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Os caminhos misteriosos dos livros e o fascínio pelas dedicatórias

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A história incrível de um livro que atravessou os oceanos, perdeu-se e voltou às mãos da dona. Havia uma dedicatória do moçambicano Mia Couto.

Renata Neder, na revista Época

"Renata, às vezes, os livros percorrem misteriosos caminhos, como os cadernos do personagem desta “Terra Sonâmbula”. Tu já és personagem desta dedicatória e, por isso, escrevo aqui toda a ternura.”  (Foto: Renata Neder)

“Renata, às vezes, os livros percorrem misteriosos caminhos, como os cadernos do personagem desta Terra Sonâmbula. Tu já és personagem desta dedicatória e, por isso, escrevo aqui toda a ternura.” (Foto: Renata Neder)

Eu tenho fascínio por livros com dedicatória. Às vezes isso é prática meio indiscreta, vou na casa de amigos, folheio livros e paro para ler cada dedicatória. Não resisto. Cada dedicatória conta uma história, sobre aquelas pessoas e sobre o caminho que o livro percorreu. Por que foi escolhido para ser dado, em que ocasião, para simbolizar o quê?

As dedicatórias anônimas ou em livros de pessoas desconhecidas são ainda mais interessantes. Dá pra ficar imaginando quem, afinal, teria escrito aquela mensagem. O que sentia, o que fazia, o que era na vida.

Sempre que eu entro em um sebo e pego um livro na mão, eu folheio as primeiras páginas em busca de uma mensagem, uma dedicatória. Um dia estava despretensiosamente folheando livros em um sebo em Botafogo quando encontro um livro do Mia Couto, autor moçambicano que eu amo sem fim.

Fiquei feliz com a descoberta porque, na época, sua obra estava esgotada no Brasil e pra comprar, só em sebo mesmo. Mas a grande surpresa veio quando eu percebi uma longa dedicatória no livro assinada pelo próprio Mia. Era uma mensagem longa e carinhosa destinada a uma Valéria. Pelo tom das palavras, eles eram bons amigos. Além da dedicatória havia, na página seguinte, alguns parágrafos escritos pela ‘ Valéria ‘ em tinta vermelha. O texto, meio poético, falava de sua amizade com o autor.

Comprei o livro, claro. E isso foi apenas o início de uma história muito bacana sobre os caminhos misteriosos que os livros percorrem.

Alguns anos depois, quando eu trabalhava em uma livraria, comecei a conversar com certa frequência com uma mulher que era frequentadora assídua do lugar. Ela, como eu, apaixonada por literatura africana de língua portuguesa. O nome dela era Valéria.

Os livros do Mia Couto estavam sendo reeditados no Brasil e um dia, enquanto falávamos sobre como isso era bom, contei a ela que eu tinha muitos livros dele garimpados em sebo. Contei a ela a sorte que tive por encontrar um livro com uma dedicatória do próprio Mia e recitei parte da dedicatória, que eu sabia de cor.

Ela ficou pálida. Só conseguiu dizer “Essa Valéria sou eu.” Achei que era brincadeira. Ela repetiu “Renata, essa Valéria sou eu.”

Eu, confesso, não acreditei. Aí ela disse: “Nesse mesmo livro eu escrevi um pequeno texto sobre o Mia e nossa amizade sobre o dia em que ele me deu o livro de presente.”

Era verdade. Era incrível, mas era verdade.

Aí vieram mil questões. Ela queria saber onde eu tinha comprado e como o livro foi parar nas minhas mãos. Eu queria saber por que ela tinha se desfeito de um presente tão lindo.

Valéria foi casada com um diplomata brasileiro e morou em Angola. Conheceu Mia Couto, ficaram amigos. Todos seus livros estavam em Angola, assim como este, presente do Mia. Quando se separou, não trouxe de volta para o Brasil, coisas de separação… Não sabemos exatamente como o livro foi parar em um sebo em Botafogo. Talvez o ex-marido tenha trazido de volta quando voltou ao país e vendido sua biblioteca a um sebo. Talvez tenha emprestado a alguém que o trouxe de volta.

Não sabemos que caminhos o livro percorreu. Mas o fato é que ele encontrou seu caminho de volta ao Brasil e aos cuidados de Valéria.

Apesar de estar emocionada com a história, confesso que estava um pouco triste por perder um livro com uma dedicatória do próprio Mia Couto, logo um dos meus autores favoritos. Mas o desejo do livro, de voltar para as mãos da dona daquela dedicatória, devia ser respeitado.

A tristeza durou pouco! Algumas semanas depois, Mia veio ao Brasil para um evento literário. Valéria contou a ele sobre essa jornada. E Mia ficou encantado com a história do caminho misterioso percorrido por seu livro.

Me enviou então seu livro “Terra sonâmbula” de presente. O livro conta a história de um velho e um menino, companheiros de viagem, que encontram nas suas andanças um diário. Um diário que também percorreu caminhos misteriosos.

O livro veio com uma dedicatória.

“Renata, às vezes, os livros percorrem misteriosos caminhos, como os cadernos do personagem desta “Terra Sonâmbula”. Tu já és personagem desta dedicatória e, por isso, escrevo aqui toda a ternura.” 

Obrigada, Mia, vou guardar para sempre com imenso carinho. Afinal, não é sempre que os livros atravessam oceanos e que a gente ganha dedicatória de nosso autor favorito.

Desmoronamento

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Juntaram as minhas partes, me espanaram e me mandaram para casa. Eu não disse para ninguém que deveria estar morto

Luiz Fernando Verissimo, em O Globo

O prédio de lata estava desmoronando e eu estava dentro dele, desmoronando também. Caía de bruços como um super-herói que esqueceu como voar, com a cara virada para o chão, ou para o saguão do prédio, que se aproximava rapidamente. Se eu me espatifasse no saguão, certamente morreria, pois seria soterrado pela lataria em decomposição que acompanhava meu voo.

O fim do sonho seria o meu fim também. Mas a queda era interrompida, a intervalos, como naquelas “lojas de departamento” em que o elevador parava, o ascensorista abria a porta e anunciava: “Lingerie”, “adereços femininos” etc.

Levei algum tempo para me dar conta que aquelas paradas não eram só para interromper o terror da queda. Eram oportunidades de fuga. O sonho me oferecia alternativas para a morte, se eu fizesse a escolha certa. Ou então me dava um minuto para pensar em todas as escolhas erradas que tinham me levado àquele momento e à morte certa: os exageros, os caminhos não tomados e as bebidas tomadas, as decisões equivocadas e as indecisões fatais, o excesso de açúcar e de sal, a falta de juízo e de moderação.

Não posso afirmar com certeza, mas acho que ouvi o ascensorista fantasma dizer, em vez de “lingerie” e “adereços femininos”: “Desce aqui e salva a tua alma” ou “Pense no que poderia ter sido, pense no que poderia ter sido…” As paradas não eram para diminuir o terror, as paradas eram parte do terror! Eu não tinha tempo nem para a fuga nem para a contrição. E o saguão se aproximava.

Decidi me resignar. É uma das maneiras que a morte nos pega, pensei: pela resignação, pela desistência. Meu corpo não me pertencia mais, era parte de uma representação da minha morte, o protagonista de um sonho, absurdo como todos os sonhos. Talvez a morte fosse sempre precedida de um sonho como aquele, uma súmula de entrega e renúncia à vida, mais ou menos dramática conforme a personalidade do morto.

Um sonho com anjos e nuvens rosas ou um sonho de destruição, como eu merecia. Eu nunca saberia por que meu sonho terminal fora aquele, eu desmoronando junto com um prédio de lata. Mas nossas explicações morrem com a gente.

No fim do sonho me espatifei no chão do saguão e esperei que o prédio caísse nas minha costas. Em vez disso, ouvi a voz do dr. Alberto Augusto Rosa me perguntando se eu sabia onde estava. “Hospital Moinhos de Vento”, arrisquei. Acertei. Lá juntaram as minhas partes, me espanaram e me mandaram para casa. E eu não disse para ninguém que deveria estar morto.

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