“Para Além do Inverno” sai em espanhol com um tiragem de 300 mil exemplares. A escritora chilena defende imigrantes e afirma que seus netos estão incomodados porque está namorando

Euler de França Belém, no Jornal Opção

A chilena Isabel Allende é desses escritores que não entusiasmam os críticos literários, mas vendem tanto quanto roupas Armani em liquidação. Leitores amam sua prosa direta e fluida e a percebem como uma contadora de grandes histórias, por vezes doridas, mas sem perder certo humor. Trata-se, digamos, de uma Gabriel García Márquez prêt-à-porter. Aos 74 anos, está lançando mais um romance, “Más Allá del Invierno” (Plaza y Janes, 352 páginas), sem tradução no Brasil, e concedeu uma entrevista ao jornal “La Vanguardia”, de Barcelona.

A tiragem em espanhol de “Más Allá del Invierno” (“Para Além do Inverno”) — 300 mil exemplares — impressiona, mas não quando se trata de Isabel Allende, que tem milhões de leitores espalhados pelo mundo, inclusive no Brasil (“A Casa dos Espíritos”, um belo romance, e “Paula” se tornaram best sellers). A obra conta a história da chilena Lucía, do americano Richard e da guatemalteca Evelyn.

Isabel Allende exibe o livro “Para Além do Inverno”, que conta a história de uma jornalista chilena, de um professor universitário americano e de uma imigrante guatemalteca; ela diz que não é possível viver sem riscos e aventuras

Isabel Allende exibe o livro “Para Além do Inverno”, que conta a história de uma jornalista chilena, de um professor universitário americano e de uma imigrante guatemalteca; ela diz que não é possível viver sem riscos e aventuras

 

O repórter Xavi Ayén, no começo da entrevista, diz que não se trata de “um romance ‘negro’ [policial], mas há uma parte policial”. Isabel Allende afirma que “precisava” de “algo suficientemente forte para provocar uma mudança”. Há algum tempo, alugou uma casa, no Brooklin, que teria sido da máfia, nas décadas de 1940 e 1950. Na casa da família ao lado, encontraram um cadáver. A partir da história, aparentemente real, decidiu escrever o livro.

A personagem Lucía, inspirada (e não totalmente plasmada) em Isabel Allende, é uma jornalista exilada que vive nos Estados Unidos. A escritora afirma que ela tem o seu caráter, pois ambas apreciam o risco e a aventura — “e está aberta à dor”. Richard, americano típico, busca um vida segura, sem riscos. A escritora frisa que aquele que busca uma vida cautelosa praticamente não vive. Por isso, ao escrever o romance, envolve Richard em tramas complexas, tornando sua vida mais movimentada do que ele gostaria, por certo.

O entrevistador nota que há aspectos horríveis na vida tanto de Evelyn (tartamuda) quanto de Richard. Mesmo assim, sublinha, há um tom otimista no romance. Isabel Allende assinala que uma frase do escritor francês Albert Camus a inspirou: “No meio do inverno, descobri que havia em mim um verão invencível”. “Há um verão invencível em cada um de nós. Na vida, passamos por invernos que parecem eternos, mas, se se escapa disso, há sempre um verão esperando para aparecer. Os Estados Unidos vivem o inverno de [Donald] Trump. Eu também estava vivendo um inverno, acabava de me separar de Willy, depois de 28 anos [de casamento]. Acreditava que minha vida seria só trabalho até o fim, que o amor havia passado. Mas todos temos a possibilidade de renascer, e eu encontrei um novo amor quando escrevia o romance ‘Más Allá del Invierno’”.

Isabel Allende diz que a encanta a possibilidade do “amor maduro”. “Eu mesma, ao dizer aos meus netos que tenho um namorado, os escandalizei. O amor entre pessoas mais velhas provocam rechaço, os jovens ficam horrorizados, não podem acreditar que na minha idade alguém possa se enamorar. É preciso romper tais tabus estúpidos, como o que avalia que uma mulher mais velha não pode ter atrativos e deve renunciar ao prazer sexual”, afirma a escritora.

O romance é dedicado a Roger, o namorado de Isabel Allende. Ele escreveu um e-mail para a escritora depois de ouvi-la numa rádio. “Começamos a trocar e-mails e, a cada manhã, me chegava um ramo de flores.” Depois de muita conversa virtual, decidiram se encontrar. Ela percebeu que se tratava de um homem agradável. Mas ressalvou: “Olha, não tenho tempo a perder, aos 74 anos: ‘Interessa-lhe algo mais do que uma amizade ou não?’ Ele comeu de uma vez o ravióli e agora estamos organizando sua mudança de Nova York para a Califórnia. Ataquei como uma barracuda.”

Philip Roth escreveu dois livros terríveis sobre a velhice: “Patrimônio” e “Homem Comum”. “Patrimônio” é a história de sua convivência com o pai, que tinha câncer. Trata-se de uma história devastadora, com a ficção servindo de instrumento para iluminar a realidade. No caso, patrimônio são as fezes do pai que emporcalham o banheiro da casa de Philip Roth. “Homem Comum” é um romance sobre a velhice, que, no dizer do escritor, é um “massacre”. Xavi Ayén nota que as personagens do romance de Isabel Allende têm “achaques”. De fato, admite a escritora, pois eles têm 60 anos. Achaques são, pois, regras. “Mas não é verdade que com a idade uma pessoa se torna mais sábia. Se era tonta vai continuar tonta. Se era miserável vai se tornar mais miserável. Quem era sábio quando jovem tende a permanecer sábio ao se tornar velho.”

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Donald Trump: o presidente americano aposta numa certa tradição de intolerância contra imigrantes

O entrevistador diz que “Más Allá del Invierno” é um de seus romances mais políticos: “Há o tema das ditaduras latino-americanas, o maltrato dos imigrantes nos Estados Unidos, a violência das gangues e as drogas”. Isabel Allende corrobora, mas indo além de sua ficção: “Esta é a realidade na qual vivo. Dirijo uma fundação, trabalhamos com meninas e mulheres de alto risco. Desde que Trump assumiu a Presidência e eliminou tantos apoios, nosso trabalho com os mais necessitados se multiplicou”.

Naturalizada americana, a autora diz que conhece muitos casos como a de sua personagem Evely Ortega. “Muitas pessoas são deportadas e seus filhos ficam nos Estados Unidos, sem pais. E a polícia está cada vez mais impune.”

O inverno, com Donald Trump, vai ser longo, sugere o jornalista de “La Vanguardia”. Isabel Allende afirma que há, porém, “forças contrárias” àquelas que “perseguem” imigrantes. “Várias cidades se oferecem como refúgios e não obedecem ao governo de Trump, acolhem os que não têm documentos [legais] e respeitam as leis ambientais do Acordo de Paris. Não deixa de ser curioso que os Estados Unidos sempre recebem com racismo e xenofobia cada onda de imigrantes: os italianos, os chineses… e logo, com o passar das gerações, os integram.”

O repórter pergunta: “Qual livro enviaria a Trump?” Isabel Allende pilheria: “Trump não sabe nem ler, eu creio”. É provável que o presidente americano seja, mais do que um não-leitor, um mau leitor. Países assimilacionistas tendem a dar mais certo do que os que rejeitam os chegantes. A história dos Estados Unidos, apesar da rejeição inicial, sempre foi a de “absorver” os que “escaparam” da Europa, da Ásia e da América Latina. Sua sociedade, apesar das reticências e do discurso de políticos radicais como Donald Trump, sempre foi aberta à integração. Desde que os indivíduos se adaptem ao modo de vida americano, com o acatamento das leis. Os Estados Unidos odiados são o da política externa; internamente, o país é um dos mais democráticos e abertos do mundo.

O repórter de “La Vanguardia” nota que “há algum elemento mágico, quase nada” no romance. Isabel Allende diz que há menção a “algum orixá, uma xamã da Guatemala, que existe de verdade” e ao “ritual da ayahuasca, uma experiência que eu tive”. A escritora conta que, ao tomar o chá, sentiu como se estivesse em “outro mundo”, com “a sensação física do frio”. Ela tomou a beberagem em Manaus, capital do Amazonas. “É um culto religioso, uma espécie de igreja estabelecida” e não é ilegal tomá-lo.

“Para Além do Inverno” é o primeiro livro de Isabel Allende que não será lido por Carmen Balcells, uma das mais importantes agentes literárias da história (o boom literário latino-americano seria até literário, mas não seria boom sem sua ação, sem sua energia). “Estou contente com Luis Miguel, que está fazendo um trabalho estupendo. Ninguém esperava, pois cresceu à sombra de sua todo-poderosa mãe, e de repente aparece essa pessoa com uma calma impressionante, capaz de agregar os escritores e de tirar o melhor de cada um.”

Quando Carmen Balcells morreu, o agente Andrew Wylie “começou a chamar todos seus autores”. Mas, ante o trabalho paciente e competente de Luis Miguel, os escritores optaram por ficar com a agência criada pela matriarca.. O repórter quer saber se Andrew Wylie a convidou. “Claro, porém eu não, jamais, jamais, [ele] é um tubarão”.