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‘Fui professor por 17 anos sem saber ler’

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Queria que pessoas como eu soubessem que há esperança, há solução. Não somos burros, podemos aprender a ler, e nunca é tarde demais (Foto: BBC)

O americano John Corcoran conseguiu se formar na universidade e entrar na docência guardando um segredo que o atormentava. Até que, aos 48 anos, ele decidiu enfrentá-lo.

Publicado no G1 [via BBC Brasil]

ohn Corcoran teve uma infância comum no Estado americano do Novo México, nas décadas de 1940 e 50. Frequentou a escola e a universidade e se tornou professor quando se formou – mas fez tudo isso guardando um segredo improvável: ele não conseguia ler uma frase sequer. Em depoimento à BBC, ele relata o sofrimento de ter tido que recorrer a estratégias frequentes para esconder seu analfabetismo, até decidir revelar a verdade ao mundo, aos 48 anos:

“Quando eu era criança, escutava dos meus pais que eu era um vencedor. E, nos meus primeiros seis anos, eu acreditei nisso.

Demorei a aprender a falar, mas frequentava a escola cheio de expectativas de aprender a ler como minhas irmãs – e tudo correu bem nos primeiros anos, porque o que mais se exigia das crianças era fazer fila, sentar, ficar caladas e ir ao banheiro no horário determinado.

Até que, na segunda série, a gente precisava aprende a ler. Mas para mim (o livro didático) era como um jornal em mandarim – não entendia o que estava naquelas linhas. E, aos seis, sete e oito anos de idade, eu não sabia como explicar esse problema.

Lembro-me de rezar à noite pedindo: ‘por favor, Deus, faça com que eu saiba ler amanhã ao acordar’. Às vezes eu abria um livro para ver se havia ocorrido um milagre. Mas isso não acontecia.

Na escola, eu fui colocado na fileira dos ‘burros’, com um monte de outras crianças com dificuldades para aprender a ler. Não sabia como tinha ido parar ali, como sair dali e nem que perguntas eu precisava fazer.

O professor não chamava a nossa fileira de ‘crianças burras’ – não havia esse tipo de crueldade -, mas os colegas falavam assim. E quando você senta na fileira dos burros, você começa a achar que é burro mesmo.

Nas reuniões escolares, meu professor só disse aos meus pais, ‘ele é inteligente, ele vai entender’. E me passaram para a terceira série.

‘Ele é inteligente, ele vai entender’. E me passaram para a quarta série.

‘Ele é inteligente, ele vai entender’. E me passaram para a quinta série.

Mas a verdade é que eu não estava entendendo.

Na quinta série, eu praticamente havia desistido de aprender a ler. Eu me levantava de manhã, me vestia e ia para a escola como se estivesse indo para a guerra. Eu odiava a sala de aula. Era um ambiente hostil e eu precisava encontrar formas de sobreviver.

Na quinta série, eu praticamente havia desistido de aprender a ler, conta John (Foto: Arquivo pessoal)

Quando cheguei à sétima série, passava a maior parte dos dias na sala do diretor. Eu era briguento, desafiador, palhaço, perturbador; até ser expulso da escola.

Mas esse comportamento não refletia como eu me sentia por dentro – não era quem eu queria ser. Eu queria ser alguém diferente, queria ser bem-sucedido, um bom aluno. Mas simplesmente não conseguia.

Na oitava série, cansei de envergonhar a mim mesmo e à minha família. Decidi que ia me comportar. E, no ensino médio, se você se comporta, você consegue avançar dentro do sistema. Então decidi ser um queridinho do professor e fazer todo o possível para passar o sistema.

Queria ser atleta – eu tinha habilidades atléticas e matemáticas, tanto que conseguia contar dinheiro e fazer tabuada antes mesmo de ir pra escola.

Eu também tinha habilidades sociais. Andava com os garotos universitários e namorava a menina com as notas mais altas da escola. Fui ‘rei da festa de formatura’ e conseguia que meus colegas – geralmente meninas – fizessem a lição de casa para mim.

Conseguia escrever meu nome e lembrava algumas palavras, mas era incapaz de escrever uma frase. No ensino médio, eu lia como se estivesse na segunda série. E nunca disse isso para ninguém.

Durante as provas, eu colava ou passava a folha para alguém responder as perguntas para mim.

Mas, quando passei para a universidade com uma bolsa de atleta, a história mudou.

Pensei: ‘Meu Deus, isso é demais para mim, como vou fazer?’

Entrei para uma fraternidade que tinha cópias de provas antigas. Era uma das formas que eu usava para colar. Tentei acompanhar as aulas ao lado de um colega, para me ajudar. E tentei também estratégias mais criativas e desesperadas para passar de ano.

Em uma prova, o professor escreveu quatro perguntas na lousa para copiarmos. Eu estava sentado no fundo da sala, perto da janela. Com muito sacrifício, eu escrevi as quatro perguntas. Mas não sabia o que elas queriam dizer.

Havia combinado com um amigo de ficar do lado de fora da janela. Ele era provavelmente o aluno mais esperto que eu conhecia, e havia acertado de apresentar ele para a menina de quem ele gostava. Então, ele respondeu as perguntas para mim.

Em outra ocasião, eu invadi a sala do professor três noites seguidas, à meia-noite, como um ladrão, para procurar pela prova. Eu sabia que havia cruzado uma linha – não era mais apenas um estudante que colava, eu era um criminoso.

E mesmo assim não consegui encontrar a prova. Deduzi que ela estaria dentro de um gaveteiro trancado à chave, então chamei três amigos para irem comigo à sala do professor à 1h da manhã. Carregamos o gaveteiro, colocamos dentro de um carro e o levamos embora. Consegui que um chaveiro abrisse para mim e peguei uma cópia da prova, e um amigo inteligente me deu as respostas.

Devolvemos o gaveteiro e, às 5h da manhã daquele dia, eu acordei pensando: ‘Missão impossível cumprida!’. Me sentia muito bem por ser tão esperto.

Mas simplesmente deitei na minha cama e comecei a chorar como um bebê.

Por que eu não pedi ajuda? Porque não acreditava que ninguém poderia me ensinar a ler. Era um segredo que eu guardava.

Meus pais e professores diziam que pessoas com diploma universitário conseguem empregos melhores e vidas melhores, então acreditei nisso. Minha motivação era apenas conseguir o diploma. Talvez algum dia, por osmose, por orações ou por milagre eu aprendesse a ler.

Assim eu me formei, e havia uma escassez de professores. Recebi uma oferta de emprego. É a coisa mais ilógica de se pensar: eu havia escapado da jaula do leão e voltava para atiçar o leão outra vez.

Por que virei professor? Olhando para trás, parece uma loucura. Mas eu havia cursado a escola e a universidade sem ser desmascarado, então ser professor parecia um bom esconderijo. Ninguém suspeita que um professor não sabia ler.

Ensinei coisas diversas. Fui técnico de atletismo. Ensinei estudos sociais. Ensinei digitação – conseguia digitar 65 palavras por minuto, sem saber o que estava digitando. Nunca escrevi nada na lousa, e não havia palavras escritas nas minhas salas de aula. Havia muitos filmes e discussões.

Mas eu lembro do medo que sentia. Eu sequer conseguia fazer a chamada. Tinha que pedir aos estudantes para pronunciar seus nomes, para que eu pudesse sabê-los. E identificava dois ou três estudantes para me ajudar nas aulas. Eles não suspeitavam de nada – ninguém suspeita do professor.

Um dos meus maiores pavores eram as reuniões semanais de professores. Às vezes o diretor pedia que alguém escrevesse as ideias na lousa. Eu tinha um plano: se ele me pedisse, eu ia fingir um desmaio e torcer para que eles chamassem o socorro. Eu fazia de tudo para não ser flagrado, e não fui.

Às vezes eu me sentia um bom professor, porque eu trabalhava duro e realmente me importava com o que fazia. Mas eu não era um bom professor. Eu estava errado. Meu lugar não era na sala de aula, eu estava invadindo um terreno que não era meu. Algumas vezes isso me deixava fisicamente doente, mas eu estava dentro de uma armadilha e não podia contar para ninguém.

Me casei durante meu período como professor. O casamento é um sacramento, um compromisso de ser verdadeiro com alguém. Foi a primeira vez que pensei: ‘Vou confiar nessa pessoa, vou contar para ela’.

Eu treinei na frente do espelho: ‘Cathy, eu não sei ler. Cathy, eu não sei ler’.

Uma noite, enquanto estávamos sentados no sofá, eu finalmente disse: ‘Cathy, eu não sei ler’.

Mas ela não entendeu direito. Ela achou que eu estava dizendo que não lia muito. O amor é cego e surdo.

E assim casamos, tivemos um filho e só anos depois ela foi entender.

Eu estava lendo para a nossa filha de três anos. Líamos para ela com frequência, mas não era realmente uma leitura – eu inventava histórias a partir das que conhecia, como Cachinhos Dourados ou Os Três Ursos.

Só que havia um livro novo, Rumpelstiltskin, e a minha filha me disse: ‘Você não está lendo igual à mamãe’.

A minha mulher me ouviu tentando ler um livro infantil e a ficha caiu. Ela se deu conta de que eu sempre pedia para ela escrever coisas para mim, e finalmente ela entendeu quão grave era o meu problema.

Mas nada foi dito, não houve nenhum confronto, ela simplesmente continuou me ajudando.

Não aliviou em nada, porque por dentro eu me sentia burro, me sentia uma farsa. Eu era um enganador. Ensinava meus alunos a buscar a verdade, e era o maior mentiroso da sala. O alívio só veio quando eu finalmente aprendi a ler.

Fui professor entre 1961 e 1978. Oito anos depois de deixar meu emprego, algo finalmente mudou.

Tinha quase 48 anos quando vi Barbara Bush, então primeira-dama dos EUA, falando sobre analfabetismo adulto na TV. Era a causa que ela combatia. Eu nunca havia escutado ninguém falando de analfabetismo adulto antes, achava que era a única pessoa do mundo naquela situação.

Eu estava em um momento de desespero. Queria contar para alguém e queria pedir ajudar. Um dia, estava na fila do mercado e ouvi duas mulheres conversando sobre um homem que estava aprendendo a ler na biblioteca. Elas falavam com muita alegria, e eu não conseguia acreditar.

Fui até a biblioteca, perguntei pela diretora do programa de alfabetização, me sentei com ela e contei que não sabia ler.

Foi a segunda pessoa a quem contei isso na minha vida adulta.

Ganhei uma tutora voluntária de 65 anos. Ela não era uma professora, apenas alguém que amava ler e não queria que ninguém passasse pela vida sem saber fazer o mesmo.

Ela logo tentou fazer com que eu escrevesse, porque eu tinha todos esses pensamentos na cabeça e nunca havia escrito uma frase com eles. A primeira coisa que escrevi foi um poema com meus sentimentos. O bom da poesia é que você não precisa escrever em frases completas.

Ela conseguiu me ensinar a leitura até o nível da sexta série – era como se eu tivesse morrido e ido ao paraíso. Mas levei sete anos para me sentir alfabetizado. Eu chorava, chorava, chorava depois de começar a ler – foi um processo repleto de dor e frustração -, mas isso preencheu um buraco enorme na minha alma. Adultos que não sabem ler tiveram sua infância suspensa, emocionalmente, psicologicamente, academicamente, espiritualmente. Somos pessoas que não cresceram.

Minha tutora me encorajou a contar minha história para motivar outros e promover a alfabetização, mas eu disse: ‘De jeito nenhum. Morei nesta comunidade por 17 anos, meus filhos, meus pais e minha mulher moram aqui. Não é uma história que eu queira contar’.

Até que eu decidi contar. Era um segredo vergonhoso, então foi uma decisão difícil de tomar, mas, quando a tomei, decidi contar minha história para todo o país, para quem quisesse ouvir. Depois de guardar meu segredo por décadas, eu decidi expulsá-lo de mim.

Contei minha história (nos programas de TV) da Oprah, do Larry King.

Era incômodo para as pessoas escutarem a história de um professor que não sabia ler. Teve gente que disse que eu havia inventado a história toda.

Mas eu queria que pessoas como eu soubessem que há esperança, há solução. Não somos ‘burros’, podemos aprender a ler, e nunca é tarde demais.

Infelizmente, continuamos a empurrar crianças e adolescentes pelo sistema escolar sem ensiná-las habilidades básicas de leitura e escrita. Mas podemos romper esse ciclo de fracasso se, em vez de culpar os professores, nos assegurarmos de que eles sejam devidamente treinados.

Por 48 anos, eu vivi no escuro. Mas finalmente eu enterrei o fantasma do meu passado.”

Depoimento concedido a Sarah McDermott, da BBC.

Em inversão de papéis, alunos dão aulas de tecnologia a professores na Finlândia

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‘É maravilhoso ter crianças de até dez anos de idade dando aulas de tecnologia aos nossos professores, e os resultados têm sido surpreendentes’, diz o diretor de escola

Claudia Wallin, no UOL

No pouco ortodoxo modelo de ensino que levou a Finlândia ao topo dos rankings globais de educação, uma inovadora inversão de papéis começa a tomar corpo: alunos estão dando aulas aos professores, para ensinar os mestres a otimizar o uso de tecnologias de informação e comunicação nas escolas.

“Crianças e adolescentes aprendem a lidar com novas tecnologias e aplicativos de maneira muito mais rápida do que nós, adultos. E eles não têm medo de tentar coisas novas”, disse à BBC Brasil Pasi Majasaari, diretor da escola Hämeenkylä, na cidade de Vantaa, próxima à capital Helsinki.

“É maravilhoso ter crianças de até dez anos de idade dando aulas de tecnologia aos nossos professores, e os resultados têm sido surpreendentes. Tanto para os estudantes como para os mestres”, destacou.

O projeto OppilasAgentti (“Agentes Escolares”, em tradução livre) está sendo conduzido em cerca de cem escolas finlandesas, e a ideia é levar a nova experiência a um número cada vez maior do universo de 3.450 instituições de ensino do país.

Trata-se de um modelo para desenvolver as competências tecnológicas não apenas dos professores, mas de toda a comunidade escolar – e também do seu entorno: os alunos da escola Hämeenkylä, por exemplo, também estão dando aulas aos idosos de um asilo local sobre como usar redes sociais, iPads e outros dispositivos.

“Acreditamos que é importante ensinar nossas crianças a descobrir seus potenciais e a desenvolver seus valores, e mostrar a elas o impacto positivo que cada indivíduo pode exercer na sociedade”, observa Pasi Majasaari.

“É preciso compreender a realidade à sua volta, e por isso nossos alunos também cooperam com a igreja local em programas assistenciais para a alimentação dos mais pobres e menos favorecidos em nossa sociedade”, acrescenta o diretor.

A escola tradicional, dizem os finlandeses, já não funciona mais.

“O modelo de educação da era industrial treinava crianças para ficarem sentadas, quietas e em silêncio, e executar tarefas repetitivas. As crianças de hoje não querem e não precisam mais ficar sentadas. Elas precisam exercitar sua criatividade, exercer um papel ativo e serem ensinadas a pensar por conta própria”, diz Majasaari.

Constante evolução

A ideia de envolver os alunos na capacitação tecnológica dos mestres nasceu a partir de relatos de muitos professores, que diziam ter dificuldades em se manter atualizados com a constante evolução da era digital.

“Muitas inovações tecnológicas são compradas regularmente para equipar as escolas, como por exemplo novos aplicativos ou as imensas tevês inteligentes de tela plana que temos em nossos corredores. Mas vários professores ou não sabiam como usá-los em todo o seu potencial, ou não tinham tempo suficiente para se dedicar a essa tarefa”, diz o diretor da escola Hämeenkylä.

Os alunos do projeto StudentAgents têm entre dez e 16 anos de idade. Pelo sistema, os estudantes interessados em participar se apresentam como voluntários, e relatam suas competências e habilidades em determinadas áreas. As escolas também oferecem treinamento aos alunos, em aulas ministradas por especialistas de diferentes empresas finlandesas que revendem soluções tecnológicas para o sistema de ensino do país.

A partir daí, os estudantes produzem um mapeamento das necessidades digitais da escola, sob a orientação de um professor. Eles fazem então um planejamento das atividades necessárias, e passam a atuar em três frentes.

Na sala dos professores, os alunos dão aulas ocasionais sobre como usar diferentes dispositivos e aplicativos. Professores também podem contatar os estudantes para pedir assistência individual, a fim de solucionar pequenos problemas. E os alunos-mestres também atuam como professores assistentes nas salas de aula, para prestar ajuda tanto aos professores quanto a outros colegas de classe quando determinada lição envolve o uso de tecnologia.

“Os alunos estão ajudando a implementar uma série de novas soluções digitais nas escolas, como a prestação de apoio técnico na introdução de sistemas”, diz à BBC Brasil Risto Korhonen, da Ilona IT, uma das empresas finlandesas que vêm realizando treinamentos para os alunos do projeto StudentAgents.

As aulas de codificação são particularmente relevantes, ele diz:

“Grande parte dos professores possui um conhecimento limitado nessa área, e por isso os alunos desempenham um importante papel ao ensiná-los a lidar com dispositivos de codificação.”

Os estudantes do projeto também realizam webinários (seminários transmitidos via internet) para ensinar colegas de outras escolas, além de treinar crianças menores em técnicas de edição e animação de vídeos.

“Nossos alunos estão ainda dando suporte técnico a uma série de atividades na escola. Por exemplo, eles desenvolvem os efeitos especiais e todo o sistema técnico para os concertos de música que realizamos”, diz Pasi Majasaari.

Alunos felizes e orgulhosos

Os resultados positivos da experiência foram apresentados recentemente durante o evento que a Finlândia classificou como a maior reunião de pais e professores do mundo – uma conferência realizada simultaneamente, nas escolas de todo o país, para debater a agenda de reformas necessárias a fim de preservar o nível de excelência do ensino público finlandês nos próximos anos.

“Os alunos estão felizes, e orgulhosos de si mesmos. Alguns deles, que não eram bons alunos em determinadas matérias, adquiriram uma nova autoconfiança. Uma de nossas crianças apresentava problemas de concentração, mas floresceu de forma surpreendente quando demos a ela esta oportunidade de participar de maneira ativa e positiva na escola”, conta Majasaari.

Os professores também têm aprovado os efeitos da inovação. É uma lógica natural, aponta o diretor da escola:

“Quando ajudamos as crianças a identificar seus talentos e suas forças, elas se comportam melhor, aprendem melhor e obtêm melhores resultados nas escolas.”

Inverter o papel tradicional dos alunos nas escolas é mais um pensamento fora da caixa do celebrado sistema finlandês, que conquistou resultados invejáveis nos rankings mundiais de educação com um receituário que inclui menos horas de aulas, poucas lições de casa, férias mais longas e uma baixa frequência de provas.

Um dos principais pontos do novo currículo escolar, adotado em agosto do ano passado, é fazer com que as crianças se transformem em aprendizes ativos.

“É um novo conceito de aprendizado”, diz o diretor Pasi Majasaari.

“Nossos alunos do ensino médio já não usam mais livros escolares. Nas aulas de História, por exemplo, os estudantes aprendem a trabalhar com chromebooks (computadores pessoais) que permitem a eles coletar informações, analisar dados e escrever seus próprios livros eletrônicos. Assim, eles aprendem ao mesmo tempo história e tecnologia”, ressalta.

“Nossa missão é encontrar novas formas de aprimorar a escola e dar aos alunos a possibilidade de descobrir seus talentos, desenvolver sua autoestima e aprender coisas que serão importantes para suas vidas no futuro.”

Educar é um exercício de criatividade

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 Paulo Whitaker / Reuters Manter crianças atentas e motivadas é uma habilidade multifacetada, sem fórmula única a ser seguida.

Paulo Whitaker / Reuters
Manter crianças atentas e motivadas é uma habilidade multifacetada, sem fórmula única a ser seguida.

Educadores devem ser, acima de tudo, bons comunicadores. E bons comunicadores usam todos os recursos necessários, com criatividade e novidades, para manter o público interessado e atento.

Michele Muller, no HuffpostBrasil

Após analisar dados referentes a quase 510 mil crianças ao longo de uma década, pesquisadores do Instituto Norueguês de Saúde Pública concluíram que os mais novos da sala têm quase o dobro de chance de serem medicados com estimulantes se forem meninas. E, se forem meninos, a probabilidade aumenta em cerca de 40%.

Resultados semelhantes já foram colhidos em investigações realizadas na Alemanha, Canadá, Espanha e Israel, não deixando dúvidas: uma quantidade alarmante de crianças, no mundo todo, tem sua imaturidade avaliada como transtorno neurológico e tratada com psicotrópicos.

Se as estratégias utilizadas para ensinar as crianças pudessem ser avaliadas com a mesma precisão com que se cruzam dados de calendários e diagnósticos, sem dúvida encontraríamos um fator ainda mais fortemente relacionado aos problemas de atenção.

Os maiores índices de alunos com dificuldades para se concentrar provavelmente proviriam de escolas que não incentivam ações criativas e priorizam a quantidade de conteúdo sobre a forma como são conduzidas as aulas. Muitos esforços são dirigidos para que as crianças se adaptem ao sistema educacional, quando o mais urgente é adaptar o sistema educacional a elas.

Poderíamos colocar em discussão disciplinas, grades horárias, quantidade e teor de conteúdo, arquitetura das escolas, métodos de ensino, sistemas de avaliação e outros tantos fatores que compõem a fórmula imprecisa de uma educação de qualidade.

Encontramos variações de tudo isso com mais ou menos sucesso, sempre dentro de limites traçados por processos legais e burocráticos e, portanto, lentos. Mas se restringirmos a discussão a fatores mais tangíveis e não menos impactantes, dependentes apenas de mudanças de perspectivas e posturas na hora de ensinar, já podemos alcançar grandes resultados em curto prazo.

Os ensinamentos que conseguimos transformar em brincadeira, com a participação ativa das crianças, são aprendidos com atenção e comprometimento, independentemente do nível de maturidade. Todas as obrigações das quais elas escapam diariamente, para desespero dos pais e professores, também são magicamente cumpridas quando transformadas em desafios. Mas para isso precisamos reinventar a forma como costumamos impor tarefas e ensinar.

Muitas vezes, temos que lançar disputas, inverter papéis, estabelecer limites de tempo, contar pontos, lançar adivinhas, criar charadas. Enfim, precisamos rever os hábitos desgastantes e pouco eficientes de exigir atenção a longos discursos verbais e de repetir gritando as ordens desobedecidas. Ao invés disso, podemos inventar novas regras e maneiras de ensinar, de preferência divertidas, num exercício constante de criatividade.

Crianças são naturalmente atraídas pelo inesperado. Adoram ser surpreendidas, são fascinadas pelo incomum e motivadas pela criatividade – que pode ser muito divertida, mas exige atitudes que nos tiram do conforto da rotina e de tudo o que é feito com o mínimo de esforço possível.

Ser criativo implica abandonar velhos conceitos e investir mais energia em tarefas que realizamos automaticamente – mudanças que desafiam o comodismo ao qual nos apegamos na vida adulta e colocam em questão também a necessidade de avaliarmos nossas prioridades. Ou seja, a via para chegar a soluções criativas nunca é a mais fácil. Mas quem disse que educar é fácil?

O ensino não acontece sem uma comunicação eficaz. Bons pais e bons professores são, acima de tudo, bons comunicadores. E todo o bom comunicador é necessariamente criativo: sempre vai procurar fugir do óbvio em seu discurso. Afinal, sua intenção é, acima de tudo, é manter a atenção do ouvinte e, para isso, sabe que deve surpreendê-lo constantemente.

Um bom comunicador deve se instigar a identificação emocional de seu ouvinte com o conteúdo e a interação com as informações. Se um meio de comunicação não consegue manter a atenção do leitor ou do espectador, nem consegue informá-lo de forma clara, certamente vai buscar novas maneiras de narrar os fatos. Culpar o público e insistir no formato que não foi aceito não irá evitar o fracasso do veículo. A educação não deveria funcionar de maneira diferente. Nem em casa, nem na escola.

Como tudo o que depende de criatividade, manter crianças atentas e motivadas é uma habilidade multifacetada, sem fórmula única a ser seguida. Mas muitas das estratégias usadas pelos meios de comunicação podem nos servir como inspiração: adequar o vocabulário ao nível de conhecimento do leitor ou ouvinte; usar infográficos, imagens, ilustrações; retomar o assunto desde o começo para situar o público no tempo, espaço e contexto; ouvir os dois lados; permitir questionamentos, discussões, diálogos; buscar, na vida e na literatura, personagens e histórias que ilustrem o assunto; promover polêmicas e questionamentos.

Pensamento crítico e criatividade não costumam ser produtos da leitura restrita a livros didáticos e apostilas. Muito mais provável que se desenvolvam nos momentos em que os livros são fechados e as longas explicações – destinadas a serem esquecidas – trocadas por atividades que envolvem o engajamento das crianças.

Quando nos comprometemos em estabelecer uma comunicação eficaz com as crianças, a imaturidade que impede muitos de sentarem quietos para ouvir passivamente deixa de ser considerada um problema e transforma-se em um desafio saudável à nossa criatividade.

Pais de alunos estão entre os principais autores de bullying contra professores na internet, diz estudo

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Pesquisa feita por sindicato do Reino Unido revela que quantidade de docentes alvo de agressão saltou de 21% para 60% em um ano

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Publicado em O Globo

RIO— O bullying, personagem tão conhecido no ambiente escolar, não está mais restrito aos alunos. De acordo com um estudo do sindicato dos professores do Reino Unido, NASUWT, os educadores também estão sendo alvo de abuso, que é cometido, principalmente, nas redes sociais pelos pais dos estudantes. Segundo a pesquisa, 60% dos mestres relataram ter sofrido comentários agressivos na internet, escritos por alunos e também pelos responsáveis, enquanto que em um estudo do mesmo tipo, feito em 2104, a proporção era de 21%.

O estudo submeteu 1500 professores a um questionário e identificou que os pais utilizam o Facebook para ofender os profissionais. Entre as publicações na internet, os professores são alvo de posts racistas, sexistas e até mesmo ameaças. Além de serem ridicularizados, os educadores também são alvo de acusações falsas de pedofilia, por exemplo.

O sindicato ainda chama atenção para o fato de que as escolas não têm tomado providências com medo de que os pais tenham reações ainda piores. Uma professora relata que chegou a pedir uma posição da instituição, mas obteve como resposta do diretor que a escola não gostaria de se envolver porque poderia “levar a reputação do colégio à ruína”. O quadro preocupante pode explicar a dificuldade encontrada pelas escolas para recrutar novos profissionais.

O aumento no índice de cyberbullying sofrido pelos docentes está relacionado justamente ao maior envolvimento dos pais nesses abusos. Na pesquisa de 2014, 27% dos professores haviam sido alvo de comentários abusivos por parte dos responsáveis pelos estudantes, enquanto que nos resultados deste ano, a quantidade saltou para 40%. Em relação ao número de ameaças, o dado passou de 7% na pesquisa de 2014, para 15% neste ano.

Entre os casos identificados pelo sindicatos, então professores que tiveram vídeos e fotos postados nas redes à revelia (33%), como uma professora que teve a imagem publicada no Facebook por um aluno e foi alvo de comentários como “vadia”. Outra profissional relatou ter sido perseguida durante nove meses por um aluno que a enviava mensagens com conteúdo sexual e criou no Facebook uma conta falsa em seu nome.

Há ainda o caso de uma docente que foi chamada de “lixo” e de “puta” pelos pais de uma aluna que a acusavam de tentar matar a estudante por não permitir que ela usasse seu inalador em sala. De acordo com a professora, a acusação era falsa. O sindicato relatou ainda que à outra professora foram destinados comentários como: “Espero que ela tenha câncer”.

— É preocupante observar que o abuso contra professores tenha crescido tanto neste ano. E igualmente preocupante é que parece que principalmente os pais são autores desse tipo de coisa — afirmou a secretária geral do NASUWT, Chris Keates que pediu que o poder público encare a questão e exigiu que as escolas usem de todas os métodos disponíveis para coibir os abusos.

De acordo com a secretária geral do sindicato, muitos professores afirmam suspeitar que estão sendo alvo de agressões na rede, “mas evitam olhar por medo de depois não conseguirem andar pela escola novamente e encarar seus agressores.”

A pesquisa conclui que a maioria dos abusos são cometidos por alunos da educação secundária— que compreende alunos do segundo segmento do ensino fundamental e do ensino médio— principalmente no Facebook, mas também em outras redes como o Snapchat e o Instagram.

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