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Como levar os valores olímpicos para dentro da escola

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Marcos de Paula l Rio 2016

Marcos de Paula l Rio 2016

 

Evento esportivo pode ser uma oportunidade para os professores trabalharem conteúdos transdisciplinares e estimularem o desenvolvimento de competências

Marina Lopes, no Porvir

A Olimpíada Rio 2016 já começou e, junto com as competições esportivas, traz uma oportunidade para professores trabalharem valores olímpicos e paraolímpicos de forma transdisciplinar dentro da escola.

Entre as 42 modalidades olímpicas disputadas na Rio 2016, não faltam assuntos para serem explorados dentro e fora da sala de aula. Para Vanderson Berbat, gerente de Educação do Comitê Organizador dos Jogos Olímpicos e Paralímpicos Rio 2016, o esporte permite trabalhar uma série de valores e auxilia no desenvolvimento de competências socioeocionais.

Valores como amizade, respeito, excelência, igualdade, inspiração, determinação e coragem podem ser vivenciados por meio de diferentes atividades.
“Mais do que trabalhados na escola, a ideia é que esses valores sejam incorporados pelos alunos no dia a dia”, afirma Berbat, que também sugere a consulta de diferentes conteúdos no site do projeto Transforma, do Comitê Organizador, onde são disponibilizados materiais didáticos, vídeos e tutoriais.

Das modalidades esportivas aos aspectos políticos, sociais e culturais do evento, ele menciona que os educadores encontram espaço para relacionar diferentes conteúdos. Ao falar sobre doping, por exemplo, os alunos podem tanto aprender sobre a reação química que acontece no corpo de um atleta, quanto discutir sobre jogo limpo e condições iguais para todos. Além disso, outros assuntos atuais também abrangem o evento, como a trégua olímpica e países que estão em conflitos.

Nesta edição, os jogos olímpicos também estão marcados pela criação de uma equipe de refugiados. “A ideia de trabalhar a questão da igualdade pode ser feita pelos jogos olímpicos. É possível trazer temas, inclusive atualidades que vão cair no Enem (Exame Nacional do Ensino Médio), a partir dos jogos olímpicos e dos valores olímpicos”, explica, ao mencionar que isso ajuda os alunos compreenderem melhor diversas questões.

O professor Lino Castellani Filho, da UnB (Universidade de Brasília), aponta que os jogos olímpicos deveriam ganhar o status de tema transversal dentro do âmbito escolar. No entanto, ele menciona que isso não aconteceu. “Digo deveria, porque não ganhou, e com isso se perdeu oportunidade impar de se envolver a comunidade escolar no trato pedagógico de uma prática social integrante da cultura corporal dos homens e mulheres brasileiros, qual seja, o Esporte.”

Segundo ele, geografia, história, ciências, educação artística, cultura religiosa dos países participantes, jogos e brincadeiras que os caracterizam e as modalidades esportivas que dão a eles identidade poderiam ter se envolvido em um projeto empolgante, que culminaria com os próprios alunos organizando seus jogos escolares.

O professor também chama atenção para a abordagem de outros aspectos do evento, como a lógica de desenvolvimento urbano e o conceito de Gentrificação, que se refere a mudanças na composição de uma região com construção de novos espaços que aumentam o custo de vida e afastam uma parcela da população local. “Para além disso, tratar a Olimpíada como megaevento esportivo significa levar os alunos ao entendimento do significado de desenvolvimento urbano centrado no conceito de Cidade Empresarial, onde ações centradas no conceito de Gentrificação ganham espaço, se tornando prática corrente”, aponta o professor.

Para trabalhar temas e valores associados aos jogos olímpicos, confira a lista com algumas indicações:

– Livro “Os Jogos de Minha Escola”
O livro infanto-juvenil, de Lino Castellani Filho e Rafael Moreno Castellani, propõe ressignificar as competições esportivas e motivar os alunos por meio da prática social do esporte.

– Vídeo “Olimpíadas Rio 2016: quanto custa e quem paga a conta?”
Com duração de 6 minutos e 38 segundos, o vídeo aponta as despesas do evento e explica quem é responsável por pagar as despesas.

– Meninas Empoderadas
Em parceria com a ONU Mulheres e com a ONG Women Win, os conteúdos disponíveis no site do projeto Transforma debatem questões de gênero e a participação das mulheres na prática esportiva.

– As tochas Olímpicas e Paralímpicas
Em uma série de três aulas digitais, são apresentados conceitos, curiosidades e a história da tocha olímpica.

– A física dos esportes
As aulas digitais explicam movimentos perfeitos, gols e outros fenômenos esportivos a partir da física.

– Acessibilidade, direito de todos
Em uma série de aulas, desenvolvidas em parceria com o Abraça, programa de sustentabilidade dos Jogos Rio 2016, são apresentadas dicas para trazer o tema acessibilidade para escola.

7 autores de ficção científica preveem o futuro das Olimpíadas

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 (Photo by Ezra Shaw/Getty Images)

(Photo by Ezra Shaw/Getty Images)

 

Publicado no Brasil Post

Os anos passam, mas trabalhadores mal remunerados seguem construindo as instalações olímpicas; o COI se recusa a pagar atletas muitas vezes em situação financeira difícil; os testes anti-doping continuam sendo driblados; as autoridades locais continuam afirmando falsamente que os Jogos vão ajudar a economia local; e a discrepância entre os gêneros continua parecendo datada.

Para muitos fãs de esporte, a Olimpíada é o símbolo da velha guarda, a ponto de nos perguntamos: além de excitar as paixões nacionais, o que mais as Olimpíadas têm de bom? E qual é seu futuro?

Seria pessimismo considerar as Olimpíadas uma distopia sem solução. Então, pedimos que sete autores de ficção científica imaginassem como podem ser os Jogos do futuro. As respostas – incluindo uma visão de atletas humanos competindo contra robôs e uma alternativa aos eventos baseados em gênero – imaginam soluções possíveis e oferecem alento.

Será que os Jogos Olímpicos de Inverno terão de ser realizados em lugares fechados?

Será que os Jogos Olímpicos de Inverno terão de ser realizados em lugares fechados?

1. A mudança climática vai obrigar os Jogos de Inverno a mudar drasticamente

Madeline Ashby, autora de Company Town

“Primeiro eu questiono se as Olimpíadas têm muito futuro. Entendo que há estruturas de poder existentes trabalhando para manter os Jogos, e por essa razão é provável que eles continuem. Mas, no longo prazo, diante de escândalos, custos cada vez mais altos – e temperaturas cada vez mais altas –, parece improvável que os Jogos possam continuar da mesma maneira.

Afinal de contas, como é possível ter esportes de inverno quando o inverno é só uma lembrança?

Mas as pessoas amam esporte. Amam competição. Amam demonstrações de força – tanto física quanto de vontade, necessária para se tornar um atleta olímpico (honesto).

É por isso que, com o tempo, vamos ver mais movimentos como o Revival dos Jogos Nemeus, que têm menos a ver com marcas e mais a ver com, bem, com jogos. Também acredito que vamos ter uma diversidade de jogos: para humanos “modificados”, para diferentes tipos de corpos, jogos que reconheçam que os gêneros são fluidos.

Se o COI quiser ser fiel a seus ideais, terá de acabar com a corrupção e abrir espaço para mudanças.”

2. Uma alternativa mais ambientalmente sustentável vai surgir

Malka Older, autora de Infomocracy

“Gostaria de imaginar uma Olimpíada separada do nacionalismo (ou, por que não?, um mundo sem nacionalismo!), em que veríamos os melhores atletas competindo uns contra os outros, não só os melhores escolhidos por cada país.

Neste mundo, os países não teriam nenhum orgulho especial em sediar os jogos, e a decisão seria tomada de acordo com análises sóbrias sobre quem seria beneficiado e quem seria prejudicado.

Ou talvez pudéssemos separar os Jogos dos interesses comerciais, de modo que o país que se oferecesse para sediá-los o faria com seus próprios recursos. (Nestes dois casos, a propósito, o COI está devendo muito, provavelmente inclusive à Justiça.)”

Os Jogos não teriam novas construções, estacionamentos lotados e instalações pouco seguras, com um rastro de trabalhadores mortos.

Nenhum desses cenários parece provável. A combinação de nacionalismo subsidiado por empresas e investimentos subsidiados pelo dinheiro do contribuinte é benéfica demais para os dois lados. Em vez disso, imaginemos uma fagulha de esperança menor, um evento alternativo, a Olimpíada Sustentável.

Elas poderiam levar o nome do primeiro lugar que aceitar não construir arenas caríssimas, causar enormes congestionamentos e explorar os trabalhadores: Jacartíada? Talinníada? Reykjavikíada?”

De qualquer modo, esses jogos não teriam novas construções, estacionamentos lotados e instalações pouco seguras, com um rastro de trabalhadores mortos.

Eles seriam transmitidos para quem quisesse assistir, sem histórias melodramáticas sobre os atletas além das que eles escolherem contar. Seria um evento tranquilo, de baixa manutenção, baixas emissões de carbono, mas o que estaria em jogo seria o mesmo de sempre: o título de melhor do mundo.”

ão é difícil imaginar assistir à Olimpíada via um sistema de realidade virtual.

Não é difícil imaginar assistir à Olimpíada via um sistema de realidade virtual.

 

3. Histórias piegas de interesse humano serão substituídas por uma experiência de mídia mais imersiva, controlada pelos atletas

S.B. Divya, autora de Runtime

“O futuro da Olimpíada não parece muito promissor, a menos que os Jogos façam mudanças para aumentar o envolvimento do público. Hoje, o Comitê Olímpico Internacional está preso na era da TV de mão única, tentando usar a internet mas estrangulando os atletas e o acesso à comunicação.

Que os competidores sejam os olhos e ouvidos e comentaristas dos Jogos.

Enquanto isso, o mundo caminha em direção a mais interatividade – vídeos 3D, realidade virtual, celebridades em tempo real. Essa sede por experiências compartilhadas só vai aumentar. Os Jogos Olímpicos são uma maneira incrível de mostrar o drama de uma vida inteira que tem o objetivo de atingir o pico da performance.

As pessoas devoram esse tipo de história, mas a audiência de amanhã está cada vez mais sofisticada. As pessoas percebem muito facilmente quando uma história é editada e curada. O que elas querem – desde já – é a perspectiva individual, nua e crua de cada atleta. Acesso instantâneo, sem filtros.

Se a Olimpíada quiser prosperar, o COI precisa abrir as comportas da informação e permitir que os atletas interajam diretamente com o mundo. Que os competidores sejam os olhos e ouvidos e comentaristas dos Jogos. A experiência olímpica do futuro será imersiva. Espero que cheguemos lá.”

O americano Alfred Adolf Oerter quebrou o recorde olímpico do lançamento de disco com uma distância de 58,22 metros, em 1960. Em 2012, o alemão Robert Harting ganhou a medalha de ouro com um arremesso de quase 68,3 metros.

O americano Alfred Adolf Oerter quebrou o recorde olímpico do lançamento de disco com uma distância de 58,22 metros, em 1960. Em 2012, o alemão Robert Harting ganhou a medalha de ouro com um arremesso de quase 68,3 metros.

 

4. Os Jogos serão uma ode nostálgica aos tempos em que os humanos eram menos perfeitos cientificamente

Max Gladstone, autor de Four Roads Cross

“Qual é o futuro dos Jogos Olímpicos? Pense no vinil.

Deixe de lado mudança do clima, revoluções e escassez de recursos e presuma que a nossa sociedade dura mais dois séculos. Quanto mais entendemos o corpo humano, mais rápido vamos correr, mais alto vamos saltar. Atletas, reguladores e público terão de negociar o que significam os ideais atléticos quando o corpo humano torna-se um fator limitante.

Um dia os filhos dos nossos filhos vão se reunir para assistir, com olhos de metal, um grupo de crianças ferozes feitas de carne e osso correndo os 400 m com obstáculos.

A discussão já começou. Os atletas podem usar algumas drogas, como a cafeína, mas não outras, como o seu próprio sangue. Não para pernas artificiais que permitem que os velocistas corram mais rápido, sim para os maiôs que deixam os nadadores mais lisos. A cada novo desenvolvimento, decidimos o que é um atleta ‘autêntico’.

Um dia uma mente humana num corpo robótico vai correr os 100 m rasos em um segundo. Mas, durante muito tempo, vamos achar que esse resultado não conta.

O esporte vai enfrentar o dilema do hipster. O vinil é pesado e frágil. Um disco maior um iPads tem apenas quatro músicas de cada lado. Mas as pessoas compram discos, cuidam deles e valorizam o chiado ‘autêntico’.

Se sobrevivermos, um dia os filhos dos nossos filhos, que poderão pular até o topo de um prédio, vão se reunir para assistir, com olhos de metal, um grupo de crianças ferozes feitas de carne e osso correndo os 400 m com obstáculos.”

5. E eles vão fazê-lo pelo mesma motivo que gostam de ir ao cinema ou apreciar arte

Patrick Hemstreet, autor de The God Wave

“[No futuro], seu contador, seu massagista e seu mordomo (sim, todos teremos um C-3PO pessoal) vão cuidar das suas necessidades por meio de uma confluência sinfônica de circuitos e sistemas hidráulicos.

Computação ultra-rápida processadores precisos vão garantir que todas as tarefas pertinentes sejam realizadas de forma eficiente e livre de erros. Da mesma forma, os Jogos Olímpicos vão mostrar o talento dessas amadas estrelas do esporte, como X4-T34G e RP4567-F.

‘Sim – só que eu realmente duvido dessa última parte’.

Não há esteroides suficientes para transformar um atleta olímpico num X4-T34G.

Ainda vou ao teatro para ver seres humanos vivos representando histórias de ficção e fantasia. O maior teatro de Houston fica a cerca de 50 metros de um cinema, mas ainda gosto de assistir a peças. Ainda vou a concertos de música clássica, embora tenha um smartphone (e um bom par de fones de ouvido) para escutar a música que eu quiser com apenas um toque do meu dedo.

E é bem possível que também seja assim com você. Ainda quero ver humanos interagindo com outros humanos para demonstrar habilidades adquiridas com treinamento e talento.

Por quê? Eu – não – nós gostamos de testemunhar os picos e as complexidades da capacidade humana. Ver membros de nossa espécie rompendo barreiras aparentemente intransponíveis é a maior forma de entretenimento. Ouvir uma nova história ou ficar maravilhado com a criatividade de um artista novo é uma experiência que está firmemente consagrada em carne e osso. Este intercâmbio entre almas é, ouso dizer, sagrado e nunca será cedidos a autômatos metálicos não-conscientes.

Dito isso, a presença de cidadãos mecânicos Lucasianos terá algum efeito sobre os Jogos Olímpicos, principalmente no que diz respeito aos produtos farmacêuticos. O uso de drogas que melhoram o desempenho certamente irá permanecer ilegal.

Mas o doping ilícito em uma sociedade pós-revolução robótica será inútil e, francamente, tolo. Afinal, não há esteroides suficientes para transformar um atleta olímpico num X4-T34G.

Quando chegar o dia em que estivermos cercados por IBMs e Apples ambulantes, vamos apreciar o que significa ser humano, com todas as nossas falhas inerentes. A santidade da esportividade (e de todas as empreitadas humanas) será ressuscitada e celebrada como resultado da evolução implacável.”

Uma representação digital do genoma humano.

Uma representação digital do genoma humano.

 

6. Ou… pode ser diferente, e as empresas vão patrocinar atletas com base em suas sequências de DNA

Stacey Berg, autora de Dissension

“O futuro dos Jogos Olímpicos já chegou. Atletas tiram proveito de toda a tecnologia disponível, de monitores portáteis a câmaras que simulam altitude e, é claro, o doping. O que vai mudar no futuro é que os atletas serão a tecnologia.

A nova discussão é se devemos permitir a participação de atletas cuja sequencia inteira do DNA é sintética, uma tecnologia desenvolvida originalmente para aplicações militares.

Quando a 50ª edição dos Jogos Olímpicos começar, em 2092, os eticistas ainda estarão debatendo se é um direito ou um privilégio que traços causadores de doenças sejam removidos de seus embriões. Mas a Olimpíada já estará muito à frente. A edição do gene humano torna possível criar o esportista perfeito para cada modalidade, com corações maiores, pulmões melhores e músculos mais rápidos e mais fortes.

Empresas soberanas patrocinam atletas dotados de sequências genéticas patenteadas; os torcedores, pelo menos aqueles que podem pagar, compram essas sequências para inseri-las em seus próprios embriões. A nova discussão é se devemos permitir a participação de atletas cuja sequencia inteira do DNA é sintética, uma tecnologia desenvolvida originalmente para aplicações militares.

Enquanto isso, os CyborGames, cujos atletas abraçam abertamente as modificações mecânicas e biológicas, atraem o público mais jovem e descolado. Ninguém sabe ainda que, em 2093, o Reboot Retro-Olímpico vai ser a surpresa do ano, com seus atletas produzidos por cruzamentos aleatórios.”

Brett Hawke durante uma sessão de fotos na piscina do Somerset College, 7 de maio de 2004, na Austrália.

Brett Hawke durante uma sessão de fotos na piscina do Somerset College, 7 de maio de 2004, na Austrália.

 

7. E cada evento olímpico lidará com a questão do gênero de maneira diferente

Ada Palmer, autora de Too Like the Lightning

“Uma grande mudança que eu acho que os Jogos Olímpicos terão de enfrentar no próximo século é como lidar com a segregação de gênero no esporte. Mesmo aqui no começo do século 21, as categorias de gênero binárias já estão se despedaçando. Imagino uma Olimpíada em que cada evento lida com a questão do gênero de forma diferente. Em eventos onde há pouca diferença — como tiro ou xadrez — todos competiriam juntos.

Eventos em que tamanho ou peso oferecem grandes vantagens teriam uma divisão “aberta”, da qual qualquer um poderia participar, mas também eventos segregados por altura ou peso, bem como o boxe, por exemplo. As categorias menores teriam participantes principalmente do sexo feminino, e as maiores, principalmente do sexo masculino, mas o sexo não seria o divisor – isso ficaria por conta das características secundárias, como altura, alcance, tamanho das pernas, largura dos ombros etc.

As categorias menores teriam participantes principalmente do sexo feminino, e as maiores, principalmente do sexo masculino, mas o sexo não seria o divisor – isso ficaria por conta das características secundárias, como altura, alcance, tamanho das pernas, largura dos ombros etc.

Também imagino que no futuro os Jogos Olímpicos continuem sendo uma peça central do processo de paz e de cooperação internacional. De muitas maneiras, a maior barreira entre nós e um futuro Jetsons, em que podemos pular de um país para o outro só para fazer um piquenique, são as lei internacionais, as fronteiras, os conflitos e a segurança nacional num mundo essencialmente sem fronteiras.

Muitos setores que se beneficiariam com mais viagens internacionais — como turismo e esporte – pressionam por fronteiras mais permeáveis, mas poucas organizações contam com tanto respeito internacional, confiança e influência como os Jogos Olímpicos.

Então eu imagino que os Jogos Olímpicos, e os fãs de esportes em geral, poderiam liderar um movimento por regulamentações de viagens mais simples, que permitam que todos os cidadãos do planeta possam entrar num carro voador e assistir a Olimpíada ao vivo.

Olhando para o futuro, acho que os Jogos Olímpicos continuarão sendo um espaço em que nações inimigas se reúnem após o conflito, em que grupos marginalizados e oprimidos pressionam por reconhecimento, em que alianças são celebradas, causas discutidas.

Um espaço em que os países que ainda não existem continuam a manter os mais altos padrões de excelência. Afinal, se a Antártica representa o sexto anel da futura bandeira olímpica, a Lua ou Marte podem ser o sétimo.”

Literatura entra em campo na Casa Brasil durante a Olimpíada

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A jornalista Miriam Leitão é uma das convidadas do "Jabuti entre autores e leitores" - Zé Paulo Cardeal / Divulgação

A jornalista Miriam Leitão é uma das convidadas do “Jabuti entre autores e leitores” – Zé Paulo Cardeal / Divulgação

Debates vão reunir Sérgio Rodrigues, Ruy Castro, Edney Silvestre e Miriam Leitão

Leonardo Cazes, em O Globo

RIO – A literatura também entrará em campo na Olimpíada do Rio. Hoje e amanhã, na Casa Brasil, localizada na Zona Portuária, escritores vão participar dos encontros “Jabuti entre autores e leitores”, organizado pela Câmara Brasileira do Livro (CBL), sempre às 16h, com mediação do editor Carlos Andreazza. Na primeira mesa, Sérgio Rodrigues e Ruy Castro vão discutir “Literatura e futebol do Brasil para o mundo”. Rodrigues é autor do romance “O drible” (Companhia das Letras), finalista do prêmio. Ele conta que para construir “O drible”, a biografia de Castro sobre Nelson Rodrigues foi decisiva.

— O Ruy é autor do livro mais importante sobre o futebol brasileiro, a biografia do Garrincha. Mas, para mim, especificamente, a biografia do Nelson Rodrigues foi fundamental. Quando eu li, o Nelson se transformou num amigo íntimo meu. É muito possível que “O drible” não existisse se eu não tivesse ficado amigo do Nelson — diz o escritor. — Nelson Rodrigues é o grande texto sobre futebol do Brasil. Qualquer pessoa que vai escrever ficção de futebol precisa acertar contas com ele de alguma forma.

Ruy Castro lembra que o seu livro sobre Garrincha, “Estrela solitária” (Companhia das Letras), foi pioneiro nas biografias de futebol. Publicado em 1995, a comercialização da obra foi suspensa um mês após o lançamento por causa de uma ação judicial da família do craque. Isso não impediu, entretanto, que o livro ganhasse o Jabuti nas categorias biografia e livro do ano de não ficção em 1996.

— Foi um gesto sensacional da CBL premiar uma obra que, naquele momento, estava proibida há sete meses. Foi um manifesto em defesa da liberdade de expressão. Na época, eu não sabia quando o livro seria liberado novamente — conta Castro. — Os livros de futebol que existiam até então eram muito técnicos, especializados. Eu queria falar do ser humano Garrincha, que por acaso trabalhava de calção e chuteira.

PARA APONTAR CAMINHOS

No domingo, será a vez de os jornalistas e escritores Miriam Leitão e Edney Silvestre conversarem sobre “Literatura brasileira de hoje para o mundo de hoje”. Miriam é autora de mais de uma dezena de livros de ficção e não ficção e ficou especialmente feliz pelo fato de o encontro acontecer na região do porto do Rio. Uma visita às ruínas do Cais do Valongo, próximo à Casa Brasil, para uma reportagem, inspirou o seu romance “Tempos extremos” (Intrínseca). Ela afirma que o ofício de jornalista atravessa sua produção literária.

— O tempo todo o jornalismo informa a minha ficção. Não quero deixá-lo porque as minhas viagens e reportagens são a minha matéria-prima — explica Miriam, que ganhou o Jabuti ao contar a história da luta contra a inflação. — “Saga brasileira” (Record) é um livro sobre um momento de superação épico do Brasil, de vencer uma inflação de dois dígitos que durava 50 anos.

Edney Silvestre acredita que os livros são capazes de apontar caminhos para o país num momento tão conturbado.

— Na França, já me falaram que o meu romance “Se eu fechar os olhos agora” (Record) ajuda a entender o Brasil — diz Silvestre. — A realidade de todo país é complexa, mas a nossa é um pouco mais. Particularmente neste momento, com tantas reviravoltas, os livros contribuem para a reflexão.

Autor de livros de viagem relata curiosidades de 5 países que estão nos Jogos – mas fora do radar dos turistas brasileiros

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Durante a abertura da Rio 2016, quando as delegações que participam dos Jogos desfilaram, muitos brasileiros – e espectadores do mundo inteiro – se depararam com países pouco ou nada conhecidos.

Neli Pereira, na BBC Brasil

Mesmo com a internet e a globalização, muitos países estão distantes do radar das agências turísticas e do foco de interesse dos brasileiros.

Mas um brasileiro, o engenheiro florestal curitibano Guilherme Canever, é uma espécie de especialista em países – e quase-países – pouco conhecidos e diz que existe “uma nova onda de buscar novos lugares, porque o mundo é muito maior do que as agências de viagens apresentam”.

Ele percorreu vários deles em três anos de viagens pelo mundo com a esposa, Bianca Soprana, e escreveu três livros: De Cape Town a Muscat: Uma Aventura pela África,De Istambul a Nova Délhi: Uma Aventura pela Rota da Seda e Países que Não Existem, este último, lançado nesta semana, relatando a viagem por 16 territórios que buscam o status de nação mas não são reconhecidos pela ONU, e que têm cultura, bandeira e – em alguns casos – língua e moeda próprias, como Ossétia do Sul, Transnítria e Nagorno-Karabakh.

A pedido da BBC Brasil, ele escolheu cinco países representados na Rio 2016 e que poderiam interessar a “novos” viajantes:

KOSOVO

A delegação do Kosovo, que já tem uma medalha olímpica . Rio 2016

A delegação do Kosovo, que já tem uma medalha olímpica . Rio 2016

 

Pela primeira vez reconhecido como país pelo Comitê Olímpico Internacional, o Kosovo declarou a independência há oito anos, depois de uma guerra civil com a Sérvia. A delegação é formada por oito atletas e já tem até uma medalha de ouro, conquistada pela judoca Majlinda Kelmendi.

O centro de Prizren tem centro antigo e muitos eventos culturais - Guilherme Canever

O centro de Prizren tem centro antigo e muitos eventos culturais – Guilherme Canever

 

“É um novo destino do sul da Europa. Muitos lugares para visitar, e muitos patrimônios da Unesco tanto da origem sérvia como otomana. O lugar que mais vale a pena por questões históricas é uma cidadezinha que chama Prizren, tem um centro antigo bem bonitinho com salão de pedra, fonte de água, é um lugar que está acontecendo, cheio de turistas e respira cultura. Mais ao norte tem Peje, para quem gosta mais de natureza, com cânions e cachoeiras. E na capital, Pristina, eles tem uma paixão pelos americanos, porque eles apoiaram o Kosovo na guerras, então tem lugares como o ‘Boulevard Bill Clinton’, muito curioso.”

“Sobre a população, notei que em lugares em que há muita ajuda externa, eles estão mais acostumados com estrangeiros, porque acham que você é sempre o funcionário de uma ONG, ou em serviço, e não te dão bola, não se abrem tanto. Mas quando sabem que você é turista, são super simpáticos, puxam conversa, falam até demais aí, sentam, oferecem comida, mas tem essa primeira barreira”.

BURUNDI

O Burundi se destaca pela receptividade dos moradores aos estrangeiros . Rio 2016

O Burundi se destaca pela receptividade dos moradores aos estrangeiros . Rio 2016

 

Localizado no leste da África, o Burundi trouxe nove atletas à Rio 2016 – seis do atletismo, dois da natação e um do judô.

O casal é recepcionado com um jantar por moradores locais no Burundi - Guilherme Canever

O casal é recepcionado com um jantar por moradores locais no Burundi – Guilherme Canever

 

“A gente estava saindo de Ruanda e ficamos sabendo que dava para tirar o visto de trânsito na fronteira. É um país muito pobre, que enfrenta muitas dificuldades. Para você ter uma ideia, quando a gente chegou, não tinha papel oficial do visto, e acabaram dando o visto num papel sulfite, com caneta mesmo e nos escrevendo uma autorização de permanência. Foi uma chegada atípica, e a gente se hospedou na casa de uma pessoa de lá através do coach surfing então foi um lugar mais para viver do que para ver lugares, para ter trocas culturais”

“No Burundi, há praias em lagos que são bem bonitas, mas não é um lugar que você pensa: vou organizar uma viagem para o Burundi, mas conhecer como as pessoas de lá vivem foi bem interessante, a experiência de saber da história das vidas das pessoas”.

TURCOMENISTÃO

O Turcomenistão tem nove atletas na Rio 2016

O Turcomenistão tem nove atletas na Rio 2016

 

Ex-república soviética, o Turcomenistão fica na Ásia Central e já foi considerado um dos países mais repressores do mundo. Possui a quarta maior reserva de gás natural do mundo, e, a cada ano, o país realiza uma conferência energética internacional.

Prédios modernos no centro da capital do Turcomenistão - Guilherme Canever

Prédios modernos no centro da capital do Turcomenistão – Guilherme Canever

 

O país fez sua estreia olímpica nos Jogos de Atlanta, em 1996, e nunca conquistou uma medalha. A delegação conta com nove atletas: dois no atletismo, dois no levantamento de peso, dois na natação, um no boxe e dois no judô.

Há estátuas glorificando o presidente atual e o morto em 2006 em várias partes do país - Guilherme Canever

Há estátuas glorificando o presidente atual e o morto em 2006 em várias partes do país – Guilherme Canever

“É um país bem atípico, uma ditadura bem fechada. Para viajar para lá você precisa de um guia, e esse não era nosso estilo de viagem, não queríamos um guia que nos mostrasse o país pelo olhar do ditador (Gurbanguly Berdimuhammedow, que governa o país desde a morte do presidente vitalício Saparmurat Nyýazow, em 2006). Nós ficamos só cinco dias, com um visto de trânsito.

É interessante que eles tem muito gás natural, são ricos como país, mas a distribuição de renda é desigual. Faz muito calor, na capital, Asgabate, há grandes arranha-céus de mármore, pontos de ônibus com ar condicionado, é fantástico, parece uma cidade do futuro, só que isso tudo é ligado aos caprichos do ditador.

E a gente usava muito táxi comunitário, os motoristas fumam de janela fechada, é muito curioso, e é meio comum qualquer carro te pegar e cobrar uma tarifa barata, uma espécie de ‘Uber’ do Turcomenistão. Tem uma paisagem bem desértica e é bem interessante, é como se fosse uma Coreia do Norte. Tem algumas ruínas, paisagens históricas muito interessantes”.

DJIBUTI

A delegação do Djibuti na cerimônia de abertura da Rio 2016

A delegação do Djibuti na cerimônia de abertura da Rio 2016

 

Pequeno país no nordeste da África é cercado por algumas das nações mais instáveis do continente africano: Somália, Etiópia e Eritreia. Com cerca de 830 mil habitantes, chama atenção pelos esforços de modernização, e já divulgou a ambiciosa intenção de se tornar uma espécie de “Dubai africana”, transformando o local em polo turístico e econômico.

O Djibuti tem sete atletas na Rio 2016, cinco deles no atletismo, um na natação e (mais…)

Da fábula para a Olimpíada: Como ‘O Senhor dos Anéis’ inspirou brasileira do tiro com arco

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Sarah Nikitin está disputando o tiro com arco pelo Brasil nos Jogos Olímpicos

Sarah Nikitin está disputando o tiro com arco pelo Brasil nos Jogos Olímpicos

 

Bianca Daga, no ESPN

O que a saga “O Senhor dos Anéis” tem em comum com os Jogos Olímpicos? Para a brasileira Sarah Nikitin, tem tudo a ver. Aqueles que são fãs da trilogia, baseada no livro do sul-africano John Ronald Reuel Tolkien, certamente se lembram do personagem Legolas, o mais famoso dos elfos. Foi por causa dele que a atleta começou a praticar tiro com arco e, agora, está fazendo história no maior evento esportivo do mundo.

A sequência no cinema foi lançada entre 2001 e 2003. Sarah, então com 14 anos, começou a gostar da história e da figura fantasiosa, que usava o arco e flecha com muita habilidade para matar os inimigos.

“Eu era muito fã dos livros e dos filmes. Comprei algumas revistas sobre O Senhor dos Anéis, e uma delas tinha uma reportagem sobre o tiro com arco, citando uma escola em São Paulo em que se podia praticar o esporte. Foi assim que comecei. E então, não parei mais”, contou ao ESPN.com.br.

Sem nem saber que era uma modalidade olímpica e nem sonhar em competir profissionalmente, Sarah pediu aos pais para fazer uma aula experimental e queria levar na brincadeira, como hobby. Mas logo de cara, ela começou a se sair bem e chamou atenção.

Por sugestão dos instrutores, começou a treinar com arco de competição. No final de 2004, já se arriscava em atirar de longa distância. Depois de poucos treinamentos, se credenciou para disputar o Campeonato Brasileiro. Resultado? Medalha de ouro na categoria cadete.

“Como fui bem, a confederação brasileira veio falar comigo, me convidando para fazer parte de um treinamento com o técnico italiano Renzo Ruele. Em 2005, fiz minha primeira competição internacional, num Grand Prix no México (equivalente a um campeonato latino-americano), e fui campeã nos 50 metros.”

Ao contrário do que pensava quando não se dava bem na educação física, na escola, Sarah levava jeito para ser atleta. Tricampeã brasileira (2009, 2011 e 2012), a arqueira que defende o Palmeiras tornou-se, em 2011, a primeira mulher do Brasil a conseguir 1.300 pontos na distância de 70 metros, que é a prova olímpica.

Dois anos depois de fazer 1.305 pontos, ela superou a própria marca, fez 1.336: registrou recorde no país, inclusive entre os homens, e terminou em oitavo no Campeonato Mundial na Turquia, melhor desempenho de uma brasileira na modalidade na competição, até hoje.

Mas o melhor ainda estava por vir. No início de julho, depois de avaliações e competições na Europa, foi convocada como uma das três titulares da seleção brasileira feminina de tiro com arco para os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, ao lado de Anne Marcelle e Marina Canetta.

Apesar da derrota para a Itália nas oitavas de final na manhã deste domingo, o trio já entrou para a história por quebrar um jejum. Até hoje, o Brasil só teve uma representante nas competições femininas de tiro com arco em Olimpíada, e há 36 anos. Em Moscou-1980, Arci Kemner ficou na 26ª colocação.

“O mais provável de medalha seria por equipe, mas já estou muito feliz só de estar na Olimpíada”, avaliou a arqueira Elfa, como é carinhosamente chamada pelos colegas na faculdade de Letras, antes da disputa.

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