Bruna Chagas, no Livros e Afins

Certa vez, uma professora muito querida de semiótica, na empolgação da aula, parou alguns instantes, olhou para a turma e contou uma situação que nunca mais me saiu da cabeça: um casal de amigos se casou por causa de Fernando Pessoa. É isso mesmo. O rapaz se apaixonou pela moça assim que ela declamou o enorme, porém belíssimo, poema Tabacaria, do heterônimo Álvaro de Campos, só que num lugar bastante inusitado: um bar, no meio daquela agitação maluca, música alta, bebida, muita gente. Eles se descobriram enamorados e desde lá nunca mais se separaram.

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A história parece até simples e seria algo fácil se Tabacaria fosse apenas um soneto, mas não é bem assim. Não é pelo tamanho do poema que se pode dar o crédito ao poeta (ele tem mais de 15 versos e está no final do post). E sim pela qualidade da poesia contida naquele texto. Os poemas de Pessoa são instigantes, misteriosos e vão além de qualquer poema já lido antes. E, por isso, pelas intervenções da sua poesia, foi possível levantar essa questão: como o poeta de Orpheu poderia mudar a sua vida?!

Vamos aos fatos: Fernando Antônio Nogueira Pessoa foi um poeta singular, um dos maiores gênios literários que já caminhou neste mundo. Nasceu em Lisboa em 13 de junho de 1888 e morreu em Lisboa, no dia 30 de novembro de 1935. Foi jornalista, tradutor e crítico literário. Fundou a revista Orpheu em 1915 e teve como grande amigo Mário de Sá Carneiro. Mas nada foi tão importante quanto a criação de vários poetas ao mesmo tempo.

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Os heterônimos (não são pseudônimos) foram sua maior contribuição para a humanidade, cada um com sua biografia, traços diferentes de personalidade e ainda características literárias distintas. Cada heterônimo possui seu próprio mundo, representando o que angustiava ou encantava o seu autor. Foram cerca de 72 heterônimos, mas em 2011, o biógrafo brasileiro José Paulo Cavalcanti Filho revelou que na verdade são 127 ao todo. Os três mais importantes e significativos são:

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Alberto Caeiro (meu preferido) é o mestre de todos os heterônimos. Nasceu em 1889, mas não era formado, só tinha o primário. É o poeta que pensa com os sentidos. Por isso, sensacionista. É poeta do campo, das coisas mais simples e belas do mundo. Para ele o mundo não encerra mistérios, como Deus, metafísica, “sentido último das coisas”. Nada disso importa. As coisas são apenas as coisas. E é esta realidade pura, sem símbolos que constitui a sua criação. Segue um trecho do Guardador de Rebanhos: (mais…)