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Bruna Surfistinha comenta “Pagando por Sexo” e indica: “HQ deveria ser leitura obrigatória em todos os prostíbulos!”

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Capa da HQ "Pagando por Sexo", de Chester Brown, lançada no Brasil pela editora Martins Fontes

Capa da HQ “Pagando por Sexo”, de Chester Brown, lançada no Brasil pela editora Martins Fontes

Publicado originalmente no UOL.com

Comecei a ler “Pagando por Sexo”, a HQ recém-lançada de Chester Brown que narra os encontros do autor canadense com garotas de programa, com muita expectativa e curiosidade. Apesar de ter vivido na prostituição durante três anos e ter conhecido bem o universo masculino, ainda assim sempre quis ler relatos de um homem que assume gostar de pagar por sexo.

Vi muitos clientes em Chester e me vi em algumas garotas que ele pagou. Chester é um dos poucos homens que têm coragem de assumir as fragilidades e medos que rondam quem busca por sexo pago.

Um homem comum – e nem por isso sincero – trata a prostituta como um mero objeto sexual. Em um programa de uma hora, goza no máximo – no máximo mesmo! – duas vezes, mas para os amigos enche a boca pra dizer: “Dei quatro vezes sem tirar!”. O homem comum é aquele que nunca assume que já brochou, precisa sempre aumentar os fatos para alimentar o próprio ego e se sentir mais macho que os amigos. É aquele que jamais se apaixonaria por uma prostituta por acreditar que isto é imoral. Chester não é um homem comum.

Devorei o livro em poucas horas, com pequenas pausas entre um capítulo e outro, nas quais me lembrei de situações que vivi então como garota de programa.

Em “Pagando por Sexo”, Chester mostra que a prostituição é um mundo cheio de curiosidades, descobertas e mentiras. Desvenda muitos truques usados por prostitutas, coisas que a maioria dos clientes morrerá sem saber. Como o truque básico que Ches descobriu com Jolene: a estratégia de fazê-lo gozar no oral, para tentar evitar a penetração de outras maneiras.

O que mais gostei deste livro foi o fato de que Chester não esconde seus pensamentos. Sempre desconfiei que os clientes conversam com eles mesmos, em mente. Os pensamentos de Ches devem passar pela cabeça de todos os homens durante encontros com prostitutas. Nota-se as diferenças entre elas e as reações de surpresas que ele teve, como quando uma resolve beijá-lo, algo que não é comum de acontecer. Ou então quando ele se surpreende ao notar que uma estava olhando nos olhos dele enquanto transavam.

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Chester, que após terminar o namoro com sua última parceira decide se tornar consumidor frequente de sexo pago, lida com isso de uma maneira extremamente natural, sem culpa alguma. Mesmo que, após vários encontros, ele diga ter ficado com uma “sensação de vazio”.

Interessante notar as opiniões opostas sobre a prostituição no próprio círculo de relacionamentos do autor, como é o caso de Joe [Matt], um dos seus melhores amigos na vida real, que se diz totalmente contra o fato de Ches buscar por prostituta. Joe vive lhe dando lições de moral e demonstrando um machismo camuflado para um homem que aparenta ser romântico.

O livro deixa clara a frieza do relacionamento entre prostitutas e seus clientes, mas mostra o quanto essa relação pode ser sincera: as garotas de programa sabem que o cliente quer apenas prazer, enquanto o homem sabe que elas querem apenas dinheiro.

Mesmo depois de Chester ter decidido que nunca mais teria uma namorada e insistir que não acredita mais em “amor romântico”, tive a impressão de que é justamente isso que ele sempre busca nas prostitutas. Quando gosta de uma acompanhante, faz questão de revê-la sempre que possível, como se estivesse sentindo saudade e com vontade de conhecê-la um pouco mais. Ele não busca apenas sexo, mas uma companhia feminina.

Dei também boas risadas durante a leitura. Chester tem um senso de humor incrível e opiniões próprias e coerentes que fazem o leitor refletir sobre os assuntos abordados – ao final da edição brasileira da HQ, há uma série de apêndices em que ele expõe, com a paixão de um advogado, as diferenças entre a legalização e a descriminalização da prostituição no Canadá, as questões morais e culturais envolvidas, além de aspectos históricos do relacionamento a dois, seja ele pago ou não.

Com exceção dos pensamentos expostos nos quadrinhos, nada mais foi uma descoberta para mim, mas tenho certeza que a leitora que nunca viveu na prostituição fará boas descobertas. E os leitores adeptos do sexo pago se verão em Chester.

Enumero a seguir algumas das dicas e experiências do autor que deveriam se tornar um manual de leitura obrigatório em todos os prostíbulos:

 

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1. A regra da “aumentadinha”

Quando ele liga para uma prostituta de um anúncio e pede que ela se descreva, comecei a rir. Me lembrei de todas as vezes em que tive que me descrever ou as outras tantas em que ouvi alguma colega se descrevendo. A garota de programa sempre dá uma aumentadinha em seus aspectos físicos, aproveitando que quando o homem liga, já está cheio de tesão. Situação esta que Ches passou com a Tina.

Chester logo demonstra que é bem exigente, considera velha uma que conta ter 28 anos. Pausa. Lembrei então que quase todas das minhas colegas mentiam a idade quando eram questionadas, sempre para menos, é óbvio.

Como exemplo, uma moça com quem trabalhei, tinha 34 anos, mas dizia ter apenas 27, sendo que nos dois anos que fomos colegas, ela manteve esta mesma idade.

Menti minha idade bem no início, por ter começado com 17 anos, precisava dizer que tinha um ano a mais. Depois que completei 18 anos, não precisei mais mentir, até mesmo por que parei com 20.

Autorretrato

Chester Brown nasceu em 1960, em Montreal, no Canadá. Publicou sua primeira tira em 1972, no jornal The St. Lawrence Sun. No entanto, sua entrada oficial no “mercado editorial” aconteceu em 1983. Nessa época ele mesmo vendia seus gibis da série Yummy Fur (reproduzidos em xerox) numa esquina de Toronto, a 25 centavos de dólar o exemplar. Em 1986, essa mesma série começou a ser publicada em revistas, tornando-se uma das mais duradouras HQs independentes. “A Playboy”, graphic novel que narra a descoberta do sexo pelo autor na adolescência, foi publicada em 2001 no Brasil pela editora Conrad. Brown ganhou quatro Harvey Awards. Em 2011 passou a fazer parte do Canadian Comic Book Creator Hall of Fame.

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Como não lembrar também das descrições falsas nos anúncios? Truque básico dos donos dos prostíbulos para atrair clientes. O homem atraído por tal anúncio, acredita que vai encontrar a moça no prostíbulo quando cai no golpe: chegando lá, a gerente inventa uma desculpa para justificar a ausência da fulana, mas o convida para conhecer as outras garotas. Já que está lá, decide fazer programa com outra. Truque mais velho que andar pra frente. E os homens caem direitinho.

2. Sorria, você está sendo vigiado!

Lendo sobre o trajeto até a primeira experiência sexual de Ches, quando ele demonstra medo ao imaginar estar sendo vigiado por alguém antes de chegar ao local, lembrei que os clientes são realmente vigiados sem saber. Em dois dos prostíbulos em que trabalhei, havia um segurança à paisana do outro lado da rua, sempre de olho em quem estava entrando na casa. Em outro, no famoso “Vintão”, tinha duas câmeras escondidas na frente da casa, onde víamos dois ângulos de quem estava chegando por uma tela de TV.

 

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Quando Carla, uma garota de programa, o deixa sozinho, diz para ficar à vontade e sai do quarto, Ches, desconfiado, olha embaixo da cama e dentro do armário para ver se tem alguém escondido. Imagino que muitos dos meus clientes tenham feito isto, mas nunca alguém comentou comigo.

Ela demora para voltar e ele então se pergunta: “Será que isso sai da minha meia hora?”. Tive vontade de entrar ali na cena e dizer: “O tempo já está contando, Ches!”. A partir do momento que o cliente já está no quarto, o tempo combinado começa a rolar.

3. Tempo é dinheiro

Chester gosta da experiência por sexo pago e vicia. Logo se vê fazendo contas de quanto será o investimento caso pague a cada duas semanas. E a conclusão a que ele chega é a mesma de muitos homens que conheci: sai mais barato pagar uma prostituta do que bancar uma namorada.

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Não demorou para Chester perceber que quando uma prostituta diz “Mais rápido! Mais rápido!”, não significa que ela está quase gozando, mas para que o cliente goze mais cedo. Pausa. Usei muito este truque!

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Mais tarde, quando Chester precisa deixar de morar com a ex e compra um apartamento, usa toda a sua economia no negócio. Ficou feliz por ter um local para receber as prostitutas, mas sem dinheiro para bancá-las. Passou seis meses sem sexo.

4. O cliente tem sempre razão

Quando o autor conta sobre sua relação com Angelina, deixa claro o quanto um homem fica incomodado quando a mulher está totalmente seca, sem um pingo de lubrificação. Para o cliente pouco importa saber se a prostituta usou meia bisnaga de lubrificante artificial, pois em seu inconsciente quer imaginar e acreditar que é natural, que ele realmente é capaz de proporcionar muito prazer a ela. Mas o seco os incomoda.

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Achei interessante quando Ches descobre um site onde os clientes escrevem uma resenha para cada prostituta que conhece. Me coloquei muito no lugar de Anne, a garota para quem Ches contou que num destes site haviam resenhas sobre ela. Pausa. Foi um cliente que me contou sobre um destes sites aqui no Brasil, se não fosse por ele, jamais imaginaria que existiria algo assim!

5. As aparências enganam

No capítulo 12, Ches desvenda o mistério de como uma garota de programa consegue trabalhar mesmo estando menstruada sem que o cliente perceba. É um truque usado por todas. Anne contou à Chester sobre o tampão e comentou sobre a dificuldade que é tirá-lo depois. Passei muito por isso!

Memórias de um garoto de programa

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Imagem Google

Publicado originalmente no Diário do Pará

O quadrinhista canadense Chester Brown passou por uma experiência que, de tão inusitada, serviu como inspiração para seu trabalho: o problema de saciar o desejo de manter constantes relações sexuais sem manter uma namorada fixa foi resolvido com a antiga solução de buscar prazer com garotas de programa. Da cama para o papel foi um pulo – nascia ali “Pagando por Sexo”, HQ confessional que foi publicada no ano passado e que chega agora ao Brasil pela WMF Martins Fontes.

Não se espere, porém, por um Kama Sutra em quadrinhos – Brown trata do fato com honestidade e também delicadeza, transformando a situação em uma grande análise do desejo humano. Nem faltam os comentários dos amigos que, habitualmente, condenam suas atitudes. E, do ponto de vista gráfico, o canadense oferece grandes soluções, como diálogos afiados e o uso do fundo escuro, em que prevalece apenas o pensamento do protagonista. Sobre o trabalho, Brown, que há nove anos mantém um relacionamento com a mesma garota de programa, respondeu, por e-mail, às seguintes questões.

P: Quando ainda estava planejando o livro, já imaginava que falaria bastante sobre as prostitutas?

R: Quando comecei o projeto, eu decididamente achava que haveria muito mais sobre prostitutas no livro. Algumas delas haviam me contado detalhes muito interessantes sobre suas vidas pessoais, e pensei que esses detalhes ajudariam a humanizá-las e deixar claro por que fizeram as escolhas que fizeram. Mas, quando me sentei para escrever o livro, percebi que esses tipos de detalhes da vida pessoal eram demasiado reveladores – eu não queria arriscar a possibilidade de alguém poder identificar alguma das mulheres com base nas informações do livro.

Imagem Google

P: Há alguma diferença entre trabalhar ou com narrativa ou com memória? O que muda no seu trabalho?

R: Um livro de memórias é uma espécie de narrativa, mas para ele somos obrigados a contar fatos tal como realmente ocorreram, ou o mais próximo dos fatos que a memória permite. Fiquei tentado a ficcionalizar a história – usar outro nome para o personagem principal, não chamá-lo Chester. Isso me daria mais liberdade. Poderia ter criado detalhes sobre “Denise” para tornar o final mais satisfatório. Mas queria ser honesto sobre como os tópicos são pessoais para mim, e não queria que as pessoas tivessem de especular o que era verdade e o que não era.

P: São ótimos os quadrinhos pretos para a conversa inicial entre você e sua namorada, Sook-Yin. Como teve essa ideia?

R: Tentei desenhar aquela primeira cena ao menos quatro vezes sem conseguir que ficasse como eu queria. Não conseguia obter as expressões emocionais em nossos rostos do jeito que achava que deviam ser. E depois tentei desenhar as costas de nossas cabeças para que as expressões de nossos rostos não ficassem visíveis, mas não gostei de como elas ficaram, tampouco. Por fim, deixei os quadrinhos totalmente pretos.

P: De onde vem essa tendência estilística de drenar a emoção em seu estilo de desenho?

R: Acredito que haja emoção nas expressões faciais dos personagens, mas tento fazê-la bem sutil. Tendo a gostar da obra de artistas que minimizam a emoção – há muitos que exageram. O criador que mais me influenciou nesse sentido foi o cineasta Robert Bresson, cujos filmes eu amo.

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