Posts tagged ocupação

Historiador tenta reconstruir biblioteca da Universidade de Mossul após saída do Estado Islâmico

0
Imagens publicadas no site oficial da Biblioteca Central da Universidade de Mossul mostram como era o prédio antes da invasão do Estado Islâmico, e como ficou após a retirada do grupo terrorista (Foto: Divulgação/University of Mosul)

Imagens publicadas no site oficial da Biblioteca Central da Universidade de Mossul mostram como era o prédio antes da invasão do Estado Islâmico, e como ficou após a retirada do grupo terrorista (Foto: Divulgação/University of Mosul)

 

Prédio virou quartel-general do EI e teve milhares de livros destruídos. Com retomada, historiador anônimo reúne voluntários para preservar obras que sobreviveram a 19 meses de ocupação.

Ana Carolina Moreno, G1

m historiador iraquiano está tentando reconectar a cidade de Mossul com o resto do mundo com o resgate de livros e a reconstrução de uma biblioteca. Depois de dois anos e meio sob o domínio do Estado Islâmico (EI) e nove meses de batalha intensa entre os terroristas e o exército do Iraque, a cidade iraquiana ficou destruída e mais de 900 mil habitantes fugiram de suas casas.

Com a vitória do governo iraquiano, decretada em 9 de julho, os sobreviventes agora começam a reconstruir uma cidade devastada. E a Biblioteca Central da Universidade de Mossul virou um dos símbolos do desafio. “Eu vou trabalhar neste projeto até que eu sinta que a biblioteca voltou a ser um lugar onde pesquisadores de todo o mundo vão querer visitar”, disse, em entrevista por telefone ao G1, o historiador, que só aceita se identificar pelo codinome de ‘Mosul Eye’ (‘Olho de Mossul’).

‘Mosul Eye’ não revela sua identidade, sua idade e conta apenas que estudou na universidade que agora quer ajudar a reerguer. Para preservar sua segurança, ele não aceita revelar o país onde vive, e afirma que nem os próprios voluntários locais (entre 20 e 40 pessoas com quem se comunica virtualmente) conhecem sua verdadeira identidade.

Ele conta que há cerca de um ano fugiu do Iraque por causa das constantes ameaças de morte – seu blog anônimo foi o primeiro a surgir após a invasão do EI, e virou uma fonte de informação da resistência aos terroristas para internautas e jornalistas de todas as partes do mundo.

Além de coordenar um grupo que já resgatou mais de 2 mil livros dos destroços, o voluntário anunciou ainda um pedido de doações de livros do mundo todo, e busca uma impressora para digitalizar as obras da biblioteca para que elas sejam preservadas para sempre.

‘Ministério da educação islâmica’

Ao G1, ‘Mosul Eye’ recontou o que foi feito da biblioteca durante a ocupação do Estado Islâmico. Localizado no vasto campus da universidade, no lado leste da cidade, o outrora imponente edifício da biblioteca era um dos locais militarmente estratégicos para o grupo terrorista, e virou a sede de um novo ‘ministério da educação’, que tentou suplantar o sistema educacional por uma doutrinação baseada no ensino religioso.

Neste quartel-general, livros didáticos de todos os níveis de ensino foram reescritos, conta ele. O grupo terrorista também tentou reabrir a universidade, mas impondo seu próprio sistema educacional.

Voluntária de Mossul ajuda a empilhar os livros retirados da Biblioteca Central da Universidade de Mossul, após o Estado Islâmico deixar o prédio, depois de 19 meses usando a universidade como ponto militar estratégico (Foto: Ali Al-Baroodi)

Voluntária de Mossul ajuda a empilhar os livros retirados da Biblioteca Central da Universidade de Mossul, após o Estado Islâmico deixar o prédio, depois de 19 meses usando a universidade como ponto militar estratégico (Foto: Ali Al-Baroodi)

 

“A universidade foi fechada em junho de 2014 pelo Estado Islâmico quando ele ocupou a cidade. Mas eles tentaram reabrir a universidade, obrigando os funcionários e professores a fazerem uma reunião com o ministro de educação islâmica”, afirmou o historiador.

A iniciativa, porém, fracassou. “Eles pararam o ‘ministério da educação’ no começo de 2015, porque não conseguiram fazer nada. As pessoas se recusaram a ir para a universidade. A universidade em si foi reaberta fora de Mossul, então os estudantes não precisavam seguir o Estado Islâmico ou ir para a universidade islâmica.”

Resgate arriscado

O edifício da biblioteca ficou nas mãos do EI entre junho de 2014 e janeiro de 2017, quando o grupo se retirou do local após ataques da ofensiva do exército iraquiano. O Iraque só anunciou a retomada total da cidade em 9 de julho, mas há meses o grupo de voluntários, que atendeu ao chamado do historiador pela internet, passou a se dedicar à recuperação da biblioteca.

Voluntários se organizam para retirar os livros da Biblioteca Central da Universidade de Mossul, no Iraque, que passou 19 meses nas mãos do Estado Islâmico e sofreu ataques tanto do grupo terrorista quanto de bombardeios da coalizão liderada pelos Estados Unidos, segundo o historiador anônimo por trás do blog 'Mosul Eye' (Foto: Divulgação/Ali Al-Baroodi)

Voluntários se organizam para retirar os livros da Biblioteca Central da Universidade de Mossul, no Iraque, que passou 19 meses nas mãos do Estado Islâmico e sofreu ataques tanto do grupo terrorista quanto de bombardeios da coalizão liderada pelos Estados Unidos, segundo o historiador anônimo por trás do blog ‘Mosul Eye’ (Foto: Divulgação/Ali Al-Baroodi)

 

Até agora, o homem por trás do codinome ‘Mosul Eye’ estima que cerca de 2 mil livros foram resgatados, entre eles obras raras. Nem todos, porém, estão em boas condições, e nem sempre as buscas pelo edifício vazio e cinza estão livres de perigo, já que ainda há bombas dentro do prédio.

“O próximo passo é digitalizar esses livros. Mas acho que a biblioteca central deveria ter feito isso há quatro anos, porque todo mundo esperava que esse tipo de coisa poderia acontecer. Eles deveriam ter pensado mais no futuro.” Essa iniciativa, porém, exige uma impressora específica, que os voluntários ainda não conseguiram.

Um ‘olho’ do mundo em Mossul

Ele documenta, pelas redes sociais, o andamento do projeto, com fotos e vídeos. ‘Mosul Eye’ também promove uma série de eventos culturais para tentar incentivar a produção de arte na cidade – educação e cultura estão entre as muitas restrições impostas pelo Estado Islâmico à população local. Homens vestindo jeans, mulheres com roupas coloridas e o som de instrumentos musicais mostrados no vídeo acima eram impensáveis há um ano, diz ele.

O próprio fato de um civil registrar imagens em fotos e vídeos, como fizeram Ali Al-Baroodi e Saad Hadi, voluntários que documentam o resgate da biblioteca em imagens como as desta reportagem, seria uma morte certa. “Se alguém quisesse se matar, era só levar uma câmera para a rua”, diz o historiador.

Enquanto esperam a reconstrução dos sistemas de esgoto, água e eletricidade, e a reforma dos prédios, que devem custar mais de US$ 1 bilhão, segundo a ONU, a população volta a viver livre. Nesta quinta-feira (27), um grupo de estudantes de belas artes realizará uma noite de gala em Mossul, para apresentar obras que têm sido produzidas em cima dos próprios escombros da cidade, em outra das ações divulgadas por ‘Mosul Eye’.

Sua iniciativa de servir como a “janela” de Mossul para o mundo fez com que o jovem angariasse mais de 270 mil seguidores no Facebook e 23 mil no Twitter. Com publicações em árabe e em inglês, ele busca ajuda para seu projeto desde janeiro.

“A gente não podia, nos últimos anos, reconectar Mossul com o resto do mundo porque tínhamos problemas: segurança ruim, corrupção na educação, eles estavam matando pessoas, nós não podíamos fazer nada. Eu pensei que esse era o momento de fazer algo”, lembra.

Apoio do Ocidente

Ele afirma que chegou a receber uma única doação de seis mil livros vindas dos Estados Unidos, neste mês, e cita países da Europa e a Austrália como principais apoiadores da iniciativa. De pessoas árabes ele afirma ter recebido alguns e-mails. “Da Rússia, nenhum”, ressalta. Em seu site oficial, a biblioteca, que passou a publicar notícias depois de vários anos de ocupação, relatou em junho uma doação de 1.500 obras, feita pela Biblioteca de Alexandria, no Egito.

Professores, estudantes, economistas, acadêmicos: residentes de Mossul atenderam ao chamado do blogueiro anônimo 'Mosul Eye', um historiador exilado fora do Iraque, e agora tentam preservar os livros da Biblioteca Central da Universidade de Mossul (Foto: Divulgação/Ali Al-Baroodi)

Professores, estudantes, economistas, acadêmicos: residentes de Mossul atenderam ao chamado do blogueiro anônimo ‘Mosul Eye’, um historiador exilado fora do Iraque, e agora tentam preservar os livros da Biblioteca Central da Universidade de Mossul (Foto: Divulgação/Ali Al-Baroodi)

 

Ao G1, ‘Mosul Eye’ relatou que três pessoas do Brasil, entre eles uma moradora de São Paulo e um do Paraná, já enviaram mensagens mostrando interesse no projeto. “Eu gostaria de saber mais não só sobre os brasileiros, mas sobre a América Latina”, disse ele. “Queremos ler, precisamos ler mais sobre culturas diferentes.”

O historiador, que há anos vive virtualmente sob o codinome e não revelou sua identidade nem para a própria família, explica que tem mais poder de ajudar a resgatar e preservar a história de sua cidade por trás da ideia ‘Mosul Eye’ do que como um único indivíduo. Um dos legados que ele pretende deixar com o projeto é mudar a visão que o mundo tem de Mossul:

“O que eu quero mesmo é que, quando alguém buscar por Mossul, que eles não encontrem coisas relacionadas ao Estado Islâmico, e sim a biblioteca de Mossul. É esse o meu sonho. E eu sou tão forte quanto os meus sonhos.”

COMO AJUDAR

As doações estão sendo enviadas a um endereço em Erbil, uma cidade do Curdistão iraquiano. Para obter mais informações, é preciso enviar um e-mail em inglês para [email protected]

batalha-de-mossul-v3-3-

Reforma escolar de São Paulo é boa, mas governo paulista se atrapalhou

0
BOA CAUSA, PÉSSIMA PROPAGANDA Barraca em escola ocupada. A mudança é boa, mas faltaram comunicação e liderença (Foto: Luiz Claudio Barbosa/Folhapress)

BOA CAUSA, PÉSSIMA PROPAGANDA
Barraca em escola ocupada. A mudança é boa, mas faltaram comunicação e liderença (Foto: Luiz Claudio Barbosa/Folhapress)

 

A reestruturação da rede escolar em curso em São Paulo é boa para todo mundo – mas o governo errou em não trazer professores e especialistas para o seu lado

FLÁVIA YURI OSHIMA, na Época

Protestos de alunos, professores e pais tomaram as ruas próximas às escolas públicas. A razão foi a decisão de reorganização da rede escolar. Parece uma descrição de cenas ocorridas no Estado de São Paulo recentemente. Mas elas ocorreram em 1971. Há 44 anos, a reorganização integrou séries do ensino básico, até então separadas, num ciclo único de oito anos, da 1ª à 8ª série. A prioridade era a inclusão. O exame de admissão na 5ª série guilhotinava boa parte dos estudantes. Enquanto 70% das crianças ficavam na escola até a 4ª série, apenas 25% conseguiam cursar da 5ª à 8ª série. O ciclo único de oito anos ajudou a aumentar o número de brasileiros com o primeiro grau completo.

A mobilização contra a reestruturação decidida agora pelo governo paulista levou à invasão de 34 escolas em diferentes cidades de São Paulo por alunos e militantes políticos. A maior parte dos protestos é motivada pela decisão de aumentar o número de escolas de ciclo único. São aquelas só de ensino médio ou só de ensino fundamental, em seus dois diferentes ciclos (do 1º ao 5º ano e do 6º ao 9º ano). A reforma remanejará alunos e esvaziará alguns prédios. A mudança criará 754 novas escolas de ciclo único, desocupará 93 prédios (o equivalente a 1,8% da rede inteira) e afetará 340 mil estudantes.

A reorganização de 2015 tem objetivo oposto à de 1971: ela pretende separar turmas de ciclos diferentes que convivem numa mesma escola. Mas os medos que ela desperta são idênticos. Assim como no passado, as famílias não querem tirar seus filhos da escola em que estudam por vários motivos. A logística para levar e buscar crianças e adolescentes pode mudar. Alunos e famílias têm vínculos afetivos com as escolas e suas equipes. Os professores temporários temem perder aulas e sofrer reduções salariais. Todos – pais, alunos e professores – temem a queda na qualidade do ensino. Essas preocupações são legítimas num processo dessa envergadura. Nenhum temor, no entanto, é justificativa para colocar em xeque as vantagens do ciclo único. Se bem aproveitada e executada, essa pode ser uma das mais promissoras reorganizações da rede pública já feitas no país.

Uma das razões é demográfica. O número de brasileiros em idade escolar diminuiu. Segundo o Censo Escolar, a educação básica perdeu, entre 2000 e 2014, 5,1 milhões de alunos. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) calcula que, até 2030, a parcela da população entre 5 e 19 anos sofrerá uma redução de 20%. A municipalização de parte das escolas e o aumento da renda do brasileiro, que levou alunos para as escolas particulares, amplificaram o efeito da onda demográfica. Em São Paulo, há 2 milhões de alunos a menos na rede estadual. Essa mudança pode ser vista nas escolas. O Estado conta hoje com 2.956 classes sem alunos. Nos casos extremos, há escolas com apenas 30% da ocupação. Não é preciso ser um gênio da administração pública para saber que manter classes ociosas em locais sem demanda é um desperdício de recursos e, sobretudo, de oportunidades. Essas vagas podem ser usadas para criar creches, centros de ensino técnico e de formação de professores.

DIÁLOGO Estudantes em Diadema. Eles desocuparam a escola quando o secretário recebeu suas reivindicações (Foto: Carla Carniel/FramePhoto/Folhapress)

DIÁLOGO
Estudantes em Diadema. Eles desocuparam a escola quando o secretário recebeu suas reivindicações (Foto: Carla Carniel/FramePhoto/Folhapress)

 

As escolas de ciclo único tendem também a ser ambientes mais propícios à aprendizagem. Países com conhecida qualidade em educação pública aderiram há muitas décadas à organização proposta pelo governo de São Paulo. Reino Unido, Japão, Austrália, Suíça, França e Cuba estão entre eles. O raciocínio é simples. As necessidades de crianças de 7 anos são diferentes das de pré-adolescentes de 12 anos ou de jovens de 16 anos. Crianças precisam de parquinho, de espaço para correr e ambientes lúdicos para o incentivo à leitura e ao aprendizado. Laboratórios de ciências e bibliotecas bem fornidas são mais úteis para estudantes mais velhos. No mundo ideal, essas opções não (mais…)

Ocupação estudantil em Amsterdã pede fim da neoliberalização do ensino superior

0
Estudantes da UvA, estão há três semanas protestando contra a neoliberalização da educação superior Foto: @MarukomuKuratsu

Estudantes da UvA, estão há três semanas protestando contra a neoliberalização da educação superior
Foto: @MarukomuKuratsu

Movimento reflete crise da educação no mundo desenvolvido, com processos antidemocráticos, financeirização e abandono das funções cruciais, diz professor

Publicado no Guia Global

Estudantes da UvA (Universidade de Amsterdã), nos Países Baixos, estão há três semanas protestando contra a neoliberalização da educação superior e a falta de democracia na tomada de decisões internas. O movimento, chamado De Nieuwe Universiteit (A nova universidade) conquistou, na última semana, a adesão de funcionários da universidade.

O movimento foi iniciado em 13 de fevereiro, quando os jovens ocuparam o prédio principal da administração da universidade – o Maagdenhuis. Eles pedem que a gestão decida se atenderá as demandas da comunidade universitária ou seguirá com a lógica definida por eles como de “financeirização burocrática”. No site criado pelo movimento é possível acompanhar a organização estudantil.

De acordo com o porta-voz dos estudantes, Tivadar Vervoort, em declarações ao NLTimes, os protestos tiveram início por causa do programa divulgado para 2016 pela administração, que “descreve a mescla de múltiplos cursos de bacharelado, como filosofia, história, língua holandesa e literatura inglês, como um único programa de artes liberais”.

De acordo com Vervoort, a mudança se deve ao fato de que há menos alunos estudando para se formarem professores, então a verba para o departamento foi cortada.

A inspiração para o movimento vem, segundo Rik Van Eijk, em declarações ao site Global Voices, da tradição democrática e de protestos que tem a UvA. Em 1960, o Maagdenhuis foi ocupado por cinco dias em uma demanda dos estudantes por um maior papel nas decisões da universidade.

O doutor em Política Econômica Internacional do Instituto Europeu Universitário Jerome Ross, em artigo publicado na revista Roar, pontua que, apesar de o protesto ser principalmente local, as demandas dos universitários e professores ultrapassam as fronteiras dos Países Baixos.

“A Educação superior está em crise em todo o mundo desenvolvido. Estruturalmente subfinanciado, com severo excesso de financeirização e profundamente antidemocrático, universidades em toda parte estão aumentando o abandono das funções mais cruciais de outrora – a produção de pesquisas de alta qualidade e o papel de educar a próxima geração de qualificados, cidadãos conscientes – e se tornando cada vez mais empresas quase privadas, dirigidas por uma elite gerencial totalmente isolada”, escreveu Ross.

Go to Top