Foto: Reprodução / Reprodução

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Livro permite compreender não só a vida do escritor, mas também a sua relação com a literatura

Alexandre Lucchese, no Zero Hora

Chega nesta terça-feira às livrarias Os fatos: A autobiografia de um romancista, de Philip Roth. O lançamento do livro, no entanto, não contradiz o anúncio do escritor de que deixaria as letras em 2012. Na verdade, o livro foi publicado originalmente em 1988, mas só agora ganhou uma versão brasileira – era um dos três títulos que faltavam para a Companhia das Letras ter a obra completa do autor editada no Brasil.

A demora de quase três décadas para o lançamento de uma edição brasileira sugere que este é um livro que poderia esperar. E poderia, embora não precisasse ser por tanto tempo. Roth, um dos maiores escritores americanos vivos, tem uma longa lista de títulos mais prestigiados do que Os fatos, o que provavelmente empurrou a autobiografia para o fim da fila das edições. No entanto, esta narrativa é importante para compreender não só a vida do escritor, mas também sua relação com a literatura.

Os fatos narra a trajetória de Roth desde a infância, vivida em um bairro judeu de Nova Jersey, até sua consagração como romancista. Na primeira parte, o texto se arrasta por lembranças infantis, tendo momentos de derramada nostalgia, como quando trata de seu amor pelo beisebol. Em seguida, a narrativa cresce, com episódios que envolvem sua formação acadêmica e literária. A escrita e a repercussão de O complexo de Portnoy (1969), polêmico romance que o tornou famoso e rico, é um dos pontos altos desta autobiografia.

No entanto, nada ali narrado deve impressionar os leitores que passaram por biografias como Roth libertado: O escritor e seus livros, de Claudia Roth Pierpont, lançada no Brasil no ano anterior, também pela Companhia das Letras. A grande virada de Os fatos se dá nas páginas finais, com uma carta do personagem Nathan Zuckerman ao escritor. Alter ego de Roth na série de romances Zuckerman acorrentado e outros livros, com Pastoral americana, ele escreve: “Li o manuscrito (de Os fatos) duas vezes. Eis a sinceridade que você pediu: Não publique – você faz muito melhor escrevendo a meu respeito do que reportando `com precisão¿ sobre sua própria vida”. Trata-se de Roth tomando a voz de uma de suas criações literárias para discutir o peso do fazer literário em sua vida.

O autor não se mostra dominado pela sua ficção – tanto é que não segue o conselho de Zuckerman para não publicar Os fatos –, mas borra as fronteiras entre realidade e imaginação. A carta do personagem faz o leitor refletir sobre a sinceridade da autobiografia: “É ‘você’ de verdade ou é como você quer ser visto pelos leitores aos 55 anos?”, questiona o texto. Mais adiante, o personagem afirma que O Complexo de Portnoy, romance sobre um rapaz que se masturba de modo obsessivo, pode constituir “o que mais se aproxima de ser uma autobiografia daqueles impulsos”. Sendo assim, a ficção do escritor, e não um texto pretensamente verídico, seria o mais próximo da verdade que Roth poderia chegar.

Apesar de ser apresentado como uma autobiografia, Os fatos ganha ares de ficção e ensaio com a carta de Zuckerman. De curta dimensão – são 208 páginas – é um convite para melhor conhecer Roth e refletir sobre o papel da literatura em revelar o que há por trás dos fatos.