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Por que ler durante uma viagem pode causar tonturas?

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Rômulo Silva, no TriCurioso

Longas viagens de carro ou de ônibus costumam ser um tanto monótomas, por isso muita gente aproveita essas oportunidades para diminuir a pilha dos livros que ainda não foram lidos. No entanto, a combinação entre livros e viagem nem sempre é uma boa ideia para todos, pois algumas pessoas costumam ficar tontas ou enjoadas minutos depois de começar a ler uma determinada obra. Mas afinal, qual é a origem desse mal-estar induzido pela literatura?

Tudo começa pelo fato de que uma boa parte de nossos cérebros evoluiu milhares de anos atrás, muito antes de carros ou livros existirem. Eles cresceram em uma época em que o ataque predadores e a alimentação com plantas erradas eram perigos reais. Em nome da sobrevivência, nossos cérebros tiveram que se tornar muito vigilantes, desenvolvendo respostas ao estresse para nos ajudar a lutar, fugir ou até mesmo a induzir o vômito ao primeiro sinal de envenenamento. O problema é que, apesar de sabermos que uma simples leitura não faz mal ao nosso corpo, o nosso cérebro tende a pensar diferente quando estamos em movimento.

Os cientistas acreditam que funciona assim: quando andamos, nossos corpos estão se movendo e viajando ao mesmo tempo. No entanto, quando nos sentamos em um carro, nossos corpos não estão realmente se movendo, eles estão apenas “viajando”. Nesse tipo de ocasião, os nossos músculos, nervos e olhos dizem ao cérebro que estamos parados, só que ao mesmo tempo os fluidos nos nossos ouvidos que são responsáveis pelo equilíbrio ficam em movimento, o que diz ao cérebro que o nosso corpo está definitivamente indo para algum lugar. Desse modo, o cérebro acaba recebendo duas mensagens conflitantes, causando toda a confusão.

Então, por que os livros pioram? Bem, a resposta para isso está relacionada a uma das curas mais comuns para enjoos e tonturas: olhar para a janela. Quando olhamos para a janela, o nosso cérebro “vê o mundo se mover” e acaba interpretando isso como um sinal de que estamos em movimento, que alivia os sintomas das tonturas. Por outro lado, focar os olhos em um único objeto estático (como um livro) aumenta ainda mais os níveis de incompatibilidade sensorial, deixando o cérebro totalmente confuso.

Por isso, alguns especialistas recomendam aos leitores que sofrem constantes enjoos e tonturas em viagens que eles experimentem ler o livro pausadamente. Fazer uma pequena parada a cada dez minutos para olhar a janela e observar a paisagem pode ser muito eficaz, evitando que você sinta-se mal no meio da estrada.

A educação do olhar feita pelos livros infantis

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Esses leitores estão dispostos a olhar o mundo com os olhos de quem pergunta

Esses leitores estão dispostos a olhar o mundo com os olhos de quem pergunta

 

Os bons livros não são aqueles escritos para uma criança idealizada ou idílica, mas produzidos para surpreender

Denise Guilherme Viotto, no Carta Educação

“A função da arte 1

Diego não conhecia o mar. O pai, Santiago Kovadloff, levou-o para que descobrisse o mar.

Viajaram para o Sul.

Ele, o mar, estava do outro lado das dunas altas, esperando.

Quando o menino e o pai enfim alcançaram aquelas alturas de areia, depois de muito caminhar, o mar estava na frente de seus olhos. E foi tanta a imensidão do mar, e tanto fulgor, que o menino ficou mudo de beleza.

E quando finalmente conseguiu falar, tremendo, gaguejando, pediu ao pai:

– Me ajuda a olhar! “

(O livro dos abraços, de Eduardo Galeano. LPM.)

Atualmente, os leitores que se aventurarem pelas prateleiras das grandes bibliotecas e livrarias certamente serão surpreendidos pela quantidade de obras voltadas para o chamado público infantil e juvenil. E, se souberem procurar para além da enxurrada de livros escritos apenas para atender a demanda de mercado e os subprodutos dos desenhos animados, pode ser que encontrem alguns tesouros: títulos que apostam na inteligência do leitor, que provocam, instigam e convidam a muitas leituras. Essas obras exigem um olhar atento às múltiplas relações que se estabelecem entre texto e imagem, capa e conteúdo, formato e textura das páginas, técnicas de ilustração e tipologia. Nelas, tudo está a serviço da construção de sentido – e só vai aproveitar a experiência da leitura, em sua plenitude, um leitor capaz de dialogar com todas essas linguagens.

Mas, quem é o leitor para o qual esses livros estão sendo escritos? Que conhecimentos deve possuir para acessar essas obras?

Creio que os leitores desses livros são todos aqueles que estão dispostos a olhar o mundo com os olhos de quem pergunta. Por isso, os bons livros de literatura infantil são aqueles que não foram escritos para uma criança idealizada, idílica. Mas, que foram produzidos para surpreender, divertir e provocar todas as infâncias possíveis. Aquelas que estão sendo experimentadas pelos pequenos dos tempos de hoje e também aquelas que habitam os leitores adultos.

É com esse estado de espanto e descoberta diante do mundo que essas obras desejam conversar. E para isso é preciso aprender a ver. Educar o olhar para enxergar os diferentes códigos por meio dos quais um bom livro é produzido. E isso só é possível por meio do acesso a títulos de qualidade, ancorados por uma mediação que traga luz aos aspectos que só são observados pelos leitores mais experientes.

O livro sozinho, sem a presença do leitor, é apenas um objeto como outro qualquer. Para cumprir sua função, é preciso que se estabeleça uma interação com aquele que o lê, o qual lhe atribuirá significados a partir da experiência da leitura. E quanto maior a capacidade de construir relações com o texto, melhor e mais completa se torna a prática da leitura. Por isso, talvez hoje, mais do que nunca, esses livros repletos de códigos exijam um leitor que dialogue não apenas com o texto, com sua própria biografia ou experiência leitora, mas, principalmente, com outros leitores.

Gosto da imagem criada por Eduardo Galeano, que abre esse texto. Para olhar, é preciso alguém que conduza essa descoberta, essa travessia: um mediador. Um mediador é, antes de tudo, um leitor que, se já não é experiente no diálogo com essas múltiplas linguagens, reconhece seu lugar de aprendiz e possui vontade de conhecer junto, descobrindo e se encantando também a cada página. E, talvez, sua grande qualidade seja a disponibilidade para estar ao lado desse leitor e caminhar junto com ele em direção ao desconhecido, aos outros mundos, outros olhares e vivências trazidas pelo livro, abrindo também a possibilidade de diálogo com outros leitores.

Mais do que aquele que sabe tudo sobre leitura, um bom mediador – educador, bibliotecário, pai ou mãe – é alguém que promove a escuta. Seja porque está aberto a compreender as diferentes leituras que estão sendo construídas pelos leitores que tem diante de si, seja porque permite que todos sintam-se à vontade para mostrar suas descobertas, suas dúvidas e as diferentes aproximações que estão fazendo com o texto, com as imagens, com o livro como um todo. Talvez por isso, um boa experiência de mediação seja aquela que possibilita além da educação do olhar, a educação também da escuta.

Voltando ao texto de Galeano, desde que o li pela primeira vez, chamou-me a atenção o fato de que o garoto pede ao adulto que o ajude a olhar e não que olhe por ele. Talvez seja esse o convite feito pelos bons livros infantis aos leitores de todas as idades: que possamos juntos nos ajudar a ver. Quanto maior nossa capacidade de olhar e vontade de compartilhar verdadeiramente nossas visões, tanto maior será a nossa capacidade de leitura – não só das páginas, mas também da vida e do mundo.

*Denise Guilherme Viotto é criadora da A Taba, plataforma especializada em curadoria de livros infantis. A partir deste mês, A Taba passa a ter uma coluna mensal no Carta Educação.

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