de se desfazer, ou então as obras que já foram lidas e perderam utilidade, como guias de viagem desatualizados.

5. SE FALTAR ESPAÇO

Se suas prateleiras estão repletas e você não tem espaço para instalar mais nenhuma, arrume as obras no sentido horizontal. A desvantagem é que retirar um livro da pilha fica mais difícil.

Confira a programação da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) 2018

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Totens com informações turísticas lançado na Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), faz parte do projeto App Paraty: cultura e natureza – Paraty na palma da sua mão. (Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil)

Publicado no Portal R3

A Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) está em sua 16ª edição com uma performance celebrando o caráter transgressor da obra de Hilda Hilst, escritora homenageada deste ano. A abertura oficial aconteceu na quinta-feira (25), no Centro Histórico de Paraty (RJ).

Além do telão montado no Centro Histórico de Paraty, as mesas da festa neste ano serão transmitidas via internet. Os debates serão exibidos ao vivo pelo canal da Flip no YouTube, onde também é possível conferir na íntegra as mesas de edições passadas da festa.

A Flip deste ano manteve em sua programação a diversidade entre autores brancos e negros, e entre mulheres e homens. Como nas edições passadas, escritores estrangeiros de destaque também marcam presença, como o vencedor do prêmio Pulitzer Colson Whitehead e Liudmila Petruchévskaia, considerada uma das mestras do terror na literatura russa.

Confira a programação completa:
Quinta-feira (26/07)
10h
A jornalista Mariana Filgueiras media uma mesa que reúne a cineasta Gabriela Greeb e o sound designer Vasco Pimentel para apresentar fitas magnéticas da década de 1970 com divagações literárias e existenciais de Hilda Hilst.

12h
A poeta portuguesa Maria Teresa Horta participa por vídeo de um diálogo com as autoras brasileiras Júlia de Carvalho Hansen e Laura Erber, cujas obras trazem influências da lírica portuguesa e da autora homenageada.

15h30
A escritora e pesquisadora Lilia Schwarcz conversa com Christopher de Hamel, considerado o maior especialista em textos medievais do mundo.

17h30
O feminismo negro da literatura de Djamila Ribeiro encontra a obra de Selva Almada, escritora argentina que contou histórias reais de feminicídios no livro Garotas Mortas. Alice Sant’Anna media a mesa, que terá também uma apresentação da slammer pernambucana Bell Puã.

20h
Sergio Sant’Anna encerra o primeiro dia em um diálogo com um leitor seu que se tornou autor, Gustavo Pacheco. Na conversa, estão temas caros a Hilda Hilst, como o desejo, a solidão e a morte. O jornalista Guilherme Freitas media.

Sexta-feira (27/07)
10h
A doutora em literatura brasileira Rita Palmeira media um encontro em que o editor e artista visual Ricardo Domeneck e a pesquisadora Lígia Ferreira, especialista e divulgadora do poeta negro Luiz Gama, conversam sobre o silenciamento de autores, como a própria Hilda Hilst.

12h
A língua italiana é o mote para reunir duas diferentes vozes: o poeta suíço Fabio Purstela e a italiana Igiaba Scego, descendente de uma família somali e admiradora de Caetano Veloso. A escritora Noemi Jaffe será a mediadora.

15h30
Um dos grandes destaques da Flip deste ano, o franco-congolês Alain Mabanckou será “entrevistado” em uma mesa com dois mediadores, José Luiz Passos e Bruno Gomide. Questões raciais e a obra do autor, comparado a Samuel Beckett, estão na pauta.

17h30
Ricardo Domeneck volta ao palco principal com uma performance em homenagem a Hilda Hilst. Depois, os escritores Leila Slimani e André Aciman discutem a liberdade de abordar temas como o homoerotismo, a sexualidade feminina e a religião.

20h
Hilda Hilst retorna ao centro do debate com a escritora e pesquisadora Eliane Robert de Moraes e a atriz Iara Jamra, que interpretou a protagonista de o Caderno Rosa de Lori Lamby, um dos livros mais famosos da autora homenageada. Alice Sant’Anna media a mesa, que promete debater o lado místico e também a dimensão corpórea na obra de Hilda.

Sábado (28/07)
10h
Jocy de Oliveira e Vasco Pimentel voltam em uma discussão sobre a criação de universos sonoros e a música de vanguarda. A mesa sobre a escuta terá como mediadora a jornalista Paula Scarpin, que trabalha com podcasts.

12h
O biógrafo de Josef Stálin, Simon Sebag Montefiore, conta como trabalha para retratar a intimidade de figuras como ditador soviético, a família Romanov e a czarina Catarina, a Grande. Guilherme Freitas e Bruno Gomide participam da mesa como mediadores.

15h30
Autora de A Gorda, a portuguesa nascida em Moçambique Isabela Figueiredo encontra Juliano Garcia Pessanha, em uma mesa que tem o corpo no centro do debate e a pesquisadora Rita Palmeira como mediadora.

17h30
O poeta e artista visual do Maranhão Reuben da Rocha abre a 15ª mesa com uma performance sobre Hilda Hilst, para dar lugar ao encontro entre os autores Colson Whitehead e o brasileiro Geovani Martins, elogiado pela estreia com o livro O Sol na Cabeça.

20h
Autora de contos de terror em um universo fantástico e político, Liudmila Petruchévskaia chegou a ser censurada pela União Soviética e hoje é considerada um dos grandes nomes da literatura russa. Anabela Mota Ribeiro media a mesa com a escritora, de 80 anos.

Domingo (29/07)
10h
O folclore de Paraty, retratado por Thereza Maia, encontra a mitologia da morte no sertão da Bahia, narrada por Franklin Carvalho. A mesa é gratuita e tem Luciana Araujo Marques na mediação.

12h
A sessão de encerramento da Flip é mais uma homenagem a Hilda Hilst e a atriz Iara Jamra retorna para falar sobre encontros com a autora. Também participam o fotógrafo Eder Chiodetto e o cantor e compositor Zeca Baleiro, que têm trabalhos baseados na obra da autora paulista.

15h30
Autores convidados pela Flip de 2018 leem trechos de seus livros preferidos.

Inspiração para ‘Jurassic Park’, livro de Arthur Conan Doyle se passa no Brasil

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Monte Roraima, platô que inspirou Sir Arthir Conan Doyle a fazer a terra de Maple White em ‘O Mundo Perdido’ Foto: Paulo Liebert/Estadão

‘O Mundo Perdido’, recentemente lançado pela Todavia, imagina dinossauros na Amazônia

André Cáceres, no Estadão

Basta uma pesquisa rápida para um internauta desvelar todo o planeta diante de seus olhos. Com exceção de algumas bases militares, toda a Terra repousa a poucos cliques de distância com ferramentas como o Google Earth. Mas nem sempre foi assim. Desde as grandes navegações, no século 15, às aventuras do capitão James Cook (1728-1779), o mundo estava repleto de lugares desconhecidos. A expressão em latim “terra incognita” era usada pelos cartógrafos antigos para descrever locais ainda por explorar. No fim do século 19, tudo estava praticamente mapeado, mas a busca por novas regiões deu origem a todo um filão literário que vem sendo resgatado para os leitores brasileiros.

Em um dos principais livros dessa leva, O Mundo Perdido, de Sir Arthur Conan Doyle, publicado pela Todavia, o jornalista Edward Malone, do Daily Gazette, acompanha uma jornada ao coração da Amazônia em busca de um platô que abrigaria dinossauros vivos, segundo o zoólogo desacreditado George Challenger. O Zeitgeist da época é expresso por McArdle, editor de Malone que o envia na aventura: “Os grandes espaços em branco do mapa estão todos sendo preenchidos, e não há mais lugar para o romance em parte alguma.” Ou, como Alberto Manguel e Gianni Guadalupi constatam no prefácio à edição lusa do Dicionário de Lugares Imaginários: “Tornamos impossível zarpar rumo ao desconhecido, a não ser sob vigilância humana (…) Mas ainda havia a cartografia da imaginação. A nossa geografia imaginária é infinitamente mais vasta do que a do mundo material.”

No livro de Conan Doyle, Challenger alega ter visto esses dinossauros brasileiros, mas não conseguiu trazer provas de sua existência. A elevação, batizada Terra de Maple White e inspirada no Monte Roraima, teria ficado isolada por milhões de anos, mantendo o equilíbrio ecológico dos períodos jurássico e mesozoico, e evitando a extinção dos dinossauros. No entanto, seus pares cientistas consideram as alegações absurdas “como um shakespeariano confrontado por um baconiano, ou um astrônomo atacado pelos fanáticos da terra plana”.

As imprecisões sobre o Brasil, sua geografia e idioma não mancham a obra, mas algumas idiossincrasias saltam aos olhos do leitor contemporâneo, embora Conan Doyle pudesse ser considerado esclarecido para a época. Como de praxe nas histórias desse tipo, os exploradores são todos homens brancos que usam criados negros e/ou indígenas (no caso, ambos), e as raras personagens femininas existem apenas como interesses amorosos – Malone pede ao seu editor que o envie em uma aventura porque quer conquistar a bela Gladys, cujo nome ele dá à lagoa central de Maple White.

Conan Doyle baseou seus relatos fantásticos em acontecimentos pretensamente reais. No dia 11 de janeiro de 1911, o New York Herald publicou uma matéria sobre feras pré-históricas que supostamente habitariam a floresta amazônica. Durante a chamada Guerra dos Ossos (1872-1892), movida pela rivalidade entre os paleontologistas Othniel Charles Marsh e Edward Drinker Cope, o interesse do público por dinossauros cresceu e as descobertas de fósseis se tornaram mais frequentes. Não é estranho, portanto, que Doyle, já consagrado pelos romances policiais de Sherlock Holmes, quisesse explorar esses mistérios em O Mundo Perdido, publicado originalmente em 1912.

Já existiam criaturas pré-históricas em romances e contos de Jack London, Ambrose Bierce, Frank Mackenzie Savile e H.G. Wells, como Samir Machado de Machado nota no prefácio da obra. Mas as descrições vívidas que Doyle faz dos dinossauros inspiraram fortemente Edgar Rice Burroughs, em At the Earth’s Core (1914); Érico Verissimo, na sua Viagem à Aurora do Mundo (1939); e Michael Crichton, em Jurassic Park (1990, recentemente reeditado pela Aleph).

À época, Doyle teve contato com o Manuscrito 512. Esse documento de 1754 descrevia uma cidade perdida na Amazônia e atiçou a curiosidade de exploradores britânicos como Sir Richard Francis Burton (1821-1890) e Percy Fawcett (1867-1925), com quem o escritor se correspondeu e que morreu desaparecido tentando encontrar uma civilização misteriosa no Mato Grosso. Esse manuscrito brasileiro pode ter influenciado As Minas do Rei Salomão (1886), de Sir Henry Rider Haggard, publicado recentemente pela Via Leitura.

Tido como um dos fundadores dessa literatura de exploração, a obra relata uma jornada ao interior da África pelos olhos do caçador de elefantes Allan Quatermain, que auxilia um nobre a encontrar seu irmão perdido nas terras de Kukuanalândia, para além de um deserto quase intransponível, onde o lendário rei Salomão (1050-931 a.C) havia encontrado diamantes. Foi Haggard quem inspirou o tom impressionista, com relatos em primeira pessoa, descrições de paisagens exuberantes e forma epistolar dos livros desse gênero.

As “viagens extraordinárias” de Júlio Verne à Lua, ao fundo do mar, ou ao redor do planeta também seguem nessa tradição, e vêm sendo reeditadas com frequência no Brasil. Somente em 2018, a Nova Fronteira publicou um box com três aventuras condensadas do autor francês; a Via Leitura lançou recentemente Cinco Dias em um Balão, em que, a exemplo de Haggard, Verne narra uma viagem à África (mas, diferente do autor britânico, ele nunca pôs os pés no berço da humanidade); e a Zahar publicou sua Viagem ao Centro da Terra, obra de 1864 em que Verne imagina seres pré-históricos sendo descobertos por exploradores no núcleo oco do mundo, inspiração para Burroughs.

“É muito antiga a necessidade de inventar países e depois dizer como o autor os encontrou”, relembram Manguel e Guadalupi. “Escrita em meados do terceiro milênio a. C., a Epopeia de Gilgamesh (ou pelo menos a sua segunda metade) é a crônica da viagem de um rei ao Reino dos Mortos. A Odisseia, composta no século 8 a. C., é o relato de uma corrida de obstáculos que alcança, decorridos muitos anos, a meta ansiada.” Essas e outras terras fictícias que povoam o imaginário da literatura, afirmam eles, não são produto de mero escapismo. “Atlântida, a Ilha Misteriosa, a comunidade distante de Utopia e a Cidade das Esmeraldas de Oz são lugares que visitamos em pensamento mas não na realidade, embora sejam necessários para aquilo a que chamamos a condição humana.”

Hoje esse resgate dos clássicos da literatura de exploração demonstra que essas obras ganharam relevância com o tempo. Pode não haver mais uma “terra incognita” para se desbravar, mas, no século 21, com ilhas sendo devoradas pelo aumento do nível dos oceanos, geleiras desaparecendo, traçados litorâneos modificadas pelo avanço das águas e florestas inteiras sendo desmatadas, até os mapas mais perfeitos serão obsoletos sem um pouco de imaginação.

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