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Anastácia Ottoni, no Literatortura

“Um escritor que espera por condições ideais para trabalhar
vai morrer sem colocar uma palavra no palavra no papel.”

Trabalhar com a escrita é “ter dever de casa para sempre”, como diria o personagem de Californication; e, de fato, para aqueles que pensam que escrever é um ofício que não poderia ser considerado trabalho – com T maiúsculo -, saibam que o desgaste intelectual no processo é enorme, e cansa, como cansa ficar horas a fio buscando as palavras exatas para se colocar em sequência.

Dito isto, conheça a rotina que grandes pensadores e autores criaram para conseguir escrever sem depender da tão chamada inspiração.

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Simone de Beauvoir, grande pensadora existencialista e feminista, também precisou criar uma rotina que lhe favorecesse a escrita:

“Estou sempre com pressa de começar, embora em geral não goste de começar o dia. Primeiro preciso tomar chá e, por volta das dez, começo a escrever e trabalho até a uma da tarde. Então, vejo os meus amigos e depois, às cinco, volto ao trabalho e continuo até as nove. Não costumo perder o fio da meada.”.

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Ray Bradbury, autor de obras como Fahrenheit 451, de forma brincalhona responde a uma pergunta sobre rotinas literárias numa entrevista feita em 2010:

“Minha paixão me leva até a máquina de escrever todos os dias da minha vida; e tem me levado a ela desde os meus doze anos. Não preciso me preocupar com uma agenda. Alguma coisa nova está sempre explodindo em mim e isso me programa, não eu. Essa coisa diz: Vá para a máquina de escrever agora mesmo e termine isso. […] Posso trabalhar em qualquer lugar. Escrevi em quartos e salas enquanto morava com os meus pais e meu irmão na pequena casa em Los Angeles, onde cresci. Trabalhava na máquina de escrever na sala, com o rádio ligado e com minha mãe, meu pai e meu irmão conversando ao mesmo tempo. Mais tarde, quando quis escrever Fahrenheit 451, eu fui para a UCLA (Universidade da Califórnia em Los Angeles) e encontrei no porão um quarto para digitação, onde, se você colocasse dez centavos na máquina de escrever, você tinha trinta minutos para digitar.”.

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Joan Didion, autora norte-americana, cria para si um período de encubação de ideias, como disse na entrevista de 1968:

“Eu preciso de uma hora sozinha antes do jantar com uma bebida para repassar o que escrevi no dia. Não consigo fazer isso à tarde, pois ainda estou perto demais. Inclusive, a bebida ajuda. Ela me tira das páginas. Uso esse momento para tirar e colocar coisas novas no escrito. Então, começo o dia seguinte refazendo tudo o que fiz no anterior, seguindo anotações. Quando estou trabalhando realmente, não gosto de sair de casa ou receber ninguém no jantar porque assim perco minha hora. Se eu não tiver meu momento, começarei o dia seguinte com páginas mal escritas e sem nenhum caminho a seguir. Ficarei melancólica. Outra coisa que preciso fazer, quando estou próxima ao fim do livro, é dormir no mesmo quarto que ele. Esse é o motivo para eu ir para Sacramento quando quero terminar coisas. De alguma forma, o livro não lhe deixa quando você dorme perto dele. Em Sacramento ninguém liga se eu dou as caras ou não, então posso acordar e começar a escrever.”

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Hemingway, conhecido por escrever em pé, gostava de uma rotina diurna:

“Quando estou trabalhando em um livro ou história, escrevo toda manhã assim que surge o primeiro feixe de luz. Não há ninguém para te perturbar e faz frio, e você começa a escrever e o trabalho te esquenta. […] Você escreve até chegar num momento em que ainda está bem inspirado e sabe o que vai acontecer em seguida, e você para e tenta viver até o próximo dia quando você é pego pela escrita novamente. Digamos que você começou às seis da manhã, e irá continuar escrevendo até a tardinha, ou pouco antes disso. Quando você para, você está vazio e, ao mesmo tempo, nunca vazio e sim preenchido. Como se tivesse feito amor com alguém que ame. Nada pode te machucar, nada pode acontecer, nada significa nada até o próximo dia quando você o fizer de novo. É a espera até o próximo dia de escrita que é difícil.”

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Maya Angelou, grande poeta e autora norte-americana, disse certa vez:

“Escrevo pela manhã e por volta do meio dia vou para casa e tomo um banho, porque a escrita como você conhece é um trabalho difícil; você precisa fazer uma limpeza dupla. Então vou às compras – sou uma cozinheira de mão cheia – e finjo ser normal. — Bom dia! Bem, muito obrigada, e você? E volto para casa. Preparo o jantar para mim, e se tiver visitas, coloco velas e uma bela música. Quando toda louça é deixada de lado, eu leio o que escrevi pela manhã. Geralmente, das nove páginas escritas, consigo salvar duas e meia, ou três. É o momento mais cruel, sabe, ter que admitir que não deu certo. Quando termino cinquenta páginas e as leio – cinquenta páginas aceitáveis – não está tão ruim. Tive o mesmo editor desde 1967. Muitas vezes ele me perguntou durante esses anos, por que você usa um ponto e vírgula no lugar de uma vírgula? E muitas vezes durante esses anos eu lhe disse coisas como: Nunca mais falarei com você. Adeus. Para sempre. Isso é tudo. Muito obrigada. E vou embora. Então releio o trecho e penso em sua sugestão, e lhe envio um telegrama dizendo: OK, você está certo, e daí?”.

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E.B. White, autor de Stuart Little e Charlotte’s Webb, era cético quando o assunto era inspiração:

“Nunca ouço musica quando estou trabalhando. Não tenho esse tipo de atenção, e não gostaria [de ouvir música] de qualquer forma. Por outro lado, consigo trabalhar de forma decente com distrações comuns. Minha casa tem uma sala que é o coração de tudo: é uma passagem para o sótão, para a cozinha, para o telefone. Há muita movimentação. Mas é um local iluminado e agradável, e geralmente uso esse espaço para escrever, apesar do carnaval que acontece ao meu redor. Uma garota varrendo por baixo da minha mesa de escrita nunca me incomodou realmente, nem me desconcentraria, a não ser que a garota fosse particularmente bonita, ou particularmente desastrada.”

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Jack Kerouac quase fazia um ritual:

“Já tive um ritual de acender uma vela e escrever sob sua luz, e assoprá-la assim que tivesse terminado pela noite… Ajoelhar-me e rezar antes de começar a escrita (acabei pegando isso de um filme francês sobre George Frideric Handel)… Mas agora eu simplesmente odeio escrever.”

E então acrescenta, a respeito da melhor hora e lugar para a escrita:

“Na mesa do quarto, perto da cama com uma boa iluminação, meia noite até a madrugada, uma bebida quando estiver cansado, de preferência em casa, mas se não tiver uma casa, faça uma casa do seu hotel: paz.”

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Henry Miller, em 1932, sob uma sessão intitulada Rotina Diária, mostrou pequenas anotações que incluíam seus 11 mandamentos da escrita:

MANHÃ:

Se grogue, fazer anotações como estímulo.
Se em bom estado, escrever.

TARDE:

Trabalho dos capítulos em mãos, seguir planos de capítulos escrupulosamente.
Sem intrusão, sem distrações.
Escrever para terminar um capítulo de cada vez, para o bem.
NOITE:
Encontrar amigos, ler em cafés.
Explorar lugares desconhecidos — a pé se chovendo, na bicicleta se seco.
Escrever, caso estiver no clima, mas apenas coisas pequenas.
Pintar se vazio ou cansado.
Fazer anotações. Fazer gráficos, planos. Fazer correções.

Nota: Dê tempo suficiente durante o dia para fazer visitas ocasionais ao museu ou a um rabisco ocasional, ou a um passeio de bicicleta ocasional. Rabiscos em cafés e trens e ruas. Corte os filmes! Livrarias para referências uma vez na semana.

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